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Ao observarem-se as respostas coletadas, é possível distribuir em dois Grupos distintos as crenças implicitadas e/ou explicitadas pelos professores:

I) ensinar gramática se limita à transmissão de regras e normas; II) ensinar gramática deve estar atrelado ao contexto da fala.

Em termos quantitativos, podem ser assim visualizados os dados coletados:

CONCEPÇÕES DE ENSINO DE GRAMÁTICA

NÚMERO DE PROFESSORES

%

GI: Ensinar gramática se limita à transmissão de regras e normas;

14 70

GII:Ensinar gramática deve estar atrelado ao uso da língua.

6 30

TOTAL 20 100%

Tabela 1: concepções de ensino de gramática

Essa divisão sedimenta-se na percepção de que a prática revelada pelos informantes pertencentes ao grupo I está atrelada à reprodução dos exercícios centrados em atividades metalinguísticas, que valorizam as terminologias e as análises de frases descontextualizadas, construídas exatamente para ilustrar as situações previamente teorizadas.

um contingente de 14 professores, o que corresponde a 70% do total, expressam a crença de que ensinar gramática se limita à transmissão de regras e normas para que o aluno adquira o domínio do falar e escrever “correto”. Dessa forma, reproduzem um ensino baseado na aplicação dos manuais de gramática e sua disseminação nos livros didáticos, distanciando- se de um ideal de prática reflexiva sobre a linguagem, suas formas e sua funcionalidade.

Essa postura, pautada numa opção pelo modelo de gramática tradicional e consequente ensino de feição tradicionalista, repete exercícios de memorização e condiciona a didática à fixação de fórmulas de correção. Ou seja, há um reinado quase absoluto de atividades que não favorecem a reflexão sobre usos adequados ou inadequados à diversidade real que se verifica nos variados contextos socais.

A realidade exposta nesses números remete à análise feita por Neves (2004, p. 20), na qual a autora coteja aspectos relacionados ao trabalho com a língua na escola, apontando três temas básicos que devem permear as reflexões sobre o ensino de gramática:

1. Assume-se que a linguagem não existe a não ser na interação linguística, isto é, no uso [...]

2. Assume-se por outro lado a existência da norma linguística no sentido amplo, o de “normalidade” assim como a existência de norma linguística no sentido restrito, o de “normatividade”[...]

3. Assume-se ainda que um padrão linguístico que se proponha fora da ‘observação’ dos usos não constitui um padrão real.

A autora defende o pensamento de que a escola pode ensinar gramática, partindo dos usos da língua, pois é nos contextos interacionais que a linguagem se efetiva em sua condição social e é esta que precisa ser estudada. Assim, se torna possível observar a relação de proximidade e ou de distanciamento entre as regras preestabelecidas e as regras reais, consideradas a partir da apropriação da língua pelos falantes em situações interacionais diversas.

Observe-se como o ponto de vista representado no Grupo I ecoa na fala dos professores:

(1) Ensinar gramática é passar conhecimentos prontos não flexíveis e de alguma forma conseguir que a criança aprenda. (Professor C, 5º ano, Pedagogia)

(2) Ensinar gramática por si só, é considerar um instrumento fundamental para o domínio do saber ler, escrever e falar rigorosamente correto. (Professor F, 3º ano, Pedagogia)

(3) [...] é mostrar aos alunos a grafia e o meio correto de escrever muitas palavras e empregá-las corretamente. (Professor E, 4º ano, Geografia)

Em (1) e (3), há referências explícitas à condição normativista do ensino de gramática. Já no recorte (2), a docente chega a sinalizar a percepção de que o conhecimento sobre as normas gramaticais pode ser produtivo no domínio da leitura e da escrita, entretanto, ela restringe essa competência ao patrulhamento refletido na preocupação com um uso “rigorosamente correto” da língua.

Em algumas falas, o foco exclusivo na forma em detrimento da função é explícito, o que revela uma visão focada na estrutura, como se pode observar a seguir:

(4) É ensinar o estudo sistemático dos elementos constitutivos de uma língua tais como: sons, formas, palavras, construções e recursos expressivos. (Professor A, 1º ano, Pedagogia)

(5) É ensinar um conjunto de regras linguísticas, que usualmente são faladas ou escritas, mas nem por isso todos os falantes e escribas usam-na corretamente. (Professor N, 2º ano, Pedagogia)

Essa postura reflete crenças arraigadas numa experiência de ensino de língua calcada na visão tradicional de gramática que se reproduz num ensino também tradicional, no qual se privilegia a forma, a memorização, a decoreba e a repetição de fórmulas, desprezando a reflexão.

No grupo II, inserem-se os informantes que cogitam a valorização de amostras de uso real da fala em situações de ensino, o que revela uma preocupação com a contextualização situacional na apreensão dos aspectos estruturais e funcionais da linguagem. As estratégias de ensino, nessa perspectiva, voltam-se para a compreensão das articulações que permitem uma melhor apropriação dos recursos da língua.

Isso significa que o segundo grupo, o dos professores que expressam uma concepção de ensino de gramática associado ao uso, constituído por 06 docentes - o que corresponde a 30% do total de informantes -, revela crenças sobre a gramática que parecem interrelacionadas ao que se entende por gramática funcional8, uma vez que formulam suas conclusões sobre regras, partindo da observação dos usos reais.

Não constitui objetivo desta pesquisa averiguar/avaliar a prática pedagógica dos professores e verificar se o que expressam nos questionários se realiza em suas atuações. No entanto, cabe assinalar que essa defesa de uma visão de gramática conectada à realidade dos falantes se coloca numa postura opositiva a do grupo que defende o ensino de gramática como aplicação das normas e prescrições condicionadoras do falar e escrever corretamente.

Com a palavra, os docentes informantes, falando sobre o ensino de gramática:

8 Silva (2007, p. 65) afirma que a gramática, na perspectiva funcional, “constitui-se num sistema formado pelas regularidades resultantes de pressões variadas, considerando-se os aspectos discursivos e pragmáticos que lhes são inerentes. Tem-se, então, um formato de gramática flexível, que não se pode dissociar da dinâmica inerente à produtividade lingüística. Tomando a língua como estrutura maleável, não-arbitrária - posto que icônica -, a abordagem funcionalista admite que a forma é produto de fenômenos não-lingüísticos, derivados de processos cognitivos.”

(6) É viajar no mundo das letras, sons, é interagir com o outro de forma prazerosa e comunicar-se gerando conhecimento mútuo... é sobretudo contribuir de certa forma a superar o medo de se expressar oralmente e por escrito. (Professor G, 5º ano, Pedagogia).

(7) […] é motivar o aluno a perceber o valor da comunicação através dos diversos gêneros textuais e assim perceber que cada texto tem uma intenção e que seus registros escritos dependem de quem os escreve. (Professor D, 4º e 5º ano, Letras)

(8) É fornecer ao aluno um instrumento eficaz no uso da linguagem, adequando as várias situações de comunicação ao qual ele está inserido no contexto social. Não somente regras gramaticais, mas ensinar a dominar a língua na sua variação. (Professor J, 2º ano, Teologia)

As falas evidenciam a compreensão de que a escola precisa instigar o processo de ensino e aprendizagem do aluno, motivando-o à apropriação dos recursos gramaticais que poderão subsidiá-los para atuar socialmente de acordo com as demandas comunicacionais que os diversos contextos apresentam. A propósito, é importante lembrar que, de acordo com os PCN (BRASIL, 2001, p. 25), “produzir linguagem significa produzir discursos. Significa dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico”.

Observe-se, nas respostas a seguir, indícios de que essa percepção é ativada na mente de alguns dos informantes da pesquisa:

(9) É fornecer ao aluno um instrumento eficaz no uso da linguagem, adequado às várias situações de comunicação ao qual ele está inserido no contexto social. Não somente regras gramaticais, mas ensinar a dominar a língua na sua variação. (Professor J, 2º ano, Teologia)

(10) É ensinar a composição da língua portuguesa e as regras por ela determinada para o uso mais adequado, no dia-a-dia, na fala e na escrita. (Professor M, 3º ano, Pedagogia)

Esses recortes revelam procedimentos que estão concatenados a essa recomendação dos PCN, reproduzindo informações que apontam para a construção de conhecimentos e concepções que podem, em alguma dimensão, remodelar crenças cristalizadas.

4.1.2 Que dificuldades você encontra para realizar o ensino de

Benzer Belgeler