2.2. KIRIK İYİLEŞMESİ
2.2.2. Sekonder Kırık İyileşmesi
Guy Debord é um autor ainda pouco estudado no Brasil. Por isso, precisei tratar esse referencial bibliográfico resguardando sua relação com a recepção produzida também em outros países. Como forma de organizar sua recepção crítica (tanto nacional quanto estrangeira) pensei em três recortes: a recepção do autor e sua produção; a recepção da Internacional Situacionista e a sua própria como membro do movimento; a bibliografia que o utiliza e sua teoria crítica do espetáculo.
Apesar de discutir a arte moderna e a organização política em suas produções, sua recepção se dá, em maior parte, na área da Comunicação Social. Quando isso não ocorre, a leitura de seus textos acontece a partir de uma noção parcial de “cultura do espetáculo” que, por muitas vezes, confunde a crítica ao capitalismo com a crítica ao consumo no capitalismo. Mesmo havendo maior interesse da recepção na Comunicação, há textos da área de Artes, de Ciências Sociais e até da Administração, que citam Debord ou sua teoria.
Alguns autores brasileiros realizam essa leitura da crítica à cultura, ou então como crítica da mídia, incorporada às teorias da comunicação, e não como uma teoria crítica da comunicação no capitalismo. Essa última pode ser encontrada na tese
Reificação e linguagem em André Breton e Guy Debord, de João Emiliano Fortaleza de Aquino, defendida em 2005.
A tese de Aquino gerou um livro, publicado em 2006 pela editora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Esse é o primeiro estudo brasileiro sobre Guy Debord dedicado a entender a relação entre linguagem e reificação na obra do autor.
Como Ilana Viana do Amaral afirma no prefácio do livro,
dentre os muitos méritos deste livro, encontramos o de repor com rigor a reflexão de Debord na perspectiva do diálogo prático e negativo que lhe é essencial, perspectiva que afasta muito radicalmente a resposta debordiana ao problema da linguagem de alternativas “dialógicas” apresentadas na filosofia contemporânea – penso em Habermas e em Appel – cuja natureza é centralmente determinada pela positivação da experiência do discurso.28
Com a garantia de que o livro de Aquino se colocaria em um lugar de diálogo com o autor para buscar a validade de sua teoria, tenho como pressuposto, como Amaral demonstra no trecho, que para tal diálogo o estudioso de Debord também se posicionou como um crítico da sociedade do espetáculo, à medida que desvendava a expressão na teoria do teórico francês como uma crítica do processo de reificação e da linguagem.
O primeiro capítulo do livro apresenta os pressupostos do estudo da linguagem. Como parte de uma tese que pretendia realizar o diálogo entre Guy Debord e André Breton, a discussão sobre as contribuições do segundo para com o primeiro aparecem no capítulo seguinte. O autor explora a linguagem no pensamento de Debord fundamentada na relação entre tempo e existência, o leitor passa a perceber que a linguagem no espetáculo conduz a todos a existência de um tempo pseudocíclico. O autor mostra que, aparentemente, Debord procura atualizar as experiências de um passado ao mesmo tempo em que pretende substituir a linguagem espetacular.
O segundo capítulo, a partir da discussão sobre a expressão artística, explora a crítica do teórico ao surrealismo como “realização da arte”. Para Debord, o surrealismo de Breton buscava uma linguagem que superestimava o inconsciente em prol da transformação da realidade. Para o teórico, conforme Aquino, essa saída nunca foi uma opção.
No terceiro capítulo, o pesquisador mostra que a noção de “linguagem comum” em Guy Debord incorpora não apenas a negação à linguagem espetacular, mas nega a atualização de uma linguagem que tenha existido anteriormente, como também pressupõe, nas bases da unificação entre realização da arte (surrealismo) e supressão da arte (dadaísmo), proposta pelo autor francês, uma aproximação a uma “comunicação
prática”, uma comunicação que seja gerada pela relação entre expressão estética e crítica social que Aquino vê em Debord como inseparáveis.29
O quarto e último capítulo do estudo apresenta, justamente, como essa aproximação entre crítica social e estética acontece na arte moderna. Há uma “invasão da arte pelo histórico” e, através dela, gera-se uma crise geral da arte que veio a configurar a necessidade de transformação da linguagem da sociedade. No último tópico desse capítulo, vemos que o desvio tem um papel fundamental na comunicação histórica, uma vez que ele seria a prática restante dessa arte moderna em crise, a prática que poderia representar algum progresso à medida que não se prende a uma origem.
Quando afirmo que o trabalho de Aquino foi o primeiro estudo brasileiro sobre Debord, ressalto que estou tratando de estudos originados de uma pesquisa profunda de pós-graduação dedicada ao autor a partir da perspectiva negativa30. Como se afirmou na introdução, é possível dizer que o estudo de Aquino aborda Debord no plano filosófico e teórico. Nesta tese, busca-se um diálogo com essa perspectiva, porém, privilegiando a abordagem teórica, ou seja, buscando entender a dimensão da escrita do autor elencando aspectos biográficos e de sua linguagem. Desse modo, a tese de Aquino é essencial para o desenvolvimento deste estudo, visto ser uma contribuição que fundamenta a teoria de Debord como negativa, corroborando, sem dúvida, a pretensão que ora se apresenta, de procurar identificar os elementos desse estilo negativo.
Outros estudos também foram feitos a partir do entendimento da perspectiva negativa no autor. Por exemplo, Deni Rubbo (2010), em texto sobre a reificação em Walter Benjamin e Debord, a partir de Georg Lukács e seu História e consciência de
classe, busca entender a influência desse livro no pensamento dos autores. De fato, essa relação existe, como demonstrou o estudo de Aquino (2006a). Apesar de seu artigo não
29 AQUINO. Reificação e linguagem em Guy Debord, 2006a, p. 23.
30 Nesta tese será comum o uso da palavra “negação” e suas variantes, por se tratar de um estudo do
pensamento e da vida de Guy Debord, um autor que utilizava a dialética para pensar o mundo. A negação, no caso de Debord, tem uma relação íntima com a resistência a condições apresentadas para o indivíduo no mundo da economia política. Em um seminário sobre A linguagem e a morte, em que Giorgio Agamben (2006) baseia sua discussão em Friedrich Hegel e em Martin Heidegger, procurando descobrir o lugar da negatividade, sua investigação leva o leitor a crer na existência de um caráter ontológico negativo e que o praticamos pela linguagem, já que a “Voz” expressa é a representação da morte enquanto experiência simbólica durante a vida. Essa compreensão de Agamben basta para amparar a afirmação de que os textos de Guy Debord, bem como sua vida, seguem um caminho negativo, mas um caminho de “negar a negação” (DEBORD; WOLMAN, A user’s guide to détournment, 2003, p. 208) que a sociedade do espetáculo representa. Desse modo, a escolha desse caminho pelo autor também é a escolha da lupa desta tese que, por vezes, e a partir também de autores não negativos, gerará tensão sobre o pensamento de Debord.
se concentrar sobre o autor, Rubbo considera a oposição de Debord ao espetáculo, bem como sua impossibilidade de compactuar com sua lógica.
João Freire Filho (2003), em “A sociedade do espetáculo revisitada”, realiza uma análise anti-fatalista do espetáculo a partir dos variados movimentos artísticos e políticos contemporâneos inspirados no teórico, em suas teses, e em suas práticas, bem como nas atividades dos situacionistas. O estudioso considera a negatividade existente em Debord de modo a discutir o conceito de espetáculo a partir desse ponto de vista. Ele também rebate as leituras que consideram o espetáculo limitado ao campo da comunicação.
Apesar de reconhecer a perspectiva negativa da teoria, Nildo Viana (2011), no artigo "Debord: espetáculo, fetichismo e abstratificação", critica a tendência à abstração existente em A sociedade do espetáculo, considerando que esse é um limite para o alcance atual na crítica presente no livro. Viana também considera que Debord deixa a discussão sobre o modo de produção capitalista em segundo plano quando analisa o espetáculo, centrando sua crítica no mercado.31 Apesar de Viana conferir bastante certeza a suas afirmações, não é possível endossá-las com base na crítica presente no livro de Debord, visto que a própria forma de organização dos proletarizados credita importância ao momento da produção, uma vez que a organização em conselhos de trabalhadores se forma nos locais de produção e, justamente aí, os trabalhadores se opõem às condições capitalistas dessa produção. É interessante como o autor francês fica no entre caminho de duas formas de pensar sua teoria: por um lado, não vê a presença da luta de classes tão claramente na teoria de Debord, embora acredite na necessidade dela; por outro, também não considera a luta de classes como aspecto fundamental no autor, tal como também se posicionam Jappe e Kurz, como veremos no capítulo seguinte.
A respeito da crítica da abstração no texto de Debord, Viana conclui que "a crítica do fetichismo se tornou fetichista e abandonou seu caráter crítico, tornando-se um superficialismo abstratificante."32 Essa conclusão assemelha-se à de Mario Perniola, o qual afirmou que a crítica da alienação artística praticada pelos situacionistas não passava também de uma crítica alienada. Para Perniola:
A I.S. é constrangida a dobrar-se sobre si mesma, a reafirmar a própria validade procurando colocar em funcionamento seções nacionais efêmeras que reproduzem, de modo caricatural, todos os seus defeitos ao mesmo
31 VIANA. Debord: espetáculo, fetichismo e abstratificação, 2011, p. 12. 32 VIANA. Debord: espetáculo, fetichismo e abstratificação, 2011, p. 13.
tempo em que declara a necessidade histórica da sua superação. Os situacionistas se encontram assim fechados em um círculo vicioso: a incapacidade de ajudar concretamente a formação de uma organização de conselho lhe reconduz ao ponto do qual jamais se moveram, à pura
subjetividade artística não superada, à posse sectária e exclusiva da totalidade ideal.33
Em texto breve, publicado em 2008 no Estado de S. Paulo, no momento das comemorações dos 40 anos de Maio de 1968, Vladimir Safatle (2008) comenta sobre Guy Debord e seu pensamento como legado sólido desse período. Enquanto desenvolve seu texto, Safatle mostra compreender o papel negativo da teoria do espetáculo, bem como a necessidade dessa crítica em um contexto em que o Estruturalismo era hegemônico na França e, após 1968, fora substituído pelo pós-Estruturalismo, o qual Debord também criticava como “nova filosofia”.
Ainda de uma perspectiva crítica, mas que não pensa Guy Debord a partir da negação, temos mais alguns estudos. Antônio Rubim (2002), por exemplo, considera que o livro A sociedade do espetáculo, por se aproximar de um manifesto, não apresenta claramente o conceito de "espetáculo". Isso abre brechas para que ele desenvolva sua leitura do conceito e, inclusive, abra a raiz latina do termo. Tudo que atrai a atenção do olhar se torna espetáculo, portanto, o espetáculo é o domínio do visível. O autor considera o espetáculo uma parte da sociedade, a parte da produção de mercadorias e o domínio de uma ideologia burguesa. Todavia, isso seria o contrário do que Debord afirma, pois para ele toda ideologia no espetáculo é espetacular. Então, ao invés de elaborar um texto que faz uma análise da relação entre espetáculo, política e mídia, Rubim faz um texto espetacular sobre esses três conceitos.
No campo da educação, Maria Luiza Belloni publica, em 2003, "A formação na sociedade do espetáculo: gênese e atualidade do conceito". Seu artigo procura trazer para hoje a importância do conceito de “espetáculo” sem, contudo, se preocupar em desenvolver aspectos específicos da obra de Debord. A autora se limita a uma apresentação considerando os dois textos principais do teórico publicados em português e o livro Guy Debord, de Anselm Jappe, também já traduzido para o português. Belloni relembra os principais conceitos situacionistas e as principais posições do grupo. O principal mérito de seu trabalho é o entendimento de que o autor, e os situacionistas compõem um campo a parte da luta revolucionária tradicional (anarquista, marxista
33 PERNIOLA. Os situacionistas: o movimento que profetizou a “sociedade do espetáculo”, 2009a, p.
etc.). Prevalece como base do estudo a discussão apresentada por Jappe e nos textos da IS. Entre algumas de suas conclusões mais afins com esta tese verifica-se a leitura de que:
O espetáculo é um fenômeno total, que só pode ser compreendido pela categoria da totalidade, interpretação hegeliana da dialética, em oposição a uma concepção mais "científica" (estruturalista ou positivista) do materialismo dialético, que enfoca mais a determinação econômica, entendida como uma contradição entre estruturas. 34
Essas posições remetem ao entendimento das ideias de Georg Lukács, especialmente as noções de falsa consciência e reificação. A partir disso, a autora passa a aproximar as concepções de Debord e dos situacionistas com as de Herbert Marcuse e de Habermas. A leitura de Belloni parece mais próxima daquela de Jappe do que de uma recepção que procura elaborar uma leitura própria do autor.
Em artigo publicado nos anais do Congresso Internacional Deslocamentos na
Arte, Renato Franco (2010) discute as noções de imagem e cinema em Benjamin e Debord. Sua intenção é estudar a transformação da "cultura revolucionária das massas" para uma "cultura-espetáculo". A compreensão de que o cinema é um instrumento chave para a execução do programa revolucionário de Debord é comum nos trabalhos nacionais35, devido a uma recepção existente, há mais tempo, fora do país. Giorgio Agamben (1998) tem no seu texto "O cinema de Guy Debord" a exposição de diversas posições que virão a ser recebidas pela crítica posterior e, de um modo ou de outro, replicadas.
Franco percebe que a imagem e o cinema são fundamentais para Benjamin e Debord, tal como também afirmou Agamben. Por ser um artigo, Franco apresenta apenas exemplos de imagens do penúltimo filme de Debord (In girum...) como uma forma de dialogar com o movimento similar à leitura histórica de Benjamin que se relaciona à montagem.
A recepção da área de Comunicação no Brasil conserva muita relação com a bibliografia produzida sobre Debord nos Estados Unidos, onde leem a sua teoria como uma crítica voltada para a mídia, tendo como interesse principal identificar nela elementos de uma "pós-modernidade", como ocorre em Steven Best (1995) e Douglas Kellner (1995).
34 BELLONI. A formação na sociedade do espetáculo: gênese e atualidade do conceito, 2003, p. 132. 35 Como, por exemplo, o texto "Guy Debord e o cinema, ou a redecomposição do espetáculo", de Milton
Esteves Junior (2006), no qual o autor, mesmo sendo da área de Arquitetura e Urbanismo, comenta os filmes de Guy Debord a partir da noção de decomposição.
Em outro estudo, Maria Eduarda Rocha (2005) procura estabelecer uma relação entre a palavra "espetáculo" e mídia, a partir de Roland Barthes, Jean Baudrillard, Guy Debord e Henri Lefèbvre. O texto procura aproximar esses autores, embora não desenvolva bem o conceito de espetáculo em cada um deles, caindo, inclusive, em um erro comum na recepção de Debord na área da Comunicação, que consiste em entender as teorias como próximas sem, no entanto, criar pontos de contato para aproximá-las em uma nova teoria. Mais diretamente que em outros textos, as leituras de Best (1995) e Kellner (1995) são evocadas com base no livro organizado por Douglas Kellner, intitulado Baudrillard – um leitor crítico, de 1995.
No livro Comunicação, cultura, consumo, organizado por João Freire Filho e Micael Herschmann (2005), fica claro como a maioria da recepção de Debord, ou do seu conceito de “espetáculo”, acontece de forma errônea. Há nessa coletânea quatorze capítulos. Um desses capítulos, o primeiro, de Freire Filho, que trata dos “Usos (e abusos) do conceito de espetáculo na teoria social e na crítica cultural”, é o único que busca entender, genealogicamente, a forma como o termo penetra nos referidos campos. Mesmo assim, o estudo leva o leitor a acreditar em um Debord “desiludido”, sobretudo, após os Comentários.... Para Freire Filho, as gerações pós-Maio de 1968 aprenderam com esse evento como gerar intervenções culturais eficientes. Acontece que, para Debord, o conflito apenas no campo cultural não tinha relevância situacionista, mas apenas cultural. A prática do jogo e o “estado de guerra” praticado e vivido, consequentemente, por Debord, como se verá na segunda parte desta tese, suspendiam as regras culturais e mercadológicas para permitirem o combate.
Os outros artigos do livro, inclusive outro de Freire Filho, são análises que recortam objetos e conceitos que são comentados pelos autores. Desse modo, Debord e sua teoria do espetáculo são apenas usados como uma fonte conceitual que, na maioria das vezes, alimenta esses artigos teoricamente, conforme o desejo dos autores, mobilizando a crítica do espetáculo apenas para o campo comunicacional.
Outro livro, organizado por Adauto Novaes (2005) a partir de um ciclo de conferências que o coordenador da obra organizou, apresenta uma recepção um pouco diferente daquela coletânea de Freire Filho e Herschmann. Muito além do espetáculo tem tanto textos de estudiosos internacionais de Debord, como Anselm Jappe e Mario Perniola, quanto textos de brasileiros que nem citam o autor ou sua teoria em seu desenvolvimento. Acredito que o título e a proposta do livro permitem que a sociedade
do espetáculo seja esquecida em sua existência pregressa, assim, os autores dos capítulos puderam se ver livres da influência do teórico em suas análises, partindo para o estudo de objetos específicos. Isso pode ser bem observado no texto de Nelson Brissac Peixoto (2005) sobre a falta de limites do mundo, no qual as pessoas podem se deslocar, se integrar, e estar presentes em vários locais sob novas espacialidades.
Além dos textos que utilizam o autor apenas como elemento teórico para seus comentários e análises, tal como acontece no livro de Freire Filho e Herschmann, há outros que buscam discutir o conceito de espetáculo de forma negativa. Além do trabalho de Jappe sobre “O reino da contemplação passiva”, Maria Rita Kehl busca também compreender a negatividade em Debord em “Muito além do espetáculo” (2005). A autora baliza o título da coletânea e discute a existência do espetáculo nos dias de hoje. Apesar das novas tecnologias, dos novos produtos culturais, da ainda existente indústria cultural no sentido adorniano, a sociedade do espetáculo continua existindo sob os mesmos pressupostos de Debord em seu livro de 1967. Kehl resgata a forma como o espetáculo priva a vida em seu automatismo e nas possibilidades que ele oferece ao indivíduo enquanto aprisiona sua subjetividade. Em seu trabalho, a publicidade, criando marcas e ídolos, tem um dos papéis mais fundamentais do espetáculo, em detrimento do processo de produção em fábricas ou indústrias. Em outras palavras, Kehl prefere analisar o espetáculo a partir do indivíduo submetido ao processo de assujeitamento pela perspectiva receptiva do consumo, sem considerar a produção nesse mesmo campo como parte da produção publicitária. Sua opção é por um recorte da crítica de Debord que a leva à conclusão de que: “o inconsciente trabalha para os modos mais abstratos de reprodução e concentração de capital.”36 Talvez essa visão se explique pelo campo de estudos da autora, que tem relação com os estudos psicanalíticos.
Desde o princípio da escrita teórica de Debord até os dias de hoje, a submissão à forma de produção espetacular se dá por meio do processo de reificação que ocorre na produção. Esse processo de reificação não é hipermoderno, como o quer Gilles Lipovetsky (2004) com sua ideia de uma hipermodernidade, ou como Maria Rita Kehl, a menos que por produção estejamos falando também dos próprios processos de assujeitamento existentes na sociedade, processos esses gerados nas relações entre as
pessoas e que foram chamados por Debord de “espetáculo”: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.”37
No livro Guy Debord: antes e depois do espetáculo, organizado por Cristiane Gutfreind e Juremir Machado da Silva (2007), um artigo deste último autor chama a atenção por considerar Debord “o homem do século. Passado”. Silva acredita no