2.2. KIRIK İYİLEŞMESİ
2.2.3. Kırık İyileşmesini Etkileyen Faktörler
A bibliografia internacional sobre o autor é vasta. Os mesmos problemas com relação à leitura e recepção do autor encontrados na área de Comunicação no Brasil são encontrados em outros lugares. Como apontado acima, a recepção brasileira nessa área tem relação com aquela de fora.
Como sabemos, a sociedade como objeto de análise está pronta para que o pesquisador se debruce sobre ela. O estudioso da sociedade pode partir de diversos pressupostos e considerá-la espetacular por diversos motivos. Ele também pode considerá-la cheia de possibilidades de mudança, tanto ao tratá-la negativamente, ou seja, negando-a, quanto a partir de pontos positivos. O negativo não deve ser confundido com pessimismo, assim como a positividade, em âmbito filosófico, não deve ser considerada otimismo puro e simplesmente. Ao tratar da sociedade do espetáculo, tal como já dissemos, Debord não está elaborando um conceito, mas está teorizando enquanto o critica. O entendimento de como o autor delimita esse conceito – o "espetáculo" – é importante para que se faça dele um entendimento negativo.
É comum encontrarmos na bibliografia teórica sobre a sociedade contemporânea, isto é, desde o segundo pós-guerra no século XX, a discussão sobre a "sociedade do espetáculo". Quase que inevitavelmente vários autores e críticos passam a tratá-la a partir de seus próprios projetos e posições. Um ou outro acaba chegando ou partindo da bibliografia debordiana. Esse "chegar" ou "partir" na/da teoria do autor não significa a concordância com suas posições. Mesmo que, nesta tese, tenha-se lido a teoria crítica de Guy Debord a partir da posição negativa inerente à ela, há a presença aqui, por exemplo, da discussão de textos de autores como Mario Perniola, com o qual o autor francês se relacionou.
Diferente de Debord, Perniola vê a sociedade do espetáculo como uma sociedade repleta de possibilidades, ou um mundo em que tudo passa a ser acessível. Essa conclusão, além de se basear nas teses iniciais de Debord no livro A sociedade do
(...) tem a capacidade de se explicar simultaneamente sobre inúmeros registros de sentido, todos igualmente válidos, e abre um espaço suspensivo intermediário que não é destinado a ser preenchido.41
Portanto, diferente do segredo que expressa o binarismo entre revelar e omitir, o enigma considera muito mais informação e lida com mais dados na sociedade espetacular. A intenção de avançar a teoria, além de mostrar um tipo de recepção de Debord, revela o que, desde aquele momento de diálogo entre ambos já se delineava. Perniola não apenas tem uma visão positiva, enquanto geração de diversas possibilidades no espetáculo, como também mantém sua crítica sobre a teoria de Debord. O autor italiano, desde os anos 1970, quando se correspondia com o teórico, mostra que a sua teoria não o salva de, enquanto teórico crítico, sucumbir à alienação como parte da IS, um grupo separado da sociedade.
Para Perniola, Guy Debord (e os situacionistas) se perde naquilo que critica, sujeitando-se à alienação artística. Essa crítica ao autor francês aparece no pequeno livro lançado logo após a dissolução da Internacional Situacionista, em 1972, chamado
Os situacionistas. O texto é dividido em três capítulos. O primeiro trata do aspecto da superação da arte proposto pelos situacionistas e Debord. O segundo capítulo mostra como a teoria crítica da sociedade do espetáculo toma forma com a assunção da IS. O terceiro e último discute a "realização da teoria", mostrando os caminhos da IS com relação ao que criticava, bem como as ações que tomavam contra a sociedade do espetáculo.
Como a crítica de Perniola, outras se sobressaem. Stewart Home (2004), também crítico de Debord e da Internacional Situacionista, escreveu o livro Assalto à cultura, em que se dedica a elaborar reflexões sobre as relações entre as vanguardas do século XX a partir das articulações entre elas originadas na década de 1940. Com o intuito de realizar um estudo das vanguardas que modificaram a cultura no século XX, o livro parece ser uma tentativa de ruptura com as vanguardas e neovanguardas, à medida que desfere críticas semelhantes ao desejo de superação de um paideuma. O autor ora analisa, ora apenas expõe os movimentos históricos da arte em dezessete capítulos. Começando pelo grupo CoBrA, centraliza a discussão na ascensão e queda da Internacional Situacionista. Para isso apresenta o Movimento Letrista, a Internacional Letrista, o Colégio de Patafísica, a Arte Nuclear, o Movimento Internacional por uma Bauhaus Imaginista. Também apresenta o Fluxus e o que ele chama de “Arte
Autodestrutiva”, do artista Gustav Metzger. O teórico passa pelos movimentos da segunda metade do século XX sempre os afiliando à sua própria participação e relação com movimentos específicos, como o Movimento Punk. A partir disso, o autor tece relações com tendências e agrupamentos como os praticantes da Mail Art, o Neoísmo e o Class War. Todos esses pertencentes a uma tentativa mais recente (anos 1970-1990) de manter certa radicalidade na expressão artística ou uma “anti-arte”. Logo no início do livro, ainda no prefácio, Home afirma essa sua filiação:
Aqueles que lerem este texto vão entendê-lo melhor se tiverem em mente o público para o qual ele foi escrito. Foi considerado como público primário aqueles que já estavam engajados em atividades relacionadas com a tradição nele descrita; e público secundário, aqueles que – por qualquer razão – estiverem interessados na tradição descrita, mas não tomaram parte em nenhuma de suas manifestações contemporâneas. O texto pretende ser compreensivo para o seu público secundário, mas deve ficar claro que o autor escreve de uma posição de engajamento. Assim, deve-se ter em mente que, embora algumas das ideias descritas sejam relativamente obscuras, elas tiveram influência considerável nos meios dos quais emergiram.42
Na verdade, o livro acaba repetindo erros e acertos das gerações anteriores, sobretudo, a partir das críticas de Debord à arte na sociedade espetacular, na insistência do papel da arte como transformadora da sociedade. Não são por acaso as críticas que desqualificam o autor pela teoria, levando o leitor a crer que ele é apenas um grande “beberrão”. Quando visto pelo viés das atitudes e críticas aos pares, Debord realmente conquista mais inimigos que amigos no campo artístico. A empatia com os ofendidos pelo crítico acaba direcionando o autor de Assalto à cultura a uma posição contrária a do autor francês. Esse livro, portanto, parece muito mais um texto que pretende demarcar posições.
Diferente da perspectiva artística de Home, existem outros autores que criticam as posições de Debord a respeito de uma incoerência crítica. Regis Debray (2003, p. 108), por exemplo, procura trazer a teoria do espetáculo para suas reflexões sobre a “midiologia”, quando Debord, muito claramente, é contrário a toda e qualquer conciliação com a mídia. Outro francês Georges Didi-Huberman43, a partir da crítica a Giorgio Agamben, acredita que a negatividade não é um caminho para a transformação do mundo, que desvaloriza a experiência, isto é, “o valor da experiência caiu de cotação,
42 HOME. Assalto à cultura, 2004b, p. 11.
sem dúvida. Mas a queda ainda é experiência, ou seja, contestação, em seu próprio movimento, da queda sofrida.”44
Com intenções semelhantes àquelas do livro de Stewart Home, o desmascaramento das vanguardas do século XX, há o livro Traços de Baton: uma
história secreta do século XX. Nele, Greil Marcus (2001) mostra como as neovanguardas, em especial a letrista e a situacionista, participaram da vida social, cultural e política do século XX. Apesar de o livro de Home e o de Marcus não serem exclusivamente sobre Debord, ambos mostram como o teórico foi um dos principais protagonistas dentro da política da “anti-arte” no século XX. Marcus, mais do que Home, mostra como a influência de Debord ainda permanece no campo cultural dos anos 1960 até os 1990, especialmente em grupos ligados ao Movimento Punk.
Diferente de Marcus e Home, Tom McDonough (2007a) realiza um estudo sobre o contexto em que viveu o autor, também o considerando um grande protagonista, porém não estendendo sua análise até o final do século XX, mas às produções das neovanguardas. O título do livro A bela linguagem do meu século é a última frase – ou, como é preferível dizer, o último verso – no livro Memórias. A obra pretende estudar como a contestação é expressa formalmente entre os anos 1945 e 1968. Esse trabalho de McDonough compreende a negação dos movimentos de vanguarda e consegue situar a prática situacionista nesse contexto como bastante avançada em termos de contestação.
Além das visões inglesa45 e norte-americana46, na Espanha há a recepção de Eduardo Subirats (1989), que apesar de direcionar a sua análise para o aspecto cultural da teoria do espetáculo, entende a diminuição da experiência na sociedade relacionada com a dissolução da arte em todas as instâncias da vida. Na Itália, além da recepção já mencionada de Agamben e Perniola, a recepção de Debord continua acontecendo. Em 2008, um número da Revista Bérénice, organizado por Antonio Gasbarrini, apresentou diversos artigos sobre o teórico, seus filmes e seus textos. Apesar de apresentar textos afins com discussões pontuais de Debord, como o do próprio Gasbarrini, que trata “Da superação da arte até a realização da filosofia”, a maioria dos trabalhos se preocupa com a inclusão do autor em uma “tradição vanguardista”, que, aliás, é o foco da Revista
Bérénice. Nesse mesmo número é publicado a “Homenagem a Guy Debord
44 DIDI-HUBERMAN. Sobrevivência dos vaga-lumes, 2011, p. 143. 45 HOME. Assalto à cultura, 2004b.
46 MARCUS. Lipstick traces: a secret history of the twentieth century, 2011; McDONOUGH. “The
beautiful language of my century”: reinventing the language of contestation in postwar France, 1945- 1958, 2007a.
situacionista”, exposição de arte contemporânea chamada “A imaginação ao poder, o poder da imaginação”, que aconteceu entre 21 de junho e 14 de julho de 2008 no Centro de Documentação Artepoesia Contemporânea “Angelus Novus”.
Essa iniciativa, de um número dedicado ao autor francês, é similar à da Revista
Substance, publicação do Departamento de Francês e Italiano da Universidade da Califórnia, que reuniu, em 1999, artigos de diversos autores sobre Debord, tais como: Roberto Ohrt; Stephen Hastings-King; Allyson Field; Odile Passot; Mario Perniola; Anselm Jappe; Steven Best; Douglas Kellner.
A proposta dos editores, como eles mesmos afirmam na introdução, era:
não conceber Debord como um "um estilista do pessimismo", como um "mestre-xadrezista", como um "moralista", mas como uma figura "engajada na política cultural do [seu] tempo". (...) Nossa intenção é manter o leque de intervenções, análises e interpretações aberto com o intuito de contabilizar os múltiplos aspectos da personalidade de Debord.47
A partir do que vemos nos autores presentes nas páginas da revista, há realmente uma representação dos vários leitores do autor existentes até aquele momento, especialmente daqueles preocupados com um valor histórico e cultural que Debord poderia significar. Com a publicação da revista, há um reconhecimento desse valor cultural do autor. Mesmo com a leitura da negatividade, representada pela interpretação de autores como Ohrt e Jappe, a visão de ambos não concebia o principal entendimento vigente até hoje. Ela positiva aspectos da teoria crítica do espetáculo e, como era de se esperar, nenhum dos autores se preocupam com aspectos textuais da obra além da comum discussão a respeito do desvio e da estratégia, sendo que nenhum desses eram considerados em sua dimensão textual.48
Em língua inglesa encontramos diversos trabalhos sobre o autor em diferentes áreas, como as representadas na Revista Substance, que traz Filosofia, Sociologia, Ciências Políticas, História, Comunicação etc. Uma das recepções mais curiosas é a da área de estudos do alimento, com textos como A sociedade do apetite, de Signe Hansen (2008). No artigo, o autor discute a prevalência da comida na mídia, com canais e
47 ANTONELLO; VASILE. Introduction, 1999, p. 4, tradução nossa.
48 Como se vê, iniciativas de coletâneas de artigos ou números de revistas dedicados a Guy Debord é algo
bastante comum em sua recepção, tanto no Brasil quanto no mundo. Na França, a última coletânea de artigos reunidos sobre o autor foi o livro Derivas por Guy Debord, em que os organizadores, Jacob Rogozinski e Michel Vanni (2010), conseguiram reunir alguns dos leitores mais conhecidos de Debord (como Anselm Jappe) e estudiosos da biografia como Vincent Kaufmann, bem como críticos que abordavam diversos aspectos de sua obra, tais como: 1) As cenas do eu: o sujeito e sua mise en scène; 2) Desvios políticos; 3) Uma arte sem obra; 4) A revolução hoje. Como se viu até aqui, esses temas são recorrentes nos escritos do autor e sempre recebem a atenção de quem se debruça sobre seus textos.
programas dedicados a esse tema, até aqueles que realizam análises da relação entre Debord e os situacionistas. Porém, essas recepções da teoria do espetáculo em áreas do conhecimento variadas acabam sendo uma forma de preencher lacunas teóricas ou trazer algo que, para os autores, parece uma nova forma de tratar seus objetos de análise.
Apesar da bibliografia sobre Debord ser mais comum em inglês e francês, também encontramos muitas menções a ele em holandês, como o texto "Crítica do espetáculo", de Kati Röttger (2008), no qual a autora baseia seu discurso de posse na Universidade de Amsterdã como Professora de Estudos Teatrais em 2008. Nesse texto, Röttger discute o teatro e a cultura contemporânea a partir da teoria crítica sobre a sociedade do espetáculo de Debord. Em outro texto, também da área de teatro, porém em croata, verificamos outra recepção de Debord. Em "Teatro da vergonha: a identidade como testemunho", de Sibila Petlevski (2009), a autora desenvolve uma discussão sobre a presença de gestos teatrais na sociedade e em seus arquivos. Para isso, não apenas Debord é trazido ao texto, mas também a noção de gestos elaborada por Giorgio Agamben.
A recepção do autor francês pelo caráter negativo acontece em todo o mundo. Ela rivaliza com a recepção interessada em uma leitura do autor mais positiva (como a de Best; Kellner, 1999) e menos agressiva à sociedade espetacular. Também encontramos inúmeros trabalhos que se valem de Debord para análises em recorte da sociedade ou de produtos culturais e artísticos diversos (Gómez, 2007; Stevenson, 2007; Martin, 2009) e, ainda, aqueles que colocam os filmes do autor em lugar de análise (Mcdonough, 2007b; Marie, 2009; Danesi, 2011).
Um dos autores que vem realizando uma leitura pelo viés negativo é Richard Gilman-Opalsky (2011), estudioso norte americano autor de Capitalismo espetacular:
Guy Debord e a prática da filosofia radical. Apesar de pensar em Debord como um “filósofo radical”, enquadrando-o em uma especialização da sociedade capitalista, o autor insiste em considerar o pensamento negativo do teórico. O livro pretende mostrar que, mesmo após a crise norte americana de 2008, que se alastrou pelo mundo, o capitalismo continua espetacular. O autor propõe uma leitura que, aos poucos, deixa de lado o pensamento de Jean Baudrillard, sobre a sociedade, passando a reconsiderar a práxis situacionista. A partir de um entendimento da prática situacionista como uma alternativa revolucionária à revolução, como se entendia até meados do século XX,
Gilman-Opalsky considera o confronto entre uma “filosofia radical” e o socialismo. Os socialistas, ao serem colocados em oposição à “filosofia radical”, passam a ser considerados socialistas espetaculares, igualando-se à condição dos capitalistas espetaculares. Mesmo que o autor tenha insistido nessa questão, de modo diferente do que está no capítulo quatro (“O proletariado como sujeito e como representação”) de A
sociedade do espetáculo, Gilman-Opalsky tem como mérito entender que a teoria de Debord é regida pelo aspecto prático, ou seja, que ela contribui para a solução de “impasses atuais para a ação política.”49 Essa constatação da importância do teórico para a prática política e social, como vimos acima, já estava presente na reflexão de diversos autores ligados às vanguardas artísticas e políticas, e na discussão da recepção de Debord na academia, como pode ser encontrado na tese de João Emiliano Fortaleza de Aquino (2006a), no Brasil.