O Socialismo ou Barbárie foi um grupo de esquerda, ativo no século XX até o ano de 1965. O fim das suas atividades não significou uma aposentadoria para seus membros, que se tornaram intelectuais conhecidos nos quadros de diversas Universidades.
A curta participação de Debord no Socialismo ou Barbárie, de 1960 a 1961, é, contudo, importante para a formação do autor francês. Esse grupo era constituído por intelectuais como Cornelius Castoriadis, Gérard Genette, Pierre Guillaume, Jean Laplanche, Claude Lefort, Jean-François Lyotard, Edgar Morin, Albert Maso, Pierre Souyri, dentre outros. O Socialismo ou Barbárie foi o principal grupo de esquerda, apartidário, da França naquele tempo, que se opunha ao Stalinismo sem se comprometer coletivamente com os outros Marxismos, seja o Maoísmo, o Leninismo ou o
82 Hoje existem outras ideias acerca da dádiva, do potlatch, e as novas relações sociais baseadas na troca.
Uma dessas perspectivas é o artigo "Trabalho imaterial, produção cultural colaborativa e economia da dádiva", de Clóvis de Lima et al, no qual é analisado o modo de produção contemporâneo com base na ideia de que há um processo de colaboração que se generaliza na sociedade. (LIMA et al, 2009).
Trotskismo. Nem ao menos com o Anarquismo esse grupo se vinculava, apesar de conhecerem criticamente as diversas ideologias. Sua ação principal foi a edição da revista Socialismo ou Barbárie, através da qual expuseram as críticas ao capitalismo e aos marxismos diversos, à ideia de um partido84 revolucionário, e o estímulo ao conselho dos trabalhadores como forma de luta e organização revolucionária.
O vínculo do autor francês com o grupo termina e ele passa a se dedicar mais à junção da revolução social e a superação da arte. É importante ressaltar que a ligação do autor com o Socialismo ou Barbárie se dá na primeira fase da Internacional Situacionista, formada em sua maioria por sujeitos do campo artístico e não no campo das lutas pela revolução social. Ao sair do Socialismo ou Barbárie, Debord se concentrou nas discussões sobre a questão da luta cotidiana e da crítica ao espetáculo na Internacional Situacionista85.
Para Guy Debord, a revolução social, tal como para os membros do Socialismo ou Barbárie, deveria ser feita por meio dos Conselhos.86 O pensamento sobre os conselhos enquanto forma de organização da luta revolucionária data do início do século XX e vem se expressar claramente em Anton Pannekoek.87 O Conselho é uma forma de organização constituída historicamente nos locais de trabalho, no momento da tomada dos meios de produção por parte dos trabalhadores. Esse momento de levante caracteriza a forma espontânea do Conselho e formaliza a necessidade de autonomia nas decisões. Com o passar dos anos, essa forma de organização da vida, muito comum no início do século XX, tem sua expansão em Maio de 1968, quando comitês de estudantes também passaram a se organizar sob a mesma proposta. Se há necessidade de criar um
84 Essas discussões influenciaram até mesmo autores fora da tradição marxiana. O filósofo Jacques
Derrida, por exemplo, em Espectros de Marx, procura mostrar a presença do autor alemão na contemporaneidade, fazendo jus à sua herança. Quando o traz para a reflexão sobre o final do século XX, se permite afirmar a ineficácia do partido como uma forma de organização social, pois “parece que por toda parte do mundo de hoje, a estrutura do partido vem se tornando não somente cada vez mais suspeita, (...) mas radicalmente inadapta (sic) às novas condições – tele-tecno-midiáticas – do espaço público, da vida política, da democracia e dos novos modelos de representação (parlamentar e não-parlamentar) que ela reclama.” (DERRIDA, 1994, p.140) A descrença, ao que me parece, não é de fato à forma partido, mas à participação do jogo burocrático e sua efetividade. Obviamente, o próprio Estado e o mercado inauguram e estimulam, através dos novos meios tecnológicos, outras formas de participação nas decisões da vida social como, por exemplo, o orçamento participativo digital em prefeituras do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. Porém, é com Maio de 1968 que se popularizam outras formas de associação da esquerda. Essas formas de agrupamento já existiam antes dele, tal como os coletivos autônomos e os Conselhos de trabalhadores.
85 Como se pode imaginar, não é por acaso que foi nos anos de 1959 a 1962 o período em que mais
membros do grupo saíram ou foram excluídos.
86 PERNIOLA. Os situacionistas: o movimento que profetizou a “sociedade do espetáculo”, 2009a, p. 98. 87 PANNEKOEK. Worker’s councils, 1936; Worker’s councils: Tasks, 1947, tradução nossa.
delegado nessa organização, este pode ser destituído da função a qualquer momento em assembleia do Conselho.
A relação entre as ideias conselhistas de Pannekoek e os membros do Socialismo ou Barbárie é comprovada por duas de suas cartas publicadas na revista do grupo. A primeira, em novembro de 1953, aproxima os conceitos de conselho de trabalhadores presentes na revista do grupo até o décimo primeiro número e aquele conceito pensado por Pannekoek desde a década de 1930.88 A segunda carta, de dezembro de 1953, acaba por discutir as divergências entre o Socialismo ou Barbárie e Pannekoek. Essa carta também ressalta a necessidade de combater os partidos contrários aos conselhos organizados pelos trabalhadores.89
Guy Debord assume os conselhos por criticar a forma de organização hierarquizada da esquerda denominada marxista. Nas práticas dessa esquerda, “a questão da organização é [...] o lugar da inconsequência dessa teoria, ao admitir o uso de métodos estatais e hierárquicos tirados da revolução burguesa.”90 Essa posição de Debord assemelha-se, inclusive, aos comentários de Pannekoek na segunda carta ao Socialismo ou Barbárie.
A participação no Socialismo ou Barbárie rendeu frutos na medida em que Guy Debord escreve o capítulo “O proletariado como sujeito e como representação”, no livro de 1967. Nesse capítulo, na tese 117, temos a definição, a partir da visão de Guy Debord, da única possibilidade de luta dos trabalhadores contra a sociedade espetacular:
No poder dos Conselhos, que deve suplantar internacionalmente qualquer outro poder, o movimento proletário é seu próprio produto, e esse produto é o próprio produtor. Ele é o seu próprio fim. Só aí a negação espetacular da vida é, por sua vez, negada.91
Essa negação, para Guy Debord, é a mesma que se deve fazer no campo artístico a respeito das divisões de atividades artísticas ou da separação dos artistas para com o resto das pessoas, tal como perceberam as vanguardas do início do século XX. O acontecimento da luta social e a questão artística é um fato importante na vida de Debord, como pudemos ver na tese 191 do livro A sociedade do espetáculo.
88 PANNEKOEK. Carta à Socialisme ou Barbarie, 1953a, tradução nossa. 89 PANNEKOEK. Carta à Socialisme ou Barbarie, 1953b, tradução nossa.
90 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. 1997a, p. 60. 91 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo. 1997a, p.83.
Para o crítico Stephen Hastings-King92, que estudou a relação entre a Internacional Situacionista e o Socialismo ou Barbárie, mesmo após sua saída do grupo, Debord permaneceu simpático ao grupo político, considerando importante seu papel na luta e na articulação da revolução social. O SB se dissolve em 1965 entre desavenças entre Cornelius Castoriadis e outros membros, diferenças que já vinham sendo expressas com a saída de pessoas que não concordavam com a postura de Castoriadis em rejeitar os marxismos. Durante os eventos de Maio de 1968, Castoriadis tentou reviver o SB, mas falhou.