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Na Internacional Letrista, formada por Guy Debord, Gil Wolman, Jean-Louis Brau e Serge Berna, havia a preocupação com um programa mais amplo, não se preocupando tanto como Movimento Letrista com a prática artística (a realização da arte). No texto “Porque Letrismo”, de Debord e Gil Wolman, publicado em 1955, os autores afirmam:

[…] nosso negócio não é uma escola literária, uma nova forma de expressão, ou um modernismo. Nós estamos preocupados com uma forma de viver que tomará o lugar das explorações e formulações provisórias, as quais são apenas exercidas de um modo provisório. A natureza desse empreendimento nos força a trabalhar em um grupo e nos mostrar um pouco. Nós esperamos por muitas pessoas e eventos que virão.73

Os autores tinham consciência da necessidade de se agrupar (“a natureza desse empreendimento nos força a trabalhar em um grupo”) para executar um programa. A proposta da Internacional Letrista ultrapassa os limites do literário ou de movimento artístico específico e tinham consciência disso (“nosso negócio não é uma escola literária, uma nova forma de expressão, ou um modernismo”). Apesar de a Internacional Letrista incorporar, e depois modificar, técnicas como a hipergrafia, vemos desde aqui o interesse de seus fundadores em trazer uma dimensão crítica contundente enquanto grupo.

A IL, posteriormente, incorporou essa responsabilidade crítica maior que a questão puramente artística de fazer experimentos interartísticos. Na IL as ações de panfletagem e ataques diretos foram mais empreendidos, porém, a prática da luta política foi realizada coletivamente apenas com a formação da Internacional Situacionista, ficando a Internacional Letrista restrita, como se vê nesse texto “explicativo” de Debord e Wolman, a afirmação do campo em que atuarão.

Apesar da importância do texto citado acima na definição do que foi a Internacional Letrista, será a monografia “Métodos de Détournement”, de 1956, que delimitará uma das práticas não apenas da Internacional Letrista, mas de toda a produção de Guy Debord a partir de então, seja escrita ou cinematográfica.

Segundo Guy Debord e Gil Wolman74, o desvio é a prática de retirada de um elemento de seu contexto e incorporação em outro contexto mudando seu sentido no todo ou em parte com a intenção de atingir os objetivos do praticante desse método. O surrealista Louis Aragon (1995), em seu Tratado do estilo, afirma que “as palavras congregadas acabam por adquirir significado, ao passo que no outro caso primitivamente pretendiam dizer aquilo que só fragmentariamente mais tarde puderam exprimir”75 e é por isso que “os textos surrealistas se podem destrinçar.”76 O desvio é herdeiro da prática artística surrealista, bem como dessas concepções de Aragon sobre os usos de um texto que pode ser fragmentado, mas de igual modo, também é influenciado pela hipergrafia letrista. Na forma de desvio já vemos o trânsito da IL e de Debord para o campo da luta política na medida em que essa técnica modifica contextos e é usada como instrumento de provocação, tal como se verá na segunda parte desta tese.

Para Antoine Compagnon77, hoje não se trata mais da citação por si mesma, mas de um trabalho de citar. A citação ganha como elemento essencial o movimento. A evolução da escrita tornou comum a citação a ponto de se estabelecer um trabalho de citar nesse campo da sociedade. Enquanto ação já estável na cultura, a citação foi posta de lado pelos letristas que acabaram por preferir o plágio como uma radicalização do movimento contido na citação.

A Internacional Letrista foi marcante para Guy Debord enquanto espaço de reflexão e prática. Além do desenvolvimento do conceito de desvio, é na Internacional Letrista que aparece a noção de situação (1954) e de superação da arte, ampliando a discussão sobre a sua realização e supressão, existente nas vanguardas surrealista e dadaísta.

A principal publicação do grupo foi o boletim de informação Potlatch. O nome se origina de um ritual tribal (de indígenas da América do Norte), uma espécie de festa em que o homenageado renuncia os seus bens materiais que serão dados aos seus amigos e parentes. O antropólogo Marcel Mauss afirma que, especialmente nas tribos Tlingit e Haïda

do noroeste americano e em toda essa região, aparece uma forma típica, por certo, mas evoluída e relativamente rara dessas prestações sociais.

74 DEBORD; WOLMAN. A user’s guide to détournement, 2003. s. p., tradução nossa. 75 ARAGON. Tratado do estilo, 1995, p. 118-119.

76 ARAGON. Tratado do estilo, 1995, p. 118.

Propusemos chamá-la potlatch, como o fazem, aliás, os autores americanos que se servem do nome chinook incorporado à linguagem corrente dos brancos e dos índios de Vancouver ao Alaska. Potlatch quer dizer essencialmente “nutrir”, “consumir”. Essas tribos, muito ricas, que vivem nas ilhas ou na costa, ou entre as Rochosas e a costa, passam o inverno numa perpétua festa: banquetes, feiras e mercados, que são ao mesmo tempo a assembleia solene da tribo.78

Essa prestação social se pauta pela doação de bens. Essa "doação" acabou por determinar o significado contemporâneo da palavra potlatch, muitas vezes traduzida como "dar" ou "distribuir". O antropólogo pensou a ação dos indígenas a partir da ideia de "dom". Entregar, trocar ou doar um bem seria uma prática comum a diversas sociedades consideradas primitivas.

Outra fonte para o pensamento sobre o potlatch é Georges Bataille. Em texto de 1949, "A parte maldita", o autor francês desenvolve a ideia de potlatch atualizando-a. As impressões de Bataille sobre a "dádiva" não são tão positivas (ou imparciais) quanto as de Mauss. Enquanto para este último representava uma origem dos contratos sociais, para Bataille, na segunda parte do seu texto, o potlatch vincula-se às elites e à rivalidade na busca da ascensão social, do status e do poder.79 Segundo Marcos Lanna, "o potlatch sugere a Mauss outros insights, como o de que o jogo e a aposta, mesmo entre nós, são formas de potlatch: neles 'empenha-se a honra e o crédito [e], não obstante faz-se circular a riqueza'."80 (LANNA, 2000, p.184)

A noção de jogo também está presente nas neovanguardas do século XX, sobretudo no grupo CoBrA (em Constant Nieuwenhuys especialmente), e, posteriormente, no pensamento de Debord, como se verá no terceiro capítulo desta tese. A forma de pensar o jogo é uma forma de romper com a lógica mecânica da troca de mercadorias. Portanto, não é de se estranhar a presença da percepção sobre o potlatch entre os vanguardistas no segundo pós-guerra do século XX.

Podemos pensar que as considerações sobre o potlatch são absorvidas pelos letristas, que a tornam contemporânea publicando um boletim com esse nome. O

Potlatch existiu de 1954 a 1957 e teve 27 edições, sendo a última delas composta por 3 números, totalizando 29 números.81 De certo modo, a utilização da palavra não é casual. A intenção da crítica da propriedade privada encontra-se residualmente no vocábulo.

78 MAUSS. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas, 2003, p.191-192. 79 BATAILLE. A parte maldita – precedida de "A noção de despesa", 1975, p. 100-111.

80 LANNA. Nota sobre Marcel Mauss e o “Ensaio sobre a dádiva”, 2000, p. 184. 81 DEBORD. Guy Debord présent Potlatch (1954-1957), 2000.

As posições políticas geradas na Internacional Letrista acabam por serem determinantes na formação do autor e sua crítica ao espetáculo como um novo estágio da sociedade produtora de mercadorias. O potlatch (em sua versão atualizada) seria uma possibilidade de resistir ao processo de acumulação de espetáculos, talvez uma forma social que se contrapõe ao fetichismo da mercadoria82. Os membros da IL fizeram desse nome uma forma de interagir com os seus leitores. Em suas páginas, convidaram-nos a escolher o que potlatch significava. No número 15, de 22 de dezembro de 1954, trouxeram o resultado da enquete:

Alguns de nossos correspondentes corajosamente escolheram a segunda possibilidade [de significado]: presente extravagante. Não há necessidade de debruçar sobre essa questão, tão confusa como todos os problemas dos quais a sociedade finge ser feita. E uma solução tão cega como todas as outras.83

A herança da Internacional Letrista foi passada adiante quando houve a fusão, em 1957, de três vanguardas: Movimento Internacional para uma Bauhaus Imaginista; Associação Psicogeográfica de Londres e a Internacional Letrista.

Benzer Belgeler