“Teremos nós alguma coisa a aprender, de um ponto de vista sociológico, com as
relações múltiplas que acompanham a história de vida de cada homem?” (Breviglieri
2013, 1, tradução minha56)
Analisei a forma como as pessoas sem-abrigo que estudei interagem entre si e com a equipa de voluntários tendo em conta o espaço do Refeitório, demonstrando que, de facto, se vão desenvolvendo relações e formas de apego através da confiança que se estabelece entre uns e outros.
É agora interessante procurar deslocar o olhar além do espaço do Refeitório e ponderar acerca das relações que estes indivíduos mantêm além daquele lugar e da hora de almoço.
Importa aqui recorrer não só ao passado e a uma realidade anterior à situação de sem-abrigo com também ao presente e às formas de (con)viver com o outro precisamente ao estar sem-abrigo. Ou seja, procuram-se as ligações, as interações, as formas de relacionamento entre a especificidade da situação em que se encontram as pessoas sem-abrigo e o outro que pode ser ou não sem-abrigo.
Desta forma, o senhor Marcelo menciona sobretudo três tipos de relações com que se tem deparado desde que se encontra em situação de sem-abrigo: as relações de tensão com outros utentes dos albergues onde pernoita e pernoitou; a relação à distância com as filhas; todas as outras relações mantidas, nomeadamente com um colega advogado.
56 «Avons-nous quelque chose à apprendre d’un point de vue sociologique des attachements multiples qui
90 Em relação aos albergues a descrição dos relacionamentos que vivenciou aí toca em termos como “comportamento anárquico”, “castigo” ou ainda “desordem”, tal como é referido no seguinte excerto da entrevista ao senhor Marcelo:
“Sr. M: Embora eu tenha a certeza absoluta que eles não têm a menor intenção, a
menor perceção, a menor consciência do que se trata, eles têm um comportamento anárquico, no sentido da desordem, da ideia política mesmo de anarquia, da ideia de sociabilidade desordenada, desorganizada, tá bem?”
“Sr. M: Então eles utilizam um método de criar situações, de montar cenas, para
castigar aquele que não é integrado, que não se consegue integrar bem no grupo. Ou tem que estar adaptado ao grupo, ou tem que ser mais um, ou sofre o castigo.”
Depreende-se que as experiências relacionais que o senhor Marcelo teve principalmente com os utentes do primeiro albergue onde ficou não foram de todo positivas levando, inclusive, a que fosse apresentando queixas sucessivas para que o colocassem noutro albergue.
No entanto, não deixa de ser interessante olhar a forma como os indivíduos que pernoitam no primeiro albergue em que o senhor Marcelo esteve funcionam em grupo, incluindo ou excluindo outros indivíduos desse grupo principal através de formas curiosas de coerção e domínio de uns em relação aos outros numa realidade onde a vulnerabilidade impera.
Passando para um tipo de relação mais privado e profundo o senhor Marcelo fala das suas filhas: “E tem lá (…) as minhas filhas que nunca esqueço delas, não é? Uma
mais velha e duas gémeas iguais, uma de 11 anos e duas gémeas iguais de 8 anos.”
(excerto de entrevista ao senhor Marcelo).
Diz que não mantém contacto com as filhas por impedimento da mãe das mesmas e que no futuro gostaria de viver com elas cá, na Europa, demonstrando algum nervosismo nos gestos e no olhar ao falar dessa relação:
“(…) viu-se pela forma como as mãos tremiam, pelas pausas e pela expressão séria,
emocionada e quase de uma revolta impotente, que o tema “relações” no geral e “as filhas” em particular o afetam bastante (…)” (Diário de Campo, dia 3.1.2017)
91 Por fim, ao falar da sua amizade com um colega advogado, o senhor Marcelo revela aquilo que sente e pensa acerca da estreita conexão entre a situação de sem- abrigo e a necessidade de se afastar das outras pessoas para que não as prejudique: “Sr. M: Tenho esse colega advogado (…). Ele gosta muito de mim e eu gosto muito dele
mas a gente não pode, não posso deixar um transtorno que está-me acometendo roubar a energia dele, percebeu? Senão eu vou atrapalhar a vida dele. Porque me arrancou da minha normalidade quotidiana, vai arrancar ele também.”
“De modo que, depois de ter acontecido isso cá em Portugal, eu cortei absolutamente
as minhas relações de tudo, de amizade, de colegas, de família, de tudo, porque eu acho que é um peso demasiado para as pessoas carregarem, então eu nem me permito ter um envolvimento emocional, nem profissional, enquanto eu não ultrapassar definitivamente esse assunto, percebeu? Porque eu acho que é um preço muito alto para o colega, para uma pessoa que a gente gosta pagar. Principalmente porque percebi que quando me acham vulnerável eles vão então numa circunstância, numa coisa à minha volta que possa me atingir, é o caso das minhas filhas, não é?” (excertos da entrevista ao senhor
Marcelo)
Estes excertos são úteis e importantes para pensar não só a posição que a situação de sem-abrigo assume para este indivíduo e para as suas relações sociais como também as defesas que são ativadas face à vulnerabilidade comportada por essa mesma situação.
Isto é, o senhor Marcelo não só fala de um desligamento total como forma de proteção daqueles que lhe são queridos procurando que a sua situação não os afete, como utiliza esse desligamento como autodefesa pois cortando as relações sociais que o envolviam antes de ser sem-abrigo acaba por ter menos um ponto frágil onde o poderiam “atingir”.
Francisco refere formas de relacionamento com características diferentes, mas com algumas semelhanças àquelas mencionadas pelo senhor Marcelo.
Por um lado, e à semelhança dos outros utentes dos albergues de que o senhor Marcelo menciona, fala das pessoas que dormem nos mesmos espaços que ele.
Por outro lado, apresenta dois tipos de família: aquela família composta pelos seus parentes e uma outra composta por pessoas que o foram ajudando conforme se ia deparando com problemas.
92 Em relação às pessoas que dormem no mesmo que espaço que ele, Francisco fala de alguma instabilidade na presença desses indivíduos levando a momentos em que se sente sozinho:
“F: De momento, pronto, existem lá assim alguns que dormem, outros dias não vão,
pronto, uma vez sinto-me sozinho (…)” (excerto da entrevista ao Francisco)
É interessante pensar aqui a noção já referida de “carência de afetos” – o momento em que Francisco expressa uma falta de contacto com outras pessoas por se encontrar numa situação instável de sem-abrigo, sente-se sozinho, sem companhia, sem alguém com quem partilhar aquele espaço onde dorme e a quem esteja ligado, apegado, relacionado.
Sobre o tópico da família Francisco divide no seu discurso dois tipos de pessoas que considera família:
“F: Digamos, não aconteceu, mas foi um afastamento daquilo que eu
era…propriamente… eu educado até uma certa idade, digamos, dos 14 anos até aos 17 ainda consegui frequentar a ausência dos meus pais e acabando depois, envolvendo-se etnias e grupos, fiquei sem a minha família e…afastando-me, lá está, afastando-me do pouco ou muito que eu já levava e isso…digamos, obrigando-me a mim mesmo a arrastar-me para a dita cidade de Lisboa e aí onde eu me aprofundei.” (excerto da
entrevista ao Francisco)
“Olhando neles, porque me adotaram em certas circunstâncias falando comigo,
sabendo o que é que eu sou, o que é que faço, o que é que não faço, eu adotei-as!”
(excerto da entrevista ao Francisco)
Vemos nestes excertos a forma como se dá o ligar e o afastar do outro no caso de Francisco. Se por um lado este indivíduo diz que perdeu a sua família devido a um conjunto de problemas. Por outro lado, foi também em situações em que estava em circunstâncias complicadas que encontrou uma nova “família” que o ajudou, que o ouviu, que passou a conhecê-lo.
Nicolay, por sua vez, divide também as suas relações principalmente ao nível dos dois tipos de família que diz ter: de um lado aquela família com quem não mantém contacto porque não quer (composta pelos seus pais, irmãos e filha) e, de outro lado, os seus amigos e os indivíduos com quem partilha a casa.
93 “N: (…) Pai, mãe [estão na Ucrânia], irmão está em Espanha, irmã Eslováquia, minha
filha não sei onde…
M: E falas com os teus pais? Tens algum tipo de relação com a tua família? N: Eu não falo há muitos anos. Porque não quero.
M: Então consideras mais próximo quem vive contigo cá em Portugal?
N: Sim, claro, minhas amigas, meus amigos. A família não me interessa. (…) Já estou há muitos anos longe. Eles não querem saber como estou eu e eu não quero saber como estão eles. Pronto.” (excerto de entrevista ao Nicolay)
Não deixa de ser interessante pensar como se operou o corte na relação entre Nicolay e a sua família e a forma como este indivíduo arranjou outras pessoas que o ajudassem e com quem partilhar um quotidiano que, caso não tivesse existido o corte prévio com a família, talvez fosse partilhado com os seus parentes.
As relações que Igor mantém fora do Refeitório cingem-se principalmente à sua mãe, aos seus amigos ucranianos, expressando ainda como se sente mal em Portugal por ser visto como imigrante e por ouvir todo um conjunto de ideias negativas associadas aos imigrantes por parte de alguns portugueses.
Igor fala da sua mãe com bastante carinho (usando a palavra “Mamã”) associando as saudades que tem do seu país de origem à pessoa da mãe com quem fala com bastante regularidade. Refere ainda que no futuro gostava de ter dinheiro suficiente para poder regressar à Ucrânia e ajudar a sua mãe.
“I: Minha família é só minha mãe.
M: E costumas falar com ela?
I: Sim, ela quer que eu todo o dia falar com ela. Mamã tem reforma…como estes velhotes… Eu queria ajudar mamã, ela sozinha e eu também quero minha mãe como cozinheira. (…) Só que ela como general, ela gosta de mandar, general “Faz isto, faz
aquilo, vai lá, vai ali” e eu não muito gosto…antes quando pequeno tudo bem, agora
não… [risos]” (excerto de entrevista ao Igor)
As amizades que mantém, segundo o próprio, são sobretudo com pessoas ucranianas que o vão ajudando a descobrir lugares na cidade de Lisboa onde pode ir para resolver algumas das suas necessidades, nomeadamente para encontrar comida:
94 “M: E como é que tiveste acesso à igreja e à comida da igreja?
I: Amigos, amigos ucranianos.” (excerto da entrevista ao Igor)
Neste caso vemos como, por vezes, a questão de encontrar outras pessoas do mesmo país de origem leva a um tipo de confiança e de relacionamento diferente, a uma partilha de experiências e conhecimentos diferente, causada ou não por essa mesma origem e que sendo referida fora do Refeitório também é observada dentro daquele espaço.
Por fim, é ainda mencionado por Igor a forma como se sente mal em Portugal, como sente que é visto enquanto estrangeiro e como esse ser estrangeiro acarreta um conjunto de conotações negativas perpassadas por alguns cidadãos portugueses:
“I: Lá [na Ucrânia] a minha mãe e…eu gosto de sentir não como estrangeiro. Ucrânia é
minha casa e todas as pessoas não olhar para mim como imigrante, como estrangeiro, como…eu sente em Ucrânia melhor do que aqui, aqui muitas vezes sente-se mal porque eu é ucraniano e esse é problema para as pessoas, para os pretos, para os portugueses, muitos portugueses dizem “vocês roubam nossos lugares de trabalho e vocês bebem
álcool e fazer mal e…”.” (excerto da entrevista ao Igor)
Ao falar com o senhor Mário sobre as relações que mantém fora do Refeitório é possível reter, por um lado, que recentemente sofreu um grande impacto na sua rede de relações sociais com a morte da sua mãe, por outro lado, registam-se outros cortes desta vez associados à passagem para a situação de sem-abrigo e ao “abandono” por parte dos seus amigos de outrora.
“M: Vive sozinho?
Sr. M: Sim, sim, sim, a minha mãe já… [pausa; o sr. M emociona-se ao falar da mãe e
demora algum tempo a conseguir continuar a falar] faleceu-me há…há uns oito meses…
[mudança no tom de voz que ficou mais baixo porque o sr. M ficou comovido]
atualmente vivo sozinho na casa da Câmara que arranjei. Tenho família, mas cada um no seu canto.” (excerto da entrevista ao senhor Mário)
“Sr. M: E realmente quando eu comecei a entrar em decadência, derivado à minha vida
em si, nas vendas, quem eu pensava que era uma pessoa meu amigo ou minhas amigas foi quem me abandonou.” (excerto da entrevista ao senhor Mário)
95 Deste modo, é referido que não tem amigos apenas conhecidos, que vive sozinho e que apesar de ter família não há uma grande proximidade para com os seus parentes. Além disso conversa e convive diariamente com algumas pessoas que apelida de “colegas”.
“Sr. M: Eu passo os dias realmente…às vezes encontro-me com um colega ou com
outro (…)” (excerto da entrevista ao senhor Mário)
“Sr. M: O amigo que eu tinha no bolso é que era o amigo deles, que eles me
consideravam como amigo. Então hoje eu não tenho amigos, tenho conhecidos.”
(excerto da entrevista ao senhor Mário)
Jallah tem vários amigos espalhados por três países principalmente: Marrocos, Espanha e França. Além dos amigos que foi fazendo refere ainda a sua família numerosa com quem vivia quando estava em Marrocos e com quem fala com alguma regularidade enquanto está em Portugal.
É interessante pensar no caso deste indivíduo a importância que tem o contacto que vai mantendo com a família que está em Marrocos, na medida em que, ao ser sem- abrigo, não dispõe de muitos meios para contactar a família, mas, ainda assim, havendo essa necessidade de dar notícias aos pais e irmãos, Jallah acaba por encontrar meios para os contactar.
“M: Há bocado falaste que vivias em família, ainda manténs relação com eles? Falas
com eles?
J: Com família? Sim. É um dia se marca, se lhama, dois dias…quando ter dinheiro fazer um recadito, mais a irmã como sentam…” (excerto da entrevista a Jallah)
“M: Além da família, tens outro tipo de relações? Amigos…cá em Lisboa?
J: Sim, tenho amigos aqui, em Espanha, França, Marrocos.” (excerto da entrevista a
Jallah)
No caso de Yassine são referidos dois grupos nas relações que mantém fora do Refeitório: um composto pelos indivíduos que vivem no mesmo albergue que ele e o outro composto pela sua família com quem vai mantendo contacto.
Ao contrário das experiências relatadas pelo senhor Marcelo que vive no mesmo albergue que Yassine, este indivíduo demonstra como o facto de viverem no mesmo local mantém o seu grupo de amigos junto fora do albergue, passando uma ideia de um
96 grupo e uma experiência mais pacíficas do que aquelas vivenciadas pelo senhor Marcelo no mesmo espaço.
“M: Há bocado falou da família. Costuma falar com eles…
Y: Sim. Costumo, eu não…eu tenho contacto sempre com eles, no Facebook, no Whatsapp, no telefone… Não é diariamente, mas por exemplo uma vez por mês tem que ou duas vezes por mês tem que saber notícias, principalmente a mãe, não é? A mãe é que mais…”
Neste relato de Yassine são referidos os meios que costuma utilizar para se manter em contacto com a família que vive em Marrocos. É interessante observar o uso das novas tecnologias (Facebook e Whatsapp através da Internet) e a necessidade, tal como já visto no caso de Jallah, de manter um contacto regular com os seus familiares.
Por fim, ao nível das relações mantidas fora do Refeitório encontramos o caso do Paulo e da Susana que, sendo casados, têm o seu filho de 3 anos que veem com alguma regularidade e esperam poder ter meios para o sustentar num futuro próximo. “M: Muito bem, como é que pensas o futuro, ou seja, como é que gostarias de estar
daqui a cinco anos?
S: Com o meu trabalho, com a minha própria casa, com o meu próprio trabalho e…ter uma família realizada, isto seja, com o meu esposo e com o meu filho.” (excerto de
entrevista a Susana)
Falam ambos também dos amigos que têm, seja no curso (no caso de Susana), seja aqueles que foram sendo feitos ao longo da vida (no caso de Paulo). Paulo menciona ainda a tensa relação com a sua sogra em casa de quem vive (já mencionado acima).
“M: Além da família tens amigos, tens outro tipo de relações?
S: Sim, tenho amigos lá do curso, tenho.” (excerto de entrevista a Susana)
“P: Tenho, por acaso tenho muitos amigos. Nas minhas antigas escolas, onde eu passei
no meu curso, não completei o curso de carpintaria ali na Crinabel do Lumiar, nos trabalhos do dia-a-dia, no próprio bairro, no dia-a-dia…” (excerto de entrevista ao
97
Conclusões: As Pessoas Sem-Abrigo – Apropriações e Relações
Quando pensamos nas pessoas sem-abrigo da cidade de Lisboa podemos ser levados a uma imagem de um conjunto de seres que deambulam pelas ruas da cidade, que ocupam indevidamente os espaços que vão encontrando, que não têm relações com outros seres humanos, que têm sobretudo problemas de falta de uma casa, falta de um trabalho. Falta de vontade de querer mudar acabando por viver nessa situação de carência manifesta, inexorável, a quem passa e olha para um destes indivíduos.
O intuito de todo este trabalho é, através de uma abordagem onde a pessoa sem- abrigo é tida como sendo, de facto, um ser humano com as suas características próprias e peculiaridades individuais, pensar além desta imagem de conjunto que homogeneíza uma realidade pautada pela multiplicidade de realidades. Quero desenvolver um estudo que, ao ir ao encontro destes seres vulneráveis pelas suas múltiplas problemáticas, analise uma população através da sua relação com o espaço e com o outro.
Isto porque, uma vez chegada pela primeira vez ao Refeitório onde iria desenvolver trabalho de campo, tornou-se evidente um conjunto de premissas: a) não é possível falar das pessoas sem-abrigo como um todo uniforme e homogéneo uma vez que cada um dos indivíduos com quem falei apresenta um enredo de experiências vividas completamente diferente daquele mencionado pelo indivíduo seguinte; b) estava perante uma realidade que implica uma desconstrução problematizante, na medida em que quase me impelia a ir além do que já era conhecido acerca das pessoas sem-abrigo (por exemplo, questionando a aplicação do conceito oficial de pessoa sem-abrigo) procurando a especificidade inerente aos modos de vida daqueles indivíduos em concreto; c) é possível conceber um envolvimento característico dos indivíduos em situação de sem-abrigo com os vários outros com que se vão cruzando e tal envolvimento deve ser analisado com o maior interesse; d) não existe nada de óbvio na forma como estas pessoas falam do espaço, da cidade, dos mecanismos que vão encontrando para (sobre)viver ao não terem uma casa.
Deste modo, e tendo em conta este conjunto de ideias obtido não só numa leitura prévia do estado da questão correspondente ao fenómeno das pessoas sem-abrigo, como também através de um primeiro contacto com o terreno e com a população que iria estudar, torna-se interessante e fundamental aprofundar principalmente duas áreas da realidade das pessoas sem-abrigo: a relação mantida com o espaço e o apego e envolvimento com o “outro”.
98 Em relação ao espaço posso dizer que se desenvolveu uma aproximação em dois tempos. Inicialmente as questões tocam o acolhimento que é feito a esta população por parte de um espaço público que poderia até já ser conhecido mas nunca antes através da lente de quem se vê em situação de sem-abrigo. Numa sequência temporal onde os indivíduos já estão em situação de sem-abrigo há mais tempo acaba por se tornar imperativo questionar a habitabilidade que os vários locais do espaço público acabam por ganhar.
Assim, tendo observado os dados recolhidos torna-se possível estabelecer um conjunto de ideias conclusivas no que concerne o fenómeno que passei a poder apelidar de “apropriação” do espaço por parte das pessoas sem-abrigo.
Por um lado, torna-se evidente como há diferentes graus de apropriação dos diferentes espaços por onde o dia-a-dia destas pessoas os vai levando. Encontramos, desta forma, três tipos de apropriação correspondentes a três momentos diários analisados neste trabalho: uma apropriação do espaço onde dormem; uma apropriação dos caminhos que percorrem; e uma apropriação dos espaços do Refeitório onde comem, tratam da sua higiene e têm momentos de lazer.
Em relação ao espaço onde dormem acaba por ser importante lembrar a noção de “habitar” na esteira de Breviglieri (2010) - “Habitar supõe uma certa ancoragem
fenomenal do corpo, alimentada por uma matriz de experiências familiares, um