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DÖRDÜNCÜ AYIRIM Ödeme

D) Araya girme I - Genel hükümler

“O refeitório Rosália Rendu, sito no Campo Grande, constitui uma resposta social

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condições de grande precariedade, em especial, em situação de sem-abrigo e de irregularidade.” (Relatório de Atividades do Refeitório Rosália Rendu 2011, 2)

O Refeitório, sendo uma “resposta social”, tem um público-alvo – imigrantes sem-abrigo e em situação de irregularidade – e existe desde 2005 prestando apoio “a

utentes diretamente encaminhados pelo Gabinete de Apoio Social” (Relatório de

Atividades do Refeitório Rosália Rendu 2011, 2).

Tendo em conta os casos já apresentados neste trabalho é importante referir, em relação ao público-alvo, que “embora prevaleçam os imigrantes sem-abrigo, existe um

número considerável de utentes que possui alojamento e ainda assim foram encaminhados para o refeitório, especialmente, ao tratar-se de alojamento inseguro ou alojamento inadequado ou em casos em que o rendimento auferido não permite a supressão das despesas relativas à habitação e à alimentação.” (Relatório de Atividades do Refeitório Rosália Rendu 2011, 7).

O serviço prestado por este espaço permite, então, aos seus utentes tratarem da sua higiene, lavarem a sua roupa ou receberem peças de roupa que tenham em falta, e ainda almoçar e levar comida para o jantar, bem como manterem um acompanhamento junto de técnicos de serviço social (cf. Relatório de Atividades do Refeitório Rosália Rendu 2011; 2015).

Deste modo, dada a observação realizada neste local também aí foi possível encontrar momentos em que os seus utentes se apropriam do espaço em que se encontram, seja através dos lugares em que se sentam, seja através dos objetos que têm aí guardados, seja através da utilização ou não dos diferentes espaços (por exemplo, a cozinha e o refeitório em si ou o balneário ou a lavandaria).

Desde o primeiro dia de trabalho de campo que foi possível observar uma clara divisão espacial entre grupos de utentes do Refeitório, sendo notório que estes indivíduos se sentavam de acordo com o seu país de origem, língua falada e algumas relações que pareciam já estabelecidas.

“Pouco depois chegaram dois senhores que penso serem russos porque se sentaram

numa mesa separada (o senhor Stepan e um outro senhor). Ficaram os dois a conversar apenas um com o outro, o que me levou a pensar na distinção que existe entre os utentes do Refeitório, o facto de escolherem sentar-se ao pé das pessoas com quem

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partilham a etnia ou o país de origem, a separação física tão bem visível neste espaço

(…).” (Diário de Campo, dia 24.10.2016)

Torna-se possível, então, pensar a apropriação do espaço em função das relações estabelecidas. Ou seja, os utentes do Refeitório escolhem os lugares onde se sentam e o resultado final dessas escolhas individuais acaba por ser uma separação por mesas conforme a lógica já referida.

“Desta vez notei também que o aumento de utentes veio trazer uma alteração na

disposição dos lugares, o que levou também a uma alteração na harmonia e na forma de convívio do Refeitório com as personalidades e as características de cada um a ganhar nova ênfase. O Francisco (…) agora tem ao seu lado não o Galvino e o senhor Mário mas uma senhora (ucraniana ao que parece) que diz que ele é seu amigo, e as outras duas senhoras novas que tenta enturmar, e o Dumitru mantém o seu lugar. A mesa do canto varia entre os muçulmanos Omar e Jallah ou utentes novos como hoje (dois senhores e uma jovem mãe com a filha de 5-6 anos, falava só inglês). A mesa do meio mantém o senhor Ivan, o outro senhor Ivan, o senhor Stefan e hoje também o Norberto (…). A mesa da porta mantém os senhores ucranianos (…). E a mesa da frente com os novos utentes (…) este grupo (…) fica no Refeitório depois de almoçar a conviver entre conversas, ver televisão e comer pão.” (Diário de Campo, dia

20.12.2016)

Esta separação por mesas e o episódio de alteração da norma descrito acima permite-me equacionar as escolhas destas pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade em relação ao espaço que escolhem para seu, sendo que, ao contrário dos locais onde dormem, no Refeitório ganham uma nova liberdade para efetuar essa escolha.

Assistimos a uma demarcação do espaço – das cadeiras e das mesas neste caso – com os (poucos) objetos que transportam consigo (por exemplo, chapéus, telemóveis, mochilas) tornando esse espaço ocupado por si e não por outro utente qualquer, é o seu lugar.

De igual modo, as questões associadas ao espaço no Refeitório tornam a surgir não só ao nível desta divisão de lugares à mesa como também na divisão dos próprios espaços do Refeitório e, desta feita, a separação opera-se entre utentes e voluntários.

81 A cozinha e o escritório são espaços onde os utentes não podem entrar, o refeitório e o balneário são espaços onde podem estar e a lavandaria é um local onde só podem ir na presença de um voluntário, sendo que a lavandaria e a cozinha têm, por norma, a porta fechada à chave numa clara evidência de proibição à entrada de quem não possua a chave (dos utentes, portanto).

No entanto, as características de alguns destes espaços e as relações utentes- voluntários permitem uma certa permeabilidade à separação destas fronteiras espaciais. “Hoje estive a falar com o Nicolay que já tem “autorização” para entrar dentro da

cozinha e já fica a ajudar com a loiça. – Penso que é sinal de que, de facto, as coisas estão a começar a encaminhar-se, seja a nível de ter um trabalho fixo, seja a nível da documentação e, provavelmente, tanto ele como o Iury em breve deixarão de ser pensados como pessoas sem-abrigo ou sem teto; talvez sejam os dois primeiros casos que acompanho ao longo deste percurso evolutivo.” (Diário de Campo, dia 17.2.2017)

É possível, assim, ver como na situação apresentada o utente em questão pôde ultrapassar a fronteira entre o espaço dos utentes e o espaço dos voluntários, bem como a associação entre esse trespassar de barreiras pré-existentes e a melhoria da sua situação de vida.

A fronteira cozinha-refeitório tem também outra forma de ser ultrapassada tanto pelos utentes como pelos voluntários. Entre os dois espaços além de existir uma porta encontra-se também uma janela que serve para manter o refeitório como espaço privado dos seus utentes face aos voluntários que se encontram na cozinha.

“Estive a falar com a Irmã Celeste sobre algumas histórias e o Francisco ia ouvindo

pela janela que às vezes fecha para nós não ouvirmos o que falam entre eles.” (Diário

de Campo, dia 13.2.2017)

Torna-se possível pensar numa breve apropriação do espaço do refeitório por parte dos seus utentes quando se fecha a janela, na medida em que moldam aquele espaço (através dessa ação de fechar a janela) para lhe conferir características privadas, de forma a não serem ouvidos ou incomodados pelos voluntários que se encontram na cozinha.

Por fim, em relação aos espaços e divisões espaciais do Refeitório refiro mais um episódio em específico no qual essas divisões, ao serem trespassadas, causaram uma reação junto de uma voluntária que fez questão de se exprimir:

82 “Uma situação interessante de hoje foi a reação da Irmã e de uma das voluntárias ao

facto de o Francisco entrar pela “porta dos voluntários” quando vai buscar os sacos com caixas de comida à entrada. A conversa que se seguiu foi a voluntária a perguntar porque é que ele (o Francisco) entrava por aquela porta quando trazia os sacos com a comida e a Irmã a dizer que não sabia porquê, mas que era assim; a voluntária riu-se e disse que pronto nesse caso era assim, mas que ele deveria entrar pela “porta deles”.”

(Diário de Campo, dia 28.4.2017)

Nesta situação é através da reação à entrada de um utente pela “porta dos

voluntários” que vemos como há uma clara separação do espaço dentro do Refeitório,

nomeadamente nas entradas neste local.

Acaba por existir um conjunto de normas que não aparecem escritas nem são explicadas a quem chega pela primeira vez ao Refeitório em relação à utilização daquele espaço e às dinâmicas que lhe estão inerentes conforme se é utente ou parte da equipa de voluntários, como foi possível ver nos episódios apresentados acima.

O tipo de apropriação do espaço que é passível de ser observado aqui passa pela separação do meu lugar à mesa em relação a todos os outros lugares possíveis de ocupar, seja através da marcação do espaço com objetos seja através da presença fixa nesse lugar.

De igual forma encontramos a modelação do Refeitório que se vai transformar num local de privacidade. Observa-se, ainda, uma forma que os utentes têm de dotar este local de uma “habitabilidade” contrastante, por vezes, com os locais onde estes indivíduos pernoitam e que se encontram desprovidos dessa característica.

83 Apegar: as Relações das Pessoas Sem-Abrigo

2. A Carência nos Afetos

Em relação ao terceiro e último eixo no qual se apoia este trabalho – as relações e a forma como as pessoas sem-abrigo se apegam confiando no outro – houve uma procura das características e dinâmicas inerentes ao modo como estes indivíduos, cuja vida é pautada de carências e pela instabilidade, conseguem ou não manter relações e ligações a outras pessoas.

Sendo caracterizados como indivíduos que não possuem meios de sustento a nível económico não detendo abrigo ou teto, encontramos também uma outra forma de pensar a realidade das pessoas sem-abrigo: “são apenas pessoas carentes de afetos

(pobres de afetos) que querem chamar a atenção mas que não fazem mal a ninguém.

(Diário de Campo, dia 7.11.2016).

“I: (…) porque é aquilo que eu lhe dizia no outro dia: além das carências monetárias,

eles têm principalmente carências afetivas e eu penso que eles têm muita necessidade de alguém que pare um bocadinho para os ouvir e que converse um bocadinho com eles.” (excerto de entrevista a Isabel)

No entanto, através da observação realizada junto desta população em específico – os utentes do Refeitório Rosália Rendu – esta ideia de “carência de afetos” foi sendo desconstruída e foram sendo encontradas formas de se relacionarem com o “outro” características de quem se encontra na situação de sem-abrigo.

Assim, o verbo apegar vai ser utilizado na análise dos dados recolhidos que focam as relações destes indivíduos numa lógica que vai das relações estudadas e visíveis dentro do Refeitório até às relações que estas pessoas mantêm fora desse espaço.