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DÖRDÜNCÜ AYIRIM Ödeme

B) Ödeme I - İbraz

1. Süreler ve şartları

“Habitar supõe uma certa ancoragem fenomenal do corpo, alimentada por uma matriz

de experiências familiares, um conjunto de emoções tranquilizantes procuradas na intimidade da casa, uma sutura afetiva que tem cada um como ligado aos que lhe são

53 Cf. Lista de instituições de auxílio às pessoas sem-abrigo presentes no Plano Cidade para a Pessoa Sem-Abrigo (2009); na Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas Sem-Abrigo (2009-2015); e no Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo (2015)

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próximos por um laço não-arbitrário (Breviglieri, 2002 in Breviglieri 2010a, 63, tradução minha54).

Os espaços onde estes indivíduos dormem dividem-se essencialmente em três categorias: albergues (com 2 casos registados), casas partilhadas (com 4 casos registados), casas da Câmara Municipal de Lisboa (com 1 caso registado) e a rua (com 2 casos registados).

Em relação aos albergues é mencionada principalmente a Vitae (em Xabregas onde vivem atualmente 2 dos indivíduos com quem falei, mas por onde já passou um terceiro indivíduo que atualmente vive na rua) mas também é referida a passagem por outros locais na Cruz dos Poiais, nas Amoreiras e, ainda, em Castanheira de Pera.

A experiência de pernoita nestes albergues raramente é mencionada sem que se apontem algumas características negativas destes espaços, tal como é apresentado no seguinte excerto da entrevista a Yassine: “M: Como é que poderias falar do sítio onde

vives? Da casa, do espaço onde vives? Y: Onde vivo é…um bocadinho complicado, tem muitas pessoas, tás a ver? Não tens aquela liberdade…”.

Também o senhor Marcelo que vive atualmente na Vitae apresenta uma descrição negativa não só desse albergue como daquele onde esteve anteriormente: “Quando eu cheguei [ao primeiro albergue] era tudo precário, muito precário, inclusive

em termos de higiene e tudo, tá bem? (…) Bom, mas então agora me deparei mais uma vez com essa realidade, não é? Lá na Vitae, não é? (…) o alojamento da Vitae parece que não está adaptado para o abrigo da pessoa humana. É desprovido totalmente de conforto (…).” (excertos da entrevista ao senhor Marcelo).

É ainda possível referir o caso do Jallah que tendo estado um ano a viver na Vitae se encontra atualmente a dormir na rua não tendo sido percetível se esta mudança foi causada pelas condições do albergue ou se foi imposta por algum outro motivo.

Por fim, podemos mencionar a experiência de Iury contada através de uma voluntária da seguinte forma: “estava a viver num albergue em Xabregas com péssimas

54 «Habiter suppose un certain ancrage phénoménal du corps, nourri par une matrice d’expériences

familières, un foyer d’émotions sécurisantes procurées dans l’intimité du chez soi, une suture affective qui tient chacun comme attaché aux proches par un lien non-arbitraire» (Breviglieri, 2002 in Breviglieri 2010a, 63)

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condições cujos utentes são tratados como animais e, como se recusava a tomar os medicamentos (porque na Ucrânia era desportista, praticava kickbox) foi expulso do

albergue e passou a dormir na rua.” (Diário de Campo, dia 27.2.2017).

Em ambos os casos de pessoas que ainda dormem em albergues (o senhor Marcelo e o Yassine) não foi possível no discurso dos interlocutores reter qualquer tipo de apropriação destes espaços.

Foi, ao invés, notório um desligamento daquele local ao qual têm acesso apenas para dormir, tal como referido pelo senhor Marcelo: “eu não tenho o hábito de andar

com mochila mas por causa do treino e por causa do acesso regrado, do acesso restrito à casa de banho, ao quarto, só no final da noite (…)”, partilhando-o com múltiplos

indivíduos, tal como Yassine menciona.

Encontramos, assim, um tipo de acolhimento a estas pessoas, em situação de vulnerabilidade, pautado pelas condições precárias, pelo excesso de utentes e pela ausência de conforto, tal como descrito pelos dois indivíduos com quem falei e que pernoitam em albergues.

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Figura 2: Localização da Vitae

Os indivíduos que vivem em casas e que, à partida, poderíamos pensar não se enquadrarem neste trabalho acabam por ser parte da população de estudo com quem falei, na medida em que, logo no início do trabalho de campo fui informada de que “mesmo os que tinham casa nunca era sustentada por eles nem tinham as condições

mínimas.” (Diário de Campo, dia 19.12.2016), sendo parte integrante do conceito de

pessoa sem-abrigo já mencionado acima55.

Nesta situação encontramos três casos distintos: um indivíduo que vive numa casa da Câmara Municipal de Lisboa, dois indivíduos que vivem em casas partilhadas no Campo Pequeno e dois indivíduos que sendo casados vivem na casa dos pais/sogros onde muitas das necessidades básicas lhes são recusadas.

A experiência de quem vive em casas tem em si mais momentos – pelo menos ao nível do discurso dos interlocutores que se encontram nesta situação – de apropriação do espaço, da casa, da minha casa onde tenho as minhas coisas e a minha privacidade.

No caso do senhor Mário que vive atualmente numa casa da Câmara Municipal de Lisboa na Quinta dos Barros relata como antigamente quando morava numa outra casa no Pote de Água dispunha de liberdade para fazer várias atividades e que, ao ter sido forçado a mudar de local de residência, perdeu parte dessa mesma liberdade, tal como se depreende do seguinte excerto da entrevista ao senhor Mário:

“M: Vocês é que tiveram que ir embora?

55 Cf. Conceito de Pessoa Sem-Abrigo apresentado no Plano Cidade para a Pessoa Sem-Abrigo (2009); na Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas Sem-Abrigo (2009-2015); e no Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo (2015)

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Sr.M: Sim mas estou bastante arrependido. M: Porquê?

Sr.M: Porque ali eu tinha mais liberdade em todo o sentido. Tinha casa rasteirinha, pré-fabricada, quer dizer, o terreno não era nosso, era da Câmara. Mas eu tinha outra liberdade que não tenho aqui.

Torna-se possível referir um especial apego em relação ao espaço que outrora habitou, que não sendo dele tinha em si alguns elementos que permitiam que se apropriasse desse local.

É possível, neste caso, pensar numa apropriação que passava pela ideia de liberdade associada ao espaço em questão e ao conjunto de atividades que se podia realizar tendo em conta as características desse mesmo espaço:

“Sr. M: É totalmente diferente porque ali onde eu morava tinha a minha privacidade,

num certo sentido, que eu podia, uma hipótese, assar um peixe assim num, é uma hipótese, que eu tinha um estacionamento para parquear, e nós, quem diz eu diz as outras pessoas em si que moravam também, a gente assava o nosso peixe mas tinha outra liberdade totalmente contrária, não tem nada a ver.” (excerto da entrevista ao

senhor Mário)

No caso de Nicolay e de Igor, que vivem ambos em casas no Campo Pequeno, a sua relação com o espaço já varia, na medida em que, além do espaço ser partilhado (“N: Comigo vivem eu não sei quantos…10 ou mais, por aí…” (excerto da entrevista a Nicolay); “M: E dormes em alguma instituição? I: Na casa de um amigo.” (excerto de entrevista ao Igor)) é também mantido por quem lá vive, não sendo da Câmara como no caso do senhor Mário.

Assim, quando perguntei a Nicolay se no futuro gostaria de ter uma casa a resposta foi imediata: “N: Uma casa? Minha? Eu tenho casa! Eu tenho casa grande

não aqui, lá [na Ucrânia]…” (excerto da entrevista a Nicolay), referindo várias vezes

que prefere estar em Portugal e que gosta da forma como vive (“N: Eu quero cá. Eu

gosto Portugal.” (excerto da entrevista a Nicolay)).

É visível no discurso de Nicolay uma escolha que se opera em torno de um lugar. Ou seja, vivendo no Campo Pequeno, numa casa partilhada com 9 ou mais pessoas, prefere olhar além dos possíveis elementos menos positivos (como a possível

68 falta de privacidade e excesso de habitantes) e focar-se, ao longo do seu discurso, nas características positivas da sua experiência em Portugal, observando-se, aqui, uma demarcação do seu espaço, da sua casa e da forma de habitar a cidade que escolheu: “M: E quando há problemas [com as pessoas com quem vive], vai cada um para seu

lado?

N: Não há problemas, está tudo bem, passo bem, corre bem, não há nenhum problema…somos uma família.

(…)

N: Aqui está tudo bem, eu gosto de trabalhar, eu gosto da gente, quem trabalha, quem não trabalha eu não gosto…e que mais?” (excertos da entrevista a Nicolay)

Igor, por sua vez, ao ter vindo da Ucrânia para Portugal à procura de uma vida melhor diz que quando tiver dinheiro quer voltar para o seu país de origem. Já viveu no Centro Pedro Arrupe usufruindo de alguma ajuda temporária (“I: Só no início [é que ajudaram] e depois só ajudaram quem mora no Centro Pedro Arrupe eles também

ajudam mas já não…” (excerto de entrevista ao Igor)) e agora dorme na casa de um

amigo.

No discurso de Igor em relação ao local onde dorme encontram-se apenas alguns detalhes que podemos utilizar para falar da apropriação desse espaço. Por um lado, diz que vive em casa de um amigo, logo não é um espaço seu, pertence ao seu amigo.

Por outro lado, tendo já vivido noutro local (Centro Pedro Arrupe) acaba por ser passível equacionar a escolha de viver atualmente naquela casa, num espaço que apesar de não lhe pertencer acaba por ser partilhado por si, apropriado por si em relação a outros espaços onde poderia pernoitar por opção ou obrigação das circunstâncias em que se encontra.

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Figura 3: Campo Pequeno

Figura 4: Localização do Centro Pedro Arrupe

A experiência da Susana e do Paulo acaba por ser reveladora da ideia passada pela Irmã que gere o Refeitório acerca do conceito de pessoa sem-abrigo ser também aplicado a pessoas que vivem em casas, na medida em que, no caso deste casal apesar de terem uma casa não possuem as condições mínimas de habitação, como é visível quando o Paulo diz:

“P: Depois a minha sogra tem uma coisa que a gente não se dá muito bem, nega a luz,

nega a água, nega o gás, nega a própria comida e por isso é que é mesmo… Porque se não fosse por causa disso ainda ia-me enrascando como eu tenho-me enrascado nos tempos antigos mas quando aconteceu isso já tive que pedir mais ajuda de uma solução

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ao meu assistente social, o Dr. Hugo, ele arranjou-me para aqui.” (excerto de

entrevista ao Paulo)

Deste modo, têm um local onde dormir e onde viver, têm uma casa, mas que, ao não ser sua, acaba por levar a uma situação de negação e inexistência dos bens mais básicos para uma vida condigna, tais como a água, a luz, o gás e a comida.

Este casal tem, de facto, o seu espaço e a sua casa da qual se apropriam, sendo sua, tendo a sua privacidade e os seus pertences. No entanto, nesta situação não é possível falar de um “habitar” o espaço onde se vive, pois, ao não terem condições são obrigados a recorrer a dispositivos exteriores à casa (por exemplo o Refeitório) para suprirem as suas necessidades, tal como é visível no discurso do Paulo, acabando por dormir apenas naquele espaço.

Por fim, em situação de rua encontramos dois indivíduos, dormindo um deles em Sete Rios e outro tendo já dormido na Gare do Oriente atualmente pernoita numa fábrica abandonada.

O primeiro indivíduo a que me refiro é o Jallah que tendo já pernoitado na Vitae dorme agora em Sete Rios, descrevendo essa situação da seguinte forma: “J: Antes

abrigos, agora vivo…na rua. Antes Vitae, um ano Vitae. (…) é centro de Sete Rios

[onde dorme], pero sempre passear, sempre ter de passear dentro de… (…) um dia vai

para metros, outro dia vai para autocarros…” (excerto da entrevista a Jallah).

A forma como Jallah me descreve não só o seu quotidiano pautado pelo caminhar como também o sítio onde dorme permite-me pensar na apropriação que faz dos espaços do seu quotidiano.

Por um lado, dorme sempre no mesmo local – em Sete Rios – explorando as possibilidades que o mesmo lhe traz para que consiga um mínimo de conforto nesse espaço público, uma vez que em alguns momentos do trabalho de campo foi visível a ausência de objetos potenciadores de conforto, chegando a não ter sapatos para calçar (“Quando estava a ir embora depois das entrevistas vi o Jallah a dizer adeus aos

voluntários e reparei que estava descalço (…)” (Diário de Campo, dia 16.5.2017)).

Por outro lado, num quotidiano feito de caminhos e deambulações – com a respetiva demarcação do espaço por onde se vai passando e caminhando (cf. Veschambre 2004) –, a escolha de Sete Rios para local de pernoita é em si bastante inteligente e representativa da lógica de quem não tendo posses ou uma casa tem de

71 recorrer aos espaços da cidade para (sobre)viver: é um local público, com visitas de turistas e uma boa rede de transportes em seu redor ficando relativamente perto do centro da cidade.

O segundo caso que dorme na rua é o do Francisco que se encontra nessa situação há 2 anos e 11 meses “mas em global tudo, geral, é 16 anos e 11 meses desta

vida sempre assim.” (excerto da entrevista a Francisco).

Quando falei com ele disse-me que dormia na Gare do Oriente, escolhendo os locais mais resguardados para pernoitar: “F: há sempre um espaço que eu durmo ou

perto do Meo Arena ou ali ao pé do Oceanário, pronto, aqueles sítios que eu mais vejo que estão resguardados, que me abrigue do frio é o mais essencial (…).” (excerto da

entrevista a Francisco).

Figura 5: Localização de três sítios de pernoita de Francisco: Oceanário, Meo Arena e Estação do Oriente

Entretanto mudou de sítio para uma fábrica abandonada que partilha com um “colega de quarto” e onde tem uma espécie de cama e uma janela que mostra em fotografias do seu telefone:

“Conversa com Francisco sobre o novo sítio onde vive. Agora, em vez de viver na

estação do Oriente, vive numa fábrica abandonada com um “colega de quarto” – Expressão interessante tendo em conta que uma fábrica abandonada e a continuidade da situação de pessoa sem-abrigo não implicariam, à partida, a ideia de um “colega de quarto”.” (Diário de Campo, dia 6.2.2017)

72 A situação de pernoita de Francisco é igualmente interessante para pensar as questões da apropriação do espaço, uma vez que além da escolha do local onde dormir encontramos também um aproveitamento das características dos espaços escolhidos.

É possível pensar também a forma de apropriação através da marcação do espaço, uma vez que no local onde dorme atualmente (a fábrica abandonada) tem uma cama sua e uma janela sua, desenhando ele mesmo uma espécie de quarto num espaço que é transformado por este indivíduo em algo mais do que seria à partida. Ou seja, assistimos a uma modelação da fábrica abandonada que se vai tornar num quarto, numa casa, num espaço privado e do Francisco.

É interessante notar, para terminar esta análise dos lugares apropriados por estas pessoas sem-abrigo, que apesar de alguns dormirem em albergues, outros em casas com poucas condições e outros ainda na rua, a maioria destes indivíduos tem uma casa sua com condições para uma habitação condigna.

Esta ideia que praticamente todos os indivíduos com quem falei (à exceção do Francisco, Susana e Paulo) mencionaram – de ter uma casa sua com boas condições – vem sublinhar de forma bastante clara a mudança que se opera nas suas vidas.

Sendo na sua maioria motivados pela procura de uma vida melhor ou por ofertas de trabalho que vão surgir nos percursos das suas vidas, estes indivíduos escolhem vir viver para Portugal não querendo voltar para a realidade que outrora experienciavam mesmo que tal regresso representasse uma vida com melhores condições e/ou com mais apoio ao nível da família.

“Eu tenho 41 anos e já fui brasileiro, por algum acaso eu despedi-me para sempre de lá […]; É assim: eu tenho do lado de lá, do Brasil, a minha casa própria, está a minha

casa sem dever um cêntimo de nada […]; (…) porque da Europa eu não saio!”

(excertos da entrevista ao senhor Marcelo)

“Eu quero cá. Eu gosto Portugal. […] Eu tenho casa grande não aqui, lá…” (excertos da entrevista ao Nicolay)

“M: E antes, em Marrocos, como é que era?

J: Família. Sempre com família.” (excerto de entrevista a Jallah)

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Y: Claro que tinha! Tinha a minha casa, tinha os meus pais, tinha, tinha a minha família à volta de mim (…)” (excerto de entrevista a Yassine)