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Toda a área percorrida na baixada é característica de locais banhados por praia, em que existem muitas palmeiras, mata de cocais, vegetação fechada, areais23 e uma brisa constante de mar.

Há uma distância grande entre um povoado e outro e, raramente, são encontradas pessoas ou animais andando nas estradas. A gasolina para abastecimento de carro é vendida de forma clandestina em armazéns (nos povoados), em galões. A única cidade em que se encontrou um posto foi Mirinzal; dali até Porto Rico não há nenhum outro. Mas existem carros que trafegam nestas regiões, e os barcos são movidos a combustível.

Um dos fatores que mais chamam atenção nesta região, mais especificamente na cidade de Porto Rico, é o baixo poder aquisitivo da população, que se contrapunha à grande rotatividade de circulação de moeda e de mercadoria importada nos comércios locais.

Na cidade de Porto Rico, existem produtos de alta tecnologia misturados a sacos de arroz e farinha em pequenos comércios que ficam à margem de um pequeno porto para pescadores. Esta se constitui em uma das primeiras informações evidenciadas que pareciam dar pistas a formas diferenciadas de acesso à região, que não somente a terrestre. Outro dado importante é a presença de turistas estrangeiros em um local que não possui hotéis, nem pousadas, em que não há restaurantes, linhas de ônibus intermunicipal e que é de difícil acesso.

Como as aulas que esta pesquisadora estava incumbida de ministrar se davam em um galpão na rua principal da cidade, e não havia portas que impedissem o acompanhamento da movimentação em via pública, mesmo de forma involuntária, era possível verificar que havia um grande número de

23 Termo regionalmente utilizado para descrever extensões de areia no centro de vilas, em

comunidades de casas próximas às regiões praianas, que comumente é usado como ponto principal da área.

turistas e pessoas diferentes das nativas que caminhavam livremente na cidade e que, ao entardecer, se envolviam nas festas de reggae, mas, comumente, não eram mais vistas no dia seguinte. Percebeu-se uma grande rotatividade de pessoas estrangeiras, principalmente por se tratar de um local sem infra-estrutura, como citado anteriormente.

A cidade não recebe serviços de telefonia celular, sua internet é precária, o sinal que viabiliza este serviço é via rádio com uma freqüência muito baixa, pois é proveniente de retransmissão deste, da cidade de Cururupu. Assim mesmo, tal serviço é restrito aos órgãos públicos municipais. Já o serviço de telefonia fixa, apesar de existir, passa a maior parte do tempo sem comunicação e não há ainda serviços de saneamento básico e água encanada.

No primeiro dia de estadia na cidade, esta pesquisadora ficou instalada em um quarto de uma residência da prefeitura que atendia o delegado da cidade, ao lado do galpão onde ocorreram as aulas. Devido ao grande barulho proveniente dos bailes diários que se davam naquela região da cidade, já que uma das radiolas era armada na calçada em frente à janela do quarto em que estava hospedada, não havia condições favoráveis para o descanso durante a noite, seja pela intensidade do som, seja pelo fluxo de policiais entrando e saindo da residência até amanhecer. A prefeitura e a secretaria municipal de educação decidiram fazer a transferência para um local mais calmo, onde pudessem oferecer a esta professora uma estrutura melhor em função de seu descanso – afinal, eram 15 dias de permanência na cidade.

Sendo assim, no fim do segundo dia de estadia na cidade, foi feita a transferência para a secretaria de educação, onde o prefeito construiu aposentos para alojar toda a sua equipe de funcionários, que era oriunda de outro município. Esse novo local tinha uma influência maior do porto. Da janela do quarto, observava-se ao longe a passagem de grandes e pequenas embarcações. É interessante observar que a cidade não possui praia, mas uma extensa região circundada por mar alto. As áreas baixas são de mangue, espaço dividido por palafitas e pessoas muito pobres, principalmente crianças.

Foram dias de muita descoberta acerca dos costumes da região e a influência do reggae, facilitados pela forma aberta como as pessoas recebiam os visitantes.

No cotidiano das atividades em sala de aula, conseguiu-se identificar e assim aproximar-se de pessoas oriundas das áreas de interesse da pesquisa. O primeiro contato foi estabelecido com um rapaz nascido na comunidade quilombola de Damásio, Gilberto, e depois com mais duas pessoas, uma da cidade de Mirinzal, Julieta, e outra da cidade de Porto Rico, Jadilson. Por intermédio dessas pessoas, se teve acesso a muitas informações que iriam complementar o que antes eram apenas suposições. Os três eram alunos da turma do CEFET – licenciatura em Biologia, que moravam nessas cidades (Damásio, Mirinzal e Porto Rico). Nas semanas de aula, os alunos que moram nas cidades vizinhas se deslocavam para Porto Rico.

Gilberto, aluno do curso de licenciatura do CEFET, quilombola, nascido e criado em Damásio, era professor da rede municipal de ensino, lotado em uma escola dentro do quilombo. Nas inúmeras conversas mantidas que enfocavam a pesquisa, informou conhecer muitos estrangeiros que traziam com freqüência novidades do mundo do reggae. Com o intuito de comercializá- las, passavam dias na região, até ter contato com os donos de radiola da baixada.

Destacou a preferência por um cantor não muito divulgado no Brasil, mas que faz sucesso na Jamaica e naquela região do Maranhão, Éric Donaldson. Em sua fala, Gilberto afirmou que dentro de sua comunidade havia muitos discos de vinil, dos quais a maioria nunca havia sido escutada, por ele não possuir um aparelho de reprodução. O único que a comunidade tem é vinculado à radiola e só era usado em dia de festa. Enfatizou que seus parentes não permitiam que saísse de dentro do quilombo para que não houvesse investidas negativas de pessoas que não estavam preocupadas com a causa dos quilombos, mas em ganhar dinheiro com a riqueza que possuíam.

O momento mais interessante de seu relato é quando se reporta aos avós e às canções entoadas por eles com o intuito de acalentar as crianças. Gilberto conta que ele não entendia nada, pois era em um idioma que ele desconhecia, mas parecia um canto de lamento. Porém, mais tarde, ao freqüentar a escola e sair para trabalhar na cidade, identificou algumas palavras em inglês, somadas a outras que, mesmo estranhas a ele, sabia que tinham origem africana.

Outro dado importante destacado era o de que as mesmas músicas que eram tocadas ao som de tambores e dançadas em festas nos fins de semana dentro do quilombo eram sucessos consagrados nas rádios da cidade de Guimarães. Ele pensava, ainda criança, que aquele som e aquelas danças eram apenas uma forma trazida da África por seus ancestrais para relembrar as raízes deixadas para trás e que eram passados de geração a geração como forma de preservar a comunicação entre os nascidos no Brasil e na África.

Fez-se homem sabendo que era diferente das pessoas da cidade e que necessitava guardar segredos para manter vivos os sentimentos e as raízes de sua ascendência genética. Tais raízes envolvem a identidade de uma comunidade negra que, por tradição, divide o que tem com seus irmãos de raça. Durante o período de escravidão, eles pareciam ser fracos, mas um dia iriam unir-se constituindo uma nação forte. Chama atenção, aqui, na fala de Gilberto, preceitos do Rastafarismo, não impostos como religião, mas como ideários de um grupo. Outra informação é a de que conheceu muitos estrangeiros que permaneciam por semanas junto a eles no quilombo e que eram considerados irmãos de sentimentos, de valores, de raça, embora muitas vezes não se entendessem no aspecto lingüístico.

Muitas foram as informações que contribuíram sensivelmente neste início de construção do pano de fundo da pesquisa. Como alguém que nasceu e vive naquela região, Gilberto advertiu que a permanência na cidade de Porto Rico não era tão bem vinda por todos que ali moravam, e que seria necessário se ter precaução. Avisou que iriam ser presenciadas muitas coisas naquela

região que deveriam apenas ser observadas e guardadas. No dia seguinte, foi possível compreender ao que ele se referia: uma ação fechada da Polícia Federal, mantida em sigilo durante dois anos, faria uma das maiores apreensões de cocaína no Brasil. A droga estaria chegando ao Brasil em pequenas embarcações, que atracavam no porto da cidade, e dali era escoada pela baixada. Boa parte era transportada ao Ferry boat, chegando facilmente a São Luís, de onde era redistribuída para outros estados.

Ora, se aquele local, nos confins do Maranhão, conseguia ter a entrada franqueada para drogas, não seria difícil a entrada de pessoas com outras intenções, como, por exemplo, a de fugir da miséria e da pobreza de seu país de origem. Sabendo que o ritmo caribenho e jamaicano era muito apreciado entre os nativos desta região do Brasil, os imigrantes utilizavam os discos de vinil como moeda de troca para financiar sua entrada e permanência no país, embora na ilegalidade.

Passado o susto de estar diante de uma operação com tamanhas proporções, investiu-se em agendar visitas e aproveitar ao máximo a permanência naquele espaço que é a “ponta” da baixada maranhense. Alguns obstáculos tiveram que ser enfrentados, desde consolar alunos que tinham parentesco direto com as pessoas que foram presas, até sofrer a desconfiança de que a professora pudesse estar envolvida com este grupo de policiais, fornecendo-lhes informações (o ápice da ação policial coincidiu com sua permanência na cidade). Além do mais, em tão pouco tempo, esta mesma professora, perguntava tanto que acabou por saber muita coisa, e podia ser ela um elo com a polícia. Este foi um momento em que a pesquisadora se viu correndo risco, inclusive de vida.

Durante a permanência na área da baixada maranhense, visitou-se duas comunidades quilombolas: Frexal (localizada no município de Mirinzal) e Damásio (localizada no município de Guimarães, como já citadas no início deste capítulo). As visitas proporcionaram a oportunidade de verificar a importância dada ao reggae pelos habitantes destas comunidades, bem como

confirmar a presença de pessoas vindas de outros países que conviveram diretamente com eles e, desta forma, influenciaram no processo de construção de hábitos e costumes.