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Nossa proposta de pesquisa partiu de algumas perguntas que sempre nos acompanharam em nossa experiência em sala de aula, que traziam à tona reflexões sobre a presença de riso e de determinados insultos proferidos em sala de aula, tanto por alunos quanto por professores, mas que não eram enquadrados como verdadeiros, além de determinarem o pertencimento dos participantes àquele determinado grupo.

Tais reflexões conduziram-nos às seguintes perguntas de pesquisa:

 Até que ponto frequentes insultos rituais entre professor/aluno, aluno/professor

e aluno/aluno podem ser enquadrados como brincadeiras e não como insultos verdadeiros?

 O riso frequente em sala de aula é sinal de indisciplina ou de

interação/pertencimento ao grupo?

 Qual o papel do professor na articulação entre a brincadeira, o insulto e o riso e

a aprendizagem na sala de aula?

Assim, tivemos como objetivo analisar o riso e o insulto ritual como formas discursivas que podem orientar ou não para o enquadre de brincadeira e como a intervenção do professor é importante para definir tal enquadre e evitar conflitos. Para

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isso, buscamos embasamento teórico-metodológico principalmente na Análise da Conversa Etnometodológica, que de acordo com Garcez (2008, p. 18), tem como meta

principal “descrever os procedimentos usados por quem conversa para produzir o

próprio comportamento e para entender e lidar com o comportamento dos outros. Desta forma, para realizar a análise, buscamos nos ater à perspectiva dos participantes, buscando sempre fidelidade às ações e reações decorrentes da fala-em- interação, analisando turno a turno o que eles fazem, momento a momento, libertas de qualquer julgamento dessas ações evitando nos apoiar em conclusões pré- estabelecidas, exteriores ao momento interacional.

O corpus selecionado para análise nesta pesquisa constituiu-se de três aulas da disciplina Língua Portuguesa de uma turma de oitavo ano do Ensino Fundamental, de uma escola pública municipal do interior de Minas Gerais. O contexto situacional da aula foi o estudo do Capítulo 1, da Unidade 3 do livro didático, que abordava o gênero texto de ficção científica. Como principal estratégia de coleta de dados, realizamos a gravação em áudio dessas aulas, que foram posteriormente transcritas e analisadas de acordo com a metodologia da Análise da Conversa Etnometodológica (ACE).

Retomaremos, então, os objetivos específicos desta pesquisa para que possamos fazer considerações a respeito de cada um deles, objetivando, com isto, responder, também, às perguntas de pesquisa que deram origem a este trabalho:

 Descrever a Fala-em-Interação de professores e alunos no espaço sala de aula.  Verificar se as elocuções construídas pelos professores permitem a mediação

de conflitos entre os alunos, constituindo assim um ambiente de interação.

 Descrever os elementos distintivos entre a interação cotidiana e a interação

institucional em sala de aula.

 Observar e descrever o riso como o mecanismo de proteção da face quando esta

se encontra ameaçada.

 Estabelecer categorias de Insultos Rituais entre os participantes da interação em

sala de aula.

 Averiguar o entendimento dos participantes do enquadre de brincadeira

estabelecido na fala-em-interação em sala de aula a partir do riso e do insulto ritual.

No que se refere ao primeiro objetivo, a organização da fala-em-interação nesta sala de aula pode ser descrita a partir do modelo interacional I-R-A (Iniciação- Resposta-Avaliação). A professora Tânia, na grande maioria das vezes, nomeia os

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alunos que devem ser os próximos a tomar o turno e que devem responder à pergunta iniciada por ela, a fim de que possa avaliá-los, no caso em questão, a respeito da leitura e da interpretação dos textos do Capítulo 1, tópico das aulas analisadas. Também a sequência I-R-A, algumas vezes, foi usada para retomar o enquadre aula, desativado pelo enquadre de brincadeira provocado pelos risos originados dos insultos rituais iniciados por professora e alunos.

Os dados analisados evidenciam que a professora faz perguntas para as quais ela já sabe a resposta, mas a resposta nem sempre é dada pelo aluno selecionado, isto é, naquele ambiente interacional, os alunos se autosselecionam para os turnos, muitas vezes em sobreposições, que são esperadas pela professora e até ratificadas por ela,

procedimentos pouco comuns num ambiente institucional. Contudo, Tânia “orquestra”

a tomada de turnos. É ela quem seleciona os falantes ou lhes dá o direito de “assaltar” o turno, ou provoca o riso afiliativo deles, ou até mesmo determina que, em algum momento da aula e/ou da brincadeira, nenhum aluno poderá tomar turnos.

Foram observados longos turnos tomados pela professora com o intuito de legitimar seu papel social e de seus alunos naquela interação, ou seja, ela é a detentora do saber, reproduzido nas respostas dos alunos às questões por ela levantadas, que se limita a reproduzir as questões das atividades do livro didático; os alunos são receptores desse saber, e devem conduzir suas ações de acordo com as restrições impostas pelo evento em questão. Assim, quando Tânia discursa, num turno bastante extenso, sobre o baixo desempenho dos alunos no 2º Bimestre, os alunos ouvem-na sem interrupções ou sobreposições, aceitando seu papel social na interação. Os alunos sabem muito bem quando e como eles podem tomar o turno, sempre sinalizado pela professora, que eleva o tom de voz para retomar o enquadre aula sempre que lhe convém, no que é imediatamente atendida por eles.

A técnica de revozeamento também é utilizada por Tânia nas aulas, mas sobretudo quando ela quer ativar o enquadre de brincadeira, revozeando algum insulto produzido por algum aluno, na busca do alinhamento dos outros alunos àquele enquadre.

Outro procedimento interacional observado foi a iniciação de reparo, tanto por parte dos alunos quanto pela professora. Os alunos iniciam reparo porque demonstram o não entendimento de uma elocução por conta das sobreposições, como recurso de proteção à sua face ameaçada pela professora ou por outro(s) alunos(s), ou para dar oportunidade da professora reparar a ofensa/insulto. A professora, por sua vez, inicia

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reparo para reforçar a ofensa/insulto produzido por ela ou outro aluno, ou até mesmo porque não entendeu determinada elocução.

Enfim, naquele ambiente interacional, a organização da fala-em-interação está a serviço da reprodução do conhecimento e do controle da disciplina.

A propósito da disciplina em sala de aula, as elocuções construídas pela professora permitem a mediação de possíveis conflitos que poderiam se originar dos insultos rituais. Os dados demonstraram que a partir do acordo tácito de organização interacional feito entre alunos e professora, o ambiente interacional fica propício a fazer as passagens entre o enquadre aula e o enquadre brincadeira sem qualquer conflito, mesmo após alguns insultos que poderiam ser interpretados como sérios. A professora, ao perceber a possibilidade de conflito, e para salvar a face dela e dos alunos envolvidos, reaciona o enquadre aula através de tom mais elevado da voz, entonação ascendente, subida acentuada na entonação, pausas em pontos estratégicos da elocução, conseguindo, sempre êxito em seu empenho.

Sobre os elementos distintivos entre a interação cotidiana e a interação institucional em sala de aula, percebemos que mesmo quando estão todos os participantes alinhados ao enquadre de brincadeira, rindo compartilhadamente, características próprias da interação cotidiana, a professora não ri, por estar orientada para o cumprimento do mandato institucional por ela estabelecido nas aulas (ler e interpretar os textos). Com isso, quando ela dirige os insultos aos alunos, quando usa de ironia ou deboche para chamar a atenção do aluno para algum erro de conduta (não fazer a atividade do livro, questionar o que ele faz na escola, se ele não está lá para estudar, sugerir que o caderno vai ficar “novinho” até o final do ano porque o aluno não faz anda...), ela se coloca num “palco” de stand comedy, faz o seu show para chamar a atenção dos alunos para o mandato institucional ali estabelecido, convida os alunos para o enquadre de brincadeira e logo em seguida “sai de cena” para retomar o enquadre aula.

No que tange ao riso como mecanismo de proteção da face quando esta se

encontra ameaçada, os dados comprovaram que o riso funciona como “tópico protetor”10

(JEFFERSON, 1984, p. 351), quando ambos interlocutores riem na conversa sobre problemas, como forma de distencionar o ambiente, fazendo piadas, elaborando ironias e deboches sobre o problema ou sobre o indivíduo causador do problema, que podem ser iniciados tanto por aquele que iniciou a fala sobre o

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problema quanto pelo seu interlocutor, num processo claro de proteção/salvamento de face.

Assim, nas interações analisadas, tanto a professora quanto os alunos assumem dois pontos de vista, quando são alvos dos insultos rituais: uma orientação defensiva, tendo em vista preservar sua própria face; uma orientação protetora, tendo em vista preservar a face do outro. Quando ocorreu a "invasão da territorialidade" por parte de um ou vários dos participantes, observamos que houve o que Goffman (2012) de perda da face. Diante dessa situação, os alunos se valeram principalmente dos risos para neutralizar as ameaças, confirmando Jefferson (1984), que infere que o riso nem sempre é desencadeado por algo engraçado e que tem sempre um caráter convidativo para o alinhamento do interlocutor ao enunciado anterior. Voltamos a destacar que nesses momentos de riso, de acordo com nossas observações e notas de campo, a professora não ri e em alguns poucos momentos apenas sorri, mesmo quando convida os alunos ao riso ao dirigir-lhes insultos rituais.

A partir de tais proposições até aqui pontuadas, estabelecemos três categorias de insultos rituais observadas nas três aulas transcritas e analisadas: 1. A professora insulta o aluno; 1.1. O aluno auxilia a professora no insulto; 2. O aluno insulta a professora; 3. Insulto entre os alunos.

Lembrando o que afirma Labov (1972) a partir de suas descrições das regras do insulto ritual, há três participantes nesses eventos em que alguém é alvo de insultos, quer seja a professora Tânia, quer sejam um ou alguns alunos: antagonista A, antagonista B e o público, em que A insulta B, e/ou B insulta A e o público avalia positivamente ou negativamente, destacando-se que a avaliação positiva marca os eventos como um ritual de interação que evidencia o pertencimento àquele grupo, construindo o enquadre de brincadeira naquele ambiente interacional.

Averiguando o entendimento dos participantes do que acontece quando um insulto é dirigido a alguém, os dados demonstraram que os alunos participantes constroem o enquadre de brincadeira sob a orientação da professora participante e das pistas de contextualização que emergem a partir dos insultos rituais e consequentemente dos risos surgidos em determinados momentos da interação, sendo a professora a responsável pela maioria dos insultos registrados nos dados analisados.

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