uma vez que, como afirma, os conceitos variam em função “das conceptualizações e do ponto de vista de quem o descreve e/ou define, representando os termos que os designam um meio de adquirir, criar, comunicar, armazenar, representar e operacionalizar conhecimento”.
1.3.1. Especificação semiformal da conceptualização
Embora exista um número crescente de ferramentas e recursos semânticos
disponíveis, surgem ainda vários problemas quando procuramos estabelecer uma
conceptualização comum de uma dada realidade, como reconhece Pereira (2010: 01), uma
vez que:
(i) apesar da evolução das tecnologias semânticas, é virtualmente impossível criar artefactos semânticos que consigam responder completamente a todas as variações possíveis que podem ocorrer em diferentes contextos e situações de negócio (sendo estes cada vez mais dinâmicos); (ii) apesar de todos os esforços para definição de normas, sabe‐ se que existe um tipo de “resistência social” na aceitação de normas semanticamente orientadas.
Esta visão parte dos problemas e falhas apontados ao processo de construção de
ontologias por autores como López et al. (1999) que vêem como necessário, por um lado, o
reforço do desenvolvimento de metodologias que apoiem a fase complexa de aquisição de
conhecimento e, por outro, o desenvolvimento de ferramentas que apoiem a
conceptualização do conhecimento e que, tendo por base esta conceptualização, geram a
ontologia.
Staab (2008) aponta um outro problema, que advém do facto de a noção de
conceptualização partilhada não estar ainda bem explorada, nem bem entendida, nem ser
compatível com a maioria das ferramentas de engenharia de ontologias, apesar dos diferentes graus de formalização estarem já bem investigados e integrados em diferentes tecnologias baseadas em ontologias.
de Moor (2005), por outro lado, chama a atenção para a necessidade da investigação em engenharia de ontologias se concentrar mais no desenvolvimento de processos de negociação de significado, processo que descreve como parte integrante do processo de construção colaborativa de uma conceptualização.
Este processo de negociação de significado é descrito por de Moor (2005) como o
desenvolvimento de “ontology‐guided, community‐oriented processes for agreeing upon and
reaching the appropriate amount of consensus on terminology and concept definitions”,
processos que entende como essenciais ao desenvolvimento efectivo de serviços
colaborativos no contexto de um comunidade em que coexistem diferentes significados e interesses. Por outro lado, para o autor, o problema de como chegar a um consenso sobre o
conteúdo de uma ontologia num ambiente distribuído, tal como acontece no caso das redes
colaborativas, antes descritas, não se encontra ainda resolvido.
Tendo em conta estas lacunas, Pereira (2010: 24,25) enquadra a conceptualização no contexto do espaço partilhado por uma comunidade e descreve‐a como um processo
dinâmico de construção de significado, definindo o processo de conceptualização como “o
conjunto de actividades que nos permitem obter uma conceptualização de um determinado domínio de aplicação, partilhada por um conjunto de actores”.
Na definição que propõe, a autora inclui, no processo de conceptualização, o
processo de partilha de conhecimento sobre um domínio, levado a cabo por um conjunto de
actores que formam um comunidade, processo que entendemos como essencial para a obtenção de uma conceptualização efectiva e partilhada do conhecimento do domínio,
sobretudo quando desta partilha resulta uma ontologia representada em mais do que uma
língua, como procuraremos demonstrar ao longo desta dissertação.
O processo de conceptualização pode, segundo Pereira et al. (2012), ser de ordem
individual ou colaborativa. No que se refere à conceptualização individual, descrevem o processo de conceptualização de uma dada realidade como sendo “uma colecção de actividades cognitivas ordenadas, que tem como input informação e conhecimento interna e externamente acessível ao individuo e como output uma representação conceptual interna ou externa”. O processo de conceptualização colaborativa, por seu lado, é descrito como
uma “conceptualização que envolve mais do que um indivíduo, produzindo uma
individual, a representação conceptual colaborativa envolve actividades sociais que incluem a negociação do significado e a gestão das actividades de desenvolvimento do próprio processo colaborativo (Pereira, 2010: 24,25).
Pereira & Soares (2008: 614) situam este processo de conceptualização na fase inicial da construção da ontologia, ou seja, numa fase que designam de fase de especificação semiformal, em que não se recorreu ainda a uma representação formal (através de linguagens como o owl ou o rdf).
Para Pereira (2010: 24,25), a conceptualização é uma actividade vital à partilha de
informação e conhecimento no contexto de uma rede colaborativa, constituída por equipas
provenientes de diferentes organizações, com a sua própria cultura, experiências e visão do mundo. Segundo Pereira & Soares (2008: 606), a conceptualização é a base para a
organização do sistema de informação e conhecimento, sendo fundamental para estruturar,
armazenar e extrair informação e essencial à compreensão efectiva das práticas
colaborativas. Para os autores, a actividade de conceptualização permite a criação de um modelo conceptual que reflecte “the semantic agreement established that will be the keystone for information and knowledge sharing” (idem, ibidem).
O sucesso de uma ontologia depende, assim, directamente da conceptualização, que,
tal como defende Pereira (2010: 157), é um processo social, i.e., que necessita de uma presença social elevada na criação de um modelo conceptual que reflicta os acordos
semânticos21 que serão a base para a partilha de informação e conhecimento, tal como é descrito na figura seguinte. 21 Acordos obtidos entre especialistas, no desenrolar do processo de conceptualização, relativos ao significado dos termos de um domínio específico.
Fig. 1 ‐ Relação entre actividade de conceptualização e desenvolvimento colaborativo de ontologias. (Pereira 2010: 30) Para a autora, as actividades de conceptualização incluem a identificação, análise e negociação dos conceitos a incluir na ontologia, a análise das suas características, definição e
relacionamentos, bem como a “organização e estruturação do conhecimento usando
representações externas independentes dos artefactos de implementação” (Pereira, 2010:
03), sendo o resultado do processo de conceptualização constituído por uma representação
semiformal do conhecimento, sob a forma de mapas conceptuais22.
A conceptualização ocorre, assim, na fase que antecede a especificação formal da ontologia, resultando este processo num modelo conceptual que reflecte os acordos semânticos estabelecidos para a partilha de informação e conhecimento (Pereira, 2010: 13)
e implica a existência de uma estrutura conceptual e de um processo de representação das
estruturas conceptuais, que conduza à externalização de uma estrutura conceptual através
da sua representação.
Dos diversos formalismos de representação de conhecimento existentes, a
representação e especificação da conceptualização pode ser realizada com recurso a mapas
de conceitos (Pereira, 2010: 25,26). Estes mapas de conceitos, cuja utilização analisaremos
com maior profundidade no ponto 3.6, correspondem a um formalismo gráfico de
representação de conhecimento que permite a captura, construção, reflexão, refinamento,
comunicação, colaboração e transferência de conhecimento.
22 Roche (2006a) descreve esta representação como um formalismo semi‐formal: “we can represent the
Esta forma de modelação conceptual possibilita a descrição de modo semiformal de aspectos do mundo físico e social que nos rodeia com o intuito de permitir a compreensão e a comunicação. Desta actividade resulta o que Pereira (2011: 19) designa de representações externas, correspondentes a representações visuais do conhecimento, as quais são
partilhadas por uma determinada comunidade, obtendo a sua coerência de acordo com o
conhecimento científico dessa comunidade.
O facto desta externalização poder, nesta fase, ser expressa com recurso à língua natural, permite aos especialistas do domínio, por outro lado, afastarem‐se dos paradigmas
de modelação das ontologias e das linguagens de representação subjacentes e
concentrarem‐se nas (suas) necessidades de modelação do conhecimento do domínio.
Neste contexto, acreditamos que a hipótese dos membros de uma comunidade colaborativa especificarem uma ontologia com recurso à língua permite que a actividade de construção de uma ontologia possa ser percebida como uma actividade mais acessível. Acreditamos, ainda, que se os especialistas puderem expressar as suas necessidades de representação do conhecimento na sua própria língua de trabalho, a eventualidade de contribuírem para a construção e validação das ontologias pode tornar‐se mais atractiva e mais efectiva23.
1.3.2. Terminologia e conceptualização
Sousa et al. (2012a: 27), que enquadram o desenvolvimento da conceptualização
num ambiente de partilha e negociação e numa fase anterior à da especificação formal da
ontologia, dividem, o processo de desenvolvimento de uma conceptualização em quatro fases principais: “elicitação de conceitos, organização de conceitos, partilha de conceitos e negociação dos conceitos”.
23 Uma representação semiformal de um sistema conceptual oferece perspectivas de grande valor e interesse, partindo do princípio que o modelo conceptual definido é correctamente avaliado e validado pelos especialistas. O estudo dos problemas interlinguísticos a partir da sua representação conceptual é, a nosso ver, um dos exemplos dessa vitalidade.