processo de conceptualização.
Os textos podem revelar‐se como um elemento de grande utilidade, se manipulados
com cuidado e, como deixámos claro, se manipulados com a noção clara de que um texto de
especialidade pode não corresponder ou conduzir à obtenção de elementos que sustentem
a construção de uma estrutura organizada de conhecimento, sobretudo no caso da construção de uma ontologia.
1.5.2. Perspectiva conceptual
A perspectiva conceptual centra‐se no conceito. O recurso a uma perspectiva conceptual implica que a análise do conhecimento do domínio se realize a partir do conceito, sendo a primazia do conceito sustentada por elementos conceptuais que se
reportam essencialmente ao conhecimento transmitido pelo especialista de domínio.
Na perspectiva de Roche (2008) a língua natural não representa um veículo adequado para especificar formalmente uma conceptualização42. Esse não é o seu objectivo, tal como o objectivo de escrever um texto não é o de definir uma ontologia. Como refere, as coisas não são tal e qual como são ditas: « dire n’est pas concevoir » (Roche, 2008b). Para o autor, a conceptualização de um domínio não pode ser extraída de uma única análise
linguística de textos, dado que frequentemente o conhecimento não se encontra escrito em
documentos científicos e técnicos (por exemplo, conhecimento tácito), o que torna a presença dos peritos e a sua colaboração indispensável ao trabalho terminológico e à
organização do conhecimento, opinião com a qual concordamos.
Roche defende, assim, que um modelo conceptual construído a partir dos textos não
corresponde a uma ontologia. Uma tal conceptualização, assente numa perspectiva
linguística, seria, do seu ponto de vista, dependente do corpus e incapaz de oferecer as
42 A terminologia é, nas palavras de Roche (2005: 50), uma língua “de l’íntellection qui étudie les rapports entre
les concepts et les choses”, o que o leva a defender como ponto de partida para a organização do
conhecimento de um domínio, uma abordagem terminológica centrada na conceptualização do conhecimento. Nas palavras de Roche, tal como a língua é considerada um sistema, também uma terminologia é um sistema, neste caso de termos que reflectem uma conceptualização.
principais propriedades expectáveis numa ontologia, como a reutilização. Para além disso, afirma que uma ontologia extraída a partir de textos não corresponde às ontologias definidas por especialistas com recurso a uma linguagem formal.
Esta não correspondência resulta, no seu ponto de vista, do facto de uma ontologia ser o resultado de uma conceptualização extralinguística, enquanto que o conhecimento extraído dos textos:
is the concern of textual linguistics. Incompleteness of text and using rhetorical figures, like synecdoche, deeply modify the perception of the conceptualization we may have. It means that ontological knowledge, which is necessary for text understanding, is not in general embedded into documents. (Roche, 2007: 47)
Por outro lado, e tendo em conta que as aplicações relacionadas com o tratamento
da informação necessitam de uma representação computacional dos conceitos, considera
que a terminologia não consegue oferecer os meios necessários para a sua
operacionalização. De acordo com o seu ponto de vista se uma conceptualização “se dit bien en langue, elle se définit dans un système formel guidée par des principes épistémologiques où l’ontologie occupe une place preponderante” 43 (Roche, 2008: 70). A utilização de uma linguagem formal, cuja sintaxe e semântica sejam claramente definidas torna‐se, assim, essencial para eliminar as ambiguidades44.
Esta posição está próxima da de Grenon (2008: 76) quando afirma que a língua natural fornece pistas para a construção de uma ontologia, mas não deve ser o único critério de correcção e de validação do resultado final desta construção, posição na qual nos
revemos. Tal como nos lembra Grenon, se tudo na língua natural correspondesse a algum
aspecto da realidade, então não haveria, à partida, necessidade de proceder à
representação ontológica ou à modelação conceptual.
43 Roche chama a atenção para o facto de a lógica (Baader et al., 2003) e das linguagens formais utilizadas pela IA (Sowa 2000), (Brachman et al., 1985) serem antes de tudo, sistemas de representação cuja finalidade não é a de compreender o mundo, mas de o descrever de “manière formelle pour les premiers, à des fins de calcul
par un ordinateur pour les seconds”.
44 Roche defende que a sociedade numérica, ao reclamar a operacionalização das terminologias para proceder à gestão da informação, reactualizou a terminologia Wüsteriana. A dimensão conceptual reencontrou, na sua perspectiva, um lugar preponderante que tinha perdido em favor da lexicografia de especialidade. Dá, como exemplo desta afirmação, a emergência da noção de ontologia no seio da terminologia.
Como afirma, em consonância com Roche, um modelo conceptual construído directamente a partir de uma estrutura lexical poderá não ser reutilizável, uma vez que é demasiado dependente do corpus, e, por outro lado, incorrecto, se se considerar uma ontologia como a non‐contingent knowledge. Para Grenon (2008: 77), se a língua natural tiver a capacidade de impor “an ontological inquiry unimpeded, the ontologist risks making the radical claim that an ontology must stand in a one‐to‐one correspondence with the elements of natural language (or as close thereto as possible)”. Tal conduziria, no limite, a que obtivéssemos uma relação do tipo uma palavra
‐ um conceito (‘one word, one concept’), resultando daqui um sistema demasiadamente rico em conceitos e distante de uma ontologia formal.
A perspectiva conceptual, adoptada por algumas abordagens da inteligência artificial
e da Terminologia encara, assim, uma ontologia como uma construção onde o especialista e
o engenheiro do conhecimento ocupam o papel central na conceptualização, resultando
deste processo uma representação da realidade diferente da que se poderia eventualmente
extrair a partir de elementos linguísticos presentes no texto. O recurso a uma perspectiva conceptual implica, assim, reconhecer que não é possível construir ontologias de modo directo a partir de textos ou de corpora.
De facto, e dadas as limitações inerentes ao uso de textos, que apontamos antes, importa reconhecer que no texto não existe conhecimento, mas antes elementos linguísticos que fornecem pistas para a organização conceptual de um domínio, o que inviabiliza, por
exemplo, o uso dos textos como suporte à construção automática ou directa de ontologias,
onde podem mesmo constituir‐se como elementos que geram algum ruído. O recurso ao texto encerra, efectivamente, dificuldades, criando obstáculos associados à utilização de corpora para a realização de um trabalho terminológico de representação do conhecimento de um domínio, até porque, não raramente, “on trouve dans les textes ce que l’on veut y voir et non pas ce qui y est” (Costa 2010: 03).
No entanto, e como afirma Santos (2010: 101), na abordagem conceptual, o texto pode ser prescindível, mas não a terminologia. A terminologia, partindo deste ponto de
vista, está para além do texto e não se deve prender ao discurso verbal sob pena de não
O recurso a uma perspectiva conceptual implica que a valência do conhecimento se centre no conceito e não no termo. As relações entre os conceitos reflectem a organização do conhecimento de domínio, cuja rede é elaborada com recurso prioritário ao especialista que trabalha em conjunto com o terminólogo ou com o engenheiro de ontologias, sendo a especificação da conceptualização, referida por Gruber, feita através de uma linguagem, e não da língua. Santos (2010: 94) entende, a este propósito que “o que tendencialmente se verifica é que a linguagem de representação descreve, mas não define, o conceito”. A importância da conceptualização de um domínio é vista por Roche (2008: 70) como
fundamental para a terminologia, uma vez que “il ne peut y avoir de terminologie sans connaissances”. Na nossa perspectiva, o inverso é também verdade, i.e., a terminologia é um
elemento essencial de apoio a uma conceptualização efectiva de um domínio de
especialidade e essencial ao processo de conceptualização que permite e promove o acesso
ao conhecimento desse domínio, tal como defendemos antes.
Entendemos também, como deixámos claro antes, que a participação do especialista
no processo de conceptualização ‐ uma preocupação central ao uso de uma abordagem conceptual e essencial para o seu sucesso ‐ não é isenta de riscos, pelo que se torna
essencial fornecer os meios adequados e acompanhar o especialista do domínio, de modo a
que este forneça o conhecimento necessário à construção do sistema conceptual sem
necessariamente compreender as propriedades formais ou computacionais ou a linguagem
formal de representação do conhecimento subjacente à sua formalização.
Na nossa opinião, as duas perspectivas, a linguística e a conceptual, não ocupam
planos antagónicos ou mutuamente exclusivos. Consideramos mesmo que uma abordagem
mista, que resulte do uso complementar das duas perspectivas, de modo flexível e em adequação às necessidades e propósitos de análise do conhecimento de um domínio específico, pode conduzir a resultados mais profícuos na representação desse mesmo
conhecimento. Tal como afirmava Costa já em 2005:
Si d’un côté, il y a symbiose, de l’autre la distinction théorique est indispensable pour comprendre la différence entre la perspective linguistique, plutôt sémasiologique et la perspective conceptuelle, plutôt onomasiologique, qui ne s’excluent pas mutuellement, mais si complètent, ceci étant finalement de la compétence du terminologue. Cette opposition presque dichotomique nous semble aujourd’hui bien réductrice.
Por outro lado, ainda que a formalização das representações obrigue a que as especificações das conceptualizações sejam feitas através de uma linguagem, não da língua, resultando daí um conjunto de restrições, e que não exista uma relação de um para um entre texto e ontologia, acreditamos, tal como (Santos, 2010b: 02), que a construção de ontologias “não pode nem deve subtrair‐se à questão linguística, sendo o contrário igualmente verdadeiro: o lexical não deve substituir o conceptual. Assim, na construção de ontologias não existe exclusividade, mas complementaridade, entre as abordagens que partem do linguístico e do extralinguístico”.
Como afirmam Costa e Silva (2008), sendo verdade que a organização do
conhecimento se encontra ao nível extralinguístico, não é menos verdade que:
c’est à travers l’acte de la parole, c’est‐à‐dire le discours, que nous pouvons accéder à la représentation de l’organisation des connaissances. La parole étant un moyen privilégié de représentation du monde et l’endroit de construction du sens; mais elle n’est pas le monde en soi.45
Já no que se refere à especificação de uma ontologia em mais do que uma língua
natural, acreditamos que o recurso às duas perspectivas pode resultar numa mais valia no
desenvolvimento de uma abordagem interlinguística, ainda que a perspectiva conceptual,
decorrente da abordagem onomasiológica, deva assumir a primazia. Acreditamos que, numa abordagem interlinguística, em que se parte do princípio que a representação conceptual é transcendente às diferentes línguas, o processo de escolha dos termos não pode partir das formas, mas dos conceitos, não podendo, consequentemente, ser uma tradução ou uma localização de nomes, ou uma simples questão de equivalência das denominações, mas antes uma busca pela denominações naturais que em cada língua
correspondam a um conceito de especialidade, tal como expresso pelos especialistas em
situações de comunicação profissional, o que reforça a necessidade da sua presença e do seu papel de validação. 45 Os signos usados para nos referirmos à realidade não são, de facto, a realidade em si mesma, mas apenas a sua representação mental organizada em conceitos (Cabré, 1999: 40). No entanto, estas duas realidades – o mundo e a sua representação discursiva – formam para Costa e Silva (2008) o que descrevem como uma associação estável e indissociável, revendo‐se as autoras nas palavras de Aubenque (1962:128), quando diz “C’est parce que les choses ont une essence que les mots ont un sens”.