Erving Goffman, na sua célebre obra Presentation of self in everyday life, publicada originalmente em 1959, concebe a metáfora da vida enquanto teatro. Goffman (1985) emprega o modelo de representação teatral para explicar a interação entre as pessoas e as formas pelas quais elas dirigem e direcionam as informações a serem passadas ao seu público, que, na sua análise, deixa de ser o elemento passivo do teatro para participar da cena como ator, influenciando e sendo influenciado pelos demais.
Apesar da tendência em fixar a si e aos outros em determinados papéis, a dinamicidade da identidade não ficaria comprometida, pois a representação desses padrões não diminui a complexidade da interação. As cenas, por mais que bem ensaiadas, estão sempre suscetíveis a interferências externas. A interação permanece imprevisível, carregada de expectativas e imagens complexas.
32 Os papéis que um indivíduo escolhe ou cujas representações lhes foram outorgadas precisam ser confirmados no processo de comunicação social: é preciso convencer os outros de que “ele serve para aquele papel”, sob o risco de ter a sua representação deslegitimada.
Esse convencimento é fruto da coerência entre linguagem, postura e vestuário adotados e as expectativas dos demais em relação àquele determinado papel. Por isso o encontro das pessoas fora dos papéis em que normalmente interagem, como no caso de um aluno encontrar o professor “à vontade” em uma viagem, ou mesmo de um fã encontrar seu ídolo realizando alguma atividade ordinária, causa certo desconforto para ambas as partes.
Segundo Goffman (1985), papéis são direitos e deveres ligados a uma situação social. Cada postura assumida por um indivíduo desperta uma série de expectativas, em si e nos outros. Estas expectativas conformarão obrigações e convenções sociais, que colocarão à prova sua aptidão para o exercício do papel.
Os eus que se apresentam variam de acordo com as escolhas dos papéis que se pode representar em determinada cultura. O repertório de papéis possíveis será determinado pela estrutura social, contudo ele varia de individuo para individuo, de acordo com sexo, idade, aparência e classe social, entre outros.
É “natural” na sociedade que o papel de criminoso seja representado por determinado tipo
social: geralmente homem, jovem, de origem humilde, crescido em uma família desestruturada etc. Quando há um rompimento dessa lógica, fica-se com a impressão de que
“algo não se encaixa”, comprometendo a harmonia na combinação dos papéis representados por uma mesma pessoa e, conseqüentemente, perturbando a expectativa social que identifica determinadas atitudes como pertencentes, exclusivamente, a certos tipos de pessoas.
Daí a importância de haver certa harmonia entre os diversos papéis que são representados, pois caso o “leque de papéis” do individuo seja composto de partes muito discrepantes e
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contraditórias entre si, será difícil para o público compreendê-lo como uma unidade, ou de aceitar um e outro papel, concomitantemente35.
Conforme a pessoa muda de grupo social ou de platéia, ela pode assumir facetas e comportamentos diferentes a partir da representação dos mais variados papéis. É esse repertório o responsável por compor o seu “eu”, que será único à medida que as possibilidades de combinação de papéis são infinitas e as personagens variam de ator para ator.
Apesar de haver repetição dos papéis sociais, a personagem é fruto da química entre o papel enquanto padrão social e aquele que o representa. Logo, mesmo que duas pessoas cumpram papéis idênticos, suas representações nunca serão iguais, assim como suas identidades não podem ser reduzidas a uma só.
E ainda que os papéis constituam padrões sociais, a interação não fica limitada a essas estruturas, ao contrário ela as desafia, já que a todo momento as personagens estão sendo testadas e modeladas:
“Todos nós estamos continuamente empenhados num processo que dura toda a nossa vida - de construção, manutenção e remodelação do eu. Todas as atividades de autocriação - a experiência de novos eu,s a manutenção ou remodelação do eu estabelecido, o abandono de um eu antigo, talvez obsoleto - consistem em grande parte em comportamentos que ajudam a confirmar nossas pretensões a nosso respeito e evitar o comportamento que tende a prejudicar essas pretensões”.
(Cohen, 1968, p. 208)
35 Como no caso da combinação “menina-bonita-de-boa-família-universitária-inteligente” destoar do exercício do
papel de criminosa: “Universitária, bonita, nascida em berço privilegiado,(...), tinha tudo para um futuro
promissor. Boa aluna, até a quinta-feira 7 ela cursava o primeiro ano de direito na PUC de São Paulo, onde era vista pelas colegas como uma pessoa alegre e bastante simpática. Na madrugada da sexta-feira 8, porém, se tornou pública uma outra face de Suzane. Uma face extremamente cruel...”
34 Os papéis são atualizados na própria vivência, no que Goffman (1985) denomina interação
face-a-face, ou seja, na influência recíproca de um individuo sobre outro enquanto presença
física imediata; conceito que deve ser reatualizado à luz da pós-modernidade, momento em que a presença virtual, imediata, adquire grande importância na conformação identitária.
As questões - “Quem sou eu nessa situação?” (Strauss, 1999), “Quem é meu público?”,
“Quais são as expectativas de ambos?”- podem ser um caminho para determinar a identidade
situacional, ou seja, qual o personagem que a pessoa está representando naquele momento e o que o público espera dele, como a pessoa deve agir de forma a convencer o seu público da sua representação.