3.8.1 Analiz Sonuçları ve Bulgular
4.1.2.1 Lagina Kutsal Alanı Naos Buluntuları
“E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser”33
(Macabéa em A hora da estrela, Clarisse Lispector)
A partir dos pressupostos acima elencados a identidade pode ser entendida como a síntese dos sentimentos e concepções que o individuo tem em relação a si mesmo a partir de suas representações sociais. Ela é formada, confirmada e transformada em um processo dinâmico, e é re-atualizada a cada interação social.
O homem é um ser social. Logo, a compreensão individual de identidade não pode ser destacada de seu contexto histórico: a identidade é uma construção social à medida que o ambiente não só influencia a identidade, mas a constitui. O homem cria a si próprio, assim como constrói os outros homens e a sociedade em que vive, ao mesmo tempo em que é construído por eles.
A identidade se constitui na dinâmica comportamental, e não por um conjunto de características do indivíduo. Longe de ser um ente transcendental que atua sobre a realidade, ela é a própria realidade.
33A personagem de Clarice Lispector antes de sair de casa fazia a síntese de quem era, do que gostava e quais os
papéis que teria de representar durante o dia, e isso lhe trazia segurança (“pensava com satisfação”) principalmente por confirmar a sua mísera existência. Além desses papéis conscientes, outros lhe estavam agregados: Macabéa era alagoana, pobre e mirrada, submissa e sonhadora, que passava pela vida sem ser percebida. Porém, parte desse padrão é alterada no momento em que ela encontra uma cartomante, que a elogia, a trata com carinho e lhe prevê um belo futuro. Essa interação vai ser crucial na forma de ela se enxergar e se colocar para o mundo, modificando e constituindo a identidade de Macabéa.
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Ela consiste numa multiplicidade de papéis atualizados na dinâmica social, e ao mesmo tempo, na síntese deles, numa conformação única que garantirá as individualidades biográficas. Essa multiplicidade de papéis é a manifestação da identidade em movimento, enquanto processo que se renova no dia-a-dia, na comunicação com os outros. Mas a identidade é também produto, um denominador comum que nos acompanha nesse movimento, um padrão pelo qual se reconhece e se é reconhecido, de forma a conformar as expectativas sociais.
A identidade é ao mesmo tempo produto e processo. Produto como a síntese de todas as nossas representações, e processo, enquanto as representações em si mesmas. Segundo Ciampa (2004, p.61) a identidade é “uma totalidade contraditória múltipla e mutável, mas
una”.
Enquanto processo a identidade consiste no que Santos (1999) denomina “identificação em
curso” ou o que Ciampa (2005) chama de “metamorfose, morte-e-vida”. Esse processo
identitário se desenvolve no dia-a-dia, a partir das circunstâncias da interação entre o próprio ator e o público, e de suas expectativas recíprocas. A identidade se forma a partir de uma variedade de eus, que representam diversos papéis perante públicos variados.
Essa rede de representações é apenas uma das facetas da identidade, pois a identidade também é produto caracterizado pela coerência e unicidade. Uma conformação singular que diferencia o indivíduo dos demais, uma totalidade formada pelo conjunto dos eus, um padrão único.
A identidade se compõe de dimensões aparentemente contraditórias, tais como a individual e social, a igualdade e a diferença, a unidade e a multiplicidade. E é a síntese desses elementos que vai garantir a individualidade34.
34 O termo individualidade aqui é usado aqui para se referir ao que difere uma pessoa das demais, a consciência
de ser único dentre os seus semelhantes. E é produto da síntese entre os papéis sociais que ela ocupa e suas características pessoais; tal combinação sempre resultará em uma conformação única, exclusiva daquele indivíduo.
30 Logo, apesar de haver semelhança nos papéis sociais que são representados, os personagens e a identidade sempre serão diferentes, pois cada junção e combinação de papéis em determinado indivíduo resultarão numa conformação única.
Pelas semelhanças e diferenças se constrói a identidade. O próprio significado da palavra identidade traz essa dubiedade, já que pode designar tanto a igualdade entre duas coisas quanto o conjunto de características exclusivas do sujeito, que o diferencia dos demais e pelas quais se é reconhecido.
A pessoa se apresenta ao mundo com um nome, que diz a ela e aos outros quem ela é. O prenome é o responsável por diferenciá-la das outras pessoas, enquanto o sobrenome a iguala aos seus familiares, àqueles de mesma origem (Ciampa, 2005). A pessoa se torna o seu nome, por isso traz incômodo quando alguém o confunde com o de outra pessoa ou o esquece. Apesar do fato de se imaginar sendo chamado de outra forma causar certo estranhamento, no decorrer da vida uma mesma pessoa recebe epítetos diferentes, na forma de apelidos, sobrenomes, alcunhas, seja devido a relações familiares ou de amizade, status social, categoria profissional etc.
Quando é perguntado - quem é você? - o indivíduo geralmente identifica-se com o seu nome, seguido de categorias que se acredita pertencer, entre as quais a nacionalidade, idade, estado civil, profissão etc.
Mas o que realmente lhe determina são suas ações, pois a partir delas é que ele se relaciona com o mundo. As ações incorporam-se à identidade e assumem formas substantivadas, ou seja, o verbo dá lugar a um substantivo e o sujeito passa a se valer dele para compor sua identidade. Logo, quando lhe perguntam - “o que você faz da vida?” - a tendência é responder “eu sou...”, e não “eu faço tal coisa”.
O substantivo, ao contrário do verbo, é caracterizado pela permanência, constância. As ações estão ligadas a um tempo e espaço determinados, porém, ao serem substantivadas fixam-se, depreendem-se de qualquer referência histórica: o tempo do verbo se torna invariável no
31 substantivo. Por isso é comum se dizer, por exemplo: eu sou professor, e não eu leciono ou eu
lecionei.
Ademais, o substantivo subsiste à ação: mesmo não sendo mais realizada a ação, continuamos nos identificando com ela (Ciampa, 2005). É o caso dos aposentados ou desempregados, que mesmo sem exercer a atividade laboral continuam se identificando com o trabalho que exerciam.
É também a situação daquele que praticou o crime. Uma vez cometida a ação criminosa, o substantivo criminoso passa a acompanhá-lo, independentemente da reiteração dessa ação ou do tempo em que ela ocorreu. Isso porque o substantivo criminoso, além de estar ligado a uma ação, faz referencia a um estigma, o qual será tratado no item 2.3.