A principal tarefa da criminologia clínica e crítica seria contextualizar o comportamento problemático, assim como o seu autor a partir de sua história, elucidando as relações conflituosas nas quais ele está envolvido, de modo a compreendê-lo dentro de sua individualidade e fortalecê-lo perante o sistema punitivo.
Porém, para a consolidação de uma criminologia clínica que se queira crítica, que busque a emancipação do homem enquanto sujeito ativo de sua história, deve-se respeitar alguns pressupostos consolidados pela crítica, de forma a não retroceder ao determinismo ou à etiologia criminal da escola tradicional, que reduz o homem a um objeto de intervenção penal, ao mesmo tempo em que o considera como o verdadeiro produtor da realidade criminal.
O primeiro pressuposto para uma abordagem clínica crítica é de reconhecer o indivíduo selecionado pelo sistema penal como igual aos demais:
“Só é possível observar o delinqüente como ator social que interage com outros não delinqüentes sem perder de vista não existirem características especificas dos atores sociais delinqüentes que permitam tipologias para o estudo da questão criminal”
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O segundo pressuposto seria observar o indivíduo delinqüente não a partir de uma abordagem
etiológica, mas com o fim de obter uma compreensão global da historia daquele indivíduo, interpretando o sentido de seu comportamento e o contextualizando na sua vida:
“O comportamento humano, como realidade exterior, não é mera representação ou fenômeno, mas um complexo de valores que se inter- relacionam a todo momento e com todos. Compreender a história de uma coletividade ou de uma personalidade é se relacionar com ela e com os próprios valores”
(Velo, 1998, p.132)
O terceiro pressuposto, ao lado da abordagem psicológica ou micro-sociológica realizada pela clínica, consistiria em não perder de vista o modelo do conflito construído pela perspectiva macro-sociológica da crítica. Ainda que seja importante olhar para aquele que foi criminalizado dentro de suas peculiaridades, não esquecer que o mesmo é um sujeito histórico, fruto de uma sociedade de classes e imerso nas relações de poder dessa sociedade.
O quarto pressuposto seria reconhecer que a delinqüência é uma realidade construída, que não existe o crime ou o criminoso independentemente de uma instância que lhe atribua esse rótulo. Uma vez que nem todos os comportamentos problemáticos são criminalizados, e nem todos os comportamentos criminalizados são problemáticos, o que define o que é crime ou não, não é a reprovação social do ato (como no modelo de sociedade de consenso), mas um poder que constrói essa significância.
O quinto pressuposto é de que o sistema de controle é seletivo e reprodutor de violência. São selecionadas tanto as ações a serem criminalizadas pelo Direito Penal, como os tipos de pessoas que vão ser julgadas e condenadas por esse sistema (as mais vulneráveis psico- socialmente) e que, após a intervenção penal, sairão mais enfraquecidas ainda.
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Nesse sentido cabe reproduzir parcialmente o conceito com enfoque crítico elaborado por Alvino Augusto de Sá31 por nos parecer essencial à construção brasileira de uma nova criminologia clínica:
“Criminologia Clínica é uma ciência interdisciplinar que visa conhecer o homem encarcerado enquanto pessoa, conhecer sua história de marginalização social, pela qual ele sofreu um processo de deterioração social e, até mesmo psíquica, fragilizando-se perante o sistema punitivo e se deixando criminalizar pelo mesmo. Deve preocupar-se em estudar, não fatores criminógenos, mas os fatores sociais e individuais que promoveram e facilitaram a criminalização por parte do sistema penal. Deve preocupar-se em estudar a vulnerabilidade do encarcerado perante o sistema punitivo, distinguindo a vulnerabilidade anterior à intervenção penal daquela que é conseqüência da intervenção penal”.
(Sá, 2005, p. 15)
Se a criminologia da reação social adotou o paradigma construtivista, para a partir dele entender os processos de definição social do crime e da figura do criminoso, Debuyst e Pires acabam por ampliar esse objeto ao propor a reconstrução do crime em um contexto mais amplo. Caberá à clínica situar o processo de definição social tratado pela crítica, dando-lhe materialidade e concretude ao analisar não uma construção abstrata e genérica, mas como foi o processo de definição de determinado crime e agente: o lugar do fato, a representação do acontecimento e as relações do autor com os demais atores do processo.
À medida que a criminologia da reação social busca compreender o processo de criminalização, o faz a partir da desmistificação do sistema normativo, denunciando a suposta
31 Sá entende clínica como a criminologia aplicada à execução penal. Para uma conceituação precisa da criminologia clínica sobre o enfoque tradicional, moderno e crítico ver SÁ, Alvino Augusto de. Sugestão de um
esboço de bases conceituais para um sistema penitenciário. Manual de projetos de reintegração social. Secretaria
25 neutralidade do direito penal, a homogeneidade dos valores sociais e o poder do sistema econômico-social. Trata-se de um caminho que ainda que pautado pelo materialismo histórico, se limita ao campo da abstração, uma vez que trata de um homem genérico em determinada condição social que se relaciona com um sistema perverso.
Já a proposta dessa “nova clínica” consiste em uma “reconstrução de fato” (Debuyst, 1992) a partir da análise das circunstâncias especificas que envolvem determinado fato e da atenção às singularidades dos atores que o produziram.
Logo a tarefa dessa criminologia clínica e crítica seria a tradução do significado do evento e a contextualização do mesmo, sem perder de vista que o crime é uma construção social. Tratando-se a presente pesquisa de um estudo sobre a identidade e as repostas à prisionização, não há como optarmos por um ou outro paradigma.
“Um estudo sobre a internalização de uma identidade desviante antecedida / seguida de uma reação estigmatizante constitui um exemplo de pesquisa que diz respeito tanto ao paradigma da definição social, quanto do fato bruto, ao estudar ao mesmo tempo o comportamento e a ação do sistema penal”.
(Pires, 1993, p.148)
Pois enquanto a criminologia pautada pelo paradigma etiológico se preocupava em estudar o indivíduo e em tentar readequá-lo socialmente, aprisionando-o em uma identidade, e a criminologia pautada pelo paradigma da reação social busca realizar o estudo do sistema, denunciando sua seletividade com o objetivo de modificar as relações de classe, mas esquecendo-se das subjetividades; essa “terceira via”, pautada no paradigma das inter-relações sociais, focaria na relação ente os dois (individuo e sistema), dando cabo à denúncia do sistema de controle, ao mesmo tempo em que busca compreender a relação do indivíduo com o sistema e com seu meio social, contextualizando as situações problemáticas vivenciadas por esse indivíduo, de forma a fortalecê-lo perante a seletividade do sistema punitivo.
26 De modo a manter a coerência do trabalho, uma vez que se parte do paradigma das inter- relações sociais e de uma perspectiva interacionista para uma compreensão das conseqüências do processo de prisionização sobre o preso e as formas que este tem de responder a ele, será adotada a mesma perspectiva para a formulação de uma conceituação da identidade e elucidação dos processos de formação da subjetividade, para então, no Capítulo 3, relacioná- los com a prisão em si.
Para entender como as identidades sofrem um processo de transformação e como reagem diferentemente à execução penal, o próximo capítulo será dedicado a uma conceituação de identidade a partir de uma perspectiva interacionista da Psicologia Social.
27 CAPÍTULO 2
IDENTIDADE
Para que seja analisada a relação entre a identidade32 do indivíduo preso e as formas de ajustamento em relação às normas institucionais e para-institucionais é necessário, anteriormente, explicitar a concepção de identidade na qual esta pesquisa se baseia, assim como evidenciar os processos que a constituem e a sua dinâmica.
Primeiramente, cabe ressaltar que não se trabalhará com um conceito estático de identidade, como um conjunto de características imutáveis que acompanham a vida de um indivíduo adulto e o determinam, assim como às suas relações.
A temática da identidade há muito perdeu seu caráter estático-metafísico para adquirir dimensões sociais e dinâmicas. Principalmente a partir dos anos 50, com a sistematização da Psicologia Social e a superação da dicotomia indivíduo x sociedade.
Sob essa perspectiva, toda a Psicologia - ao conceber o ser humano como produto da história e da sociedade, evitando qualquer análise fragmentada ou isolada de seu contexto -passa a ser social (Lane, 2004, p.19).
À medida que se passou a compreender a identidade a partir da relação indivíduo-sociedade, as chamadas ciências psi deixaram a abordagem exclusivamente individual, para se abrirem à perspectiva sócio-antropológica, construindo assim, um campo de saber transdisciplinar, cujo
32 Três conceitos poderiam ter sido usados neste trabalho para que fosse alcançado o objetivo da pesquisa
(relação do indivíduo com as regras prisionais): personalidade, subjetividade e identidade. O primeiro
(personalidade) está ligado a uma perspectiva mais biológica e individual – inclusive a padrões de normalidade/ anormalidade - e designa o conjunto de características psicológicas do individuo que determinam como ele atuará no mundo. O segundo (subjetividade), ao contrário, pressupõe a relação do individuo com o mundo social, e ao lado da objetividade (atuação no mundo) comporia a dimensão do sujeito (Maheirie, 2002, p. 37). Já o terceiro conceito (identidade) abrange tanto a dimensão individual quanto social, representando a síntese desses contrários (individual/social, semelhanças/diferenças, proximidades/distâncias). Escolhemos utilizar o conceito de
identidade porque ele surge com a psicologia social (perspectiva da psicologia adotada nessa pesquisa) e ainda porque a concepção do homem enquanto ser social, que transforma e é transformado pelo ambiente, vai de encontro com outras bases teóricas que norteiam o presente trabalho no âmbito da criminologia, tais como o
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objeto não pode ser compreendido à luz de uma só ciência. E é essa a abordagem desta pesquisa.