118 5.3.3.4 Pencere Tipler
6. SAMATYA İLE İLGİLİ KORUMA/YENİLEME PROJELERİ
“A mulher, durante a sua infância, depende de seu pai, durante a mocidade de seu marido, em morrendo o marido, de seus filhos; se não tem filhos, dos parentes próximos de seu marido, porque a mulher nunca deve governar-se à sua vontade.”
Lei de Manu265
A epígrafe retrata a amarga discriminação e a grande limitação imposta à mulher nas atividades comerciais desde a Antigüidade, praticamente em todos os países. A Lei de Manu, também denominada Manu Smriti, referida acima é originária da Índia e data do século XVIII a.C. De acordo com essa lei, o casamento tinha a finalidade de procriação. O nascimento de um filho varão era entendido como um dever, uma vez que a celebração do culto doméstico era transmitida de pai para filho.266 A Lei de Manu era a base da normatização entre a sociedade hindu e verifica-se sua semelhança para a normatização da sociedade ocidental.
Na impossibilidade de uma abordagem mais ampla e em todos os lugares sobre a mulher e as práticas comerciais, fez-se necessária uma seleção, dentre tantos, de alguns países com seus Códigos. Tentamos uma rápida noção dos vários obstáculos enfrentados pela mulher até a sua independência para as práticas comerciais e empresariais. Segundo Pimentel:
Em países ocidentais e orientais, desenvolvidos ou subdesenvolvidos, capitalistas, socialistas ou comunistas, católicos, protestantes, budistas, hindus ou maometanos, são freqüentes [...] processos associativos tendo em vista a redefinição dos direitos da mulher. Isso mostra que tal tendência histórica se afirma e generaliza, a despeito da diversidade de fatores sócio-econômicos, culturais, políticos e religiosos, embora em ritmo diferente, devido à diversificação de fatores sócio-culturais.267
Nesse sentido, existem determinadas características que são universais, quando se trata de direitos para todas as mulheres em qualquer sociedade, como existem também, características particulares ou específicas.
Em relação à interdição da mulher para administrar bens e/ou propriedades, para praticar o comércio, as características depreciativas e o controle rígido de sua função social
265
“Manu (da raiz verbal homem em sânscrito) na mitologia Hindu é o filho de Svayambhuva, pai e marido de Ila. Na Teosofia os Manus não são homens, mas um coletivo. Eles são considerados os ‘pais da humanidade’. É um nome genérico para os Pitris, os progenitores da humanidade. [...] Manu é o homem legendário, o Adão dos Hindus. As leis de Manu são uma coleção de textos atribuídos a ele”. (Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Hindu%C3%ADsmo#As_Leis_de_Manu>. Acesso em: 19/07/2006).
266
SOARES, Marcelo Leite Coutinho. Noções gerais sobre a filiação. Disponível em <http://www.viajus.com.br/viajus.php?pagina=artigos&id=667>. Acesso em: 19/07/2006.
267
PIMENTEL, Sílvia. Evolução dos direitos da mulher: norma, fato, valor. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1978. p. 12.
limitada à esfera doméstica ou privada, simplificando, são referências comuns e com igual tratamento discriminatório em todos os países e Códigos que abordamos, pelo menos.
Começamos, portanto, pelo Código Comercial italiano, porque foi o primeiro e mais antigo Código que dedicou uma parte exclusivamente à mulher no comércio. Outros povos até podem ter referência sobre as mulheres no comércio anterior ao Código italiano, mas, ressaltamos, são medidas soltas, de acordo com as necessidades do momento e não dentro de um Código legal preparado exclusivamente para a mulher.
Nesse sentido, Vivante268 refere-se à mulher no comércio baseando-se no Código Comercial italiano que exerceu grande influência em outros países, inclusive no Brasil. Revela que a condição da mulher para ser comerciante ou para praticar os atos de comércio só era permitida ao alcançar a maioridade, quando era considerada capaz para o exercício do comércio como o homem. No entanto, se fosse casada, esse exercício e sua capacidade eram limitados pelo marido durante o matrimônio. Isso porque o homem, nesse período,269 era considerado o chefe da família e a mulher devia obediência e consentimento.
Afirma o autor: “E compreende-se bem esta cautela, atendendo-se a que aquele exercício faz sair do recato da vida doméstica para a colocar em contínua relação com o público, e pode influir profundamente sôbre (sic) as condições económicas e morais da família”.270
Essa autorização do marido só não é válida, caso o marido seja menor ou caso o legislador o considerar incapaz ou indigno, ou seja, interdito, condenado à prisão, se estiver separado da mulher por culpa dele ou se, ainda, o legislador julgar necessário o consentimento pelo tribunal em substituição ao do próprio marido.271
268
VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit.
269
No início do século XX, época em que Vivante escreveu essa obra, o ideal de mulher exigido pela sociedade ocidental era uma mulher submissa, que acatava o poder do homem, considerado o chefe da família – Pater Familias. Nessa época, de acordo com Rago: “O que salta aos olhos é a associação freqüente entre a mulher no trabalho e a questão da moralidade social. No discurso de diversos setores sociais, destaca-se a ameaça à honra feminina representada pelo mundo do trabalho. [...] Essa visão está associada, direta ou indiretamente, à vontade de direcionar a mulher à esfera da vida privada. [...] Muitos acreditavam, ao lado dos teóricos e economistas [...] que o trabalho da mulher fora de casa destruiria a família, tornaria os laços familiares mais frouxos e debilitaria a raça, pois as crianças cresceriam mais soltas, sem a constante vigilância das mães. As mulheres deixariam de ser mães dedicadas e esposas carinhosas, se trabalhassem fora do lar; além do que um bom número delas deixaria de se interessar pelo casamento e pela maternidade. [...] Muito influenciadas pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, pelo pensamento médico vitoriano e por concepções religiosas, as elites intelectuais e políticas do começo do século XX procuraram redefinir o lugar das mulheres na sociedade, justamente no momento em que a crescente urbanização das cidades e a industrialização abriam para elas novas perspectivas de trabalho e de atuação”. (RAGO, Margareth. Trabalho Feminino e Sexualidade. In.: DEL PRIORE, Mary. (Org.) História das mulheres no Brasil. Op. cit., p. 585);
Cf. Idem. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar (1890-1930). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
270
VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 33.
271
O marido, ainda, pode adotar o consentimento tácito, isto é, durante a convivência consente e assiste sem oposição à prática do comércio público pela mulher, e essa pode considerar-se, então, livre das sujeições do marido no exercício do comércio.
Entretanto, a mulher está sujeita a todas as imposições da lei como qualquer outro comerciante. No entanto, prossegue Vivante que
[...] é proibido à mulher constituir uma sociedade assumindo responsabilidade ilimitada sem autorização do marido ou do tribunal. Se abusa das faculdades que lhe foram conferidas, o marido poderá, com autorização do juiz, revogar o seu consentimento e restabelecer a sua capacidade dentro dos limites traçados pelo direito comum.272
Verifica-se que a mulher não possuía autonomia para o comércio, sendo limitada na forma de exercer o comércio pelo tribunal ou pela lei, mesmo com o consentimento do marido. Na mesma direção, os direitos limitados das casadas nos Estados Unidos impediam sua autonomia. William Blackstone, um advogado americano, escreve:
Pelo casamento, o marido e a mulher são uma pessoa perante a lei: isto é, o ser ou a existência legal da mulher fica suspensa durante o casamento, ou pelo menos é incorporada e consolidada na do marido, sob cujas asas, proteção e abrigo, ela executa tudo.273
A época desse registro era o século XIX. Baseando-nos em Wilkens,274 percebe-se que a situação da mulher era praticamente a mesma nos países americanos, europeus e latino- americanos.
A mulher nos Estados Unidos e nos outros países era considerada incapaz para administrar, possuir bens ou propriedades, fazer contratos, responsabilizar-se por dívidas etc. Igualmente foi considerada interdita e incompetente como os loucos, as crianças, não sendo reconhecida como um sujeito com direitos individuais. Sua existência era considerada indigna e era anulada pela figura do marido. Para a mulher solteira, apesar de um controle menor, a situação não divergia muito das casadas. Caso tivessem algum comércio, esse era controlado pelo pai, irmão ou tio. A diferença, contudo, era que a mulher solteira ainda podia possuir ou exercer algum comércio, enquanto que a mulher casada era totalmente impedida. Segundo Wilkens,
272
VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 34.
273
BLACKSTONE, Willian. Selections from the commentaries on thje laws of England. S Francisco, Bancroft- Whitney, 1916. v. I. p. 625-626 apud WILKENS, Joanne. A mulher empreendedora: como iniciar seu próprio negócio. Tradução de Maria Cláudia de Oliveira Santos. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1989. p. 42.
274
[...] o objetivo era manter essas mulheres economicamente dependentes, legalmente invisíveis e portanto quase totalmente sem poder. A situação legal reforçava, assim, a imagem cultural das mulheres como tímidas violetas e fortalecia ainda mais o ideal feminino.275
Em 1839, por exemplo, foi decretado nos Estados Unidos o “Primeiro Ato de Propriedade das Mulheres Casadas”. No entanto, somente em 1974 foi decretado o “Ato de Oportunidade Igual de Crédito”. Durante esse período, segundo Wilkens,276 as mulheres enfrentaram muitas dificuldades legais para exercerem o comércio, e as mudanças e novas atitudes surgiram muito lentamente. As legislaturas e os tribunais americanos controlados pelos homens reproduziam a mesma ideologia historicamente apregoada: a de que o papel social das mulheres era o de ser dona-de-casa, esposa e mãe. Permaneciam as mesmas opiniões e preconceitos que existiam ainda no século anterior.
De acordo com Wilkens,277 até 1969, vários estados americanos278 adotavam leis que controlavam ou limitavam a participação e atuação da mulher casada em seus negócios, dependentes, ainda, da vontade e da responsabilidade do marido sobre elas. “Essas limitações se aplicavam à sua capacidade de transferir propriedade e de avaliar um empréstimo sem o consentimento de seu marido”.279 Também, ainda em 1970, alguns estados, como por exemplo, Nevada, Texas, Flórida, Califórnia e Pensilvânia, exigiam uma justificativa da mulher que quisesse abrir um negócio. Reforça Wilkens que
[...] exigiam que uma mulher casada “descrevesse sua personalidade, hábitos, educação e capacidade mental para os negócios e explicassem (sic) porque ela deveria ter permissão [...] para abrir sua própria empresa”. Essas leis exigem que a mulher entregue a seu marido uma cópia da petição para obter seu consentimento por escrito.280
Portanto, muito recentemente ainda, ou seja, nas últimas décadas do século XX, a legislação americana inibia a independência das mulheres na prática empresarial. Por volta da década de 1960, as mulheres americanas e, principalmente, algumas feministas, tornaram-se visíveis no mundo por meio de suas contestações, reivindicações e lutas por seus direitos.281
275
WILKENS, Joanne. A mulher empreendedora: como iniciar seu próprio negócio. Op. cit., p. 42.
276
Cf. Ibidem.
277
Cf. Ibidem.
278
Esses estados eram: “Michigan, Alabama. Arizona, Califórnia, Flórida, Geórgia, Idaho, Kentucky, Nevada, Carolina do Norte, Utah e Maryland” (Ibidem, p. 42).
279
WILKENS, Joanne. A mulher empreendedora: como iniciar seu próprio negócio. Op. cit., p. 42-3.
280
Ibidem, p. 43.
281
Não é nosso propósito desenvolver os movimentos das mulheres nos EUA em razão da extensa literatura sobre o tema.
Semelhante ao Código italiano e à legislação americana, o Código Civil francês, no início do século XIX também privilegiava a superioridade do pai, do marido e pregava a incapacidade da mulher e da mãe. De acordo com Perrot:
A mulher casada deixa de ser um indivíduo responsável: ela o é bem mais quando solteira ou viúva. Essa incapacidade, expressa no artigo 123 (“o marido deve proteção à sua mulher e a mulher obediência ao marido”), é quase total. A mulher não pode ser tutora nem membro de um conselho de família: ela é preterida em favor de parentes afastados, do sexo masculino. Não pode ser testemunha nos tribunais. Se abandona o domicílio conjugal, pode ser reconduzida ao lar pela força pública [...].282
No Código Civil francês, havia uma grande exaltação ao homem, permitindo-lhe comportamentos ilícitos, adúlteros inclusive, com cumplicidade de toda a sociedade.
E, ainda, em relação à mulher, o Código Civil francês afirmava: “A mulher não pode dispor de seus bens na comunidade, regime este que se amplia constantemente. Guardando uma grande semelhança com o menor, a mulher também não pode dispor de seu salário, o que subsiste até 1907, [...]”.283
Assim, a evolução jurídica francesa, segundo Perrot, durante o século XIX foi muito lenta, mas já veio acompanhada de várias tentativas das mulheres em suas reivindicações por direitos, pela igualdade dos sexos.
As leis de 1878, 1889 e 1912, principalmente, mesmo que aos poucos, já vieram com modificações em várias instâncias em relação à situação da mulher.
À época da Revolução Francesa, os princípios que regiam as leis do Código Civil em relação à mulher e, portanto, à família, serviram de base para o Código francês na década de 1970.
Como exemplo, para mudanças em relação à família e à supremacia do poder do marido sobre a mulher, retomaram-se princípios de 1790, tendo em vista que em 1972 reafirmaram-se os mesmos direitos dos filhos naturais que já tinham sido concedidos em 1790. Ainda, em 1975, para a reformulação sobre a lei do divórcio, buscaram-se os princípios de 1792.284
Observa-se, portanto, a atualidade dos princípios adotados no início da Revolução Francesa e, em conseqüência, a reação da própria sociedade para acabar com os direitos que
282
PERROT, Michelle. (Org.). Figuras e papéis. In.: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada. Trad. de Denise Bottman e Bernardo Jaffily. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. v. 4, p. 121-2.
283
Ibidem, p. 122.
284
Cf. HUNT, Lynn. Revolução Francesa e vida privada. In.: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada. v. 4. Op. cit., p. 121-2.
haviam sido conquistados em lei pelas mulheres. Perrot também afirma a tentativa de subversão à época da Revolução Francesa em mudar
[...] a fronteira entre o público e o privado, construir um mundo novo, remodelar o cotidiano através de uma nova organização do espaço, do tempo e da memória. Mas esse projeto grandioso fracassou diante da resistência das pessoas. Os “costumes” se mostraram mais fortes do que a lei.285
A questão da proibição e incapacidade da mulher casada para praticar a atividade do comércio e, em conseqüência, da exclusão de todas as mulheres do espaço público e político, encontrava-se e assemelhava-se nos vários Códigos Civis que conhecemos. Pareciam até cópias, e se não o foram, pareciam ser referências uns para os outros.
Nesse sentido, optamos por uma incursão no fechamento do espaço público e político para a mulher casada e, em extensão, para todas as mulheres, cuja separação foi o ponto crucial para a justificativa da incapacidade da mulher para as atividades do comércio e quaisquer outras nos Códigos Civis, especificamente.
A concepção da separação entre a esfera pública e privada e o pertencimento do homem e da mulher a elas, respectivamente, é um tema que remonta à época antiga, mas também novo e não resolvido até o momento.
Mesmo com inúmeras e diversas produções e discussões sobre tal divisão, sabemos que até hoje essa não foi superada e continua sendo, ainda, um dos pontos cruciais do debate para a conquista da igualdade entre os sexos. Afirma Perrot que
[...] as relações entre o público e o privado estão no centro de toda a teoria política pós-revolucionária. A definição das relações entre o Estado e a sociedade civil, entre o coletivo e o individual, passa a ser o principal problema. [...] O doméstico constitui uma instância reguladora fundamental e desempenha o papel do deus oculto.286
Assim, atualmente, as tentativas de conquista da mulher do espaço público e político, sem a separação discriminatória por meio do sexo, as relações da própria sociedade civil como um todo devido às dificuldades e barreiras de acesso às instâncias do poder, ou seja, as tentativas de criar e reinventar espaços públicos e políticos para que todos os indivíduos sejam cidadãos(ãs) e exerçam a prática da cidadania estão, conforme a literatura atual, entre os grandes debates e impasses do nosso momento.
285
PERROT, Michelle. A família triunfante. In.: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada. v. 4. Op. cit., p. 93.
286
Dessa forma, ao tratar e denunciar como ocorreu essa separação do espaço público e privado e a divisão desses entre o homem e a mulher e, ao longo do trabalho, demonstrar como vem se dando a conquista de alguns espaços públicos por meio de ações individuais e/ou coletivas frente ao poder institucional por uma amostra da categoria empresarial feminina no estado de Minas Gerais, cremos na possibilidade de ajudar na divulgação de alternativas para uma nova organização.
A idéia da separação entre as esferas do público e do privado, dos papéis masculino e feminino que existe ainda em nossa cultura atual é européia e iniciou-se especificamente na França à época e após a Revolução Francesa nos fins do século XVIII e começo do século XIX e, na Grã-Bretanha, no início do século XIX.287
Por meio de grande produção acadêmica, sabemos da influência dos pensamentos, ideologias e valores do ocidente moderno sobre a cultura brasileira, portanto, da divisão das esferas em público e privado, da divisão dos papéis masculino e feminino baseada no sexo, nos caracteres “naturais” e da separação da sociedade civil e do poder político.
Vários pensadores liberais, não liberais e tradicionalistas, dentre tantos, Hegel, Kant, Le Play e Proudhon defenderam os fundamentos dessas divisões no mundo moderno, opondo- se ao pensamento dos clássicos, dos antigos, para os quais a praça pública, ou seja, a ágora, era para todos um espaço de debate, discussão, de participação e decisão sobre os rumos da coletividade.
Com essa separação das esferas pública e privada, a política também foi separada entre homens e mulheres, para cujo espaço, público e político, a mulher foi considerada incapaz e proibida de participar. O seu espaço seria exclusivamente o privado – o doméstico.288
Segundo Perrot: “A casa é o fundamento da moral e da ordem social. É o cerne do privado, mas um privado submetido ao pai, o único capaz de refrear os instintos de domar a mulher. Pois a guerra doméstica constitui uma ameaça constante”.289
Ainda, segundo a autora, além do reforço ao espaço privado, a política, antes exercida em praça pública, seria representada por alguns homens, por políticos eleitos que fariam dessa uma profissão, inclusive.
Contrários a essa concepção, havia pensadores socialistas como Fourier, o mais radical, Claire Démar, Louis Blanc, Flora Tristan e outras feministas que, após 1840,
287
Cf. PERROT, Michelle. A família triunfante. In.: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. História da vida privada. v. 4. Op. cit.
288
Ibidem, p. 95.
289
defenderam uma igualdade entre os sexos, uma modernização na família, na educação e a liberdade do divórcio, sem, no entanto, abolirem o casamento monogâmico.
Explica-nos Hunt que na época da Revolução Francesa, tanto os revolucionários quanto os não-revolucionários quiseram distinguir o espaço privado do público, cuja distinção não era definida e permeada de muita inconstância. A vida privada era invadida pelo espírito público:
Não resta dúvida que o desenvolvimento do espaço público e a politização da vida cotidiana foram definitivamente responsáveis pela redefinição mais clara do espaço privado no início do século XIX. O domínio da vida pública, principalmente entre 1789 e 1794, ampliou-se de maneira constante, preparando o movimento romântico do fechamento do indivíduo sobre si mesmo e da dedicação à família, num espaço doméstico determinado com uma maior precisão.290
Durante a Revolução Francesa, final do século XVIII, os revolucionários pretenderam abolir todos os interesses particulares ou privados, porque esses eram considerados como traidores da “[...] vontade geral da nova nação”.291
Tudo deveria ser público, publicizado e, inclusive, devia-se permitir que todas as pessoas, vale dizer, o público, participasse das reuniões políticas. O comportamento dos indivíduos, a forma de tratar o próximo, de vestir, agir, morar, a posse de bens e objetos, o uso de símbolos e outras formas de expressão eram julgadas e vigiadas para discernir o revolucionário, ou seja, aquele que conspirava contra a nação que se erigia.292
Nesse sentido, a maneira como o indivíduo se colocava no espaço privado e público misturava-se completamente. Por isso, diz-se que a vida privada foi politizada, invadida e agredida pelo espaço público.
Paradoxalmente, segundo Hunt,293 os revolucionários, ao pretenderem eliminar ou distanciar os interesses privados ou particulares294 para longe do espaço e da vida pública, estavam apagando os limites entre o privado e o público.
Como exemplo, a autora cita o vestuário, porque a roupa denunciava o indivíduo, ou