“Colheitas de subsistência, seu comércio e venda nas ruas estavam largamente controlados por tais mulheres. O caráter repetitivo da legislação local, proibindo venda de bebidas e gêneros comestíveis em áreas de mineração, é testemunho suficiente da extensão de semelhantes atividades. [...] Como proprietárias de lojas, tavernas e prostíbulos, desempenhavam um papel vital na vida da comunidade”.
Russel-Wood.
As limitações às mulheres no comércio, especificamente no Brasil, segundo Gomes,339 foram definidas desde o início do período colonial pelo Direito Canônico e pelo Direito
336
BESSE, Susan, K. Modernizando a Desigualdade: Reestruturação da Ideologia de Gênero no Brasil, 1914- 1940. Op. cit., p. 164 (grifos nossos).
337
Ibidem, p. 164 (grifos nossos).
338
MENDONÇA, José Xavier Carvalho de. “Mulher Comerciante? Isto dava até desquite.” Jornal da Tarde. São Paulo. 2 jul. 1975 apud BESSE, Susan K. Modernizando a Desigualdade: Reestruturação da Ideologia de Gênero no Brasil, 1914-1940. Op. cit., p. 156 (grifos nossos).
339
Português, os quais serviram de base para o Direito de Família e, portanto, para o Código Civil brasileiro.
Acrescenta Figueiredo,340 referindo-se ao comércio no período colonial, que o lugar das mulheres no Brasil foi definido pela influência de duas culturas transpostas: a cultura africana, na qual era comum a distribuição de gêneros alimentícios pelas mulheres e a cultura portuguesa, cuja legislação permitia o comércio varejista de produtos variados como doces, hortaliças, bolos, agulhas, alfinetes, alho, pomadas e outros. Afirmam Figueiredo e Magaldi:
A ocorrência nestes núcleos urbanos desta divisão de papéis sexuais, em que o comércio ambulante representava ocupação preponderantemente feminina, revelou- se fruto de uma transposição para o mundo colonial da divisão de papéis sexuais vigente na metrópole. Tradicionalmente em Portugal o pequeno comércio incorporou e o Estado protegeu numerosas mulheres com dificuldades de sobrevivência interessadas em escapar do meretrício. Diante da inexistência de bibliografia dedicada ao tema, algumas incursões na legislação acerca da situação da mulher comerciante na sociedade portuguesa são fecundas.341
Havia, portanto, em Portugal, uma proteção ao comércio feminino, proibindo-se, inclusive, os estrangeiros, desconhecidos ou vagabundos de o praticarem. Esse era reservado às mulheres do reino para ajudá-las em seu sustento e sobrevivência, sem que nenhum homem causasse problemas a elas.342
No entanto, segundo Figueiredo, em nenhum outro local colonizado por Portugal como em Minas Gerais, a divisão de papéis sexuais no comércio e o próprio comércio praticado por mulheres causariam tantos problemas. Aliás, esse comércio ambulante exercido por mulheres negras e pobres no Brasil colonial era um contraste extremamente grande em relação ao papel da mulher branca. As negras e pobres sofriam pressões e regulações por decretos, leis e/ou alvarás em todas as províncias. Ainda, no Brasil, esse comércio não foi reservado às mulheres como o era em Portugal, porque, aqui, esse foi violentamente disputado com os homens comerciantes e mercadores.
Afirma Mott: “É por demais claro quais são os móveis de tal interdição ao comércio das negras: trata-se de proteger a elite comerciante contra a ameaça da competição das negras e mulatas vendedeiras”.343
340
FIGUEIREDO, Luciano. Mulheres nas Minas Gerais. In.: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. Op. cit.
341
Idem; MAGALDI, Ana Maria. Negras de tabuleiro e vendeiras: A presença feminina na desordem mineira do século XVIII. Ciências Sociais Hoje, 1984, ANPOCS. São Paulo: Cortez Editora, 1984. p. 181.
342
Cf. Ibidem.
343
MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. v. III, n. 105, 1976. p. 103.
As mulheres, no Brasil, incluindo todas, ou seja, independentemente da cor ou posição social, ocupavam um plano secundário, reservando-lhes um comércio de coisas e objetos triviais, sendo consideradas como as crianças, os incapazes, os doentes, enfim, do grupo dos interditos.
Essa colocação da mulher no grupo dos incapazes e sua situação de subalternidade também no Brasil, percebe-se, é igual ao Código italiano, à legislação americana e ao Código francês, já vistos.
Apesar dessa comparação, não podemos esquecer da grande diferença da sociedade brasileira nos aspectos sociais, econômicos, jurídicos, políticos e culturais em relação à Europa e à América do Norte. No entanto, neste ponto que ora abordamos, ou seja, em relação à mulher, os Códigos e as legislações assemelhavam-se em muito.344
Paradoxalmente, a mulher podia “[...] herdar e administrar a propriedade, desde que o fizesse em favor dos interesses da família”345 e sob a tutela de um homem, ou seja, do pai ou do marido ou de um curador.
De acordo com Verucci, somente no século XVII “[...] se encontra documentação importante sobre a situação das mulheres no Brasil”.346 A família, tanto nesse século como no século XVIII “[...] com sua organização patriarcal era o centro econômico e político da sociedade [...]”,347 com grande poder e força perante o Estado, mediados pelo poder e interferência da Igreja, principalmente sobre o comportamento e a virtude das mulheres. O Direito Canônico prevaleceu até 1890, época da promulgação da lei que instituía o casamento civil. No entanto, continuou com forte influência durante a República brasileira, servindo de apoio para o Código Civil de 1917, alojando-se no Direito de Família.
Não nos propomos a abordar o Direito de Família, suas inúmeras leis e decretos pelos quais passou348 e o compõem atualmente,349 mas apenas referenciar alguns pontos necessários ao nosso enfoque. Não nos propomos, ainda, abordar todos os direitos da mulher nas diversas áreas, conquistas e/ou mudanças registradas nos Códigos Civis e/ou nas Constituições ou
344
A autora Pimentel, inclusive, escreveu: “Grande parte do ordenamento jurídico brasileiro é mais o resultado da elaboração de normas moldadas nos modelos alienígenas do que respostas aos problemas da nossa realidade social”. Como exemplo, Pimentel cita um certo desvirtuamento nos Código Civil brasileiro em relação aos 34 artigos referentes às normas do dote. (PIMENTEL, Sílvia. Evolução dos direitos da mulher: norma, fato valor. Op. cit., p. 170).
345
VERUCCI, Florisa. A Mulher no Direito de Família Brasileiro – Uma história que não acabou. In.: AUAD, Sylvia M. Von Atzingen Venturoli. Mulher – Cinco séculos de desenvolvimento na América – Capítulo Brasil. Op. cit., p. 263. 346 Ibidem, p. 263. 347 Ibidem, p. 263. 348
Cf. BRASIL. Novo Código Civil de 2002. Op. cit.; e Constituição Federal de 1988.
349
ainda em outras obras, mas apenas aqueles direitos que se referem à mulher no comércio e na administração de bens e/ou propriedades.
No período colonial brasileiro, revela-nos Figueiredo,350 especificamente em Minas Gerais nos anos de 1728 e 1745, para obter a concessão de propriedades – as chamadas sesmarias – a mulher deveria ter o consentimento do marido ou do pai, além das exigências rotineiras feitas aos homens. O número de mulheres que obtinha essa concessão era muito pequeno, sendo uma (01) mulher para cada trinta e cinco (35) homens. Também excluídas de função política, eram ausentes em qualquer setor administrativo, reproduzindo a segregação sexual do domínio português. As mulheres apareciam somente em funções dadas como tradicionais ao sexo feminino, como tecelagem, panificações, alfaiataria, costureiras, doceiras, fiandeiras, rendeiras, cozinheiras, lavadeiras, criadas, parteiras etc. Apareciam, desde o início do período Colonial, no pequeno comércio ambulante das vilas e, depois, das cidades como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Sobre esse comércio, Mott escreve que “[...] no tempo da Visitação do Santo Ofício, no final do nosso 1o século, dava-se notícia da existência de ‘negra taboleira’351perambulando pela cidade de São Salvador”.352 A época referida na citação acima equivale ao final do século XVI. No entanto, o comércio das negras tornou-se maior e mais visível e, principalmente, perseguido, por volta do século XVIII. Em relação ao comércio praticado pelas mulheres negras em São Paulo, Mott registra-o, usando uma citação de Saint-Hilaire:
Em São Paulo não são encontrados negros a percorrer as ruas, como no Rio de Janeiro, transportando mercadorias sobre a cabeça. Os legumes e as mercadorias de consumo imediato são vendidos por negras, que se mantêm acocoradas na rua, que por motivo de tal comércio, tomou o nome de rua da Quitanda.353
Observa-se, portanto, que o costume do comércio em São Paulo variava apenas na forma de vender os produtos. A importância do papel que as mulheres negras exerciam na prática do comércio era tão grande que, segundo Mott, seria até impossível pensar em viver sem ele nas vilas e nas cidades coloniais. Para ilustrar a efervescência desse comércio
350
FIGUEIREDO, Luciano. Mulheres nas Minas Gerais. In.: DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. Op. cit.
351
Observamos que o autor Mott usa a expressão “negra taboleira”. (p.99) em algumas passagens de seu trabalho, e em outras, usa “negras de tabuleiro”. (p.100). Seguimos tais usos de acordo com o texto nos trechos que selecionamos.
352
MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 99.
353
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem à Província de São Paulo. São Paulo: Livraria Martins, 1972. p. 162- 163 apud ibidem, p. 102 (grifos nossos).
praticado pelas mulheres negras, transcrevemos um trecho do artista francês Debret, retirado do texto de Mott:
Por volta das 6 horas da manhã surgem os carregadores de água e de leite e as vendedoras de pão-de-ló. De 6 a 7 horas encaminham-se sossegadamente para o centro da cidade os negros de ganho; uns preparam durante o caminho folhas de palmeiras para a confecção de chapéus, enquanto outros, menos ativos, acertam sossegadamente o passo ao som da marimba. Na mesma hora, isto é, de 6 a 8 horas, os mercados situados nas praias de desembarque e já abastecidos pelas embarcações chegadas de madrugada, apresentam um movimento generalizado de quitandeiras que se encontram o resto do dia nas ruas ou nos mercados internos da cidade. De 8 horas ao meio dia os cafés das grandes praças ou das imediações da Alfândega, tornam-se o ponto de encontro dos comerciantes vindos do interior a negócio. De 8 às 11, vêem-se tropas chegadas de São Paulo e Minas estacionarem na rua Direita, na altura da Igreja da Cruz, descansando da última marcha noturna, depois de descarregada a mercadoria... Por volta das 4 da tarde tornam a aparecer nas ruas às vendedoras de pão-de-ló para a hora do chá. No mesmo momento aparecem também as vendedoras de velas; outras vendem doces, sonhos, etc.; estas últimas se dirigem para o largo do Palácio onde se reúnem das 4 às 7 os pequenos capitalistas e negociantes. De 7 às 10 ou vê-se nas ruas o pregão dos vendedores de amendoim torrado, de milho assado, pastéis quentes, pastéis de palmito, pudim quente, manuê354, etc.355
Debret referia-se ao comércio da cidade do Rio de Janeiro por volta do início do século XIX. Tal comércio impressionou-o tanto, que o retratou em inúmeras pinturas. A diversidade dos produtos comercializados pelas mulheres negras permite-nos ter uma noção do suprimento que era feito às necessidades dos habitantes tanto do Rio de Janeiro como das outras localidades. De acordo com Mott, as negras vendiam: “[...] flores, refrescos, cestos, aves, palmito, milho, capim, leite, cavalos, cabras, frutas, bolos, angu, peixe, carvão, cebola, alho, tripas, lingüiça, aluã,356 manuê, sonhos, atacaça,357 café torrado etc.”.358 O comércio estendia-se ainda ao norte do país, alastrando-se por várias e diversas cidades e áreas.
354
A palavra Manuê foi encontrada como: Manauê – s. m. Bras. V. manauê. Manauê – s. m. Bras. Cul. V. manauê. “O mucunzá..., a coalhada escorrida e os fofos manuês assados em folha de bananeira!...”. (Domingos Olímpio, Luzia-Homem, p. 66) (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. Positivo, 1988. p. 1271).
355
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, 1972. Tomo I e II. p. 288 apud MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 101.
356
A palavra aluã foi encontrada no dicionário com: aluá! [ Do ár. al –halúwa(t), ‘doce’] s. m. 1 – Doce feito de leite, açúcar e amêndoas trituradas. 2 – Alféola. Aluá 2 [Do quimb. ualuá] s. m. Bras. Bebida refrigerante, feita com farinha de arroz ou milho torrado, fermentado com açúcar, em potes de barro, ou com cascas de abacaxi, pelo mesmo processo. “queixou-se do calor e mandou vir um copo de aluá”. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, p. 58). (Var. us. na BA.). aruá 2 / 2. Bras. S P. Bebida feita com aguardente, infusão de café e gengibre, água de arroz ou de fubá, colocada com açúcar (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Op. cit., p. 107).
357
Atacaça – não foi encontrado o seu significado em nenhum dicionário ou outra fonte.
358
Afirma Mott: “Também nas cidades setentrionais, vamos encontrar o pequeno comércio manipulado em grande parte pelas negras”.359 Continua o autor, agora citando um viajante, Henry Bates,360 que este, ao passar por Belém, encontrou “[...] grande número de negrotas bizarramente vestidas, que ficavam no caminho que leva às portas da igreja, com tabuleiros de licores, doces e cigarros, que vendem aos que estão do lado de fora”.361
Foi em Minas Gerais, contudo, que o comércio das mulheres negras mais preocupou e irritou as autoridades metropolitanas. Por volta do século XVIII, surgiram várias medidas, decretos e alvarás proibindo o comércio dos negros e, principalmente, das “negras dos taboleiros”. Explica-nos Mott362 que o controle do pequeno comércio na colônia pelo governo metropolitano pode ser analisado sob dois aspectos: primeiro, com o objetivo de controlar abusos dos vendedores ou comerciantes desonestos sobre os consumidores e, com isso, aumentar a arrecadação da taxa sobre os pesos e medidas conferidos aos produtos; segundo, para sanar irregularidades como os atravessadores de produtos básicos, a exemplo do pão, da farinha de mandioca, do monopólio do preço e da venda da carne de gado, sal, aguardente, fumo e outros. Ao impedir o monopólio, a administração colonial desejava uma maior garantia no abastecimento dos produtos básicos aos habitantes da colônia.
Observa-se, portanto, que a administração colonial preocupava-se com o comércio ao adotar medidas oficiais para proteger e defender o pequeno comerciante e a população consumidora.
No entanto, proibiu o comércio das mulheres negras, dos negros, mulatas(os), escravas(os) ou forras(os). A título de exemplo, registramos parte de um decreto do governo oficial em 1722, extraído do texto de Mott:
Faço saber aos que este meu bando virem, que tendo respeito a me representar a Câmara desta vila do Carmo, que os mineiros do distrito delas recebiam grande prejuízo na permissão que havia para venderem as negras, de tabuleiros pelas lavras e faisqueiras, incitando aos escravos a que lhe comprem [...] sou servido ordenar que nenhuma negra, escrava ou forra, possa sair fora do corpo desta Vila e arraiais do distrito dela, a vender com tabuleiros, ou sem ele, cousas comestíveis, ou bebidas, pelo prejuízo que disso resulta [...] E toda pessoa que achar qualquer negra de quem quer que for, fora desta vila, ou dos arraiais do seu distrito, lhe tomará logo o tabuleiro ou o que trouxer para vender, assim comido como bebida, e trará a dita negra à cadeia desta vila, e não fazendo, não somente será castigada, mas pagará a condenação que o Sr. da mesma negra havia de pagar, ou ela, sendo forra. E trazida assim à cadeia, estará um mês nesta, e antes de sair pagará seu Senhor ou a mesma
359
MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 93.
360
BATES, Henry. O Naturalista no rio Amazonas. Brasiliana. n. 237. p. 218 apud ibidem, p. 93.
361
Ibidem apud MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 93.
362
negra, sendo forra, 20 oitavas de ouro que se aplicarão para as obras públicas da câmara desta vila, e sem satisfazer a condenação não poderá ser solta [...].363
O cerceamento às mulheres negras, observa-se, era rígido, tanto para as próprias, como para quem fosse conivente com seu comércio ambulante.
Apesar de ser em Minas Gerais a fiscalização mais severa, essa também existia em outras províncias, com envios de documentos, alvarás e decretos. No entanto, nas Minas Gerais, devido à exploração aurífera, à prática da mineração, o controle era maior na tentativa de coibir o contrabando, a fraude, o roubo dos cofres da Coroa sobre o ouro em pó e diamantes encontrados. As mulheres negras vendedeiras, como também os homens negros, vendiam suas mercadorias nas zonas das lavras aos escravos mineradores, os quais pagavam tais mercadorias com “[...] ouro em pó, diamantes ou dinheiro, que por direito deveriam pertencer a seus senhores”.364
A mulher mineira aparecia com várias faces, praticando um intenso comércio variado e administrando grande parte das vendas ou estabelecimentos. As mulheres de Minas Gerais participaram significativamente da economia como as do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador ou também de Portugal, por meio de suas práticas comerciais, desconstruindo a imagem homogênea de uma mulher sempre passiva, submissa e acomodada, como se não tivesse lutado e forjado o caminho para as conquistas sociais, econômicas, políticas e culturais.
Ainda no século XVIII, por volta de 1792, a condição das mulheres casadas e viúvas era regulada pelas ordenações Afonsinas, Manoelinas e Filipinas, estabelecendo os seus direitos, suas funções e as proibições. Juridicamente, as questões sobre os direitos da mulher surgiu no Brasil, pela primeira vez, no Código Civil de 1916,365 o qual regulou as ordenanças referidas acima em trinta e um (31) artigos,366 inclusive o dote para as mulheres que se casavam e para as religiosas.367
363
ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo) – Lisboa Manuscritos do Brasil. Livro 26, Vila do Carmo. 10 jan. 1722 apud MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 99-100 (grifos nossos).
364
MOTT, Luiz R. B. Subsídios à História do Pequeno Comércio no Brasil. Revista de História. Op. cit., p. 100.
365
Encontramos diferentes referências sobre a data desse Código Civil, ou seja, um de 1916 e o outro de 1917. Optamos pela data de 1917, com base em GOMES, Orlando. Direito de Família. Op. cit. E, ainda, segundo Verucci, o Código Civil de 1917 sofreu forte influência do Código Napoleônico, conservador, ficando a mulher sob a obediência do pai ou do marido, e esses detinham o poder também sobre o patrimônio ou bens da mulher e dos filhos. O Código Napoleônico, por sua vez, apoiou-se no Direito Romano com forte concepção patriarcal (VERUCCI, Florisa. A Mulher no Direito de Família Brasileiro – Uma história que não acabou. In.: AUAD, Sylvia M. Von Atzingen Venturoli. Mulher – Cinco séculos de desenvolvimento na América – Capítulo Brasil. Op. cit.).
366
Atualmente, segundo Pimentel, constam trinta e quatro (34) artigos referentes ao dote no Código Civil brasileiro (Cf. PIMENTEL, Sílvia. Evolução dos direitos da mulher: norma, fato, valor. Op. cit.).
367
Cf. BARBOSA, Águida Arruda. A mulher na área jurídica – família. In.: AUAD, Sylvia M. Von Atzingen Venturoli. Mulher – Cinco séculos de desenvolvimento na América – Capítulo Brasil. Op. cit.
Havia, nessa medida, discriminação contra a mulher pobre por não conseguir casamento com um homem de classe mais alta e para a vida religiosa, porque a congregação exigia o dote. A mulher viúva, considerada de “entendimento fraco”, deveria ter a proteção de um curador, o qual era designado para administrar e cuidar de seus bens. A mulher, enquanto solteira, tinha a proteção do pai; casada, a proteção do marido e viúva, a de um curador.368
As mulheres, no século XIX, continuaram com sua fundamental participação na economia e na vida social. No momento em que o Brasil passava pela mudança de mão-de- obra escrava para a assalariada ou livre, a presença da mulher foi crucial na vida rural.
Segundo Silva,369 o papel da mulher foi decisivo para o sucesso do sistema de colonato praticado no período da economia cafeeira, conciliando o trabalho doméstico com a roça de subsistência e com o cafezal.
No entanto, a sua força de trabalho era mascarada. As mulheres não eram reconhecidas como trabalhadoras individualizadas, porque o trabalho continuava dominado ou controlado pelo pai ou pelo marido. Para as mulheres casadas era ainda mais penoso trabalhar, porque dependia das exigências da família, ou seja, dos filhos e dos cuidados da casa. E, mesmo com as mudanças provocadas pela modernização, pela substituição do regime de colonato para o regime assalariado e pelo êxodo rural por volta de 1950 e 1960, a exploração sobre o trabalho