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Bugünkü Demografik Yapı

96 5.2.1.12 Morfolojik Analizler

5.2.2. Sosyo Ekonomik Özellikler

5.2.2.1 Bugünkü Demografik Yapı

“No peito de quem deseja fazer algo novo, as forças do hábito se levantam e testemunham contra o projeto em embrião. É portanto necessário uma força de vontade nova e de outra espécie para arrancar, dentre o trabalho e a lida com as ocupações diárias, oportunidade e tempo para conceber e elaborar a combinação nova e resolver olhá-la como uma possibilidade real e não meramente como um sonho. Essa liberdade mental pressupõe um grande excedente de força sobre a demanda cotidiana e é algo peculiar e raro por natureza.”

Joseph Schumpeter

Ao propormos a abordagem da atual organização das mulheres empresárias do estado de Minas Gerais, uma curiosidade levou-nos a questionar, primeiramente, o surgimento da categoria empresarial em um contexto mais amplo. Assim, a nosso ver, para uma configuração e maior compreensão, fizemos uma síntese sobre a sua conceituação, origem, formação e práticas políticas para, em seguida, tratarmos da organização das mulheres empresárias no estado de Minas Gerais, suas ações e práticas políticas.

Atualmente, os conceitos teóricos de empresário(a) e de empresa, oficialmente legalizados e instituídos no Brasil encontram-se no Código Civil brasileiro de 2002,207 que é resultado da centralização “[...] de um conjunto de normas obrigacionais civis e empresariais”.208

Ao inserir o Direito de Empresa no Código Civil, o legislador pretendeu a unificação

das obrigações, vale dizer, de uma centralização e não da unificação do Direito Privado,

como alguns têm entendido. Segundo Brito,

207

Cf. BRASIL. Novo Código Civil Op. cit.

208

Cf. BRITO, Rodrigo Toscano. O empresário, o não empresário e as sociedades simples e empresárias no Código Civil de 2002. Jornal da Serjus. Op.cit., p. 4.

[...] também é importante destacar que há de toda sorte uma autonomia didática do direito de empresa. Não é pelo simples fato de ele estar inserido no Código Civil que, como um passe de mágica, acaba o direito comercial. Este continua com sua autonomia didática, mas com sede comum para as questões civis e empresariais: o Código Civil.209

Portanto, para se chegar ao Código Civil atual e aos novos conceitos vigentes de empresário(a) e empresa, houve grandes discussões e debates entre comercialistas, juristas e pensadores, aliás, com muitas controvérsias, com críticas e ressalvas até hoje.210 Essas discussões e esses debates, por sua vez, inserem-se na área do Direito, oriundas, particularmente, do extinto Direito Comercial, criado devido à expansão das atividades mercantis e das necessidades de sua regulamentação desde as primeiras e antigas civilizações.

Assim, antes do surgimento da figura do(a) empresário(a) e da empresa, a literatura aborda, primeiro, a origem do Direito Comercial e, junto a ele, a figura do comerciante. Ao longo das mudanças, outras exigências e debates vão surgindo, de acordo com as necessidades de cada época. Assim, vieram o Direito Privado ou Civil, o Direito de Empresa e o Código Civil até o presente.

Por isso, para chegarmos aos conceitos atuais de empresário(a) e de empresa, optamos por abordar, sucintamente, suas origens, para um melhor entendimento desses conceitos vigentes no momento.

Enfatizamos que essa produção acadêmica específica da área do Direito é vastíssima e não foi propósito desta pesquisa aprofundar nessa temática e, sim, pincelar apenas alguns pontos necessários para os enfoques de nosso interesse.

Segundo Requião,211 na Idade Média, devido ao crescimento do tráfico mercantil, surgiu o Direito Comercial, ainda fragmentado.

Vivante,212 jurista italiano, esclarece- nos que o Direito Comercial tem o objetivo de regular as relações jurídicas advindas da prática do comércio, sendo parte do Direito Privado. É, portanto, referente somente ao comércio, aos atos exercidos com o fim da especulação, isto é, a transferência das mercadorias das mãos do produtor para as do consumidor, que são os

209

BRITO, Rodrigo Toscano. O empresário, o não empresário e as sociedades simples e empresárias no Código Civil de 2002. Jornal da Serjus. Op. cit., p. 4.

210

Cf. SOUZA, Washington Peluso Albino de. Conceito de empresa: um desafio que persiste? Síntese Jornal. São Paulo, ano 7, n. 84, p. 16-20, fev. 2004.

211

REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. 21. ed. São Paulo: Saraiva, 1993, v.1.

212

VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Trad. J. Alves de Sá. 3. ed. São Paulo: Livraria C. Teixeira & Ca, 1928.

atos de comércio, e às pessoas que profissionalmente exercem a função intermediária, ou seja,

os comerciantes.

A divisão da matéria regulada pelo Código Civil213 e pelo Código Comercial se torna cada vez mais difícil, devido às modificações do conceito jurídico do comércio em função do surgimento de novas formas econômicas, do alargamento dos avanços legislativos e das leis que vão se atualizando. O Código Comercial, segundo Vivante, é “[...] a fonte mais rica e sistemática de normas atinentes ao comércio”.214

Para qualificar quais leis são comerciais faz-se, preliminarmente, uma investigação, pois é necessário examinar se as leis são específicas à matéria comercial. De acordo com Vivante,

[...] nesta investigação deve colocar-se em primeiro lugar o Código Comercial, que neste assunto actua como uma lei fundamental, pois que serve para determinar qual é a matéria comercial, e indiretamente quais são as leis comerciais (arts. 3o, 4o, 8o, 76o Cód. Com. Ital).215

Dessa forma, o Código Comercial não regula todos os institutos comerciais, todos os contratos de bolsa, bancários, todas espécies de vendas, negócios marítimos, devido à não uniformidade dos usos e práticas por todos os países, ou porque não eram importantes e seguros e, por isso, não houve regulação pelo legislador.

Contudo, essas práticas vão se ampliando por meio do costume, vão se transformando em direito e se afastam do Código que foi promulgado. O Código, então, é um ponto fixo, firme, e o direito se move, vai modificando-se.

Os usos vão se expandindo na medida em que um comerciante os adota, tornando-se um costume em determinado(s) ramo(s) de comércio e esses se estendem a outros comerciantes, alastram-se em todo o estado e até fora de seu âmbito. Assim, há uma separação do que sejam os usos gerais, os seguidos em determinado(s) ramo(s) do comércio e em todo o estado e/ou países, daqueles que são costumeiros em âmbito local – de praça, bolsa, mercado, alfândega e, ainda, os usos especiais, voltados especificamente a certos ramos de

213

O Código Civil é também denominado por Vivante de direito civil, que “em regra, constitui uma fonte de direito subsidiário dos usos, prevalece aos mesmos, como se deduz facilmente do que disse, a) quando contém disposições de ordem pública; b) quando dispõe expressamente para matéria comercial; c) quando o Código Comercial invoca expressamente o Código Civil e o eleva assim ao grau de lei comercial para integrar as suas disposições; d) quando o Código Comercial contém, uma derogação (sic) parcial a uma norma do Código Civil, e introduz assim no sistema do direito comercial tôda a regra na parte que não é derogada”. (VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 21)

214

Ibidem, p. 2.

215

comércio, como por exemplo, o comércio ambulante, de varejo ou retalho, da seda, dos óleos e dos vinhos.

Portanto, uma mesma mercadoria pode ter um uso local diferenciado em várias praças e, ao mesmo tempo, ter um uso geral no estado ou outro país. Existem vários requisitos para que os usos se tornem força obrigatória, o que não é necessário especificar aqui.216

Continua Vivante afirmando que os usos se diferem da lei, porque essa deriva do poder legislativo e aqueles se originam da consciência geral dos comerciantes. O Direito Civil vem para resolver os conflitos e as controvérsias entre as leis comerciais e os usos. Conforme Vivante:

O Código Comercial não derogou (sic) senão em poucos casos, e que para muitíssimos assuntos comerciais êste Código não ditou norma alguma, por exemplo, para todos os assuntos relativos a imóveis e ao trabalho, sendo por isso necessário recorrer quási (sic) exclusivamente ao Código Civil.217

Devido às dificuldades, muitos legisladores vão unificar o Código Civil e o Código Comercial em um só Código. O primeiro país a unificar os Códigos foi a Suíça, seguida da Alemanha e, atualmente, praticamente todos os países.

Para o entendimento da divisão anterior do Direito Privado em dois Códigos, hoje, desaparecidos, buscamos, resumidamente, a sua origem em outros contextos econômicos, jurídicos e sociais pelos quais o Direito Comercial atravessou.

Anteriormente, ou seja, nas civilizações antigas, existiram algumas regras na regulamentação de determinadas práticas econômicas. Como exemplo, o referido autor cita o Código de Manu, na Índia e o Código de Hammurabi, na Babilônia. Esse foi considerado o primeiro Código de Leis comerciais, no qual, inclusive, os romanos também se apoiaram para regular instituições de Direito Comercial marítimo. Portanto, não havia, também, entre os romanos, um “Direito Comercial” organizado para as práticas mercantis.

Encontramos a palavra “comerciante”, pela primeira vez, entre os romanos. Segundo Requião: “Os comerciantes, geralmente estrangeiros, respondiam perante o praetor

peregrines, que a eles aplicava o jus gentium”.218

Ao definir quem é comerciante, Vivante, por volta de 1909, registrou:

Esta investigação tem importância prática, principalmente porque muitas disposições do Código Comercial só atendem aos comerciantes, como a publicidade do seu

216

Cf. VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 19.

217

Ibidem, p. 21.

218

regimen matrimonial, a escrituração dos seus livros, a declaração da falência, o processo penal de bancarrota; porque os actos dêles se presumem comerciais e por isso são sujeitos à lei comercial; porque são eleitores e elegíveis nas Câmaras de Comércio; porque são sujeitos a normas fiscais particulares.219

Continua o autor afirmando que em todas as legislações, a exigência para ser comerciante é exercer a prática habitual de atos de comércio, que é uma fonte de lucros e ganhos. Assim, uma especulação não habitual, ou seja, isolada, não caracteriza a qualidade de comerciante e de atos de comércio, porque não se constitui uma profissão. Existe a necessidade do exercício constante, efetivo e profissional dos atos de comércio.

Acrescenta Requião220 que muitos autores não distinguem a figura do comerciante do(a) empresário(a) comercial moderno(a). E cita: “Giuseppe Valeri, professor da universidade de Florença, declara que praticamente a figura genérica do empresário comercial coincide hoje com aquela do comerciante conhecida do velho direito”.221

Segundo esse autor, na França tentou-se substituir o conceito de comerciante por chefe

de empresa, independentemente de esta ser coletiva ou individual, mas tal tentativa não

vingou. Reafirma que no direito moderno, o(a) antigo(a) comerciante é o(a) empresário(a)

comercial.

No entanto Requião faz uma distinção entre o(a) antigo(a) comerciante e o(a)

empresário(a) moderno(a), afirmando que o conceito de comerciante foi impregnado de uma

conotação individualista, egocêntrica, devido às marcas históricas do individualismo do Direito Comercial, o qual expressava apenas as regras e exigências do mercado. E que o(a) empresário(a) comercial, atualmente, por causa da mudança do conceito social de empresa,222 que reflete o início de uma participação e preocupação com os interesses coletivos, mudou a sua imagem. Isto, diz Requião,

[...] faz com que o empresário comercial não seja mais o empreendedor egoísta, divorciado daqueles interesses gerais, mas um produtor impulsionado pela persecução de lucro, é verdade, mas consciente de que constitui uma peça importante no mecanismo da sociedade humana. Não é ele, enfim, um homem isolado, divorciado dos anseios gerais da coletividade em que vive.223

Nesse sentido, as suas relações com os seus empregados, hoje colaboradores, e a clientela em geral, sofreram mudanças ao buscar uma visão de integração e colaboração com

219

VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 29.

220

REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. Op. cit.

221

Ibidem, p. 73.

222

Sobre a função social da empresa, especificamente, abordamos nos capítulos 9 e 10.

223

interesses definidos voltados para o sucesso e crescimento da empresa à qual todos pertencem.

O(A) comerciante, então, na concepção de Requião era visto como um “[...] senhor absoluto de seu próprio interesse”,224 reverenciado “[...] como um suserano feudal, de baraço e cutelo, [...]”.225 Segundo o autor, os comercialistas modernos e os estudiosos não devem, contudo, deixar de examinar “[...] o perfil do comerciante antigo ao lado dos novos conceitos sobre o empresário [...]”,226 como fizeram os juristas italianos, deixando de lado a denominação e o perfil doutrinário do(a) comerciante.

Requião define o(a) comerciante de acordo com o Código francês de 1807, cuja definição equivale à de Vivante: “São comerciantes aqueles que exercem atos de comércio e deles fazem profissão habitual”.227 Tendo em vista que o conceito de atos de comércio é definido por lei, o conceito de comerciante decorre também da própria lei.

Portanto, o(a) comerciante tem que praticar os atos de comércio, mas isso não basta, porque alguém que não o seja pode praticar atos de comércio. Daí, a necessidade da prática

habitual, apesar da palavra habitual ter sido muito criticada. Explica-nos Requião:

Um funcionário público que esteja proibido por lei de ser comerciante pratica, todavia, ato de comércio quando assina título de crédito referente a compra a prazo que efetue. Foi necessário acrescer, então, para caracterizar a figura do comerciante, o esclarecimento de que a prática de atos de comércio tem que ser efetuada em massa, isto é, deve ser ele um profissional dos atos de comércio. Impõe-se, portanto, para a qualificação de comerciante que alguém profissionalmente exercite atos de comércio. A definição, em conseqüência, torna-se válida quanto à prática de atos de comércio se acrescer o profissionalismo de seu exercício, que o Código francês reforça com a expressão habitual. É comerciante quem faz do exercício dos atos de comércio profissão habitual.228

Dois autores, Ripert229 e Van Ryn,230 defendem a mesma opinião de que a palavra

habitual é uma redundância e que a profissão não poderia ser confundida com hábito, ou seja,

a repetição de atos de comércio poderia “[...] criar um hábito mas não uma profissão, [...], o adjetivo habitual não acresce nada ao sentido da palavra profissão; [...]”.231

Nesse impasse, ao dizer que o(a) comerciante é aquele(a) que pratica os atos de comércio era necessário provar que a sua prática era uma profissão. E a profissão foi definida

224

REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. Op. cit., p. 74.

225 Ibidem, p. 74. 226 Ibidem, p. 77. 227 Ibidem, p. 77. 228 Ibidem, p. 77. 229 Apud ibidem. 230 Apud ibidem. 231 Ibidem, p. 77.

como “[...] a atividade pela qual o indivíduo obtém seus meios de vida”.232 Mesmo um indivíduo que tenha declaração de comerciante no Registro de Comércio, se não praticar como profissão os atos de comércio, esse não possui a condição de comerciante, porque, por si só, o registro não o qualifica como comerciante.233

Confirma Requião que, em relação à qualificação de comerciante, o Código brasileiro filiou-se ao modelo francês, lembrando que além deste existem outros critérios legislativos, quais sejam, o espanhol, o germânico e o suíço, os quais não consideramos necessário explicitar.234

Também, existem leis que regulam determinadas profissões incompatíveis com a prática do comércio, como embaixadores, cônsules, notários, procuradores, militares, aos considerados falidos e outros setores interditados por questões de ordem pública ou privada.

Os atos de comércio ainda são limitados às pessoas consideradas incapazes, como um menor de idade ou interdito, o qual pode ser representado por um responsável – pai, tutor ou curador –, e que, ao emancipar-se, em regra aos 18 anos, deve submeter-se aos atos exigidos em conformidade com as prescrições da lei referente ao tema do Código Comercial.235

A atividade mercantil romana se expandiu, mas, na era cristã, foi considerada desonrosa, inclusive, proibida por leis aos patrícios e senadores romanos, o que não os impediu da prática da atividade e do burlamento às leis. Com a invasão dos bárbaros ao Império Romano, por volta do século V, ocorreu o esfacelamento do Império e o colapso da florescente expansão comercial. Inicia-se o medievo, e o Direito Civil romano, que já era praticado em nível internacional, foi subjugado pelo direito territorial, tendo em vista que, na fase feudal, por volta do século VIII e IX, as relações jurídicas, apesar da influência do direito romano e canônico, eram fundamentalmente locais.

De acordo com Requião, os comerciantes começaram a se organizar por meio dos

colégios, uma forma embrionária de organização conhecida dos romanos, devido à hostilidade

do contexto às práticas mercantis. Essas corporações de mercadores, assim chamadas durante a Idade Média, vão se enriquecendo, conquistam poderes políticos e autonomia para algumas cidades consideradas grandes centros comerciais, como as cidades italianas de Veneza, Gênova, Florença, dentre outras. Confirmamos em Vivante o exposto:

232

REQUIÃO, Rubens. Curso de direito comercial. Op. cit., p. 78.

233

Cf. Ibidem.

234

Cf. Ibidem.

235

Para se defenderem contra os abusos dos poderosos, e talvez para os cometerem por sua vez, os comerciantes uniram-se até o número de mil, seguindo a tendência da época, em corporações distintas das outras classes sociais. Formaram colégios constituídos segundo os vários ramos do seu comércio, denominados artes, paratici, convivia, que deram mais tarde origem a uma corporação principal designada com o nome de universidade, de comunidade dos comerciantes e por vezes simplesmente com o nome de mercanzia.236

Continua o autor afirmando que essas corporações eram poderosas, com privilégios, franquias, participações em feiras, mercados, Conselho das Comunas, prestavam serviços de segurança, defesa e socorro aos sócios, possuíam patrimônio imobiliário e armazém para estocar mercadorias. A obra mais importante foi a formação de um direito mercantil, no qual os costumes eram respeitados como estatutos escritos, o que significou a origem de uma legislação comercial. Esses estatutos, continua Vivante, foram aperfeiçoados e revistos durante os anos de 1200 a 1800, ou seja, em vários séculos, com, inclusive, embasamento de muitas regras em vigor ainda hoje.

Nesse sentido, segundo Vivante, explica-se o desenvolvimento do Direito Comercial separado do Direito Civil, portanto um campo autônomo do Direito Privado.

Também na Alemanha, nas costas do Mar do Norte, surgiu a Hansa, uma liga de aproximadamente oitenta (80) cidades com o mercado em expansão, alcançando o apogeu no século XIV. O crescimento do mercado ocorria paralelamente ao das cidades medievais, naquelas onde os soberanos possuíam um poder político mais frágil por causa da grande fragmentação territorial ou ainda em áreas neutras, fronteiriças – as chamadas feiras – criando, inclusive, leis protetoras a todos os estrangeiros que praticassem comércio. Conforme Requião:

Deve-se anotar que os comerciantes, organizados em suas poderosas ligas e corporações, adquirem tal poderio político e militar que vão tornando autônomas as cidades mercantis a ponto de, em muitos casos, os estatutos de suas corporações se confundirem com os estatutos da própria cidade.237

Afirma o autor que é neste momento que o Direito Comercial começa a se fixar, apoiado, de início, em um direito costumeiro, criado pelos próprios comerciantes organizados e aplicado por juízes eleitos nas assembléias também organizadas pelos comerciantes. Esse

direito costumeiro foi chamado de juízo consular, base das regras sistematizadas que irão

dirigir o mercado.

236

VIVANTE, Cesare. Instituições de Direito Comercial. Op. cit., p. 8-9.

237

Escarra, outro jurista citado por Requião, diz-nos que “[...] o Direito Comercial é ao mesmo tempo o direito dos comerciantes e dos atos de comércio”.238

Surge, ainda, o período do subjetivismo do Direito Comercial a favor do comerciante, ou seja, “um direito corporativo, profissional, autônomo, em relação ao direito territorial e civil, e consuetudinário”.239

Segundo Vivante,240 o legislador, para aplicar o Código, deveria indicar quais eram os atos de comércio e, por isso, dividiu-os em atos objetivos e atos subjetivos. Nesse sentido, o autor explica-nos:

Estes actos dizem-se objectivos porquanto o legislador os considerou como comerciais atendendo à sua natureza, e não à pessoa que os pratica: por outras palavras, porque conservam sua natureza comercial mesmo quando praticados por pessoa que não seja comerciante.241

Os atos objetivos, continua Vivante, estão reunidos em cinco grupos: negócio sobre mercadorias, crédito, trabalho e riscos e negócios marítimos. E, por atos subjetivos de comércio entende-se:

São os actos a que a lei atribui o caráter comercial, pela razão de serem exercidos por comerciantes. Distinguem-se essencialmente dos actos objectivos, por quanto estes atribuem a quem os exerce profissionalmente a qualidade de comerciante, ao passo que aqueles pressupõem em que os exerce a profissão de comerciante.242

De acordo com Requião, a profissão não abarcava toda a vida e a prática do comerciante, devendo, por isso, restringir o significado de matéria do comércio, que era “[...] a compra e venda de mercadoria para revenda e a sucessiva revenda; os negócios de moeda através dos bancos; e as letras de câmbio, pela sua conexão com os negócios

Benzer Belgeler