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BÖLÜM 4: TÜRKĠYE BELEDĠYELERĠNDE SPOR

4.3. Sakarya’da Spor

Foi possível identificar, no convívio com as docentes, que os significados que atribuem à educação das relações étnico-raciais27 no ensino de Ciências se constroem nas próprias relações étnico-raciais que vivem na sociedade. Essas vivências, na medida em que as docentes refletem sobre elas, são revividas e analisadas, criando situações em que a experiência pode ser re-significada. Essas relações perpassam a interação das docentes com outras dimensões de suas vidas, como a escola, a prática docente, a família, a mídia entre outras.

No processo de atribuir significados à educação das relações étnico-raciais, as docentes passaram a refletir sobre o seu próprio pertencimento étnico-racial. Ao responderem a uma questão sobre sua cor/raça28, identificaram-se como brancas e de

ascendência européia. Porém, algumas mencionaram sua ancestralidade não ser exclusivamente européia, ressaltando a miscigenação em suas famílias, como exemplifica Isolda: “Minha cor é branca, mas quanto à etnia, com certeza multiétnica, pois sou produto de povos diferentes, com culturas e características específicas”. Sendo mais específica acerca dos “outros povos” que compõem sua ancestralidade, Vanda escreveu: “Cor/Raça: branca/descendência italiana e indígena”. É possível perceber que as participantes relacionam o termo branca à cor e sua ascendência à raça.

A ascendência familiar é identificada por elas como importante para o pertencimento étnico-racial próprio e dos/as alunos/as. Assim, demonstraram grande interesse pela história da imigração italiana, relacionado ao fato de que a família de muitas docentes tem essa origem. Histórias e análises sobre a influência dessas origens fazem parte do pertencimento étnico-racial, construído na medida em que os sujeitos refletem sobre a própria identidade. Renilda identifica em sua ascendência familiar a explicação para certos comportamentos, como ser mais agitada ou falar muito e alto:

27 Como apresentado no Capítulo 02, a educação das relações étnico-raciais refere-se a processos

educativos que orientam as pessoas nas relações étnico-raciais vividas.

112 “Às vezes a gente está trabalhando em outro lugar: ‘fala baixo que você não está na escola’, às vezes eu estou em casa minha irmã fala: ‘você não está na escola’. Agora... a gente já é bem mais agitada, bem de descendente de italiano. A gente chegou na sala de aula e encontrou... o meio perfeito”.

O “ser branco” foi poucas vezes tema de conversas entre as docentes, que de forma geral, nunca se referiram às outras ou a si próprias como um grupo, isto é, um grupo étnico-racial. Geralmente, quando se referiam a um grupo de pertencimento era “nós professoras”, geralmente em relação ao “eles/as”, estudantes.

Ao atribuírem significados ao fenômeno em estudo, as docentes compartilharam e refletiram intensamente sobre as relações étnico-raciais. Essa reflexão foi considerada importante, pois, a partir dela, puderam entender melhor o que são e como se dão as relações étnico-raciais que ocorrem na sala de aula e fora dela. Sendo assim, consideram que as relações étnico-raciais referem-se a brancos, negros, indígenas e asiáticos e devem ser por eles discutidas a fim de atingir o ideal de convívio harmonioso. Referem- se também à convivência de pessoas, e envolvem situações geradas por falta de igualdade, não compreensão da diversidade e ideais acerca de como pode ser vivida convivência entre diferentes. Um ideal expresso é que deve haver convivência harmoniosa entre pessoas de diferentes grupos. Por exemplo, explicando a escolha de imagens que seriam veiculadas para os alunos em atividades, Anita expressa a necessidade de que existam imagens de: “(...) crianças de diferentes etnias sempre de mãos dados um no colo do outro, ou uma ilustração desse tipo...”.

A diversidade está presente na sociedade e deve ser valorizada, na visão das professoras. Para tanto, é preciso entender como se deram historicamente as relações étnico-raciais, refletidas nos preconceitos e discriminações identificados no cotidiano atual. Como Anita disse, essa questão “deve ser compartilhada por brancos e negros”. Uma das formas de entender essas relações passa por questionar conceitos, como o de perfeição, e padrões, como o de beleza, marcantes nesta sociedade. Cabe destacar, como o fez Isolda, que as Ciências Naturais têm papel na formação desses conceitos, por exemplo, no contexto do movimento eugênico. A professora dizia que: “Então ele fala (...) do esforço da ciência em estar sempre melhorando, a genética, do ser humano para, porque parece que não existe tolerância com as imperfeições, com a diversidade.”.

À medida que aprofundaram discussões sobre os preconceitos raciais, identificaram, por um lado, que os mesmos têm raízes no passado e são repetidos na

113 sociedade contemporânea. Por outro, perceberam que os preconceitos são estabelecidos em sociedades desiguais, em que são reforçados e re-construídos. De forma geral, se posicionam contra os preconceitos e vêem a necessidade de que sejam superados para que as concepções de cada um possam ser construídas pautadas em respeito.

As docentes consideram que existe, atualmente, um controle sobre as relações étnico-raciais, exercido por leis que procuram coibir a prática do racismo. Dessa forma, as relações étnico-raciais são mais controladas que no passado, pois as pessoas sabem que o racismo é crime. Essas leis são vistas como causa da diminuição de discriminações raciais abertas, como piadas, porém, isso não significa que os preconceitos desapareceram. Na ausência dessas leis há maior liberdade para a discriminação, o que acontece, por exemplo, em relação à orientação sexual, sobre a qual há discriminações muito mais abertas.

Discriminações raciais são presenciadas no cotidiano escolar e fora dele, mesmo não sendo sofridas pessoalmente, como no caso da maioria das pessoas brancas. Porém, presenciar essas discriminações ocorrendo com outras pessoas, principalmente alunos/as, é educativo.

As docentes admitiram presenciar situações de discriminação no ambiente escolar, com as quais não concordam, mas nas quais não interferiram por medo das reações, por sentirem-se despreparadas para resolver tais questões e/ou por falta de materiais que auxiliassem desenvolver trabalho a respeito. Essas situações foram re- vividas, e serviram de base para o planejamento de ações que poderiam ter sido realizadas. Nesse sentido, Samira lembrou ter presenciado uma situação em que uma professora de história comentou com ela, na frente de um aluno negro, líder do grêmio estudantil, “que bom esse menino, pena a cor dele”. As discriminações são vistas como fatores que prejudicam a formação da identidade dos/as estudantes e devem ser extintas do ambiente escolar. Juntamente a esse tipo de discriminação aberta, são identificadas outras, veladas, que também interferem na identidade dos/as alunos/as negros/as, como a representação não equitativa dos diferentes grupos étnico-raciais nos livros didáticos.

A idéia de que as pessoas negras devem assumir um “comportamento próprio”, uma forma própria de encarar a vida e de agir em uma sociedade que é marcada pelo racismo e discriminações, foi destacada. Na sociedade brasileira, uma das faces identificadas desse racismo é subestimar as pessoas negras, “delas não se espera muito”. Dessa forma, aos/às negros/as são impostas certas necessidades, como “saber lidar” com as discriminações de forma a não desenvolver auto-conceito negativo e não

114 se auto-discriminar. Esse comportamento refere-se também a postura de combate às discriminações e de denúncia de tais atos aos órgãos competentes, como delegacias.

Para se envolverem no combate ao racismo, uma postura fundamental que as docentes identificam é assumir e superar os preconceitos que possuem acerca das pessoas negras, sua cultura e história. Como escreveu Isolda: “Percebi o quanto tenho que melhorar e os preconceitos que tenho que admitir”. A assunção dos próprios preconceitos é considerada passo importante para o engajamento. Por exemplo, ao verem imagens de pessoas negras que não conheciam, as docentes foram incentivadas a imaginar uma biografia hipotética das tais pessoas. Nessa atividade, duas professoras presentes analisaram suas próprias expectativas a respeito das pessoas negras em foco. Após exporem as biografias por elas inventadas, o pesquisador apresentou dados verdadeiros acerca das três pessoas negras apresentadas (Cheik Anta Diop, Luis Gama e Madame C. J. Walker). Nessa situação, Samira disse: “Meu deus! E nós fomos mais para uma imagem simples e o colocamos mais lá embaixo. Porque sinceramente olhando pra ele jamais eu iria imaginar que ele tivesse esse currículo, que ele fosse uma pessoa culta e tal”. Refletindo sobre essa experiência, a docente mencionada disse: “Eu diria que a aparência nos leva a essa ... eu, por exemplo, errei é o que ainda se passa, vão passando os anos, e o negro é estigmatizado, né. Eu, por exemplo, em nenhum momento coloquei os dois como pessoas de sucesso, que é assim uma forma geral que nos dizemos né. Você vê, eu mesma me peguei, quando contei do jornal Primeira página, esse doutor que veio da África, na USP, no Departamento de Ótica e eu me surpreendi. Infelizmente eu acho que é um sentimento que todos nós temos quando nós vemos uma pessoa negra, de sucesso, e tal nosso sentimento é a surpresa, né”.

Sobre a mesma experiência, Anita também se pronunciou: “Pensei também com relação à aparência, de a gente ficar, olhar e a gente achar que é menos, que é pobre(...)”. Essa falta de expectativa nas pessoas negras é identificada como reflexo da sociedade, que as apresenta de forma inferiorizada e que educa dessa forma.

Dentre os preconceitos que as professoras entendem que devam ser superados, destacam-se também as representações sobre a cultura africana e afro-brasileira. O continente africano e os povos que lá vivem também são vistos de forma preconceituosa, idéias baseadas em visões distorcidas, muitas aprendidas nas escolas em que estudaram e nos meios de comunicação. Essas visões referem-se a um continente africano marcado, exclusivamente, pela pobreza, doenças e atraso científico e tecnológico. Tais concepções ignoram conhecimentos sobre as contribuições do continente africano para o desenvolvimento humano e atribui a origem de toda

115 civilização ao continente europeu. Referindo-se às contribuições africanas para as Ciências Naturais, Isolda disse: “Aquela origem da Grécia, o conhecimento europeu, né? A Ciência européia, então (...) do branco. Então isso para mim também foi uma descoberta, fatal!”. Após analisar as características fenotípicas dos egípcios, notadamente negróides, Renilda disse:

“O que você falou não é aquela visão. Eu mesmo na escola, quando estudei Egito, quando estudou Grécia, quando estudou não sei o que, que isso eram todas matérias estuda tudo, né. Imagina [ênfase], nem falaram de África. E será que essa visão ainda tem essa visão? Tudo branquinhos. Que não tem nada a ver, pra mim até então não tinha nada a ver, gente, desculpem minha ignorância, não tinha a ver. E eu cansei de ver essas figuras, pelo amor de deus, nunca pensei nisso e essa figura você acha em qualquer coisa se você pesquisar você vê essa figura e você não pára para pensar nisso”.

Na busca por superar preconceitos, é preciso conhecer outros povos africanos, subsaarianos, geralmente vistos de forma muito estereotipada. Ao ver fotos de belas cidades africanas, Samira disse: “Aí bate na falta de informação das pessoas. Eu, por exemplo, na minha cabeça, fala em África eu penso em AIDS. Nas crianças magras(...) É uma realidade, Douglas, mas eu me esqueço do lado rico também”. Conceitos como moderno e primitivo, rico e pobre, precisam ser discutidos para esse processo difícil de superar as próprias idéias equivocadas.

Atribuir significados às relações étnico-raciais envolve experiências e valores, ligados a religiosidade, assim como conhecimentos sobre as religiões de matriz africana. A religião assumida pelas docentes interfere na forma pela qual as relações étnico- raciais são entendidas. Essa interferência se dá, por um lado, na visão mais ampla pela qual as relações entre as pessoas são analisadas. Por exemplo, uma professora católica explica que sua ação pedagógica está baseada na concepção de que “todos são iguais perante Deus”. Nesse caso, brancos, negros, indígenas estão conectados por uma igualdade que se dá no campo da espiritualidade, mas não apenas nele. A docente disse que essa visão não é compartilhada, pelo menos intencionalmente, com os/as estudantes, que têm suas próprias religiões e espiritualidade.

A discussão sobre as relações étnico-raciais pode levar também a um questionamento da própria religião adotada. Nesse sentido, uma participante evangélica refletia sobre o fato de que em sua igreja, assim como na maioria das outras, Jesus Cristo é representado loiro. Ela se questionava porque, como deveria ocorrer com outras pessoas, enquanto rezava imaginava Jesus com aquelas características físicas, porém, sua “verdadeira imagem” deveria ser “mais pro negro”, levando em conta a região a

116 que se atribui seu nascimento. Finalmente, ela disse que tal questão não é discutida nas igrejas.

As docentes, assim como a maioria dos/as outros/as brasileiros/as, sabem pouco sobre as religiões de matriz africana, que sofrem com os muitos preconceitos existentes e com a discriminação de seus adeptos. Porém, no convívio, duas participantes revelaram ter alguma relação com tais religiões. Isolada disse ter: “um pé na umbanda, mas eu tenho receio de falar, penso bem para quem vou contar”, pois: “(...) tem muito preconceito, por parte dos professores(...) eles te olham de um jeito quando aparece o assunto”. Outra docente comentou que alguns de seus familiares são umbandistas e que teve contato, quando criança, com essa religião. Ela disse que: “É a sociedade que faz isso, a pessoa ter medo de contar(...) Eles não dão valor, como se estivessem menosprezando”. Alguns meses após o fim da intervenção de pesquisa, Isolda disse ao pesquisador que passou, após um período de aproximação, “por curiosidade”, a frequentar um terreiro de umbanda na cidade em que vive. A participante informou estar muito feliz com a decisão e que passou a perceber de forma cada vez mais clara o preconceito contra os/as umbandistas.

Benzer Belgeler