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A escola e sistema escolar constituem importante dimensão que interfere na possibilidade de que as docentes, no ensino de Ciências, eduquem no sentido de relações étnico-raciais positivas.

As docentes constatam que o poder público, representado pelas secretarias Estadual e Municipal de Educação, deveria promover processos de formação de professores/as adequados à realidade das salas de aula. Nesse sentido, o estudo das relações étnico-raciais está entre as prioridades em que tais secretarias deveriam investir. Samira disse que há pouco incentivo do Estado para com a formação em relações raciais e que a Prefeitura Municipal dá maior suporte para essa discussão, inclusive oferecendo um curso de formação continuada em “Africanidades”, suspenso temporariamente na época. Dessa forma, são explicitadas diferenças de organização e gerenciamento da educação escolar existentes entre tais órgãos. A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo é apontada como a instância de organização escolar que menos valoriza a discussão sobre o racismo e a cultura afro-brasileira.

119 A gestão das escolas pelas mencionadas secretarias é considerada importante para a qualidade do trabalho pedagógico desenvolvido. Por um lado, a secretaria estadual tem um sistema de gestão considerado mais democrático em relação à escolha da diretoria, papel central na organização escolar. Isso porque a secretaria municipal realiza tal escolha através de indicação e a estadual por concurso, método considerado mais justo por proporcionar maior chance de escolha de diretor/a adequado/a. Ao mesmo tempo, na secretaria estadual há muita politicagem, interesses e acordos entre grupos dominantes, que acabam afetando o trabalho e a formação das docentes.

Outra problemática relativa à organização escolar indicada pelas professoras refere-se às diferenças entre escolas públicas e privadas, expectativas em relação ao futuro dos/as alunos/as e também diferenças a respeito da formação proporcionada por cada instituição. Junto à visão generalizada de que as escolas particulares fornecem uma “educação melhor”, entende-se que a formação dos/as estudantes oriundos dessas instituições é menos eficaz para o cotidiano, formando um “aluno bocó”. Em contraposição, nas escolas públicas formam-se alunos/as mais “espertos/as”. Porém, há uma percepção comum de que a escola pública é desvalorizada e está em más condições. Tal desvalorização envolve salários baixos para os/as funcionários/as, falta de materiais adequados, deterioração da estrutura física da escola, entre outros aspectos. Envolve também relações tensas com alunos/as, abordadas mais adiante, indisciplina, falta de envolvimento das famílias, falta de interesse por parte dos estudantes etc. As “más condições de trabalho” nas escolas públicas, na visão das docentes, estão ligadas também à existência de alunos/as sem perspectiva de futuro e ao papel do tráfico de drogas em certas comunidades. Segundo Renilda: “Há muita indisciplina, muito barulho. Nestas condições o professor não tem espaço para debater ciência(...) Falta apoio da família, falta perspectiva aos alunos(...) Estudar para que se vender droga dá muito mais dinheiro?”. Tal questionamento refere-se a determinados alunos/as, não todos/as, mas as docentes consideram que essa situação se agrava dia-a-dia e interfere na realização do trabalho escolar como um todo.

Outra questão que dificulta o trabalho das docentes refere-se a aspectos envolvidos no planejamento de ensino. A ausência de tempo suficiente para planejar aulas acarreta, em determinadas situações, que temas importantes não sejam abordados devido às dificuldades encontradas para preparar atividades adequadas. É o caso, por exemplo, quando tal preparação envolve pesquisas e em aulas distintas daquelas descritas em livros didáticos ou já planejadas anteriormente, como aquelas cujo objetivo

120 é educar relações étnico-raciais. Referindo-se à necessidade de fazer pesquisas para poder abordar questões como as contribuições de africanos e afro-descendentes para as Ciências Naturais, Renilda disse: “Por que eu acho importantíssimo esse trabalho, porém não tenho tempo para pesquisar para aplicar esses conhecimentos em minhas aulas. Infelizmente, não tenho tempo para trabalhar dessa forma”. Isto é, mesmo tendo em mente as ações necessárias para realizar trabalho considerado adequado, muitas vezes, as docentes enfrentam como barreira a falta de tempo para planejar as sequências didáticas.

O apoio da direção escolar, muitas vezes não recebido, é apontado também como dificuldade para realização de trabalho “diferenciado", como o mencionado anteriormente. Esse apoio pode ser dado em alguns momentos, porém, isso não é sempre assim. Há rotatividade de diretores/as numa escola e, ao mesmo tempo, as docentes, principalmente aquelas não efetivas, são obrigadas a mudar de escola frequentemente e adaptar-se a outros/as gestores/as. Da mesma forma, o apoio dos/as pares é considerado fundamental na abordagem de questões complexas como as relações étnico-raciais. Portanto, para ser possível envolver outros/as docentes da escola em atividades de combate ao racismo e valorização da diversidade, é necessário promover formação.

Outro entrave imposto pelas condições das escolas em que as professoras trabalham é a obrigatoriedade de realizar atividades consideradas sem sentido, ou desnecessárias. Muitas vezes, essas atividades propostas pela direção ou pela coordenação pedagógica referem-se a conteúdos relevantes, porém, a forma pela qual são conduzidas as torna sem sentido para estudantes e docentes. Por exemplo, Vanda destacou a necessidade de trabalhar num sábado, em atividade de comemoração do dia do folclore, considerado por ela importante. Porém, a forma pela qual o dia foi organizado, fez com que os/as docentes envolvidos sentissem sua atuação sem sentido, o que se refletia no comportamento dos/as alunos/as, igualmente desmotivados/as. Segundo ela, a atividade era pontual e acrítica, sendo o papel dos/as professores/as apenas o de monitores, controlando o comportamento dos/as estudantes.

Benzer Belgeler