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Tendo em mente as distinções que caracterizam cada contexto e os dados minuciosamente analisados, é estabelecido diálogo complexo, entre significados de professores/as brasileiros/as e estadunidenses e, entre eles e a literatura. Esse intento é apresentado na última etapa da pesquisa, o Capítulo 05 desta tese.

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O CONVÍVIO

Como já mencionado, o fenômeno estudado nesta pesquisa à luz das visões dos/as participantes é a educação das relações étnico-raciais no ensino de Ciências. São a seguir descritas compreensões referentes à convivência em práticas sociais, aos processos educativos nelas produzidos e à pesquisa realizada no convívio entre pesquisador e participantes.

Depois da apresentação das mencionadas compreensões, são descritas especificidades do convívio no Brasil e nos Estados Unidos, os/as participantes, o processo de aproximação a eles/as e, de forma geral, os tipos de interações que se deram entre esses sujeitos e o pesquisador.

Com o intuito de compreender a fundo a educação das relações étnico-raciais mais do que fazer um diagnóstico, já bem delineado por outras pesquisas, decidiu-se vivenciar esse processo e, no convívio, desenvolver estudo científico. Para tanto, educadores/as brasileiros/as e estadunidenses conviveram com o pesquisador, que procurou conhecer suas experiências. No convívio, foi possível também analisar a adequação das referências teórico-metodológicas assumidas para o trabalho de intervenção realizado.

Segundo Cota (2000) práticas sociais “se produzem no intercâmbio que as pessoas estabelecem entre si ao significar o mundo que as cerca e ao intervir nele” (p. 211). Tais práticas sociais decorrem do estabelecimento e manutenção de relações entre pessoas que dão sentido ao mundo, que se apresenta:

“concretizado na natureza, numa sociedade, nas relações sociais, nas práticas sociais como as de produzir bens – o trabalho – as de ensinar e aprender, que reforçam, recriam relações entre grupos, em classes sociais” (id. ibid., p. 211).

Tendo em vista essa compreensão, de que as práticas sociais reforçam e recriam relações entre grupos e pessoas, cabe destacar que tais relações não são neutras, nem arbitrárias. Essas relações são intencionais e materializam-se no convívio social, em ações culturais. Como Freire (1978) explicou “toda ação cultural é sempre uma forma sistematizada e deliberada de ação que incide sobre a estrutura social”, com a intenção “de mantê-la como está, de operar na mesma, pequenas mudanças ou transformá-la” (p. 236). Cota (2000) também contribui para entender essa ação que incide sobre a realidade, quando ensina que:

“Toda atividade humana implica um objeto que manipula uma situação em que interfere, com a intenção de transformá-la. Tem-se um objetivo a ser alcançado, uma concepção a se configurar, ao

83 criarem-se situações que efetivam a transformação da atividade humana” (id. ibid., p. 206).

Neste estudo, as estruturas sociais que foram objeto de estudo e sobre as quais pesquisador e participantes procuraram produzir mudanças são o ensino de Ciências, as relações étnico-raciais e a prática docente, que se entrelaçam e revelam na convivência entre pesquisador e participantes. Durante as etapas da pesquisa, foram desenvolvidas ações que procuraram operar mudanças na estrutura social, produzir conhecimentos científicos e promover a humanização de todos e todas envolvidos neste intento. Participantes e pesquisador atribuíram sentido à experiência vivida, de educar relações étnico-raciais ao ensinar Ciências, processo em que se conscientizaram. Conscientizar- se, como mostra Fiori (1986), é:

“(...) o ‘retomar reflexivo do movimento da constituição da consciência como existência’. Neste movimento, o homem se constitui e se assume, ao produzir-se e reproduzir-se. Neste refazer-se consiste seu fazer-se e seu fazer. A verdadeira educação é participação ativa nesse fazer em que o homem se faz continuamente. Educar, pois, é conscientizar, e conscientizar equivale a buscar essa plenitude da condição humana” (op. cit., p. 03).

Tendo por base o que escreveram Fiori (1986) e Freire (1978), a conscientização se dá na intersubjetividade, na comunicação entre pessoas que significam experiências que vivem. Embora individual, a subjetividade de cada um não se dá no isolamento; ao contrário, constitui-se na presença das outras, em mundo que lhes é comum. Dizendo de outro modo, no convívio, cada um constrói a sua própria subjetividade, a seu modo, sendo esta reconhecida frente à existência de outras. Segundo Fiori (1986):

“A comunicação das consciências (a intersubjetividade) supõe um mundo comum. Se cada um constituísse seu mundo, esse não poderia ser a mediação para o encontro das consciências, e estas, se comunicariam sem o mundo – o que não é o caso, pois somos seres encarnados – ou não se comunicariam. Uma vez mais: as consciências não se encontram, mas se constituem em intersubjetividade originária” (id. ibid., p. 05).

É nas práticas sociais que as pessoas convivem e abrem-se para o mundo e nelas são produzidos processos educativos, pois, na intersubjetividade, os sujeitos atribuem significados ao ambiente em que vivem. No caso desta pesquisa, essas práticas sociais referem-se à interações em que pesquisador e participantes conversaram, estudaram, lembraram vivências, questionaram situações, posturas e valores, dialogaram.

84 Discutindo a postura que pesquisadores devem assumir frente aos participantes da pesquisa e as questões éticas envolvidas, Silva (1995) afirma que a pesquisa requer respeito às pessoas com quem se trabalha, que se faz importante também quando posturas, entendimentos, avaliações não coincidem com as do/a pesquisador/a (op. cit., p. 237). A pesquisadora acrescenta que não se trata de o/a pesquisador/a adotar as idéias, opções, iniciativas, ou de concordar com tudo que as outras pessoas pensam ou fazem, assim como a recíproca também não é verdadeira. É necessário que o/a pesquisador/a preze pela abundância de diálogo e de respeito, tendo em vista seus posicionamentos políticos/sociais e também os objetivos do trabalho que está sendo realizado, procurando agir de forma coerente com os/as mesmos/as.

Cabe mencionar que o diálogo é entendido aqui como explica Fiori (2004):

“(...) o movimento constitutivo da consciência que, abrindo-se para a

infinitude, vence intencionalmente as fronteiras da finitude e, incessantemente, busca reencontrar-se além de si mesma”. Consciência do mundo, busca-se ela si mesma num mundo que é comum, porque é comum nesse mundo, buscar-se a si mesma é comunicar-se com o outro” (p. 16).

O diálogo é comunicação entre consciências, intersubjetividade. Como bem menciona Silva (1989), referindo-se à pesquisa em educação com base na fenomenologia, os dados de pesquisa vêm à tona em diálogos estabelecidos entre participantes e pesquisador. Esses diálogos são deflagrados por preocupações em comum, de chegar a conclusões, resolver problemas e estabelecer consensos ou esclarecer divergências. É o que a pesquisadora mencionada chama de “roçar de consciências”, em que “diferentes sistemas de significação do mundo, da vida, dos seres humanos [...] são reconstruídos, confirmados, superados” (op. cit., p. 119). Nessa concepção, o diálogo é fundamental para a construção de conhecimentos, que considerem a diversidade de visões de mundo das pessoas envolvidas e que, eticamente, as respeitem.

Como bem apontou Lígia da Silva (2007), compreender as pessoas e situações além da aparência só é possível por meio do diálogo (p. 107). Frente ao Estado Neoliberal que gera injustiças e exploração, a pesquisadora discute a importância de que a visão de cidadania envolva limites e compromissos voltados à existência de convivência respeitosa de todas as pessoas participantes da sociedade, tendo reconhecida a sua diversidade (op. cit., p. 47). Ela conclui que a aproximação e convivência com as pessoas de uma situação pesquisada podem constituir experiência

85 de grande valor, desde que realizadas tendo por base uma postura definida, que envolve participação, respeito, escuta e abertura (p. 120).

Na presente pesquisa, que converge com as compreensões apresentadas anteriormente, o convívio foi fundamental. No dicionário da Real Academia Espanhola, convívio, palavra que deriva do latim convivĕre e significa “Vivir en compañía de otro u otros”. No dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, é definida como "convivência, convívio, relações (íntimas ou sociais), familiaridade; viver em comum”. A fim de obter mais elementos para a compreensão das relações estabelecidas nesta pesquisa, foi necessário buscar na literatura outros entendimentos.

Nessa busca, foi importante o trabalho de Oliveira (2003) e Oliveira e Stotz (2004), que contribuíram para a ampliação da compreensão sobre como o convívio foi entendido e vivido neste estudo. Mais do que viver em comum, ou em companhia de outros, o convívio é o “cerne do ‘fazer’, explicitado, experimentado, avaliado. Conviver é estar junto, olhar nos olhos, conversar frente a frente...” (OLIVEIRA, 2003, p. 94). Sem convívio não há diálogo, pois é nele que a simpatia, confiança, humildade, sensibilidade e respeito “põem as pessoas em diálogo” (id. ibid., p. 94).

A convivência é “arte de se relacionar” e dá intensidade à relação, sabor ao fazer, gerando afetividade e saberes (OLIVEIRA e STOTZ, 2004, p. 06). Para que esse convívio aconteça há condições. A simpatia é requerida, pois ela põe as pessoas em sintonia. Sensibilidade também é importante, pois ela contribui para que as pessoas gostem de estarem juntas, colocando-as em relação de confiança (id. ibid.). O convívio requer também flexibilidade de tempo, para que seja possível estar junto com as pessoas, assim como respeito pelo tempo do outro (id. ibid., p. 09). Essa convivência possibilita aprendizagens mútuas e pode trazer aos que nele se encontram, uma visão mais clara do outro, pois nele as pessoas se posicionam politicamente (id. ibid., p. 12). Ademais, para se ter vivência da e na comunidade é necessário “penetrar na comunidade”, pesquisar, estar lá pessoalmente (id. ibid., p. 13)

É nesses termos que o convívio entre pesquisador e participantes, nesta pesquisa, é entendido. Assumindo a importância das compreensões apresentadas, este pesquisador procurou manter coerência com princípios e posturas ao assumir papéis diferentes nos dois contextos em que o estudo foi desenvolvido: formador/pesquisador no Brasil e visitante/pesquisador nos EUA. Em ambas as realidades, a necessidade de substituir hierarquias entre pesquisadores/as e docentes por trabalho conjunto foi posta

86 no centro das interações, em que todos/as buscaram atingir objetivos compartilhados com respeito e diálogo, em convívio.

Cabe ainda destacar que, tendo por base as referências explicitadas, foi necessário que o pesquisador assumisse determinada postura de atenção metodológica, que lhe permitisse viver a experiência de estar em convívio com os/as participantes. Neste sentido, Larrosa (2001) mostra que para estar com e na realidade, para viver a experiência, deve-se procurar colocar “em suspensão” os juízos prévios. Por meio da suspensão dos juízos, procura-se evitar que pensamentos, idéias, conceitos que carrega o pesquisador se interponham ao processo de vivenciar a subjetividade propiciada pelo convívio com participantes da pesquisa. O referido autor afirma que, no intuito de viver uma experiência realmente efetiva, há necessidade de:

“(...) parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar, demorar- se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a tenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço”.

(LARROSA, 2001, p. 19).

Para conhecer é necessário um movimento, que requer esforço no sentido de estar atento às situações vivenciadas, como pesquisador/a e como participante do processo. Pensando nisso, procurou-se neste trabalho manter uma atenção especial nos momentos de convívio com os/as participantes da pesquisa, experimentando os diálogos neles empreendidos. Procurou-se também, não negando o saber do pesquisador, ampliá- lo pela possibilidade de não conhecer para ver e sim ver para conhecer. Nesse sentido, são importantes as palavras de Freire (2001):

“Sendo metódica, a certeza da incerteza não nega a solidez da possibilidade cognitiva. A certeza fundamental: a de que posso saber. Sei que sei. Assim como sei que não sei o que me faz saber: primeiro, que posso saber melhor o que já sei; segundo, que posso saber o que ainda não sei; terceiro, que posso produzir conhecimento que ainda não existe” (p. 18)..

A inserção na prática social em que pesquisador e docentes colaboraram possibilitou a construção deste trabalho, no qual a diversidade esteve presente entre os sujeitos. Essa diversidade refere-se ao convívio do pesquisador com:

- professoras, mulheres brasileiras;

- professores e professoras, mulheres e homens negros/as estadunidenses; - docentes de escolas públicas brasileiras;

87 - educadores (docentes e diretores/as) de uma escola pública e de três escolas privadas estadunidenses, de maioria negra (black schools);

- professoras brasileiras de Ciências Naturais, Biologia e de outras disciplinas, como História e Língua Portuguesa;

- professores/as estadunidenses de Ciências, Biologia e de outras disciplinas como História, Estudos Sociais, Matemática e Música;

- professoras brasileiras com experiência de aula junto a estudantes negros e não-negros, em salas integradas;

- educadores/as estadunidenses com experiência junto a estudantes negros, em escolas dirigidas exclusiva ou majoritariamente a eles/as;

- educadoras que passaram por um curso elaborado e ministrado pelo pesquisador com objetivo de abordar o fenômeno estudado;

- educadores/as que não passaram por tal curso, interagindo com questões e conteúdos abordados no mesmo em conversas, entrevistas e/ou palestras.

Nesse convívio explicitado a seguir, informaram-se e formaram-se identidades de homens e mulheres, docentes, brasileiros/as e estadunidenses. Homens e mulheres que buscaram compreender seus respectivos pontos de vista e o dos outros, sobre o ensino de Ciências e sua possível intervenção para educar relações étnico-raciais positivas.

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O CONVÍVIO ENTRE PESQUISADOR E PARTICIPANTES:

BRASIL

O convívio entre pesquisador e participantes brasileiras, professoras de escolas públicas, foi proporcionado por um curso de formação continuada, que por um lado, tinha como objetivo promover processo formativo e, ao mesmo tempo, propiciar coleta de dados da pesquisa. Para tanto, um caminho longo foi trilhado antes deste curso ser concretizado, no qual uma aproximação prévia aos/às docentes da cidade de São Carlos/SP foi necessária.

Benzer Belgeler