Vários instrumentos para se avaliar a liderança no esporte já foram propostos e utilizados pelos pesquisadores com o objetivo de se conhecer algumas características de treinadores vitoriosos ou líderes efetivos.
Dosil (2004), ao abordar a evolução da liderança no esporte, citou sete instrumentos que foram construídos até meados da década de 90 com o propósito de se buscar informações a respeito do processo de liderança de treinadores. Estes instrumentos citados por Dosil são apresentados no quadro 1.
QUADRO 1
Instrumentos para avaliar liderança no esporte
INSTRUMENTOS AUTORES ANOS
Leader Behavior Description Questionnaire (LBDQ)
R.R. Danielson, P.F. Zelhart e C.J.
Drake* 1975
Coaching Behavior Assessment
System (CBAS) R.E. Smith, F.L. Smoll e E.B. Hunt 1977 Leadership Scale for Sports (LSS) P. Chelladurai e S.D. Saleh 1980 Medford Player Coach Interaction
Inventory (MPCII) P. Medford e J.A. Thorpe 1986
Scale of Athlete Satisfaction (SAS) P. Chelladurai, H. Imamura, Y.
Yamaguchi, Y. Oinuma e T. Miyauchi 1988 Sport Leadership Behavior Inventory
(SLBI) S.D. Glenn e T.S. Horn 1993
Leadership Quality Scale (LQS) J.J. Zhang e D.G. Pease 1995 * utilização no âmbito do esporte
Fonte: DOSIL, 2004, p. 235.
Além dos instrumentos mencionados no quadro 1, um outro instrumento utilizado para avaliar a liderança no esporte é a Escala de Liderança Revisada para o Esporte (doravante ELRE) proposta por Zhang, Jensen e Mann (1997).
No Laboratório de Psicologia do Esporte (LAPES) da Universidade Federal de Minas Gerais, vários estudos com atletas (LOPES; SAMULSKI; NOCE, 2003; VILANI, 2004), alunos do curso de Educação Física (LOPES, 2002) e treinadores (COSTA, 2003) foram realizados utilizando-se a “Leadership Scale for Sports” (LSS).
Com o intuito promover avanços nesta linha de estudos do LAPES na área da liderança esportiva, este estudo adotou a Escala de Liderança Revisada para o Esporte como instrumento para identificar os fatores referentes ao perfil de liderança dos treinadores de futebol. A adoção deste instrumento se justifica pelas vantagens psicométricas em relação à LSS conforme será descrito nesta revisão de literatura.
Como a ELRE é um dos principais instrumentos deste estudo, na seqüência serão mencionados o seu processo de construção e as suas principais características.
2.4.1 Construção da Escala de Liderança Revisada para o Esporte
A Leadership Scale for Sports (LSS), desenvolvida por Chelladurai e Saleh (1980), foi modificada e revisada por Zhang, Jensen e Mann (1997). A escala original se baseia no modelo de liderança multidimensional proposto por Chelladurai e Saleh (1978) e tem três versões: a preferência do atleta, a percepção do atleta e a auto-avaliação do treinador. Percebendo que a LSS apresentava algumas dificuldades para mensurar o comportamento dos líderes no esporte, Chelladurai (1990) fez algumas observações ao revisar estudos que utilizaram essa escala (CHELLADURAI, 1981; CHELLADURAI; CARRON, 1981; DWYER; FISCHER, 1988; GORDON, 1988; SUMMERS, 1983). A primeira foi de que os itens se referiam mais às freqüências do que ao contexto do comportamento de liderança do treinador, e a segunda foi de que os itens foram obtidos de escalas provenientes dos setores de
negócios e da indústria e não de treinadores e atletas. Além disso, a escala foi desenvolvida a partir da participação de atletas canadenses, o que pode fazer com que alguns itens representem aspectos culturais diferentes nos diversos países. Ainda, de acordo com Chelladurai e Saleh (1980), as capacidades de mensuração da versão de auto-avaliação do treinador não foram testadas.
Diante do exposto, Zhang, Jensen e Mann (1997) realizaram uma revisão cuidadosa do processo de construção e de qualidade da LSS, que passou por cinco fases e contou com a participação de três especialistas em lingüística, 17 treinadores especialistas em liderança, 696 atletas e 206 treinadores de equipes individuais e coletivas.
Durante o processo de revisão da escala novos itens foram acrescentados e outros retirados, permanecendo 23 itens da escala original na escala revisada. Da dimensão treino- instrução foram retirados 03 itens. A cada uma das dimensões de comportamento democrático e autocrático foram adicionados 03 itens. O número de itens foi mantido na dimensão de suporte social, e a dimensão de reforço sofreu uma adição de 07 itens.
Além das cinco dimensões citadas, ainda foram propostas duas novas dimensões no processo de revisão inicial: comportamento de manutenção do grupo e comportamento de consideração situacional. Essas duas dimensões foram propostas baseadas no fato da dimensão treino-instrução da LSS não apresentar uma avaliação separada dos fatores relacionados à estrutura do treinamento e dos fatores da coesão de grupo. Além disso, a escala não apresentava itens que se relacionam com as teorias gerais de liderança contingencial (HERSEY; BLANCHARD, 1971; VROOM; YETTON, 1973).
Contudo, somente a dimensão de comportamento de consideração situacional, inicialmente proposta, foi mantida na escala revisada com 10 itens. A dimensão de comportamento de manutenção do grupo foi descartada porque durante a análise dos itens que
compunham esta dimensão muitos apareceram em várias outras dimensões, gerando dúvidas em relação à existência de tal dimensão.
Na língua portuguesa, o processo de validação da ELRE foi realizado por Lopes (2006) durante o projeto piloto do seu trabalho de mestrado sob a autorização do Prof. Packianathan Chelladurai da Ohio State University.
Adotando os passos para validação de instrumentos psicométricos proposto por Pasquali (1999), Lopes (2006) realizou seu trabalho com treinadores e atletas de ambos os gêneros na categoria juvenil do Campeonato Brasileiro de Seleções de Voleibol de 2004 e com as atletas e os treinadores da Superliga de Voleibol Feminino 2004/2005.
No seu trabalho Lopes (2006) encontrou valores que alpha de Cronbach que variavam de α=0,89 a α=0,92 para as versões da ELRE. Ao realizar a análise de confiabilidade das dimensões que compõem as versões da ELRE, a autora encontrou valores que também variavam de acordo com a versão da ELRE, sendo os seguintes: α=0,68 a α=0,84 para a dimensão treino-instrução; α=0,67 a α=0,88 para a dimensão suporte social; α=0,61 a α=0,77 para a dimensão situacional; α=0,84 a α=0,91 para a dimensão reforço; α=0,79 a α=0, 85 para a dimensão democrática e α=0,49 a α=0, 68 para a dimensão autocrática.
Além de verificar a confiabilidade da ELRE e das suas dimensões, Lopes (2006) também aplicou as quatro fases do teste de diferença do S-Bx2 proposto por Satorra e Bentler (1999) e verificou que o modelo de seis fatores correlacionados mostrou, para a versão percepção, um melhor ajuste relativo em comparação ao modelo com seis fatores não correlacionados (S-Bx2 diferença (15) = 85,08, p<0,05) e ao modelo nulo com apenas um fator (S-Bx2 diferença (15) = 497,29, p<0,05). Para a versão preferência, Lopes (2006)
encontrou valores elevados e significativos (p<0,05) do teste S-Bx2 para todos os modelos, indicando uma falta de ajustamento deles. Assim, no teste de diferenças do S-Bx2, o modelo de seis fatores oblíquos obteve o melhor ajuste aos dados quando comparado ao de seis fatores não correlacionados (S-Bx2 diferença (15) = 35,81, p<0,05) e ao modelo nulo (S-Bx2 diferença (15) = 267,82 p<0,05).
Ao analisar outros índices, Lopes (2006) concluiu que entre os modelos, somente o hipotetizado (seis fatores oblíquos) apresenta os valores do RMSEA dentro do limiar 0,08 sugerido como critério máximo aceitável (HAIR et al., 2005). Além disso, o modelo de seis fatores oblíquos revela os maiores valores dos índices de parcimônia (PNFI e PGFI), indicando melhor ajuste aos dados. Desta forma as estimativas dos parâmetros do modelo hipotetizado indicam que a maioria dos indicadores das dimensões da escala estão correlacionados positiva e significativamente com suas respectivas dimensões, exceto alguns itens do fator autocrático. Ainda, Lopes (2006) ressalta que os índices NFI (0,86), GFI (0,87) e AGFI (0,86) não alcançaram os critérios recomendados pela literatura (>0,90) no modelo hipotetizado, apesar da proximidade dos valores encontrados, essas medidas serem aceitas de acordo com a literatura (HAIR et al., 2005).
A respeito desses resultados, Lopes (2006) afirma que, excetuando-se a dimensão de comportamento autocrático, todas as outras dimensões, nas três versões originais em inglês, foram validadas por meio do índice de consistência interna (α>0,70) e da análise fatorial (ZHANG; JENSEN; MANN, 1997). A dimensão de comportamento autocrático, que já apresentava problemas em sua consistência interna na LSS (CHELLADURAI et al., 1988; DWYER; FISCHER, 1988; SHERMAN; FULLER; SPEED, 2000; RIEMER; TOON, 2001; COSTA, 2003; VILANI, 2004), foi ampliada na ELRE, melhorando a validade e confiabilidade, mas não o suficiente para atingir índices satisfatórios (α>0,70) sugeridos pela
literatura (PASQUALI, 1999; MORGAN; GRIEGO, 1998; NUNNALY; BERNSTEIN, 1994).
Quanto à dimensionalidade dos instrumentos, apesar das limitações da análise de Lopes (2006) em termos de tamanho de amostra e quantidade de modelos comparados, obtiveram-se índices indicativos de um bom ajuste absoluto e relativo dos modelos hipotetizados (ELRE versão percepção e preferência com seis fatores oblíquos). Entretanto, alguns valores elevados da correlação entre os fatores de ambas as versões da ELRE, indicaram que é preciso aperfeiçoar essas escalas futuramente para se evitar dimensões que representem informações redundantes.
Sendo assim, após uma extensa análise de seus dados e de uma rica discussão relativa aos estudos que utilizaram a ELRE em diversos contextos esportivos, Lopes (2006) verificou que, no geral, o instrumento apresenta-se satisfatoriamente adequado à utilização no contexto esportivo brasileiro. Não obstante, a autora sugere a continuidade da verificação das propriedades psicométricas do instrumento, como forma de finalizar o processo de validação externa proposto por Pasquali (1999).