Os índices antropométricos nada mais são do que razões entre duas medidas corpóreas, expressas através de quocientes ou percentagens (Jelliffe, Jelliffe et al. 1989). Estas razões têm sido usadas há muito tempo em estudos sobre crescimento e na investigação do status nutricional, fornecendo informações que não podem ser obtidas pelas medidas por si só. Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados na utilização de índices antropométricos, já que alguns deles não têm uma distribuição normal, e todos são afetados pelas variações de cada uma das medidas que os compõe, o que traz limitações para a análise estatística (Malina 1991).
Os índices, como combinações de medidas, têm a função de interpretar e agrupar informações e podem ser considerados como conceitos biológicos. Diferentes índices possuem diferentes significados biológicos e, portanto, usos distintos. O uso e a aplicação destes índices permitem a definição de indicadores que são, por sua vez, conceitos sociais. Os indicadores mais comuns de desnutrição são taxas derivadas de medidas de altura, peso e idade: peso-por-altura, peso-por-idade e altura-por-idade (Waterlow 1972, WHO 1986). O peso-por-altura, por exemplo, é um indicador de desnutrição e obesidade quando o indivíduo é comparado a uma pessoa “normal” (referência) da mesma altura (Keller 1991). Cada um destes indicadores será apresentado com mais detalhe a seguir.
5.2.3.1. Peso-por-altura
A relação entre o peso e a altura fornece uma medida do quão magro ou gordo é um indivíduo, e pode ser considerada como uma estimativa aproximada da composição corpórea. Ao relacionar peso a altura, ao invés da idade, podemos distinguir um baixo peso corpóreo devido à perda de tecidos moles (atrofia nutricinal) de um baixo peso causado por um esqueleto pequeno. É a melhor medida para avaliar mudanças corpóreas de curto prazo.
Em análises populacionais, uma elevada incidência de pesos-por-altura altos (sobrepeso) pode ser considerado como um indicador adequado de obesidade, já que a maior parte dos indivíduos com altos índices são obesos (WHO 1995b). Já uma elevada proporção de pesos-por-altura baixos, numa população infantil, indica um estado agudo de desnutrição, algumas vezes devido à existência de doenças infecciosas endêmicas mas, na maior parte das vezes, causado por uma deficiência na dieta (Keller 1991). Em populações cuja prevalência de baixo peso (magreza) exceda 2-3 % do esperado com base numa distribuição normal, é bem provável que a maior parte das crianças magras tenha atrofia nutricional. Normalmente, a prevalência de baixo peso-por-altura mostra um pico ao redor do segundo ano de vida em análises populacionais (WHO 1995b).
5.2.3.2. E statura-por-idade
Reflete o crescimento linear adquirido, e seu déficit indica deficiências cumulativas, de longo prazo, de saúde e nutrição (Jelliffe, Jelliffe et al. 1989). Em populações onde a prevalência de baixa estatura-por-idade (nanismo) é pequena, a maior parte das crianças com baixa estatura-por-idade é 5 Medidas antropométricas que independem da idade são altamente vantajosas na investigação do status nutricional de crianças, especialmente em situações que as datas de nascimento não são facilmente obtidas (Jelliffe e Jelliffe 1971,
geneticamente pequena e não possui, necessariamente, alguma deficiência nutricional. Mas quando a altura-por-idade baixa for patológica (nanismo nutricional), ela reflete a incapacidade de adquirir o potencial de crescimento linear.
Um crescimento deficiente (nanismo nutricional) pode ser causado tanto por um fator inibitório persistente (infecções repetitivas, por exemplo), de longo prazo, quanto por algum evento pontual passado (uma doença grave). A Organização Mundial de Saúde (WHO 1995b) não recomenda o uso do termo baixa estatura-por-idade como sinônimo de desnutrição crônica , já que não é possível distinguir entre as duas causas antes mencionadas. Mas, apesar de ainda não ser possível definir até que ponto uma criança com nanismo nutricional está sofrendo de desnutrição crônica, não há dúvidas de que seu status nutricional indica a existência de influências ambientais negativas para o crescimento. Uma alta incidência de baixas estaturas-por-idade na população geralmente indica más condições de vida e saúde, que podem incluir dietas deficientes. Deficiências nutricionais específicas, como de vitaminas e minerais, podem ter algum papel, mas até hoje nada foi comprovado (Keller 1991). Em países menos desenvolvidos, a prevalência de baixa estatura-por-idade (-2 DP da referência WHO/NCHS) pode variar de 5 a 65%.
5.2.3.3. Peso-por-idade
O peso-por-idade reflete a massa corpórea com relação à idade, e é influenciado tanto pela altura quanto pelo peso do indivíduo, e sua interpretação é complexa (WHO 1995b). Na verdade, este índice não acrescenta nenhuma informação àquelas já fornecidas pelos dois indicadores acima. Uma elevada proporção de baixos pesos-por-idade na população pode indicar desnutrição aguda ou condições de vida insatisfatórias, ou ambas juntas (Keller 1991). A variação mundial de baixo peso- por-idade e sua distribuição etária são semelhantes às de baixo estatura-por-idade. A alta incidência de alto peso-por-idade raramente é utilizada para fins de saúde pública, pois os outros indicadores são mais precisos na avaliação de obesidade (WHO 1995b).
5.2.3.4. Circunferência-do-braço-médio-por-idade
A circunferência-do-braço-médio-por-idade foi proposta como um indicador alternativo de status nutricional, e vem sendo utilizada desde a década de 1960 nos países em desenvolvimento. Esta medida permite obter uma composição aproximada dos estoques de músculo (proteína) e de Waterlow 1972).
gordura (energia), e tem uma correlação aproximada com as mudanças de peso em crianças desnutridas (Jelliffe, Jelliffe et al. 1989). Em estudos populacionais, parece ser um indicador superior de mortalidade infantil, quando comparado aos indicadores baseados em peso e altura. Suas vantagens operacionais incluem a facilidade de carregar e manusear fitas métricas, e o fato de que se pode usar um único limite mínimo para crianças abaixo de 5 anos de idade (12,5 – 13,0 cm). Porém, a correta interpretação da circunferência-do-braço-médio como indicador de status nutricional pressupõe a utilização de uma população referência.
5.2.3.5. Índice de Massa Corpórea (IMC)
Várias taxas de peso e altura foram utilizadas nos últimos 100 anos (Jelliffe, Jelliffe et al. 1989), mas um dos índices mais usados na investigação do status nutricional em adultos é o Índice de Massa Corporal (Body Mass Index – BMI) ou Índice de Quetelet (peso/altura2). Correlações entre o Índice
de Massa Corporal (IMC) e o risco de mortalidade em adultos mostram que a faixa entre 20,0 e 25,0 é aquela com menor risco. Acima de 30,0 este risco cresce bastante, devido a problemas associados à obesidade. Com relação aos limites inferiores, há evidências de que um IMC em torno de 12,0 seja o limite inferior de sobrevivência para o ser humano6 (Henry 1994).
Apesar do peso-por-altura (peso/altura) ser o índice mais recomendado para crianças, o IMC vem sendo cada vez mais utilizado como indicador de sobrepeso e obesidade infantil (WHO 1995b). Mais recentemente (2000), o NCHS desenvolveu tabelas de referência de IMC-por-idade para crianças e adolescentes (2 a 20 anos de idade), específicas para cada sexo, que substituem as tabelas de peso-por-altura de 1977, utilizadas até então. O IMC-por-idade pode ser utilizado para identificar crianças e adolescentes no limite superior da distribuição populacional (que estão acima do peso) ou que correm o risco de ter sobrepeso. Na parte inferior da distribuição, as tabelas de IMC-por-idade também podem ser usadas para investigar baixo peso ou risco de baixo peso, apesar de ainda não terem sido estabelecidos limites (Kuczmarski et al. 2000)7.
6 O limite inferior do IMC varia em torno de 13,0 para homens e de 11,0 para mulheres (Henry 1994). 7 Ver http:// www.cdc.gov/growthcharts