4. BULGULAR VE YORUM
4.4. Sınıfa Göre Kodlamaya İlişkin Görüşleri
O espaço urbano de Conimbriga demonstra a materialização planimétrica de um palimpsesto de noções jurídicas que ditaram a sua morfologia e a sua articulação interna. É possível que essas mesmas noções jurídicas e outras conexas tenham condicionado os programas arquitectónicos. Sendo certo que o espaço é o recurso base da arquitectura, é adequado iniciar por aquele uma análise desta.
A conformação da estrutura urbana de Conimbriga em época pré- romana
A longa história pré-romana do local é determinante nesta análise163.
Todavia é parco o registo arqueológico apto a ser manobrado antes da cesura cronológica que importa estabelecer em 136 a.C., data do fim da expedição de
Decimus Junius Brutus, e que corresponde à integração (ainda que meramente
formal tenha ela sido) de Conimbriga no orbe romano164.
163 Para a ocupação pré-romana de Conimbriga remete-se para Correia 1993.
164 A problemática relativa à conformação do território de Conimbriga, no aspecto mais geral e
não no aspecto particular do espaço urbano, foi já tratado em Correia e De Man 2009, que aqui se recupera numa apreciável extensão.
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A data de 136 a.C. reveste-se de importância graças a um passo de Apiano (Iber. 73), a propósito de Talabriga. A cidade corresponde, verosimilmente, ao Cabeço do Vouga e, seja qual for a sua localização precisa, é a mais próxima cidade pré-romana ulteriormente transformada em capital de
civitas a norte do Vale do Mondego e da área de Conimbriga e Aeminium:
constitui, em todo o caso um bom exemplo histórico para a situação de Conimbriga165.
O parágrafo 73 das “Guerras da Ibéria” relata os seguintes acontecimentos, ocorridos em 136 a.C., quando do regresso da expedição do
Calaicus que tinha atingido o Lethes (verosimilmente o Rio Lima)166:
- “[Decimus Iunius Brutus] chegou à cidade de Talábriga, que muitas vezes se lhe tinha submetido e muitas outras sublevado e causado problemas. Os habitantes da cidade apelaram para ele e entregaram-se-lhe para o que ele desejasse. Primeiro, ele exigiu os desertores, os prisioneiros e quantas armas tinham; para além disso exigiu reféns; e então ordenou-lhes que abandonassem a cidade na companhia dos filhos e das mulheres. Quando também nisto foi obedecido, cercou-os com o seu exército e arengou-lhes, relembrando-os de quantas vezes se tinham rebelado e quantas vezes tinham empreendido guerra contra ele. Tendo incutido neles o receio e a certeza de algum castigo terrível, não foi mais além do que as censuras. Em seguida despojou-os dos cavalos, das provisões, de todo o dinheiro que tinham em comum e de toda a propriedade pública. Todavia, imprevistamente, devolveu-lhes a cidade para que a habitassem de novo. Feito isto, regressou a Roma. Reuni estes feitos na ‘Guerra de Viriato’ pois eles começaram a ser cometidos na mesma ocasião, por outros bandoleiros que o imitavam”167.
O aspecto essencial deste trecho é o de se mencionar inequivocamente a existência de propriedade pública. É este aspecto que suporta o essencial da argumentação sobre o impacto territorial do “nascimento” e evolução da cidade de Conimbriga.
165 Alarcão 1990b, 27.
166 Alarcão 1990c, 348.
167 Versão baseada na tradução portuguesa de J. Cardoso, publicada em Araújo e Cardoso
1991, 93-94, com as adaptações sugeridas pela tradução inglesa da edição crítica de Richardson 2000, 77-79.
É importante salientar neste contexto que está documentada em Conimbriga a sobrevivência das entidades gentilitárias de raiz indígena até datas plenamente imperiais168, bem como a aparente sobrevivência de estruturas fundiárias a elas ligadas169; em suma a sobrevivência dessa propriedade pública
a que se refere o passo de Apiano.
Por outro lado ainda, deve pensar-se que, sendo Apiano um procurator no reinado de Marco Aurélio170, o seu conhecimento das realidades jurídicas da
época que relata, mesmo que imperfeito devido ao filtro do tempo, seria necessariamente o suficiente para que expressões como as aqui traduzidas por “devolveu-lhes a cidade” se devam considerar como carregadas de significado jurídico, podendo propor-se que Apiano descreve uma redditio171 das partes
privadas do território de Talabriga aos seus habitantes, depois de expropriar a propriedade pública (designadamente os bens móveis, a título de saque) a favor do estado romano.
Ora, a situação ocorrida em Talabriga em 136 a.C., com eco suficiente para ser destacada no relato que Apiano utilizou, pode ser tomada como paradigma da postura do conquistador nestas zonas marginais, pois o mencionado elemento de surpresa perante a aparente generosidade de D. I. Brutus só pode significar que esta generosidade não se qualifica como um acto
ex abrupto frente a uma cidade inimiga (o que nada justificaria) mas sim como a
manutenção de um status quo, estabelecido certamente em 138 a.C., que a rebeldia da cidade (plausivelmente contrastando com a fidelidade mantida pelas suas convizinhas) levaria a pensar ir ser terminado nesse momento devido à rebeldia da cidade. Em suma, é possível que a campanha de 138-136 a.C. tenha, em toda esta região, assegurado a manutenção das estruturas de povoamento e de poder que os romanos encontraram, a partir daí colocadas sob a sua égide e sujeitas a tributum, sem que tenha havido a pretensão de intervir nas estruturas gentilitárias e proprietárias, com efeitos possivelmente muito sensíveis na
168 Como [Deo Marti ?] Neto [?] Valerius.Avit[us] / M(arcus) Turranius.Sulpici[anus] / de vico.Baedoro
/ gentis.Pinton(um) – Etienne et al. 1976, nº 15, 35-36 – ou Lares Lubanc(os ) / Dovilonicor(um) / horum.Albui(us) / Camal(i).f(ilius).sacr(um) – Etienne et al. 1976, nº 11, 30-32. Cf. Correia e De
Man 2010, 299-301.
169 Correia 2004c, 219 e 223-225; Correia 2005, nº 356. 170 Richardson 2000, 1-2.
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manutenção a longo prazo do regime de traditio na gestão jurídica do território dos oppida.
Infelizmente, para Conimbriga e toda esta região, o período que se estende das campanhas do Galaico a Augusto é uma “idade das trevas” em que só a informação numismática está disponível172, sendo muito escasso o
conhecimento directo do terreno173.
Esta informação numismática atesta uma rápida integração das estruturas locais na economia monetal romana. Existem, todavia, dificuldades conceptuais na avaliação da diferença, para as comunidades locais, entre a situação pré-monetal e a situação moderadamente monetizada que a conquista romana acarreta. Esta diferença terá sido sensível a níveis meramente fenomenológicos, epidérmicos mesmo, mas também a níveis económicos profundos. Pode ser mais fácil chegar a uma aproximação desses fenómenos, quando existe informação disponível (como relativamente aos centros emissores de moeda), verificando que, após um momento “fundacional” do
tributum (cuja existência, certamente sob outro nome e figura legal, no período
pré-romano, não se deve pôr em causa) a progressão é geométrica: a exacção romana era eficaz e tinha implicações muito vastas, também certamente sobre a exploração dos recursos disponíveis nos territórios envolventes174.
Mas importante sobretudo é a introdução, no seio das realidades locais, de conceitos jurídicos romanos que vão conformar e, em certa medida, reorientar essas realidades. O tributum é um desses conceitos, mas as outras fórmulas jurídicas subjacentes à própria noção de tributum não poderão ter estado ausentes da mutação global que se configurou.
A sobrevivência dos traços cadastrais de Conimbriga pré-romana no traçado da cidade romana significa que o oppidum não foi alvo de divisão pelos romanos: a assignatio dos lotes seguiu o modus arcifinius175, mantendo os limites pré-existentes; verifica-se que esse facto ocorreu com as principais vias de circulação e também com os limites internos entre lotes176.
172 Pereira et al. 1974, 195-215; Ruivo 1997, 81-99 e 108-116. 173 Pessoa 1986, 53-73.
174 V.g., a propósito de Alcácer do Sal, Correia 2004d, 273-277. 175 Weber 1994, 49-50.
Nestas condições o território é propriedade do populus romanus por direito de conquista, é por isso mesmo tributado e os usufrutuários desse território reconhecem pelo pagamento o carácter de usufruto do seu domínio177. A posse da propriedade e a sua transferência é regida pela forma da traditio, sendo essa propriedade res nec mancipi, por se tratar de matéria de direito das gentes, não de cidadãos romanos178, numa situação de menoridade profundamente enraigada
desde a Lei das Doze Tábuas179, só muito tarde resolvida na jurisprudência
romana180.
Esta questão jurídica é relevante pois tem directamente a ver com o principal marco de delimitação do espaço urbano de Conimbriga: a construção da muralha alto-imperial181. Argumentos arqueológicos suportam a sua
atribuição a datas augusto-tiberianas, o que nalguma ocasião foi criticado com base em argumentos do foro jurídico e religioso quiritário182, razão pela qual esses argumentos não são decisivos na questão183.
A intervenção sob Augusto
O momento essencial da transformação de Conimbriga em cidade romana coloca-se sob Augusto e é possível propor que revestiu a forma de
contributio: a reunião, numa aglomeração de dimensões apreciáveis, de
populações dispersas até aí por vários outros locais184. A construção da
muralha, indissociável deste momento desde uma óptica jurídica, e ainda que tenham mediado alguns anos entre um e outro facto, configura o oppidum sem obliterar as condições de base do parcelário cadastral, cujos traços se mantêm visíveis apesar da sua distinta natureza185.
177 Gaio 2.7, apud Justo 1997, 141-142. 178 Ulpiano 19.7, apud Girard 1898, 286-287. 179 Tábua VI, 2 (Carrilho 2008, 36-37). 180 Honoré 1989, 137-154.
181 Correia 2004b, 265-267; com as referências anteriores, designadamente à bibliografia de
base como Pessoa et al. 1991 e Weiss 1997.
182 Etienne 1997, 276, com referências a Seston 1966, 1489-1498, e Février 1969, 277-286. 183 Cf. mais recentemente Hourcade 2004, 231, mas sobretudo 224, n. 4.
184 Bendala 2004, 26-27; utilizando os exemplos de Contributa Iulia Ugultuniacum (Rodríguez
1977, 55-61) e da Colonia Patricia Corduba (Bendala 1998, 307-312). Cf. também Hourcade 2004, 250-251.
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Figura 92 – As pâtes-d’oie do primeiro urbanismo de Conimbriga, à esquerda, vias radiantes da
área urbana pré-romana, à direita vias radiantes da área rural pré-romana, integradas no perímetro urbano romano.
Esta natureza distinta tem a ver com o facto de a delimitação da muralha alto-imperial incluir quer as zonas já urbanizadas do povoado indígena, quer outras zonas que se pode supor terem sido, no período pré-romano, zonas peri-urbanas de uso agrícola. O espaço urbano de Conimbriga delimitado pela muralha mostra assim a fossilização de duas pâtes-d’oie186, uma interna, antes urbana, outra externa, que antes era rural187. Estes “leques” de vias convergem numa área central (onde se deve imaginar que esteve um dia a porta principal do povoado pré-romano) e é frente a este espaço privilegiado que é construído o fórum augustano.
186 Sobre a conformação dos cadastros pré-romanos na Península Ibérica vd. Almagro et al.
2008, 155-159.
187 Correia e Alarcão 2008, 32-44. Para uma interpretação topográfica distinta da que aqui
Ao seu redor, os lotes de terreno, primeiro recurso dos arquitectos, mantiveram, apesar de muitas alterações de pequena monta188, a sua morfologia
pouco regular nunca completamente domada, sendo um dos principais motores da originalidade da arquitectura conimbrigense.