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Quando os muçulmanos conquistaram a Península Ibérica em 711 muitos judeus eram quadrilíngues. O árabe era utilizado para o contato com os governantes, para a literatura, a ciência e a filosofia; o romance para o relacionamento com a população local; o hebraico para a reza e a poesia e uma língua doméstica que misturava as outras três, variava de região para região e viria a formar a base do ladino. Por viverem mais restritas ao lar, mulheres e crianças praticavam mais este último, enquanto os homens traziam os neologismos do convívio com outros grupos. (ROUMANI, 2012).

Conhecido formalmente como judeu-espanhol, também recebeu outras denominações como “judezmo”, “spanyolit”, “el kasteyano muestro” ou mesmo simplesmente “espanyol”. Alguns autores fazem a distinção entre o ladino oriental, com suas variações regionais praticado nos Bálcãs e na Turquia, e o ocidental ou do Norte da África também conhecido como “haketia”. Neste estudo me refiro ao primeiro, caracterizado por seu maior conservadorismo na retenção de inúmeros recursos do espanhol arcaico na fonologia, na morfologia e no léxico e seus numerosos empréstimos do hebraico, turco e também em menor medida do grego e de línguas eslavas meridionais.

Duas correntes divergem quanto à semelhança entre o espanhol falado por cristãos e judeus na Espanha no período pré-expulsão. Se a primeira afirma que os dois grupos praticavam o mesmo idioma, a outra defende que enquanto os cristãos recorriam ao latim para termos mais específicos, os judeus incorporavam hebraísmos, uma vez que o latim era “o idioma da Igreja, o seu grande opressor.” (ZUCKER, 2001, p. 7). De qualquer maneira, sustenta Harris, “foi somente após a expulsão de 1492 que o ladino passou a ser especificamente uma língua judaica.” (HARRIS, 2005, p. 100).

As contribuições do hebraico para o vocabulário do judeu-espanhol podem ser encontradas principalmente em termos relacionados à vida religiosa (chacham—homem sábio; kavod— honra). Termos hebraicos algumas vezes eram usados como raízes de palavras, e em seguida combinados a elementos do espanhol como em herem—excomunhão, em hebraico, que originou o verbo enheremar—excomungar, ou a expressão hebraica baal habait—dono da casa, que se tornou balabay no discurso popular e em seguida assumiu uma terminação feminina espanhola para formar balabaya—dona de casa. Algumas expressões contêm tanto palavras em espanhol como em hebraico: hacer kavod—honrar; e tomar tsar—para tornar-se triste, por exemplo. [...] Palavras búlgaras geralmente se referem à vida militar (polkovnic—coronel) ou à educação secular (doskel—professor). Palavras turcas são encontradas em todas as áreas, mas especialmente em relação a empresas, trabalhadores e governo (charshi—mercado; para—dinheiro; boyaji—pintor; hukiumet—tribunal) [...] e

para nomear os utensílios de cozinha e partes de uma casa (filjan—xícara, tavan—telhado). Muitas plantas e animais também têm nomes turcos (konja—rosa, bilbil—rouxinol, embora esta palavra mais comumente apareça com um sufixo diminutivo espanhol como bilbilico) [...] Uma grande influência [...] foi a do francês devido à [presença das] escolas da Alliance

Israélite Universelle. Até o final do século XIX o francês havia afetado tanto o ladino que

as pessoas começaram a se referir à língua falada pelos sefarditas na Turquia não como judeu-espanhol, mas como judeu-franhol. (ZUCKER, 2001 , p. 8-9).

Após a expulsão da Espanha, o ladino foi preservado como elemento identitário sefaradita através da formação de comunidades coesas, que mantendo a vida judaica permitiram sua sobrevivência. “Incapazes de levar consigo a maioria de suas posses quando foram expulsos em 1492, eles carregaram a língua e a cultura de Sefarad para o seu exílio, a primeira diáspora sefardita.” (ZUCKER, 2001, p. 4). O judeu-espanhol produziu gêneros literários seculares e orais: cantigas, poemas e provérbios que constituíam um repertório rico e variado, no entanto, as publicações existentes antes do século XVIII limitavam-se àquelas destinadas aos ex-conversos que necessitavam da para facilitar seu retorno ao judaísmo.

No século XVIII o ladino havia perdido seu prestígio e era considerado uma gíria utilizada por iletrados, sendo o francês relacionado ao progresso e à modernidade devido à forte presença da Alliance Israélite Universelle. No final do século, ante o crescente abismo entre a cultura judaica erudita redigida em hebraico e aramaico e aquela das massas sefaraditas, líderes religiosos conhecidos como os “rabinos da língua vernacular” começaram a elaborar traduções para o ladino com o objetivo de educar a população. Algumas publicações eram editadas em caracteres latinos, outras em caracteres hebraicos e outras ainda com a escrita Rashi.37 Uma das maiores contribuições destas traduções para a cultura judaica otomana foi o acesso das mulheres, e de outras minorias que não pertenciam à elite instruída, à literatura rabínica. No século XIX a inclusão de mulheres se mostrou ainda mais explícita quando o rabino Judá Papo na tradução do Pele Yoetz38, sugeriu que mulheres constituíssem seus próprios grupos de estudo:

Como seria bom se as mulheres, amigas e parentes se encontrassem no Shabat na casa de uma das amigas e em outro Shabat na casa de outra e cada grupo pudesse eleger uma mulher para ler e elas passassem uma hora [estudando]. Uma vantagem é que elas iriam buscar maneiras de ensinar suas filhas [a ler também]. (LEHMANN, 2012, p. 134).

37 A escrita Rashi é um tipo semi-cursivo no alfabeto hebraico desenvolvido pelo comentarista talmúdico de

mesmo nome, baseada na caligrafia semi-cursiva sefardita do século XV e utilizada para distinguir o comentário rabínico do texto em si.

38 Livro da ética judaica publicado pela primeira vez em Constantinopla em 1824 pelo rabino Eliezer Papo. O

Não somente o estudo religioso, assim como o secular eram incentivados. Judá Papo mencionou explicitamente que mulheres deveriam ser capazes de ler e escrever cartas e outros “rabinos da língua vernacular” como Isaac Amarachi e Joseph Sasson insistiram na importância da educação de meninas. “Esta atitude pavimentou o caminho para a emergência de um público leitor feminino que viria a se mostrar como a audiência mais receptiva para a nova literatura secular em ladino que começou a florescer no século XIX.” (LEHMANN, 2012, p. 134). Armistead elenca os seguintes gêneros encontrados na literatura oral sefaradita: baladas narrativas (romances), canções líricas (cantigas), canções cumulativas, orações, encantos medicinais e enigmas (endevinas), provérbios (refranes) e contos (konsejas). “Outros gêneros tradicionais—e parcialmente orais—também foram cultivados no judeu- espanhol. [...] [As] coplas (gênero de poesia paralitúrgica popular cantada) e as peças de teatro.” (ARMISTEAD, s/d).

Em meados do século XIX um novo gênero secular, o romance, ganhou terreno. A imprensa em ladino floresceu, disseminada pelos intelectuais influenciados pela haskalá, “introduzindo novos conceitos ocidentais, da ciência à moda e à alimentação.” (ROUMANI, 2012). O que os “rabinos da língua vernacular” do século XVIII e os intelectuais do século XIX tinham em comum era o desejo de educar os judeus otomanos através da leitura, o que contribuiu para uma transformação fundamental da comunidade judaica otomana nas décadas finais da existência do Império.