A sabedoria popular sefaradita encontrou expressão em inúmeros ditados, provérbios51 e adivinhações dos quais muitos têm origem bíblica, enquanto outros são traduções para o
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“A jovem beleza saiu do mar A jovem foi para os banhos Vestida de vermelho
Lance-se para o mar, mas retorne à costa Eu vou saltar para o mar
Se a minha sogra permitir
Lance-se para o mar, mas retorne à costa A jovem beleza saiu do mar
Usando um vestido rosa e branco Ela veio do mar
Entre o mar e o rio Um marmeleiro crescia Ela veio do mar
A noiva saiu dos banhos E o noivo espera por ela Ela veio do mar Entre o mar e a areia Uma amendoeira crescia Ela veio do mar.
51 Muitas vezes os dois termos são utilizados como sinônimos, porém mesmo que ambos tragam em si um
aspecto moral, o ditado tem um caráter mais prescritivo, enquanto o provérbio envolve um jogo de palavras e um trabalho com a sonoridade, evidenciando sua função poética. Como exemplos, podemos citar “Arvole sin
ladino daqueles encontrados nas diversas línguas com que estes judeus tiveram contato. Considerados “o tempero das conversas” são utilizados sem parcimônia para expressar visões de mundo, acrescentando à vida mundana noções sobre a religião e as superstições. “A metáfora dos provérbios como sendo o ‘alimento do discurso’ dá a medida da importância dos
refranes para os sefaraditas.” (LÉVY, I.J.; ZUMWALT, R.L. apud STILLMAN, Y.K;
ZUCKER, G.K., 1993, p. 269). Seu sentido pode variar de acordo com o contexto ou grupo e enquanto a maioria pode ser compreendida de imediato, alguns carregam um tom enigmático; “podem ser empregados para praticamente qualquer pessoa ou situação, contendo sempre elementos de sátira e humor [...] e foram naturalmente transmitidos de geração para geração.” (ANGEL, 2006, p.131).
Angel afirma que apesar da coletânea de ditados e provérbios sefaraditas ser diversificada, é possível classificá-los segundo seus temas principais.
No primeiro grupo reúne aqueles que ressaltam a crença de que o indivíduo não deva ser julgado por fatores externos. Como exemplo, pode-se citar:
El rey es con la gente.
Los ojos no se inchen con moneda sino con polvo de tierra. Kada uno saluda kon el chapeyo que tyene.52
Um segundo grupo trata do papel de amigos e vizinhos:
El Dio que te guarde de vezino malo. Del Dio y del vezino nada no se encubri. No con quien naces sino con quien paces.53
O terceiro grupo trata de relações familiares:
Hermano para el dia malo.
Una madre i una manta tapan muchas faltas.
solombra” (Árvore sem sombra) para o primeiro tipo e “No con quien naces sino con quien paces” (Não com
quem nasces, mas com quem vives) para o segundo.
52 O rei está com seu povo—a verdadeira nobreza está em identificar-se com o povo.
[Após a morte,] os olhos não se enchem com dinheiro, mas com o pó da terra—não se deve atribuir excessivo valor aos bens materiais, mas sim às virtudes.
Cada um saúda com o chapeu que tem—cada pessoa enfrenta a vida com os recursos que tem.
53 Que Deus te proteja de maus vizinhos.
De Deus e do vizinho não se esconde nada.
Não com quem nasces, mas com quem vives—o caráter de uma pessoa não é determinado pelo nascimento, mas influenciado pela sociedade onde se vive.
Hijos de mis hijos, dos vezes mis hijos.54
O quarto reúne os provérbios sobre judeus e sua relação com não-judeus:
Gudio ki no ayuda a otro non ay.
El turko dimanda sedaka en kantando, el grego yorando, el gudio en malkiziendo. De adientro de una carpuz salio un gudio.55
O quinto grupo trata de compaixão pelos pobres e desfavorecidos:
El harto no cree al hambriento.
Tanto lavora el povri k’el rico si enrikese.
En dia de luvia pensa en el provi: el tambien tiene frio.56
O sexto reúne refranes sobre assuntos econômicos:
Quien merca lo que no tiene de menester vende lo que tiene de menester. El que tiene quatro y gasta cinco, no tiene menester de bolsa.
Ken mira la gente nunka bive contente.57
O sétimo grupo fala de adversidades:
En el mal se konosen los barraganes. No ay mal ke no seya para byen.
Si los anillos cayeron, los dedos quedaron.58
54 Irmão para um dia ruim—quando alguém tem um problema, é o irmão que vai socorrê-lo.
Uma mãe e uma manta cobrem muitas faltas.
Filhos de meus filhos, duas vezes meus filhos—a respeito do amor dos avós pelos netos.
55 Não há judeu que não ajude outro judeu.
O turco pede caridade cantando, o grego chorando e o judeu amaldiçoando. De dentro de um capuz saiu um judeu—os judeus estão em toda parte.
56 O farto não acredita no faminto—quem vive em abundância pode não compreender a necessidade dos
desprovidos.
De tanto que o pobre trabalha, o rico se enriquece.
Em dia de chuva pense também no pobre: ele também sente frio.
57 Quem compra o que não necessita vende o que necessita—gastar dinheiro com frivolidades pode levar à
pobreza.
Quem tem quatro e gasta cinco, não tem necessidade de um bolso—não gaste mais do que tem. Quem se mira nos outros nunca está contente.
58 É no sofrimento que se conhece os fortes.
Não há mal que não seja para o bem.
No oitavo grupo, reúne maneiras para se lidar sabiamente com a esposa:
Asno cayado por savio es tomado.
El ke pensa mucho no se va a Yerushalayim. Todos los dedos de la mano non son unos.59
O nono reúne aqueles que falam de traços de caráter:
Quien azno nace, azno muere.
No save apartar la kalavasa de la berenjena. Arvole sin solombra.60
E finalmente o décimo grupo que trata de autoconfiança:
A lo ke puedes solo no asperes de otros. Gueso ke te kayo en parte, komelo kon arte.
Arremedyate kon lo tuyo, no seyas muhtach de dingunos.61 (ANGEL, 2006, p. 131-8).
Segundo Armistead a investigação das adivinhações (endevinas) tem sido gravemente negligenciada. Afirma que estudos preliminares sugerem uma tradição rica, sendo parte de origem ibérica, parte emprestada do turco, grego ou de uma tradição pan-balcânica inespecífica. Os seguintes exemplos foram encontrados em Monastir (Macedônia), sendo o segundo com certeza de origem turca:
Una coza y coza muy maraviyoza: Cae en la mar y no se moja.
(El sol)62
59 Um burro silencioso é tomado por sábio—o valor do silêncio
Aquele que muito pensa não vai a Jerusalém—quem muito pensa não assume os riscos necessários para um objetivo importante.
Todos os dedos da mão não são o mesmo—a diversidade faz parte da vida.
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Quem nasce burro, morre burro.
Não sabe diferenciar uma abóbora de uma berinjela.
Árvore sem sombra—se diz daquele que não ajuda os outros.
61 O que podes sozinho, não espere dos outros.
O osso que te coube, coma-o com arte—qualquer que seja a sua parte, faça dela o melhor. Administre o que tem, não seja dependente de ninguém.
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Uma coisa e uma coisa muito maravilhosa: Cai no mar e não se molha.
[...]Todu ay al mundu:
Solu tres cozes no ay.
(Capac al mar, milizine a la muerti, iscalere para asuvir a lus sielus).63 (ARMISTEAD, s/d).