A fragmentação do Império Otomano, que perdeu muitas de suas províncias europeias fazendo surgir novos estados nacionais nos Bálcãs, marcou as primeiras décadas do século XIX. O reino da Grécia foi reconhecido em 1830 e Tessalônica foi incorporada a ele em 1912. A Bulgária nasceu em 1878 e a Bósnia-Herzegovina, onde localizava-se o importante centro sefaradita de Sarajevo, foi incorporada pelo Império Austro-Húngaro em 1878 e anexada em
1908. A Macedônia se viu dividida entre a Bulgária, Grécia e Sérvia. Após a Primeira Guerra Mundial mais uma vez estas fronteiras foram redesenhadas e o Império Otomano dissolvido, fazendo surgir a República da Turquia em 1923. Os reinos da Sérvia, Croácia e Eslovênia que mesclaram os sefaraditas das antigas terras otomanas com os ashkenazitas do Império Habsburgo foram fundidos no reino da Iugoslávia21 formado em 1931. (BENBASSA; RODRIGUE, 2000, p. 66). No mesmo período tiveram início as migrações dos judeus do Norte da África, Egito e Turquia para a Palestina. Ao redor de 1880 juntaram-se a eles judeus do Iêmen e Bukhara no Uzbequistão, fazendo com que a maioria da população judaica palestina fosse constituída por sefaraditas e orientais que desempenharam um papel ativo na construção de estradas e fazendas agrícolas, além de servirem como intermediários entre os novos colonos da Europa Oriental e a população árabe local.
Neste novo cenário, mesmo que preservando sua língua, tradições e cultura, os sefaraditas viram-se destinados a adaptar-se às circunstâncias locais que diferiam quanto às políticas em relação às minorias, o regime adotado pelos governos e a relação com os Estados vizinhos. Em 1839 o Império Otomano passou por uma reforma conhecida como Tanzimat que estabeleceu equidade entre seus súditos perante a lei independente de sua religião e permitiu a admissão igualitária a cargos públicos, a escolas civis e militares, estendeu às minorias o cumprimento do serviço militar e iniciou um processo de secularização da esfera pública. Tais reformas desgastaram a autonomia da comunidade judaica, que podia continuar a recorrer às cortes comunitárias para casos como divórcios e heranças, no entanto, nas questões de ordem comercial, civil ou criminal passava a responder às cortes do Império.
Em fevereiro de 1840 o Padre Thomas da ordem dos capuchinhos desapareceu em Damasco. Os judeus foram responsabilizados pelo ocorrido, acusados de praticar libelo de sangue22 e os líderes da comunidade judaica local foram presos e torturados. O caso despertou a atenção da comunidade judaica internacional e em setembro do mesmo ano, sob intervenção pessoal de Sir Moses Montefiori, filantropo inglês de origem judaica, os líderes comunitários foram libertados. Tal episódio marcou a mudança na relação entre os judeus europeus e aqueles do mundo islâmico, onde os primeiros passaram a se perceber como responsáveis pela segurança e desenvolvimento de seus irmãos do leste. Nas palavras do político americano Mordechai Manuel Noah: “Ainda somos um povo; ligados pelos mesmos laços religiosos, respeitando o mesmo Deus, governados pela mesma reverência sagrada, e unidos pelo mesmo
21 A Iugoslávia quando mencionada neste estudo refere-se ao período anterior à sua dissolução em 1992.
22 Acusação de sequestro e assassinato dos filhos de cristãos para usar seu sangue como parte de seus rituais
destino.” (SARNA, 1981 apud GERBER, 1992, p. 235). O caso de Damasco gerou também um enorme crescimento da imprensa judaica que passou a contar com 53 diferentes publicações, aproximando as diferentes comunidades judaicas do leste e oeste, permitindo uma significativa troca de ideias e a imprensa sefaradita em particular passou a publicar novos periódicos em ladino com caracteres hebraicos.
Em Paris um grupo de judeus franceses fundou em maio de 1860 a Alliance Israélite
Universelle com o propósito de auxiliar e proteger todos os judeus que estivessem em
situação de risco ou enfrentando dificuldades através da implementação de escolas e do estabelecimento de instituições de auxílio e bem-estar social. Reflexo da haskalá, o iluminismo judaico, movimento que ocorreu na Europa nos séculos XVIII e XIX e pregava a integração dos judeus às comunidades locais e a valorização da educação secular, da língua hebraica e da história judaica, a Alliance Israélite Universelle tinha como meta “lançar um raio de civilização do Ocidente em comunidades degeneradas por séculos de opressão e insegurança.” (RODRIGUE, 1990 apud GERBER, 1992, p. 237).
[…] ajudá-los a encontrar empregos mais seguros e menos depreciados, proporcionando às crianças os rudimentos de uma instrução elementar e racional; […] abrir seus espíritos para ideias ocidentais, destruindo certos preconceitos e superstições obsoletos que paralisam as atividades e o desenvolvimento das comunidades.[…] a ação da Alliance é principalmente dirigida a assegurar à juventude judaica, e subsequentemente, à população judaica como um todo, uma educação moral mais que instrução técnica, criar mais que semi-intelectuais, homens tolerantes ligados a seus deveres como cidadãos e como judeus, dedicados ao bem comum e a seus irmãos, sabendo como reconciliar as necessidades do mundo moderno com o respeito às antigas tradições. (RODRIGUE, 1990 apud GERBER, 1992, p. 237-8).
Convencidos de que a via para a melhoria das condições de vida dos sefaraditas e orientais era a educação, Sir Moses Montefiore e Isaac Adolphe Crémieux, o presidente da recém criada Alliance estabeleceram a primeira escola em Tetuão no Marrocos em 1862. Na virada do século havia mais de uma centena de estabelecimentos do Marrocos ao Irã. As cidades maiores como Istambul, Tessalônica e Edirna possuíam várias escolas, com aproximadamente 1.000 estudantes em cada cidade, e de 200 a 400 nas cidades menores como Bursa ou Aidin. Mesmo assim, muitos jovens continuaram frequentando as tradicionais escolas religiosas conhecidas como Talmud Torá, ou optaram pelas escolas missionárias francesas, inglesas ou escocesas.
Utilizando o francês como idioma de instrução e proibindo a fala do ladino em suas dependências, as escolas da Alliance tinham turmas separadas por gênero e ensinavam “habilidades básicas de leitura, matemática simples, instrução em ofícios tais como o bordado e um pouco de Estudos Judaicos (menos para as meninas do que para meninos),
especialmente do idioma hebraico.” (GERBER, 1992, p. 238). A Alliance Israélite
Universelle aguardava sempre a solicitação das comunidades locais para se instalar e para isto
contou com o apoio dos francos, a elite judaica originária de Livorno que se estabelecera na Turquia. Estes, que já mantinham contatos com elites europeias, trabalharam junto às lideranças locais compostas por banqueiros, financistas e ricos comerciantes que encorajaram e tornaram possível a realização de propostas dos intelectuais ligados à haskalá. Mesmo assim, o projeto sofreu rejeição de setores mais tradicionais, sendo procurado entretanto por aqueles que viam ali uma possibilidade de ascensão social para seus filhos. A fim de proteger judeus ao redor do mundo, a matriz francesa em Paris recebia relatórios dos emissários nas filiais contendo denúncias a respeito de maus tratos pelas mãos da população local e seus governantes e usava sua influência política para persuadir as autoridades quando necessário.
Na segunda metade do século XIX já se criara uma classe média francófona e apreciadora dos valores europeus que incluía pequenos comerciantes, contadores, funcionários de bancos e administradores, além de uma categoria de profissionais liberais em menor escala. Na virada do século a comunidade sefaradita “contava não somente com escolas, mas também com fundos para desempregados, cooperativas de mantimentos, clubes de leitura, contratação de médicos em período integral em algumas cidades, cozinhas públicas que distribuíam dezenas de milhares de refeições gratuitas e hospitais”. (GERBER, 1992, p. 240). O Talmud Torá passou a oferecer aulas de língua estrangeira e aritmética no período noturno e Isaac Epstein, criador do método de ensino do hebraico em hebraico foi indicado para dirigir a escola em Tessalônica.
A dominação europeia do mercado otomano no final do século XIX trouxe consigo importantes avanços tecnológicos. Ferrovias, canais e novas estradas tornaram os deslocamentos mais rápidos e seguros, levando ao êxodo dos sefaraditas para as grandes cidades em busca de melhores oportunidades econômicas. Um golpe de Estado liderado pelos Jovens Turcos em 1908 restabeleceu a constituição promulgada em 1875 e que fora anulada pelo sultão no ano seguinte e um “vento de liberalismo soprou sobre a região”. (BENBASSA; RODRIGUE, 2000, p. 71). As elites judaicas viram com bons olhos a nova situação e ocuparam posições estratégicas no novo governo. Neste período, favorecida pela abertura política, a Organização Sionista Mundial estabeleceu sua primeira representação oriental em Istanbul. Os sefaraditas começaram a abandonar os trajes tipicamente orientais para adotar o código europeu e as mulheres começaram a deixar o ambiente doméstico para frequentar novas atividades de lazer nos teatros e nos clubes sionistas. Todas estas mudanças tiveram um custo—a divisão da comunidade e um senso de identidade partida. O tom paternalista da
Alliance Israélite Universelle que prometia livrar os sefaraditas de sua “preguiça e vícios”
criava um abismo entre as identidades individuais e a comunitária, que mantinha um misto de devoção ao judaísmo tradicional e respeito aos laços familiares.
Até a Primeira Guerra Mundial as mulheres judias não participaram do mercado de trabalho, quando a mobilização em massa da população masculina viria a criar a necessidade de mão de obra. Mesmo que em número reduzido, algumas ocuparam cargos como secretárias, telefonistas e vendedoras nas grandes cidades como Istambul e a maioria constituída por jovens de baixo poder aquisitivo trabalhava nas fábricas de processamento de tabaco ou como empregadas domésticas, costureiras e bordadeiras.