• Sonuç bulunamadı

2.7. Sürdürülebilirlik

2.7.2. Sürdürülebilir Enerji Yönetimi

A reflexão schmittiana sobre o conceito de Estado o percebe como uma forma especificamente política da unidade de determinado povo, ou seja, o “Estado é o status político de um povo organizado dentro de uma unidade territorial” (SCHMITT, 2009, p. 19)64. Logo, o Estado se coloca como uma unidade política normativa65, sendo que a

64 O conceito schmittiano de Estado se afasta da abordagem de Kelsen (2006), para quem o Estado se

constituiria em um sistema de normas, bem como da compreensão de Weber (2009), o qual, numa vertente sociológica, ignora o problema da essência do Estado, interessando-se, porém, pelas condições e técnicas de seu funcionamento. Contudo, importante frisar que independentemente da teoria que busque definir a “ética do Estado”, a essência do Estado, todas reconhecem que o Estado aparece como uma unidade pressuposta (SCHMITT, 2011c, 33).

formação dessa unidade se dá através da real possibilidade do agrupamento amigo/inimigo (SCHMITT, 2009, p. 47) discutido no próximo tópico (item “1.3.6” do capítulo 1). Em suma,

consoante sua acepção literal e sua aparição histórica, Estado é uma condição de características especiais de um povo, mais precisamente, a condição competente dado o caso decisivo e, por isso, perante os muitos status individuais e coletivos imagináveis, pura e simplesmente o status. (SCHMITT, 2009, p. 19)

Desse conceito schmittiano, a unidade política, quando presente, pode-se apresentar a partir de expressões morais, nacionais, culturais, lingüísticas, etc., o que leva a concluir que nem todo povo se caracteriza como uma unidade política, mas tão- somente aquele que, a partir do seu laço homogêneo, é capaz de chegar à distinção amigo/inimigo (SCHMITT, 2009, p. 40). Assim, também se infere que a própria política não se resume ao Estado, podendo recair sobre qualquer área (econômica, religiosa, etc.), desde que elas sejam “tão fortes a ponto de definirem, por si mesmas, a decisão sobre o caso crítico” (SCHMITT, 2009, p. 41).

Em face da pluralidade de elementos que podem culminar no político, o estatal (algo relacionado a Estado) se apresenta apenas como mais um deles, de modo que ele não pode ser confundido com o conceito do próprio político. No decorrer dos séculos XVIII e XIX, o Estado teve sua noção expandida e a diferenciação entre o que é político e o que é não-político tornara-se retrógrada. Existiam esferas da vida que não se identificavam com o Estado e, como conseqüência, com o político. Todavia, ao final daquele período, surgiu uma nova interpenetração entre Estado e sociedade, levando, assim, a uma conseqüência lógica, ou seja, à politização de todas as esferas da vida social.

Desse modo, áreas como a religião, a cultura, a economia, dentre outras, deixaram de ser neutras no sentido do não-estatal e não-político. Com essa politização de todas as esferas da vida surge o Estado total “da identidade entre Estado e sociedade, Estado que não se desinteressa por nenhuma área e que abrange,

65Em outra passagem, diz Schmitt (2008, p. 248) que o Estado “não é nada além do povo na condição

de unidade política”. Na tradução inglesa: “is never anything other than a people in the condition of

potencialmente, qualquer área” (SCHMITT, 2009, p. 24). Como tudo, pelo menos em possibilidade, passa a ser político a referência ao Estado perde o condão de “fundamentar uma característica específica de diferenciação do ‘político’” (SCHMITT, 2009, p. 24). Contudo, não obstante, poder se fundar em outras esferas que não o estatal, é justamente no Estado que o político encontra sua expressão, sendo que, ademais, é justamente como Estado que um determinado povo encontra sua unidade, para ele mesmo, e para outros povos.

O Estado absolutista, em especial o hobbesiano, coloca-se como a base utilizada por Schmitt em sua formulação do conceito de Estado. A era do Estado teria surgido das guerras confessionais as quais demandaram um poder comum que pudesse impor a paz interior e a soberania exterior (KERVÉGAN, 2006, p. 49).

Logo, a partir dessa noção, Schmitt privilegiava a dimensão exterior da soberania, fazendo do jus belli o maior atributo do poder estatal (SCHMITT, 2009, p. 45- 6), e deixando à margem a discussão sobre sua legitimidade e subordinação. A identificação da estatalidade com a política estrangeira se torna um problema no pensamento schmittiano, pois, a separação entre interior e exterior e entre governo público e privado conformou o pensamento jurídico, fazendo com que, a partir dessa separação, o Estado – externamente visto como o todo-poderoso no sentido hobbesiano – se enfraquecesse internamente, eis que a situação de paz e tranquilidade que ele oferece se coloca como situação ideal, na qual a sociedade liberal se desenvolve e se fortalece, drenando, assim, o poder do Estado.

O pluralismo realmente existente, na perspectiva de Hobbes, estava a um passo de se transformar em uma guerra civil, na qual não haveria nenhum juiz para determinar o ‘meu e o teu’. O Estado era uma força visível e potencialmente neutra, enquanto os partidos e grupos de interesses eram poderes que, se não controlados, devorariam o grande Leviatã de dentro pra fora. (BALAKRISHNAN, 2000, p. 124)66

Esse Estado pluralista, no sentido da disputa política de interesses partidários que não se põe em favor do bem comum, possui como essência o princípio liberal do

66

No original: “Actually existing pluralism, seen through Hobbesian eyes, was one step away from a

condition of civil war within which there would be no judge to determine ‘mine and thine’. The state was visible and potentially neutral force, while parties and interest groups were powers which, if unchecked, would devour the great Leviathan from the inside out”.

pacta sunt servanda no qual, contudo, seria impossível se fundar uma unidade do Estado (SCHMITT, 2011c, p. 33). Isso, pois, seus integrantes (do Estado) seriam grupos sociais individuais enquanto tais, ou seja, vistos como sujeitos contratantes isolados, que se servem do contrato e estão unidos uns aos outros exclusivamente pelos laços contratuais. Logo, eles figuram como entidades políticas uns frentes aos outros, e “o que aí existe de unidade, é somente o resultado de uma aliança, como todas as alianças e contratos, revogáveis” (SCHMITT, 2011c, p. 33)67. Assim, o contrato

se coloca como um mero tratado de paz entre os grupos que o celebram, e, justamente por ser um acordo de vontades, carrega consigo a possibilidade, mesmo que remota, de uma mudança de status que pode levar à guerra.

No fundo, este tipo de ética do contrato se afigura como uma ética da guerra civil; aparece em primeiro plano a patente insuficiência do princípio pacta sunt

servanda, que, quando se concretiza, não pode ir mais além do que uma

legitimação do correspondente status quo [sic], do mesmo modo que na vida privada chega, no máximo, a proporcionar uma excelente ética de agiotas. (SCHMITT, 2011c, p. 33-4)68

Refutar uma ética do Estado69, como defendido por Schmitt (2011c), aceitando,

por outro lado, um Estado erigido a partir do princípio do pacta sunt servanda, significa aderir a uma ética da guerra civil, eis que o Estado, por si só, sucumbiria à ameaça do bellum omnium contra omnes.

Na tentativa de manter a unidade política do Estado, combatendo as incongruências dos sistemas pluralistas baseados em partidos, Schmitt (2011c, p. 33) defende que isso só é possível caso tais partidos comunguem de premissas comuns

67 Na tradução inglesa

: “lo que ahí haya de unidad, es sólo el resultado de una alianza, como todas las

alianzas y contratos, revocable”.

68 Na tradução espanhola

: “En el fondo de este tipo de ética del contrato se encuentra por tanto siempre

una ética de la guerra civil; aparece en primer plano la manifiesta insuficiencia del principio pacta sunt

servanda, que, cuando se concreta, no puede ser mucho más que una legitimación del

correspondiente status quo [sic], del mismo modo que en la vida privada llega, a lo sumo, a proporcionar una excelente ética de usureros”.

69 Ética de Estado não se vincula apenas à ética do Estado hegeliano, que faz do Estado o portador e

criador de uma ética própria, nem apenas a ideia do stato etico no sentido da doutrina fascista. A ética do Estado também se relaciona a ética do Estado kantiana, bem como à do liberalismo. Mesmo se concebendo o Estado como sujeito e portador de uma ética autônoma, de modo que tal ética de Estado consistiria em estabelecer uma ligação do respectivo Estado com normas éticas pré-existentes, tem-se sempre partido do pressuposto de que o Estado seria uma instância suprema, além de se apresentar como o juiz do “seu” e do “meu”, através do qual o estado de natureza hobbesiano, que é meramente normativo e, portanto, carece de juiz, estaria superado (SCHMITT, 2011c, p. 22).

presentes em uma constituição. Logo, “a unidade política repousa especialmente na Constituição reconhecida por todos os partidos, devendo ser respeitada incondicionalmente como fundamento comum” (SCHMITT, 2011c, p. 33)70. Assim, a

ética do Estado se transforma em uma Ética constitucional que, a partir da substância e autoridade da constituição pode-se fazer mais efetiva. Contudo, Schmitt (2011c, p. 33) adverte que, caso a constituição se transforme numa mera regra de um jogo, que sua ética seja vista como um simples fair play, ou que haja a dissolução pluralista da unidade do político, fará com que a unidade antes resguardada pela constituição se transforme num conglomerado de acordos voláteis de grupos heterogêneos. Desse modo, haveria uma redução da ética da constituição a uma ética a partir fundada no princípio do pacta sunt servanda.

Para uma correta compreensão da passagem da ética de Estado à ética da constituição, imprescindível se coloca a discussão sobre o próprio conceito do que seria a constituição.

1.3.4.1 A Constituição

É no seu conceito de constituição que Schmitt relaciona os quatro conceitos estruturantes de seu pensamento: decisionismo, unidade de Estado, constituição e política. Logo, é na discussão schmittiana sobre a constituição que se poderá compreender a relação entre direito e política, bem como sua estrutura decisionista em vistas à manutenção da unidade do Estado.

Desde já, ressalta-se que Schmitt (2008b, p. 45) escrevera uma Teoria da Constituição (Verfassungslehre) e não uma Teoria do Estado (Staatslehre). Tal assertiva é destacada pelo próprio Schmitt (2008b, p. 45), em razão de sua percepção de que o Estado havia perdido o monopólio do político (ver item “1.3.2” do capítulo 1). Assim, em razão da constatação de que “o conceito de Estado pressupõe o conceito do político” (SCHMITT, 2009, p. 19), a continuação da discussão exposta no livro O

70 Na tradução espanhola: “La unidad reposa entonces especialmente en la Constitución reconocida por todos los partidos, que debe ser respetada incondicionalmente como fundamento común”.

conceito do político (1927), foi uma Teoria da Constituição e não uma Teoria do Estado, pois não mais era possível definir o político a partir do Estado71.

Schmitt inicia seu livro, Teoria da Constituição, criticando a teoria constitucional do Estado liberal a qual defendia que “o componente constitucional do Rechtsstaat burguês ainda é confundido com a constituição em sua totalidade” (SCHMITT, 2008a, p. 55)72. Schmitt criticava tal posição, pois tal compreensão não poderia bastar por si mesma, “servindo apenas como um suplemento do componente político” (SCHMITT, 2008a, p. 55)73. Em termos práticos, a teoria constitucional do Estado burguês teria desenvolvido o “hábito de atos apócrifos de soberania [...] [de modo que] autoridades e cargos estatais sem serem soberanos, no entanto, ocasionalmente e sob aceitação tácita, implementavam atos de soberania” (SCHMITT, 2008a, p. 55)74.

Em a Teoria da Constituição, Schmitt (2008, p. 59-93) apresenta quatro conceitos de constituição presentes até então no constitucionalismo, sendo eles: (i) conceito absoluto; (ii) conceito relativo; (iii) conceito positivo; e (iv) conceito ideal. Tais conceitos são vistos em pares, de modo que o absoluto se contraporia ao relativo e o positivo ao ideal. Assim, é a partir desses pares que Schmitt inicia sua reflexão acerca da semântica do constitucionalismo moderno.

1.3.4.1.1 Conceito Absoluto de Constituição

O conceito absoluto de constituição se vincula à constituição como um todo unitário. Nesse sentido de totalidade, não é possível se definir um conceito unívoco para a constituição, o que leva Schmitt a defini-lo segundo duas vertentes. Logo, tem-se

71 Ao se referir ao seu “o conceito do político” e da discussão nele presente de que o conceito do político

é pré-condição para o conceito de Estado, Schmitt (2008b, p. 45) afirma que “subsequentemente, a investigação sistemática desse tratado evoluiu para um livro sobre a teoria da constituição [Verfassungslehre] (1928), não na teoria do Estado [Staatslehre]. Em outras palavras: hoje ninguém mais pode definir a política a partir do Estado”. Na tradução inglesa: “Subsequently, the systematic

enquiry of this treatise developed into a book on the theory of the constitution [Verfassungslehre] (1928), not on the theory of the state [Staatslehre]. In other words: today one can no longer define the political from the state”.

72 Na tradução inglesa: “the bourgeois Rechtsstaat component of the constitution is still confused with the entire constitution”.

73 Na tradução inglesa

: “It serves, rather, only as a supplement to the political component”.

74 Na tradução inglesa

: “the habit of apocryphal acts of sovereignty […] state authorities and offices,

without being sovereign, nevertheless occasionally and under tacit acceptance implement acts of sovereignty”.

o conceito absoluto de constituição: (i) como a concreta maneira de ser de qualquer unidade política (sentido real); e (ii) como um sistema fechado de normas supremas e últimas que dão validade às demais normas (sentido reflexivo). Os dois conceitos compõem a noção de conceito absoluto de constituição, pois, embora o primeiro demonstre de forma real, efetiva, ao passo que o segundo apresenta como uma ideia pensada, ambos expressam a constituição como um todo (SCHMITT, 2008a, p. 59).

O conceito real de constituição em sentido absoluto é usado de três maneiras. A primeira delas percebe a constituição como “a condição concreta, coletiva, da unidade política e ordem social de um determinado Estado” (SCHMITT, 2008a, p. 59)75. Em

outras palavras, tal conceito representaria um princípio de unidade e ordem, alguma autoridade decisória que se imporia nos casos de conflito de interesses e de poder. Aqui, não há um sistema de princípios e normas jurídicas, mas um Estado em sua concreta existência, um dasein político. Nesse sentido, “o Estado não tem uma constituição que se forma ela própria e funciona ‘de acordo com’ a vontade estatal. O Estado é a constituição” (SCHMITT, 2008a, p. 60)76.

Na sequência, como segunda espécie do conceito real de constituição em sentido absoluto, tem-se aquele em que a constituição se afigura como uma forma de governo. Contudo, aqui forma significa algo já existente, e não um status jurídico ou um comando normativo. Logo,

Mesmo neste sentido do termo [forma], cada Estado tem, obviamente, uma constituição, sendo que o Estado sempre corresponde a uma das formas em que os Estados existem. Mesmo nesse sentido, seria mais exato dizer que o Estado é uma Constituição. Ele é uma monarquia, democracia, república do conselho, e não tem apenas um tipo monárquico ou outra forma de constituição. A constituição é a ‘forma das formas’, forma formarum (SCHMITT, 2008a, p. 60)77

75 Na tradução inglesa

: “the concrete, collective condition of political unity and social order of a particular

state”.

76Na tradução inglesa

: “the state does not have a constitution, which forms itself and functions ‘according

to’ a state will. The state is constitution”. 77 Na tradução inglesa

: “Even in this sense of the term, every state obviously has a constitution, for the

state corresponds to one of the forms in which states exist. Even in this regard, it would be more exact to say the state is a constitution. It is a monarchy, democracy, council republic, and does not have merely a monarchial or other type of constitution. The constitution is a ‘form of forms’, forma formarum”.

Por fim, o terceiro uso do conceito real de constituição em sentido absoluto se vincula ao princípio da emergência dinâmica da unidade política (SCHMITT, 2008a, p. 61). Aqui a constituição é percebida não como algo estático, mas sim como “o princípio ativo de um dinâmico processo de efetivas energias, um elemento do dever, embora não exatamente um procedimento regulamentado de prescrições de ‘comando’ e atribuições’” (SCHMITT, 2008a, p. 61)78, o qual, por sua vez, configura o procedimento

normativista.

O segundo conceito de constituição em sentido absoluto, ou seja, o conceito reflexivo é melhor compreendido quando considerado em face do pensamento normativista. No conceito reflexivo, a constituição é vista numa perspectiva normativa como uma regulação jurídica fundamental, ou seja, ela pode significar um sistema unificado, fechado, composto pelas últimas e superiores normas, sendo, portanto, a norma das normas (SCHMITT, 2008a, p. 62). Schmitt chega a reconhecer que a perspectiva normativista pode fundar a compreensão da constituição vista como um todo, eis que ela se apresenta como o “quadro normativo pleno da vida do Estado em geral” (SCHMITT, 2008a, p. 62)79. Assim, o Estado se tornaria “uma ordem jurídica que

se apóia na constituição como norma básica” (SCHMITT, 2008a, p. 62)80. Aqui há uma

redução do Estado de direito (Rechtsstaat) liberal a uma unidade de normas, sendo ele visto como “algo genuinamente imperativo que corresponde a normas, e se vê o Estado somente como um sistema de normas” (SCHMITT, 2008a, p. 63)81.

O conceito reflexivo de constituição em sentido absoluto é rechaçado por Schmitt (2008a, p. 64), que afirma que a constituição é válida quando deriva de uma decisão tomada por um poder ou autoridade, estabelecendo-se pela vontade desse constituinte. Logo, aqui se percebe a imprecisão normativista no tocante à autofundação da norma. Se a decisão precede a norma (o que inclusive já estava presente no positivismo), a própria constituição, vista como norma, é precedida, então, pela decisão de um poder ou autoridade constituinte: “Até o mais ortodoxo liberal implicitamente assume a

78 No original: “the active principle of a dynamic process of effective energies, an element of the becoming, though not actually a regulated procedure of ‘command’ prescriptions and attributions”. 79 No original:

“entire normative framework of state life in general”.

80

No original: “a legal order that rests on the constitution as basic norm”.

81No original: “something genuinely imperative that corresponds to norms, and one sees in the state only a system of norms”.

existência de uma ‘decisão positiva’, a favor de uma particular forma de governo constitucional a qual transcende a obsessão [...] liberal com limitações jurídicas na autoridade do Estado” (SCHEUERMAN, 1997, p. 143)82.

Para Schmitt, a compreensão normativista não garante a unidade do Estado, pois, esta não pode se fundar em estatutos ou regras, mas sim na existência política concreta do Estado. Nesse sentido, a unidade do Reich alemão não deriva dos 181 artigos da Constituição de Weimar, mas sim da existência política do povo alemão. “A vontade do povo alemão, portanto algo existencial, estabelece a unidade” (SCHMITT, 2008a, p. 65)83.

1.3.4.1.2 Conceito Relativo de Constituição

Para Schmitt, a perspectiva normativista de cunho liberal, terminou por relativizar o conceito de constituição quando o reduziu a um mero conjunto de normas. Logo, a constituição seria entendida como uma pluralidade de leis particulares. Assim, a relativização consistiria em: “ao invés de uma constituição unificada em sua totalidade, há apenas a lei constitucional individual”, o que se dá via “características formais que são externas e periféricas” (SCHMITT, 2008a, p. 67)84. Tais características basicamente

são: uma constituição escrita e a necessidade de um quórum qualificado para sua reforma.

O movimento burguês alemão face à monarquia absoluta, em 1848, reivindicava uma constituição escrita dado que “o que é escrito pode ser demonstrado mais efetivamente” (SCHMITT, 2008a, p. 68)85, gerando, assim, estabilidade. Esse caráter

estável – visto como normalidade – proporcionou o cenário perfeito para o desenvolvimento do liberalismo, a partir de sua matriz normativista. Assim, a constituição se afigurava como “um pacto, firmado via juramento, entre o rei e o povo,

82

No original: “Even the most orthodox liberal implicitly assumes the existence of a ‘positive decision’, in

favor of a particular form of constitutional government, which transcends the […] liberal obsession with

legal limitations on state authority”.

83 Na tradução inglesa: “The will of the German people, therefore something existential, establishes the unity”.

84 Na tradução inglesa

: “instead of a unified constitution in its entirety, there is only the individual constitutional law […] formal characteristics that are external and peripheral”.

85 Na tradução inglesa

que estabelece os princípios fundamentais da legislatura e do governo de um país” (SCHMITT, 2008a, p. 69)86. Tal pacto, ou seja, a constituição, só poderia ser alterada

caso ambas as partes contratantes anuíssem de modo que tais alterações só poderiam ser feitas através de um processo legislativo. A demanda por uma constituição escrita, segundo Schmitt (2008a, p. 69) “leva a constituição a ser tratada como um estatuto. Mesmo que ela se apresente como um acordo entre o príncipe e a assembléia popular, ela somente poderia ser alterada via legislação”87.

Assim, houve uma identificação da constituição com a lei escrita, representando “a dissolução de uma constituição unificada em uma série de leis constitucionais individuais” (SCHMITT, 2008a, p. 69)88. Essa constatação é percebida na República de

Weimar, pois, diante da pressão exercida pelas nações vitoriosas da Primeira Guerra Mundial, tinha-se urgência na elaboração de uma constituição. Logo, na Constituição de Weimar, feita às pressas, percebe-se que “grandes partes [...] parecem refletir compromissos interpartidários armados de modo a alcançar algum consenso político