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Introdução:

Eurípides foi um dos três tragediógrafos mais conhecidos da Grécia Antiga. Maria Helena da Rocha Pereira diz que seu drama é psicológico, e que essa seria sua característica mais marcante, fato que o distinguiria de Ésquilo e Sófocles.84 Peter Levi acha que sua criatividade e originalidade, presentes em cada verso e em evolução ao longo da escrita de suas peças, é que faz de Eurípides um autor único no Período Clássico Grego.85 Levi também aponta para a gradual diminuição da importância do coro na tragédia de Eurípides como um fator que o diferencia dos demais: em uma de suas últimas peças, Bacantes, o coro quase não fala, restringindo- se a cantar em poucas ocasiões, o que consistia uma mudança bastante significativa se comparada com a relevância do coro e de suas opiniões nas peças de Ésquilo e de Sófocles.86

Estima-se que Eurípides tenha escrito noventa e duas peças, das quais nos chegaram dezoito (dezessete tragédias e um drama satírico), o maior número de peças de um tragediógrafo grego a sobreviver e chegar à posteridade (de Ésquilo e Sófocles nos chegaram sete de cada). Contudo, apesar de ser o mais famoso dos três tragediógrafos devido à sua popularidade com os professores, estudantes, críticos, poetas, entre outros, do Mundo Grego Tardio, ele só obteve quatro vitórias nas competições teatrais. Dele são (todas as datas são a.C.): Alceste (438), Medeia (431), Heráclidas (ca. 430), Hipólito (428), Andrômaca (425), Hécuba (424), Suplicantes (423), Electra (420), Héracles (416), Troianas (415), Ifigênia em Táuride (ca. 414), Íon (ca. 414), Helena (412), Fenícias (ca. 410), Orestes (408), Bacantes (405), Ifigênia em Áulide (405), Ciclope (?). Há uma outra tragédia atribuída a Eurípides chamada Resus (?), mas cuja autoria é muito debatida, sendo que os estudiosos não têm certeza dessa atribuição.87

Sobre o fragmento em questão, toda a discussão será apresentada no comentário. O texto grego foi retirado de KANNICHT, Richard (ed.) Tragicorum Graecorum Fragmenta (TGF). Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2004. v. 5, pt. 1.        84 Cf. Pereira, 1987, p. 410. 85 Cf. Levi, 1986, pp. 166-167. 86 Cf. Levi, 1986, pp. 169-171. 87 Cf. Levi, 1986, pp. 166-171.

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Λάµια

Τίς τοὖνοµα τὸ ἐπονείδιστον βροτοῖς / οὐκ οἶδε Λαµίας τῆς Λιβυστικῆς γένος;

Tradução:

Lâmia

"Quem o nome vergonhoso para os mortais / não sabe da Lâmia de raça Líbia?"

Comentário:

O fragmento é retirado de Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica 20.41.6.4-5 (seguindo a numeração utilizada no programa Diogenes), que afirma que estes versos são de Eurípides, no prólogo de sua peça chamada Lâmia (cf. infra pp. 87-91). Diodoro é a única fonte desse fragmento. As outras fontes falam da tradição das sibilas, mas não fornecem mais fragmentos da peça de Eurípides que se chamaria Lâmia, comentando apenas que a segunda sibila é relembrada por Eurípides no prólogo dessa mesma peça. O comediógrafo Crates, como visto, tem uma comédia de mesmo título (cf. infra pp. 38-51).88

τοὖνοµα - uma fusão do artigo definido τό com seu respectivo substantivo neutro

ὄνοµα, provavelmente por razões métricas.

Τίς, ὄνοµα, γένος - o pronome interrogativo τις é o sujeito da frase: Τίς οὐκ οἶδε -

"quem não conhece, sabe", com o verbo finito οἶδα na terceira pessoa do singular do presente do indicativo ativo. E são dois os objetos: há dois substantivos neutros que estão no acusativo: ὄνοµα e γένος. O primeiro é o objeto direto da frase: Τίς οὐκ οἶδε τὸ ὄνοµα - "quem não conhece o nome", seguido pelo adjetivo ἐπονείδιστον delimitando que não é um nome qualquer, e sim um nome que causa vergonha de se ouvir. A outra parte dos dois versos também caracteriza ὄνοµα: Λαµίας τῆς Λιβυστικής - "da Lâmia Líbica", não é qualquer nome, é o nome da Lâmia da Líbia. O vocábulo γένος é um outro objeto direto, e nesse caso a tradução da frase poderia ficar assim: "Quem não conhece o nome vergonhoso e a raça da Lâmia da Líbia?". Contudo, parece melhor considerá-lo um acusativo de relação, caracterizando o adjetivo no genitivo, e aí a frase ficaria, literalmente, assim: "Quem não conhece o nome vergonhoso da Lâmia, líbia em relação à raça?", o que verteu-se em "Quem não       

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A tradução do fragmento aqui foi mais literal do que a tradução em Diodoro (cf. infra p. 90), em que foi prezada a fluência do português.

sabe o nome vergonhoso da Lâmia de raça líbia?", por uma questão de melhor adequação da tradução para o português. O sentido do acusativo de relação fica, assim, mantido.

ἐπονείδιστον - algumas edições trazem τοὐπονείδιστον, em situação idêntica à acima

comentada, fusão do artigo definido neutro singular com o adjetivo neutro ao qual se refere, ἐπονείδιστον.

Os editores da enciclopédia New Pauly afirmam que Eurípides colocou uma lâmia como enunciadora do prólogo de seu drama satírico chamado Busíris (Βουσίρις Σατύρικος; cf. Cancik & Schneider, 2005, v. 7, p. 182), mas, contrariando as afirmações e após cuidadosa análise, nada se encontrou, nem nos fragmentos remanescentes da referida peça, nem nos escólios a ela, que levasse a essa conclusão (cf. Kannicht, 2004, TGF, frs. 312b-315, v. 5, pt. 1, pp. 368-370). Richard Kannicht, na edição do TGF de 2004, fornece os comentários e os fragmentos restantes desses dois dramas satíricos de Eurípides: Busíris e Lâmia, o que permitiu a análise. Assim, nos escólios antigos ao fragmento da suposta obra de nome Lâmia, aponta-se um comentário de Varrão (116-27 a.C.), em seu Antiquitates rerum humanarum et divinarum (Antiguidades das coisas humanas e divinas, escrito em 41 livros), que nos chegou apenas em fragmentos e que menciona o prólogo da peça euripideana de nome Lâmia. O fragmento em questão está preservado na obra de um dos primeiros autores cristãos de que se tem notícia, Lactâncio (ca. 240-ca. 320 d.C.)89, e segue assim:

Sybillas decem numero fuisse...: primam fuisse de Persis, cuius mentionem fecerit Nicanor qui res gestas Alexandri Macedonis scripsit, secundam Lybissam, cuius meminerit Euripides in Lamiae prologo [δευτέρα ἡ Λύβισσα, ἧς µνήµην ἐποιήσατο Εὐριπίδης ἐν τῷ προλόγῳ τῆς Λαµίας] - "As sibilas foram, em número,

dez...: a primeira foi da Pérsia, de quem fez menção Nicanor que escreveu os feitos ilustres de Alexandre da Macedônia, a segunda da Líbia, de quem se lembra Eurípides no prólogo da Lâmia [segunda a Líbia, da qual memória guardou Eurípides no       

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A obra de Lactâncio se chama Instituitiones Divinae (Instituições Divinas), e foi escrita entre 303 e 311 d.C. Ela consiste em um tratado que critica o paganismo, suas tradições e crenças, e que é, ao mesmo tempo, considerado a primeira tentativa registrada de uma sistematização prática do cristianismo, apesar de a Enciclopédia Católica afirmar que não é uma fonte digna da religião que professa, nem que deve ser tomada como fonte fidedigna, pois afirma que o referido autor demonstra um desconhecimento significativo das Escrituras, e pouca intimidade com os dogmas do catolicismo (Enciclopédia Católica, v. VIII, p. 736. Essa enciclopédia, que começou a ser publicada em 1913 nos Estados Unidos, está hoje em domínio público e pode ser encontrada facilmente na internet para consulta, em sítios como www.en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913); www.catholic.o rg/encyclopedia; www.newadvent.org/cathen).

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prólogo da Lâmia]" (cf. Kannicht, 2004, TGF, fr. 472m, v. 5, pt. 1, pp. 517-518; tradução própria). Parece claro então, pelo testemunho dado por este fragmento, que Eurípides teria escrito uma peça cujo título seria Lâmia, da qual o único fragmento sobrevivente é aquele supra citado encontrado em Diodoro Sículo. Contudo, em seu comentário específico ao fragmento, Kannicht discute as questões acerca do nome "Lâmia", debatendo se seria mesmo o nome de uma peça de Eurípides como afirmam Diodoro Sículo e Varrão, ou se seria o nome da enunciadora do prólogo do Busíris. Kannicht opta pela segunda opção, e afirma duvidar da veracidade desse título Lâmia para o drama satírico euripidiano. De modo que, tanto para ele quanto para outros pesquisadores citados por ele, uma vez que em uma das versões de seu mito a Lâmia é líbia, e que toda a ambientação do Busíris se passa na Líbia, parece mais provável que aquela fosse realmente a enunciadora do prólogo deste (cf. Kannicht, 2004, TGF, fr. 472m, v. 5, pt. 1, p. 518). Contudo, tais justificativas apontadas por esses estudiosos parecem ser de pouca força e a conclusão soa algo precipitada. De fato, não há outros fragmentos que possam nem corroborar, nem descartar uma das duas hipóteses. Contudo, os dois únicos testemunhos antigos que dizem respeito a essa polêmica são o de Diodoro e o de Varrão, que afirmam a existência de uma peça de Eurípides que se chamaria Lâmia. Além do mais, não há nada que faça qualquer referência à presença de uma lâmia no Busíris, nem nos fragmentos remanescentes da peça, nem nos comentários antigos a seu respeito. De maneira que, talvez fosse mais prudente não se concluir nada nesse sentido.

Ἀριστοφάνης - Aristófanes

Benzer Belgeler