pois fornece informações importantes sobre a lâmia.
Texto grego retirado do programa Diogenes, de HOLWERDA, D. (ed.) "Scholia in Vespas, Pacem, Aves et Lysistratam", in Scholia in Aristophanem. Groningen: Bouma, 1982. v. 2, t. 2. <Λαµίας ὄρχεις> δραστικοὶ γὰρ οἱ ὄρχεις. <Λαµίας ὄρχεις> Δίδυµος· εἰδωλοποιεῖ τινας ὄρχεις Λαµίας· θῆλυ γάρ. ἐντεῦθεν καὶ Λάµος ἡ πόλις τῶν Λαιστρυγόνων. λέγεται ἡ Λάµια Βήλου καὶ Λιβύης θυγάτηρ. ταύτης ἐρασθῆναι τὸν Δία φασίν, µεταγαγεῖν δὲ αὐτὴν ἀπὸ Λιβύης εἰς Ἰταλίαν, ἀφ' ἧς καὶ πόλις ἐν Ἰταλίᾳ Λάµια προσαγορεύεται. ἔνθεν αὐτῇ συνελθὼν ὁ Ζεὺς οὐκ ἔλαθε τὴν Ἥραν· ἥτις ζηλοτυποῦσα τὴν Λάµιαν τὰ γινόµενα αὐτῆς τέκνα ἀνῄρει ἀεί. ἡ δὲ ἀποθνησκόντων αὐτῆς τῶν παιδίων βαρυθυµοῦσα τὰ τῶν ἄλλων παιδία διὰ φθόνον ὑποκλέπτουσα ἀνῄρει. διὰ τοῦτο καὶ τὰς τίτθας ἐκφοβούσας τὰ βρέφη φασὶ καλεῖν ἐπ' αὐτοῖς τὴν Λάµιαν. µυθεύεται δὲ ὡς ἄϋπνος αὕτη διατελεῖ βουλήσει Ἥρας, ἵνα καὶ ἡµέρας καὶ νύκτας ἐν τῷ πένθει ᾖ, ἕως οὗ αὐτὴν ἐλεήσας ὁ Ζεὺς ἀφαιρέτους αὐτῆς τοὺς ὀφθαλµοὺς ἐποίησεν, ὅπως ἂν ἐν αὐτῇ ᾖ ἐξαιρεῖσθαι ἑαυτῆς τοὺς ὀφθαλµοὺς καὶ πάλιν θεῖναι. λέγεται δὲ ἐσχηκέναι παρὰ Διὸς καὶ τὸ µεταµορφοῦσθαι εἰς ὅ τι οὖν βούλεται. οὕτως εὗρον ἐν ὑποµνήµατι. ἀλλόκοτόν τι τέρας ὑποστήσασθαι βούλεται τὸν Κλέωνα· τὴν γὰρ Λάµιάν φασιν ἄγριον εἶναι ζῷον καὶ δύσοσµον καὶ ἀνήµερον. οὐκ ἀρκεσθεὶς δὲ τούτοις αὐτὸν εἰκάσαι µόνοις προσέθηκε καὶ ἄπλυτον, ἵνα µᾶλλον αὐξήσῃ τὴν περὶ τὸν Κλέωνα δυσοσµίαν.
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Tradução:
<bagos de uma lâmia> os testículos são de fato ativos.
<bagos de uma lâmia> Ambíguo99, [Aristófanes] retrata alguns testículos de Lâmia, [mas ela] de fato é fêmea. Daí também Lamo, a cidade dos lestrigões.
Diz-se que Lâmia era filha de Belo e Líbia. Falam que Zeus se enamorou dela, e a transferiu da Líbia para a Itália e, a partir dela, uma cidade de Lâmia na Itália foi chamada. O fato de Zeus estar se encontrando com ela não passou despercebido a Hera: esta, enciumada, matava sempre todas as crias nascidas de Lâmia. E ela, deprimida pelas suas crianças chacinadas, raptando por inveja as crianças dos outros, matava. Falam que é por isso que a amas, atormentando os pirralhos, chamam a Lâmia para eles. Conta-se como esta ficava continuamente insone pela vontade de Hera, a fim de estar dias e noites em luto, até que Zeus, apiedado dela, fez os olhos dela serem removíveis, de modo que pudesse tirar de si mesma os olhos e colocar de novo. E também dizem ter obtido de Zeus a capacidade de se metamorfosear no que quer. Assim encontrei nas anotações.
[Aristófanes] quer estabelecer Cléon como um monstro estranho: pois falam que a lâmia era um animal feroz, fedido e selvagem. Não se contentando apenas com esses [adjetivos] para representá-lo, atribuiu também imundo, a fim de exaltar ainda mais a inhaca em volta de Cleon.
Comentário:
Um escólio muito importante, pois primeiro diz que lâmias são seres do sexo feminino e que o fato de Aristófanes ter-lhes atribuído testículos é algo dúbio. Depois, se refere à cidade dos lestrigões, sobre a qual pode-se ver a discussão neste mesmo trabalho na parte dedicada a Homero (cf. supra pp. 23-28). Em terceiro lugar, relata a história da Lâmia filha de Belo e Líbia, por quem Zeus se apaixonou, que, na verdade, não aparece em nenhuma das fontes antigas, a não ser a esparsa referência no verso remanescente da peça Lâmia, de Eurípides (cf. supra p. 54), em Dúris de Samos (cf. acima escólio à Vespas, pp. 66-67), e em Heráclito paradoxógrafo (cf. infra p. 167- 168): ou seja, juntamente com o escólio anterior, que remete à obra do tirano de Samos, talvez este escólio seja uma das únicas fontes antigas dessa versão do mito, o
99 Para a tradução do vocábulo δίδυµος, Jacyntho L. Brandão sugeriu "testículos", mas optou-se por
manter a palavra "ambíguo" por causa do contexto da frase, que está questionando essa informação que Aristófanes dá de que a lâmia teria testículos. O autor do comentário parece dizer que não faz muito sentido a lâmia apresentar testículos, pois é do conhecimento de todos que ela é fêmea.
que os torna fundamentais para a análise realizada neste trabalho. No mesmo texto, o escoliasta também fornece sua interpretação do verso, afirmando que Aristófanes quer difamar o político Cleon e o chama de lâmia para alcançar tal fim, pois era de conhecimento popular que a lâmia era um animal feroz, fedido e selvagem (ele usa o verbo φηµί na terceira pessoa do plural, φασί, indicando o caráter de rumor ou sabedoria popular que essa descrição da lâmia devia ter). Ele imprime, ainda, sua opinião pessoal de que Aristófanes não teria ficado satisfeito somente com a esfera desse conhecimento popular sobre as lâmias para denegrir Cleon, e que por tal razão teria acrescentado o adjetivo ἄπλυτος, derivado do verbo πλύνω, "lavar, banhar", em composição com um alfa privativo, o que gera "não lavados, sujos, imundos" (cf. LSJ, 1996, pp. 191 e 1423; Chantraine, 1968, pp. 918-919).100 Ἀριστοφάνης, Σφῆκες 1174-1180 {Βδελύκλεων} ἄγε νυν, ἐπιστήσει λόγους σεµνοὺς λέγειν ἀνδρῶν παρόντων πολυµαθῶν καὶ δεξιῶν; {Φιλόκλεων} ἔγωγε. {Βδελύκλεων} τίνα δῆτ' ἂν λέγοις; {Φιλόκλεων} πολλοὺς πάνυ. πρῶτον µὲν ὡς ἡ Λάµι' ἁλοῦσ' ἐπέρδετο, ἔπειτα δ' ὡς ὁ Καρδοπίων τὴν µητέρα – {Βδελύκλεων} µὴ 'µοιγε µύθους, ἀλλὰ τῶν ἀνθρωπίνων, οἵους λέγοµεν µάλιστα, τοὺς κατ' οἰκίαν. Tradução: Aristófanes, Vespas 1174-1180
{Bdelícleon} Vamos, agora, vais saber como falar discursos solenes aos homens presentes, que são muito cultos e inteligentes? {Filócleon} Com certeza!
{Bdelícleon} O que, então, dirias? {Filócleon} Tudo muito!
100
Aristófanes critica Cleon em várias de suas comédias. Cleon foi um demagogo, general e o político ateniense mais proeminente desde a morte de Péricles, tendo atuado na época da Guera do Peloponeso. Ele e Péricles eram adversários políticos e não chegaram a um acordo a respeito da Guerra do Peloponeso, pois Péricles queria a paz e Cleon queria que Atenas insistisse na continuação da guerra. Foi o primeiro representante da classe dos comerciantes na política de Atenas, apesar de ser parte da aristocracia da cidade. Tanto Aristófanes quanto Tucídides falam muito de Cleon, e não se mostram
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Primeiro, por um lado, como a Lâmia, capturada, peidou;
e depois, por outro, como o Cardópion a mãe... {Bdelícleon} Mitos, para mim, não! Mas coisas humanas,
das quais falamos mais, as de casa.
Comentário:
πρῶτον µὲν ὡς ἡ Λάµι' ἁλοῦσ' ἐπέρδετο - Aristófanes usa dois verbos de voz média
com sentido de voz ativa nesse trecho: o verbo ἁλίσκοµαι, "ser pego, conquistado, cair nas mãos do inimigo" (LSJ, 1996, p. 66; Chantraine, 1968, p. 62), e o verbo πέρδοµαι, "eliminar gases, peidar" ("break wind", LSJ, 1996, p. 1365; "péter", Chantraine, 1968, p. 885).101
A respeito dos nomes dos dois personagens principais, pode-se dizer que Filócleon é o mais velho, cujo nome já indica, "o que ama Cleon" (φιλέω + Κλέων). Seu nome é uma clara referência ao suporte político que os dicastas forneciam ao demagogo Cleon (que supostamente adorava processar gente nos tribunais para obter vantagens pessoais, e que Nikoletta Kanavou chama de "um manipulador e enganador de jurados"102). O nome do filho, Bdelícleon, "o que abomina Cleon" (βδελύσσοµαι + Κλέων), representa as ideias da nova geração de cidadãos atenienses, enquanto tenta demover seu pai dessa paixão que o escraviza.103
101 O fato mais interessante neste trecho é a discussão que fazem os estudiosos acerca dos motivos
pelos quais a lâmia teria eliminado um flato intestinal ao ser presa: alguns afirmam que a causa seria uma indigestão causada por sua dieta alimentar composta de crianças, como Anderson, 2000, p. 11, que diz: "The fart may not have been to confound its pursuers so much as out of panic; it mightalso be a product of indigestion from child-eating" – "O peido não deve ter acontecido apenas para despistar seus perseguidores, mas também por pânico; também pode ter sido um produto de indigestão por comer crianças".
102 Cf. Kanavou, 2010, p. 81.
103 Veja-se Kanavou, 2010, pp. 80-83, em que a autora escreveu um estudo sobre os nomes em
Aristófanes, no qual ela analisa os nomes dos protagonistas da peça Vespas, com apontamentos sobre como Filócleon e Bdelícleon, dois dos poucos nomes inventados por Aristófanes, têm significados fundamentais para a compreensão da peça.