BİRİNCİ BÖLÜM İNANÇTA ÖLÇÜ VE DENGE
B. ALLAH’IN SIFATLARI:
I. Vücûd Sıfatı:
3. Sübûtî Sıfatlar:
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada em 13 de dezembro de 2006, pelas Nações Unidas, com o propósito de promover e assegurar o exercício pleno e equitativo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, adotou o conceito social de longo prazo para a deficiência: as pessoas com deficiência (PcD) são as que apresentam impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2010a).
Essa definição reconhece que a deficiência é um conceito em evolução e que claramente resulta da interação entre fatores contextuais: a PcD (fator pessoal) e as barreiras (fator ambiental) devidas às atitudes e ao meio ambiente (CORDE, 2007).
Recorde-se de que os ambientes onde as pessoas vivem têm um importante resultado sobre a prevalência e extensão, ou severidade da deficiência, que cresce devido aos efeitos dos fatores ambientais. A difícil acessibilidade no local de residência, transporte inadequado, exposição a péssimas condições de saneamento, desnutrição e falta de acesso aos serviços de saúde são fatores que variam em termos regionais mas que, geralmente, são associados a outros fenômenos sociais (como a pobreza). Grandes mudanças ambientais como as causadas por desastres naturais, construções complexas e extensas de infraestrutura ou situações de conflito, afetam a prevalência de deficiências não apenas por as mudarem, mas também por criarem barreiras no ambiente físico (CORDE, 2007; OMS, 2011).
Por outro lado, a percepção da deficiência pode ser menos severa em um ambiente em que se evitem as atitudes negativas, que funcionam como barreiras atitudinais; assim como mais acessibilidade em residências e vias; disponibilidade de um adequado sistema de transportes ou de infraestrutura em serviços públicos, que reduzam barreiras à realização e participação em atividades (WHITENECK, 2006; FERREIRA, 2009). Não menos importantes são ações com impacto ambiental que incluam a assistência fornecida por outra pessoa ou uma
ferramenta, tecnologia assistiva, veículo adaptado, ou qualquer forma de modificação ambiental em um cômodo, casa ou local de trabalho (KLEINFIELD, 1989; ABNT, 2004; KEYSOR, 2006).
Estudos de caráter socioeconômico, demográfico e biomédico mostram que a deficiência ou a incapacidade, seja de caráter orgânico, adquirida ou derivada do ciclo de vida pelo aumento da longevidade, podem levar à mobilidade espacial, motivando deslocamentos intermunicipais, principalmente na direção de centros urbanos que possam oferecer oportunidades de tratamento em saúde, reabilitação, obtenção de renda, reinserção familiar, cuidados e outras facilidades (BEAN et al., 1994; LESSA, 1997; GOMES e NEDER, 2000; CAMPOS, BARBIERI, CARVALHO, 2008; TONG e PIOTROWSKI, 2011). Bean et al. (1994) acreditam que, para as pessoas com deficiência, os motivos migratórios seriam menos econômicos e mais familiares, relacionados à busca de apoio em saúde, coresidência e um ambiente fisicamente mais acessível e confortável.
Dessa maneira, empreender a migração interna, conceituada como a mudança permanente de residência entre municípios dentro do território nacional, em algum momento da vida, por diferentes motivos (ONU, 1970), pode significar uma estratégia das PcD e suas famílias em busca de qualidade de vida.
A Convenção dos Direitos das PcD, ao referendar princípios como o respeito pela dignidade inerente e a autonomia individual, destaca em seu Artigo 18 os direitos das PcD à liberdade de movimentação e de escolha de residência e nacionalidade. Ou seja, é reconhecido o direito à migração e outros tipos de mobilidade como decisão intransferível do indivíduo e sua família. O Artigo 20 destaca que os Estados devem garantir a mobilidade pessoal com a máxima independência possível por parte dos deficientes (BRASIL, 2010a).
Assim, os conceitos de deficiência e migração apresentados sugerem que o ato de migrar e a possibilidade de adquirir a deficiência são vivências inerentes à condição humana. Tanto a migração pode ocorrer para a maioria das pessoas, expostas ao risco de migrar por diferentes motivos ligados ao ciclo de vida (busca por educação, saúde, trabalho, casamento), quanto a deficiência permanente ou temporária poderá ser adquirida em algum momento da vida pela maioria das pessoas por diversos fatores (doenças incapacitantes, acidentes, violências). Com o aumento da longevidade, aqueles que viverem mais tempo mostrarão maiores chances de migrar e de desenvolverem dificuldades funcionais,
culminando inclusive com algum tipo de deficiência (CORDE, 2007; DAVIES et al., 2009).
Deve-se, pois, na definição conceitual da deficiência, refletir sobre suas diferentes causas, levando-se em conta as mudanças no padrão de fecundidade, morbidade e mortalidade da população que alteraram as condições de saúde das pessoas, nas últimas décadas, com efeitos para o aumento da deficiência na composição populacional. Essa reflexão é realizada na Seção 2.1, que trata das causas e perspectivas futuras da deficiência, enquanto a Seção 2.2 discute os impactos da deficiência na família e na sociedade. Já a Seção 2.3 apresenta as mudanças no Aparato Legal e Conceitual da deficiência, evolução esta promovida pela atuação de famílias e organizações de PcD que, ao sofrerem os resultados da deficiência no âmbito familiar e social, influenciam as mudanças nas políticas e ações voltadas a essa população específica. A Seção 2.4 apresenta os conceitos de deficiência utilizados nos Censos Demográficos brasileiros e nos Levantamentos de Informações Econômico-Sociais das Pessoas com Deficiência no Município de Uberlândia (LIPD), discutindo-se as suas vantagens e seus limites. Por último, a Seção 2.5 realiza breve síntese do capítulo.
2.1 - Causas e perspectivas para a deficiência.
Estudos recentes indicam que, para as próximas décadas, as políticas públicas deverão levar em conta o possível crescimento no número de PcD nas populações dos países em desenvolvimento (BARRETO e CARMO, 2007; BERNARDES et al., 2009; TIENSOLI et al., 2007; PINTO, 2010; OMS, 2011). Ainda segundo esses estudos, mais pessoas em idades avançadas experimentarão tanto deficiências musculoesqueléticas, quanto as derivadas de doenças crônicas como diabetes, doenças cardiorrespiratórias, perda de visão e audição, entre outras. Deficiências provenientes de doenças ou acidentes, bem como de violências, tornar-se-ão temas cada vez mais relevantes para os sistemas de saúde, e com o aumento da longevidade, as pessoas sobreviverão
por mais anos de vida lidando com doenças de longo curso, com incapacidades ou até mesmo com deficiências.
Estimativas do Relatório Mundial da Deficiência (OMS, 2011) mostram que mais de um bilhão de pessoas já vivem com algum tipo de deficiência, representando cerca de 15% da população global em 2010, número superior ao estimado pela Organização Mundial da Saúde, em 1970, em torno de 10%. O relatório destaca que estimativas similares já haviam sido apresentadas por meio de duas pesquisas de abrangência mundial: Pesquisa Mundial de Saúde, realizada em 2002–2004 com 59 países, e que estimou em 785 milhões de pessoas (15,6%) com 15 anos ou mais, vivendo com algum tipo de deficiência. Já o estudo “Carga Global de Doenças”, para o ano de 2004, realizado em 17 sub- regiões do mundo, estimou 975 milhões de pessoas com deficiência, ou 19,4% da população mundial.
As pesquisas censitárias brasileiras, realizadas com metodologia diferente daquela aplicada pela OMS em outros países, também captaram crescentes proporções de PcD na população total: 14,3%, no ano 2000, e 23,9% de deficientes na população residente em 2010, conforme detalha a Tabela 2.1.
Nota-se que a proporção de PcD está fortemente associada à idade. Os resultados da Tabela 2.1 mostram que em 2000, 29,6% das PcD censitadas no Brasil encontravam-se nos grupos de idade acima de 60 anos, percentual que praticamente se mantém em 2010: 28,6% das PcD. A idade mediana das PcD no Brasil se aproxima dos 49 anos em 2010, enquanto a metade da população sem deficiência conta com idades de até 25 anos.
Se considerado o tipo de deficiência, pode-se dizer que as deficiências auditiva, motora e múltipla são aquelas que concentram a maior proporção de deficientes nas idades de 60 anos e mais. No entanto, enquanto as deficiências motora e múltipla apresentam idade mediana das PcD acima de 50 anos e 60 anos, respectivamente, a deficiência auditiva mostra a idade mediana de 41,1 anos, uma vez que apresenta uma distribuição relativa das PcD auditivas nos diversos grupos etários, desde 5 anos de idade.
Tabela 2.1
BRASIL - População residente, proporção por grupo etário e idade mediana, para as pessoas com deficiência (PcD) por tipo de deficiênciae para as pessoas sem deficiência,
nos anos 2000 e 2010 (%)
Fonte: Censos Demográficos de 2000 e 2010 - IBGE.
Observação: A deficiência múltipla (PcD múltipla) é considerada quando a pessoa declara possuir duas ou mais deficiências primárias (mental, visual, auditiva, física ou motora).
Também as pessoas com deficiência visual, o tipo de deficiência que apresentou o maior aumento absoluto, encontram-se nas idades adultas mais avançadas, acima de 40 anos, aumentando a proporção de maneira mais significativa nos grupos etários com 60 anos e mais, o que leva esse grupo populacional a apresentar idade mediana de 44 anos em ambos os Censos.
Observou-se queda absoluta e relativa no número de pessoas com deficiência somente para aquelas que declararam a deficiência mental: de uma proporção de 0,8% de PcD mental em 2000, para 0,6% da população residente em 2010 no Brasil. Essas pessoas estão, em maior proporção, nos grupos etários mais jovens, nas idades entre 10 e 39 anos, facultando estimar a idade mediana
Grupo Etário Pessoas com deficiência
PcD Mental PcD Visual PcD Auditiva PcD Motora PcD Múltipla Pessoas Sem deficiência População Total 0 a 4 1,5 4,7 0,6 1,5 5,1 0,8 11,0 9,6 5 a 9 2,9 6,8 3,1 5,0 1,8 1,6 10,9 9,8 10 a 14 4,4 9,4 5,5 6,0 2,1 2,3 11,2 10,2 15 a 19 4,7 10,5 6,0 5,6 2,6 2,3 11,6 10,6 20 a 24 4,9 10,4 5,9 6,0 3,3 2,5 10,3 9,5 25 a 29 4,9 9,6 5,8 6,6 4,1 2,7 8,7 8,2 30 a 34 5,5 9,7 6,1 7,4 5,4 3,3 8,0 7,7 35 a 39 6,4 9,5 7,2 7,7 6,9 4,2 7,4 7,2 40 a 44 8,6 7,8 11,1 7,3 7,1 6,2 5,8 6,2 45 a 49 9,7 5,8 12,5 6,7 7,3 7,9 4,4 5,1 50 a 54 9,1 4,6 10,4 6,6 8,4 8,9 3,3 4,2 55 a 59 8,0 3,4 7,9 6,3 8,7 9,1 2,4 3,2 60 e mais 29,6 7,8 17,9 27,2 37,1 48,2 5,0 8,6 Proporção total (%) 14,3 0,8 6,3 1,2 1,5 4,4 85,7 100,0 Idade mediana 48,2 29,3 44,5 42,9 52,5 59,0 22,6 25,2 Número pessoas 24.270.090 1.374.409 10.694.068 2.106.023 2.577.405 7.518.185 143.726.948 169.872.857
Grupo Etário Pessoas com
deficiência PcD Mental PcD Visual PcD Auditiva PcD Motora PcD Múltipla Pessoas Sem deficiência População Total 0 a 4 0,8 3,2 0,6 1,7 2,5 0,4 9,2 7,2 5 a 9 2,5 6,8 2,9 5,1 1,8 1,0 9,5 7,8 10 a 14 4,2 9,7 5,4 6,1 2,1 1,5 10,5 9,0 15 a 19 4,4 9,6 5,8 5,8 2,4 1,5 10,3 8,9 20 a 24 4,9 9,9 6,3 6,6 3,1 1,8 10,4 9,0 25 a 29 5,2 10,0 6,5 7,2 4,1 2,1 10,1 9,0 30 a 34 5,4 10,0 6,2 7,9 5,5 2,5 9,2 8,3 35 a 39 5,7 9,0 6,3 7,9 6,6 3,2 7,8 7,3 40 a 44 8,3 8,4 10,1 7,2 7,0 5,5 6,3 6,8 45 a 49 10,4 6,8 12,9 6,1 7,1 8,1 4,9 6,2 50 a 54 10,3 5,4 11,5 6,1 8,4 10,2 3,7 5,3 55 a 59 9,1 3,9 8,9 6,3 9,2 10,8 2,8 4,3 60 e mais 28,6 7,3 16,5 25,9 40,3 51,5 5,2 10,8 Proporção total (%) 23,9 0,6 12,9 1,7 2,2 6,5 76,1 100,0 Idade mediana 49,1 30,3 44,9 41,1 54,7 60,1 25,0 29,4 Número pessoas 45.606.048 1.136.819 24.636.267 3.305.798 4.108.874 12.418.290 145.084.975 190.755.797 Ano 2000 Ano 2010
para as PcD mental de aproximadamente 30 anos, tanto em 2000 quanto em 2010.
Diversos fatores serão relacionados ainda nesta Seção que, em parte, buscarão explicar o crescimento do número de pessoas com deficiência na população brasileira. No entanto, algumas ponderações são apresentadas na Seção 2.4, que sugerem ter havido inflação na estimativa do número de deficientes.
O crescimento de aproximadamente 88% no número de PcD enumeradas em 2010, em relação ao Censo anterior - percentagem bem acima do crescimento da população sem deficiência, de 9% - é em parte explicado pela composição etária mais envelhecida da população brasileira em 2010, uma vez que as pessoas com mais anos de vida apresentam maior risco de deficiência. No ano 2000, aproximadamente 16% da população estava concentrada em idades com 50 anos e mais, proporção esta que passou a mais de 20% em 2010.
A Tabela 2.2 permite verificar o aumento da prevalência da deficiência por grupo etário e quanto esta prevalência se acentua na década de 2010. Em 2000, a prevalência de PcD por mil residentes cresce com a idade, acentuando-se nas idades adultas, e praticamente equiparando-se a prevalência de PcD e Psd nas idades acima de 60 anos. Na década seguinte, provavelmente devido a diversos fatores, entre eles o recrudescimento da urbanização da população brasileira e seus efeitos, os avanços médicos e tecnológicos, que mantêm e expandem os anos de vida, ainda que as pessoas experimentem deficiências ou incapacidades, e devido ao envelhecimento populacional, nota-se que a prevalência da deficiência cresce num ritmo acentuado, superando nas idades mais avançadas, acima de 55 anos, a prevalência de pessoas sem deficiência na população total.
Para verificar a real importância do processo de envelhecimento sobre o aumento das PcD foi utilizada padronização direta, conforme proposto por Carvalho et al. (1998), a fim de se eliminar o efeito da composição etária sobre as proporções de PcD censitadas em 2000 e 2010. Pode-se, assim, comparar o aumento efetivo de PcD ajustando-as segundo uma mesma distribuição etária padrão nos diferentes períodos de tempo, conforme apresentado na Tabela 2.3. Nota-se que mesmo controlando o efeito da composição etária, as proporções de pessoas com deficiência crescem entre 46% (utilizando o padrão etário de 2010) e 48% (com o padrão etário de 2000). Isso denota que outros fatores, inclusive as
mudanças metodológicas da pesquisa censitária (veja Seção 2.4), podem ter influenciado na inflação do número de deficientes, mormente daqueles que se declararam deficientes visuais e motores, principais tipos de deficiência que compõem a deficiência múltipla (em 2010, dos deficientes múltiplos, 90% contavam com deficiência visual e 74% com deficiência motora).
Tabela 2.2
BRASIL - Prevalência de Deficiência na população residente, por grupo etário e tipo de deficiência, nos anos 2000 e 2010 (%0)
Fonte: Censos Demográficos de 2000 e 2010 - IBGE.
Observação: A deficiência múltipla (PcD múltipla) é considerada quando a pessoa declara possuir duas ou mais deficiências primárias (mental, visual, auditiva, física ou motora).
Embora as diferenças metodológicas (desenho amostral, conceitos, perguntas aplicadas, entre outras), utilizadas em diversas pesquisas para estimar o tamanho e definir o perfil demográfico das PcD, gerem divergências nas estimativas, os resultados sugerem que a prevalência de deficientes na população se mantém, e com perspectivas de crescimento. Alguns autores advogam que avanços médicos e tecnológicos poderão garantir maior sobrevivência a crianças nascidas em condições precárias, aos jovens e adultos vítimas de violências e acidentes, e de pessoas que viverão mais, porém tendo de lidar com desafios
Grupo Etário Pessoas com deficiência
PcD Mental PcD Visual PcD Auditiva PcD Motora PcD Múltipla Pessoas Sem deficiência 0 a 4 22 4 4 2 8 4 978 5 a 9 42 6 20 6 3 7 958 10 a 14 61 7 34 7 3 10 939 15 a 19 64 8 36 7 4 10 936 20 a 24 73 9 39 8 5 12 927 25 a 29 87 10 45 10 8 15 913 30 a 34 102 10 50 12 11 19 898 35 a 39 126 11 62 13 15 26 874 40 a 44 198 10 112 15 17 44 802 45 a 49 269 9 154 16 21 68 731 50 a 54 312 9 158 20 31 95 688 55 a 59 354 9 155 24 41 125 646 60 e mais 494 7 132 39 66 249 506 Grupo Etário Pessoas com
deficiência
PcD Mental PcD Visual PcD Auditiva PcD Motora PcD Múltipla Pessoas Sem deficiência 0 a 4 28 3 10 4 8 4 972 5 a 9 77 5 47 11 5 8 923 10 a 14 112 6 78 12 5 11 888 15 a 19 119 6 84 11 6 11 881 20 a 24 129 7 89 13 7 13 871 25 a 29 139 7 94 14 10 15 861 30 a 34 155 7 98 17 14 20 845 35 a 39 187 7 112 19 19 29 813 40 a 44 292 7 192 18 22 52 708 45 a 49 403 7 269 17 25 85 597 50 a 54 464 6 280 20 34 124 536 55 a 59 503 5 265 25 46 162 497 60 e mais 634 4 198 42 80 311 366 Ano 2000 Ano 2010
típicos do envelhecimento (MEDEIROS e DINIZ, 2004; FREEDMAN, 2006; TIENSOLI et al., 2007; PINTO, 2010).
Tabela 2.3
Resultados da padronização direta das proporções de pessoas com deficiência censitadas no Brasil nos anos de 2000 e 2010 (%).
Fonte: Padronização feita pelo autor a partir de dados dos Censos Demográficos de 2000 e 2010 - IBGE.
Espera-se, portanto, para futuro próximo, que mais pessoas experimentem deficiências tendo como causas os problemas genéticos, as complicações no nascimento, os efeitos socioeconômicos (pobreza, guerra, violência, acidentes), as doenças evitáveis ou o fracasso no tratamento das condições tratáveis (imunização, prevenção). Agregam-se a essas, outras deficiências adquiridas por efeito da dinâmica demográfica associada aos processos de envelhecimento ou na realização de movimentos migratórios (PEÑAFIEL, 2001; RICHARDS, 2004; PERDOMO, 2006; LECHNER, 2007; WEEKERS, 2009; DAVIES et al., 2009; GUSHULAK e MACPHERSON, 2011).
Para o Brasil em particular, tal expectativa de crescimento no número de PcD baseia-se, em parte, na mudança dos padrões de morbidade e mortalidade brasileiros, verificada nas últimas décadas, e que são caracterizados pela redução persistente da mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, e pelo aumento de morte por causas crônico-degenerativas e agravos relacionados a causas externas, como os acidentes e a violência. Essas mudanças indicam que o padrão de adoecimento da população se alterou, e que, ao postergar a mortalidade, pode levar um maior número de pessoas a vivenciar a deficiência (CARMO et al., 2003; HORTA et al., 2006).
Prevalência da Deficiência 2000 2010 Razão 2010/2000 Não-Padronizada 14,3 23,9 1,67 Padrão 2000 14,3 21,2 1,48 Padrão 2010 16,4 23,9 1,46
Já a mortalidade por causas externas se destaca em todas as faixas etárias, mostrando elevada proporção nas idades mais jovens, principalmente entre os homens em idade ativa, quando se poderia contar com maiores níveis de produtividade (HORTA et al., 2006). O elevado nível de violência nos grandes centros urbanos, associado ao grande número de acidentes no trânsito e nos empregos precários, tem gerado não somente mortalidade alta, mas a aquisição de deficiência por pessoas nas diferentes idades produtivas (NERI e SOARES, 2004; FERREIRA, 2009; OMS, 2011).
Assim, as mudanças no perfil epidemiológico da população, com diferentes impactos na mortalidade, definem o ritmo de crescimento na composição populacional de PcD. Se, por um lado, algumas doenças transmissíveis que poderiam levar à deficiência tendem a uma incidência declinante, como a varíola, poliomielite, tétano neonatal ou acidental, hanseníase, por outro lado doenças não-transmissíveis mostram quadro de persistência ou crescimento (CARMO et al., 2003). Esses autores relacionam alguns fatores causais dessa mudança: a urbanização sem adequada infraestrutura, o crescimento econômico com agressões ao meio ambiente, as grandes obras de infraestrutura com inserção precária de trabalhadores e famílias, e os processos migratórios marcados pela exposição ao risco de adoecimento.
A diminuição da mortalidade infantil no Brasil, cuja queda persistente é devida, em maior medida, a fatores relacionados ao ambiente e à consequente diminuição dos óbitos pós-neonatais por doenças infecciosas, reflete os avanços médicos e tecnológicos que permitem atenção especializada à gestante, por meio de cuidados pré e pós-natais, garantindo maior sobrevivência de crianças nascidas com condições e problemas adversos que podem levar à deficiência (ASSIS et al., 2008; CARMO et al., 2003).
Destaque-se que a transição demográfica experimentada pela população brasileira, resulta não somente dos efeitos sobre a estrutura etária que as mudanças na mortalidade e morbidade geram, mas principalmente pelo declínio na fecundidade, a componente de maior influência na determinação do futuro envelhecimento da estrutura etária populacional. O padrão de fecundidade no Brasil tem se caracterizado por um ritmo de queda na Taxa de Fecundidade Total (TFT). As estimativas para o ano de 2000 apontavam para 2,4 filhos por mulher em idade reprodutiva, enquanto para o ano de 2006 já mostrava uma TFT inferior
a 2,1 filhos por mulher (BRASIL, 2010b); ou seja, o País já convive com uma fecundidade abaixo do nível de reposição populacional (PERPÉTUO e WONG, 2009), o que determina famílias menores, com poucos filhos. Porém, observa-se crescimento da fecundidade em grupos etários com maiores riscos de complicações na gestação: as adolescentes e as mulheres nas idades finais do período reprodutivo.
Nesse sentido, pode-se relacionar diversos fatores de risco, discutidos por Tiensoli et al. (2007), Pinto (2010) e pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2010b), que refletem alterações nos padrões demográficos de fecundidade e da morbimortalidade, e que indicam a possibilidade de aumento da deficiência, a partir do nascimento:
O aumento de gestações de alto risco na adolescência, resultante do crescimento da fecundidade de mulheres com idades entre 10 e 19 anos, associada a fatores socioeconômicos desfavoráveis, imaturidade física, pré-natal inadequado ou não realizado, e estado nutricional materno comprometido, são alguns dos fatores que aumentam o risco de morbimortalidade neonatal e materna, além das chances de nascimento prematuro, de crescimento intrauterino restrito, de baixo peso ao nascer e Índice de Apgar3 baixo;
O adiamento da maternidade, aumentando a taxa de fecundidade de mulheres em idades mais avançadas (40 anos e acima), idades finais do período fértil, expõe as mulheres a maior chance de doenças maternas prévias ou ligadas à gestação atual como doença hipertensiva e o diabetes, com crescimento da morbidade e mortalidade materna e do feto, podendo também ocorrer o nascimento prematuro;
3 O Índice de Apgar, criado em 1949 pela anestesiologista inglesa, Dra. Virgínia Apgar, avalia as condições de vitalidade do recém-nascido. Utiliza-se, para a avaliação, de cinco sinais objetivos no primeiro e no quinto minutos após o nascimento: frequência cardíaca (presença ou não dos batimentos cardíacos e se estão acima ou abaixo de 100 por minuto); esforço respiratório (choro forte, fraco ou ausente); tônus muscular (se o bebê tem boa flexão dos membros ou se está flácido); cor da pele (rosada ou azulada, parcial ou totalmente), e irritabilidade reflexa (se há reação ou não aos estímulos, com choro forte). Para cada item é atribuída nota de 0 a 2. O somatório da pontuação resultará no Índice de Apgar e o recém- nascido será classificado do seguinte modo: sem asfixia (Apgar 8 a 10); com asfixia leve (Apgar 5 a 7); com asfixia moderada (Apgar 3 a 4) e com asfixia grave (Apgar 0 a 2) (BRASIL, 2009).
Com a queda da fertilidade de mulheres com idades mais avançadas, aumenta o uso da reprodução assistida: estimulação ovariana e fertilização in vitro, o que pode levar à gestação múltipla (gemelaridade), crescendo o risco de complicações maternas e de nascimentos prematuros;
Os avanços tecnológicos e científicos, no âmbito da Neonatologia, ao diminuírem a mortalidade infantil e aumentarem a chance de sobrevida de crianças com complicações no nascimento devidas à prematuridade, baixo peso, infecções, asfixia ao nascer, doenças e malformações congênitas, gemelaridade, entre outras, aumentam o risco de alterações no crescimento e desenvolvimento neuropsicomotor; de paralisia cerebral; déficit de atenção e hiperatividade; de distúrbios na visão, na audição, na coordenação motora, e outras sequelas incapacitantes;
A melhoria na educação das mães leva à adoção de práticas mais saudáveis quanto ao cuidado de higiene e saúde dos filhos, que junto ao maior poder de decisão na família pela mãe instruída, aumentam a sobrevivência dos filhos que nasceram com distúrbios orgânicos.
Desde o nascimento, portanto, o funcionamento de uma criança e sua condição de saúde devem ser considerados no contexto da família e do ambiente social. Crianças com menos de 5 anos de idade nos países em desenvolvimento são expostas a vários riscos que podem levar à deficiência, incluindo pobreza, desnutrição, problemas de saúde e ambientes domésticos desestimulantes, que prejudicam o desenvolvimento cognitivo, motor e psíquico (FERREIRA, 1989; ONU, 1994; OMS, 2011).
Acrescente-se ao exposto, que crianças com diagnóstico positivo de maior risco de deficiência têm uma menor chance de terem sido amamentadas e de