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De acordo com Paulo de Assunção210

, a própria coroa figurava como maior benfeitora da Companhia em Portugal, garantindo suporte material e financeiro para suas atividades. Ele aponta ainda que várias ordens monásticas, desde o tempo das Guerras de Reconquista, vinham recebendo favorecimento dos reis lusitanos, inscrevendo-se os jesuítas neste contexto a partir do século XVI. Essas contribuições aos jesuítas tornaram-se ainda mais vultosas na medida em que lhes foram imputadas duas tarefas de realce para o funcionamento do Império português: a catequese no ultramar (no Oriente e na América) e a consolidação da fé católica nos próprios limites lusitanos.

Este fato explica os inúmeros benefícios recebidos pela Companhia de Jesus junto ao poder régio, mesmo tendo esta surgido bem depois de outras ordens religiosas. Tais benefícios corresponderam inicialmente à vinculação de mosteiros e terras aos primeiros colégios fundados, além de subvenções em suprimentos e dinheiro.211 Monarcas como D. João III e seu sucessor D. Sebastião agraciaram os jesuítas do século XVI também com isenções no pagamento de taxas, escravos, especiarias,

209

CARTA de D. João III enviada ao Brasil em 1554. In: ASSUNÇÃO, Paulo de. Negócios

jesuíticos: o cotidiano da administração dos bens divinos. São Paulo: Universidade de São Paulo,

2004. p. 153. 210

ASSUNÇÃO, 2004. p. 92. 211

ornamentos sacros e outros bens e privilégios. Muitas terras eram inclusive repassadas de outras ordens para a posse dos jesuítas.212

As contribuições de particulares (esmolas, doações e heranças) também foram muito importantes desde o início das atividades jesuíticas. O problema é que tanto estas quanto as doações régias tinham variações em seus montantes, o que muitas vezes prejudicava a ação da ordem. De acordo com Fabrício Lyrio Santos, ao se dar conta dessas variações no apoio da Coroa e dos particulares, os jesuítas “[...] decidiram assumir um papel ativo na economia, transformando-se, eles próprios, em produtores e administradores da renda que acreditavam ser necessária para sua sustentação”.213

Chegando ao Brasil em 1549 os jesuítas contaram, tal como em Portugal, com o patrocínio da Coroa para desenvolver suas atividades. Em seus escritos Serafim Leite defende a necessidade dessas doações frente à grandiosidade dos objetivos jesuíticos e às dificuldades dos habitantes da colônia para lhes oferecer doações e esmolas.214

Tratando este assunto, Assunção aponta que o benefício mais comum nesses primórdios era a doação de terras para a subsistência dos religiosos.215

O próprio D. João III determinou alvarás de mantimentos em benefício dos jesuítas logo após sua chegada ao Brasil, os quais deveriam ser custeados pelas Fazendas das capitanias e incluíam alimentos e algum dinheiro.216

No decorrer dos séculos XVII e XVIII, com o avanço da colonização, as doações de particulares se tornaram mais consolidadas. Paralelamente, a renda gerada pela produção das propriedades jesuíticas tinha um movimento crescente, diversificando os meios de obtenção de renda da ordem no Brasil. Naquele contexto os jesuítas já haviam acumulado terras, fazendas, engenhos e propriedades urbanas. Essas posses, por seu turno, convertiam-se em aluguéis de imóveis, rendimentos a juros, criação de gado, venda de açúcar, remédios, etc.217

O fato é que sem pagar

212 ASSUNÇÃO, 2004. p. 98. 213 SANTOS, 2007. [online] 214 LEITE, 2000. v. 1. p. 107-108. 215

ASSUNÇÃO, op. cit., p. 152-153. 216

Ibid., p. 155. 217

impostos nas transações com Portugal e as Ilhas do Atlântico, os jesuítas conseguiam adquirir grande parte das suas necessidades no Brasil. Além disso, ainda tinham a possibilidade de escoar sua produção com preços mais baixos que os produtores comuns.

As comunidades jesuíticas poderiam ser sujeitos jurídicos dos direitos e bens destinados às instituições apostólicas a ela dependentes, sendo que tais bens não poderiam ser utilizados de modo algum em proveito dos membros da ordem. Sobre a questão escreveu Inácio de Loyola: “Devemos evitar com diligencia até a aparência de fazer negócio e tirar lucro”. Apesar da prudência requerida, Loyola reconhece a necessidade dos negócios: “Os bens econômicos da Companhia devem ser considerados como bens próprios de Jesus Cristo [...]. Sem eles nossos ministérios espirituais dificilmente podem ser realizados.”218

Desse modo, de acordo com os preceitos jesuíticos, a força econômica alcançada pela Companhia não contradizia o voto de pobreza pregado pelo fundador Inácio de Loyola, visto que os rendimentos destinavam-se ao desenvolvimento dos colégios e à conseqüente expansão da missão catequética.219

No ambiente colonial, entretanto, os colonos e demais ordens religiosas não encaravam tal cenário com naturalidade. As rivalidades geradas pelas posses e privilégios dos jesuítas eram muito comuns, sendo as isenções do pagamento dos dízimos dadas à Companhia o principal motivo das discórdias. Para os proprietários leigos, tais privilégios os colocavam em posição de desigualdade do ponto de vista de comercial. Da mesma maneira, para os arrematantes, o montante de dízimos coletados era menor que o ambicionado.220

As animosidades foram constantes até o momento da expulsão dos jesuítas, em 1759. Episódios que comprovam este quadro não são poucos, tais como demonstra

218

LOYOLA, Inácio de. Constituições da Companhia de Jesus e normas complementares. São Paulo: Loyola, 2004. p. 304.

219

LEITE, 2000, v. 1, p. 109. 220

Joely Pinheiro para o caso de São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro.221

As queixas dos colonos constantemente chegavam aos monarcas,222

não passando o Espírito Santo ao largo desse clima. Em carta a D. João V, rei de Portugal, em 1725, por exemplo, o capitão-mor Dionísio Carvalho de Abreu se queixa sobre os inconvenientes aos cofres reais resultantes dos privilégios dos padres na venda da aguardente.223

Em resumo, o apoio da Coroa se fez presente desde o início da atuação jesuítica em Portugal. Tal comunhão de interesses e atitudes foi entendida para o ultramar com a expansão marítima e comercial lusitana, chegando ao Brasil em 1549. As doações e privilégios resultantes dessa associação funcionavam como uma espécie de reconhecimento pelos grandiosos esforços dos missionários para a conversão dos gentios. Ao mesmo tempo em que gerava controvérsias e rivalidades no ambiente do Brasil colonial, o auxílio da Coroa foi fundamental para que a Companhia de Jesus construísse um notável patrimônio na América portuguesa. Complementavam- se a este apoio as doações de particulares e a habilidosa administração dos religiosos, que ampliava constantemente as rendas geradas pelas suas propriedades.

Tal como descreve Serafim Leite224

, os jesuítas tinham objetivos muito vastos, que incluíam construir colégios, igrejas e preparar missionários para atender cada vez mais estudantes. Trata-se de planos que seriam frustrados sem o emprego de grandiosos recursos, o que justifica a frase do mesmo autor, segundo a qual: "a mesquinhez é alheia ao espírito da Companhia”. Como se vê, os jesuítas tiveram grande escalada de poder econômico, o que ocorreu paralelamente aos seus esforços ideológicos em prol da catequese.225

A complementaridade de interesses entre coroa e Companhia de Jesus e os benefícios concedidos por aquela foram

221

PINHEIRO, Joely Aparecida Ungaretti. Conflitos entre jesuítas e colonos na América

Portuguesa – 1640-1700. 2007. Tese (Doutorado em Economia Aplicada) – Instituto de Economia,

Universidade Estadual de Campinas. p. 63. 222

SANTOS, 2007. [online] 223

Arquivo Histórico Ultramarino – AHU – Espírito Santo, cx. 01 doc 36. 224

LEITE, 2000, v. 1, p. 107. 225

fundamentais nesse sentido, o que suscita a necessidade de tratar essa associação com especial atenção ao caso do Espírito Santo.