A ofensa recebida, a humilhação experimentada e as perdas sofridas pelos opositores do regime não foi respondida no mesmo nível da agressão sofrida.
148
Tavares, Kleber da Silva. A ética castrense e a intervenção militar como recurso de
manutenção da ordem institucional. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo. 2009.p.122.
149
BRESCIANI, Stella.; NAXARA, Márcia. Memória e (res)entimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004. p.19.
Assim pode-se dizer que o ressentimento por parte da sociedade para com os militares nasce a partir dessa afronta de não poder reagir no mesmo nível da violência recebida por parte da repressão governamental.
Não ter vencido a luta armada. Não ter derrubado o regime civil-militar. Tudo isso cria um cenário onde as subjetividades estão carregadas de mágoa, rancor e outros sentimentos que compõe a constelação do ressentimento dos que fizeram oposição ao regime de 1964. Não havendo possibilidade de se esquecer o agravo resta rememorar:
“Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará. Possivelmente, começará a vingar-se, mas de certo modo interrompido, com miuçalhas, por trás do fogão, incógnito, não acreditando no direito nem no êxito da vingança e sabendo de antemão que todas estas tentativas de vindita vão fazê-lo sofrer cem vezes mais que ao objeto da sua vingança, pois este talvez não precise sequer coçar-se. No seu leito de morte, há de tornar a lembrar tudo com juros acumulados em todo esse tempo e...”150
A citação de Dostoiévski é um exemplo forte sobre o ressentimento e sua construção dentro de uma atmosfera reativa. A atmosfera pode ser classificada como reativa, pois a ação não parte do sujeito ofendido. A ação parte daquele que é considerado o agressor. O causador do ressentimento. Cabe ao ressentido dentro de sua passividade ruminar contra o causador de seu agravo.
Nietzsche, o filósofo considerado como o que desnudou a patologia do ressentimento151 segue o caminho apontado na citação de Dostoiévski, na concepção de que o individuo reativo sempre busca um culpado para os infortúnios sofridos:
150 DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. São Paulo: Ed. 34, 2001. p.23-24. 151
“Os sofredores são todos horrivelmente dispostos e inventivos, em matéria de pretextos para seus afetos dolorosos; eles fruem a própria desconfiança, a cisma com baixezas e aparentes prejuízos, eles revolvem as vísceras de seu passado e seu presente, atrás de histórias escuras e questionáveis, em que possam regalar-se em uma suspeita torturante, e intoxicar-se do próprio veneno de maldade- eles rasgam as mais antigas feridas, eles sangram de cicatrizes há muito curadas, eles transformam em malfeitores o amigo, a mulher, o filho e quem mais lhes for próximo.”152
O ressentir da sociedade pode ter então o seu nascedouro apontado para o fato de não ter havido um meio contundente de deter, ou derrotar o regime do movimento civil-militar. A luta armada mostrou-se traumática e causadora de perdas fatais e não construtiva no sentido de desestabilizar ou derrubar o regime. Ela mostrou-se muito mais destrutiva do que construtiva para se obter os objetivos por parte dos insurgentes. Assim o sentimento trazido pela derrota na luta armada é o desencadeador da mágoa. Os sentimentos de derrota e de impotência formam o ponto de ebulição do ressentimento por parte dos opositores do regime.
Importante frizar que quando não se assume os erros cometidos durante a busca para derrubar o regime de 1964 e aponta-se as Forças Armadas como responsáveis por todos os erros e danos causados, os que lutaram contra o regime abrem mão das responsabilidades, abrem mão da condição de agentes de transformação social, para esperar por direitos e benesses.153
Transferir para as três armas todas as mazelas e erros é uma condição clássica do ressentir. Onde o ressentido não duvida de si mesmo; não coloca em questão a justeza de seus atos e suas motivações,154o que é julgado e tido como responsável por tudo é o outro. No caso as Forças Armadas.
Num discurso virulento e impositivo, o que se viu foi após o fim do regime, foi os opositores expondo todo o ressentir contra as três armas. Num discurso duro e
152
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: um escrito polêmico. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.p.117.
153
KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.p.242.
emocional o que se viu foi a desconstrução e deslegitimação das Forças Armadas, a demonização do papel exercido por elas durante o período em que ocuparam o poder:
“Entre 1964 e 1984, a ditadura destruiu a economia, institucionalizou a corrupção e fez da tortura uma prática política. Envileceu a nação e abalou o caráter do brasileiro. Alienou as novas gerações, tornando-as incapazes de entender a sociedade em que vivem [...] A violência da esquerda era conseqüência das dificuldades da luta armada. Por exemplo, ao se matar um guarda bancário em um dos inúmeros assaltos praticados no período. A morte de inocentes era um risco assumido, mas não desejado. As forças do Estado, porém, torturavam e matavam como norma. [...] o que os militares fizeram foi algo que transcendeu à natureza da própria violência. A violência do regime militar corrompeu e ultrajou a dignidade do homem.” 155
Quando se assume uma condição de vítima diante dos fatos ocorridos, mesmo que tenham empunhado armas para derrubar o governo, os subversivos demonstram um ressentir estruturado na vingança imaginária e adiada, na memória que só serve à manutenção de uma queixa repetitiva e estéril.156O tempo não voltará e não será possível pegar em armas novamente para derrubar o regime civil-militar.
A vitimização dos civis acompanhada da uma vitimização dos militares (pois acreditam que suas ações estavam corretas e foram feitas pelo bem da pátria) que se vêem enquanto injustiçados diante da depreciação civil , dá força para os afetos destrutivos que compõem a constelação do ressentimento. O choque entre eles faz-se forte então.