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O processo de abertura política no final do período da ditadura militar, possibilitou que a sociedade civil se mobilizasse, organizando-se em entidades representativas e promovendo eventos para discutir questões sociais. Apesar de ser considerada como a “década perdida” pela ONU, a década de 1980, no Brasil, foi de intenso envolvimento social. Na área educacional, novas ideias pedagógicas foram propostas, bem como foram realizados eventos em âmbito nacional.

Com relação às novas ideias pedagógicas, a década de 1980 foi marcada, segundo Saviani (2008, p. 415-422), por tendências denominadas como “contra-hegemônicas” ou “pedagogias de esquerda”, que se caracterizavam por direcionarem a prática educativa em vista da ação transformadora. As propostas estavam agrupadas em duas tendências. Uma primeira tendência, inspirada no pensamento de Paulo Freire e afinada com a Teologia da Libertação, estava centrada no saber popular e na autonomia de suas instituições, inclusive com relação à instituição escolar. A esse grupo pertenciam as pedagogias da “educação popular” e as pedagogias da prática. Outra tendência se inspirava no marxismo, seja para propor a igualdade de acesso e permanência na escola, inspirada por ideais liberais, seja

aprofundando os fundamentos do Materialismo Histórico Dialético, para opor-se a visão liberal. Nessa tendência estavam a Pedagogia Crítico-social dos Conteúdos, e a Pedagogia Histórico-crítica, do próprio Saviani.

Quanto aos eventos, destacou-se o novo ciclo de Conferências Brasileiras de Educação (CBE), promovidas pela Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPEd) e com a Associação Nacional de Educação (ANDE), ambas criadas no final da década de 1970. Segundo Saviani (2008, p. 405), o antecedente imediato da CBE foi o I Seminário de Educação Brasileira promovido pelo Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES)34 em Campinas no ano de 1978, o qual foi marcado pelo espírito de crítica à política educacional oficial. Quando, em 1979, o CEDES preparava o II Seminário de Educação Brasileira, programado para 1980, a ANPEd e a ANDE propuseram a realização, em conjunto, de um evento mais amplo. Assim, no lugar do II Seminário, foi realizada a I CBE, em São Paulo, com o tema “A Política Educacional”. Seu foco principal não foi mais a crítica e a denúncia, mas a busca de propostas alternativas para solucionar os problemas educacionais em sintonia com o processo de redemocratização. Outras cinco CBE foram realizadas até 1991, com temas fundamentais para a educação brasileira naquele momento histórico.35

Já a década de 1990, como detalhado anteriormente, foi marcada pela globalização do capital financeiro e pelo anúncio da soberania do neoliberalismo, visível na proclamação do fim da história, tendo em contrapartida o enfraquecimento das teorias socialistas com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética. Do ponto de vista da educação, segundo Frigotto e Ciavatta (2003) “[...] ocorre uma disputa entre o ajuste dos sistemas educacionais às demandas da nova ordem do capital e as demandas por uma efetiva democratização do acesso ao conhecimento em todos os seus níveis.” (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2003, p. 97)

No final do séc. XX o campo da educação tornou-se tema de eventos internacionais, com grande produção documental. O primeiro grande evento foi a “Conferência Mundial sobre Educação para Todos”, realizada em Jomtiem, na Tailândia, de 05 a 09 de março de 1990, sob o patrocínio da UNESCO e do Banco Mundial. O resultado da Conferência foi a Declaração Mundial sobre a Educação para Todos: Satisfação das Necessidades Básicas de

34 O CEDES foi criado em 05 de março de 1979, por um grupo de professores da Faculdade de Educação da ÚNICAMP, e sua efetivação deu-se em 1978, com a publicação do primeiro número da revista Educação &

Sociedade. (SAVIANI, 2008, p. 403)

35 II CBE, 1982, Belo Horizonte: “Educação: perspectiva na democratização da sociedade”; III CBE, 1984, Niterói: “Da crítica às propostas de ação”; IV CBE, 1986, Goiânia: “A educação e a Constituinte”; V CBE, 1989, Brasília: “A lei de diretrizes e bases da educação nacional”; VI CBE, 1991, São Paulo: “Política nacional de educação”.

Aprendizagem36, a qual reafirmou o direito de todos à educação e também que as necessidades básicas de aprendizagem para todos poderiam e deveriam ser satisfeitas. Em vista disso, também foi aprovado o Plano de Ação, com a finalidade a atingir os objetivos propostos na Declaração.

Outro documento importante sobre educação patrocinado pela UNESCO foi o relatório Educação: um tesouro a descobrir, elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, no período de 1993 a 1996, sob a coordenação de Jacques Delors, e com a participação de catorze especialistas de todas as regiões do mundo. O relatório identifica como principais fenômenos do momento a interdependência planetária e a globalização, propondo que a educação seja um fator de coesão social e de incentivo à participação democrática, superando toda forma de exclusão, situando a educação dentro do crescimento econômico em vista do desenvolvimento humano. Quanto aos princípios, estabelece o conceito de educação ao longo da vida como a chave que abre as portas do séc. XXI, pois elimina a distinção tradicional entre a educação formal inicial e a educação permanente e propõe os quatro pilares dessa educação: “[...] aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.” (UNESCO, 2010, p. 31). E na terceira parte, apresenta orientações para a educação básica, secundária e universitária, sobre os professores, sobre as escolhas políticas e sobre a cooperação internacional.

No contexto educacional brasileiro, entre as principais transformações ocorridas no final do séc. XX e início do séc. XXI, escolhemos destacar a elaboração da nova Constituição, em 1988, a promulgação da nova Lei de Diretrizes e Base da Educação, em 1996, o Plano Nacional de Educação, em 2001, e as mudanças significativas com relação à avaliação do sistema educacional e o financiamento da educação.

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