A expressão “práticas de letramentos” foi utilizada por Street (1984) para as “práticas sociais e concepções de leitura e escrita” relacionadas entre si. Heath (1982) usa o termo para representar os "eventos" e os modelos sociais de letramento que os participantes põem à disposição desses eventos (STREET, 1988). Barton (1991) estabeleceu debates sobre eventos de letramento e práticas de letramentos em um estudo sobre o cotidiano em Lancaster, Inglaterra.
O conceito de eventos de letramentos para Heath (1982) consiste em uma ocasião em que uma peça escrita é integral para a natureza das interações entre os participantes e seus processos interpretativos, ou seja, “eventos em que a linguagem escrita é essencial à natureza das interações e aos processos e estratégias interpretativas de seus participantes”.
Para Hamilton (2000, p. 17), os eventos são mais concretos e passíveis de flagrantes, porque neles podemos apontar os participantes envolvidos, o conjunto das circunstâncias físicas, artefatos e atividades desempenhadas pelos participantes. Enquanto as práticas são compostas de elementos não visíveis, mas podem ser inferidas a partir dos eventos.
Segundo Barton; Hamilton; Ivanic (2000), os letramentos são constituídos por três elementos: as práticas, os eventos e os textos. As práticas não são observáveis de forma direta, mas em eventos mediados por materiais escritos. A relação do conceito de práticas com o conceito de eventos de letramento faz-se por serem os últimos considerados episódios observáveis, que emergem de práticas e são por elas moldados.
9 It should not have been surprising to me that the "social turn" movements readily lend themselves to the goals
of the new capitalism. It is one of the tenets of the NLS that any piece of language, any tool, technology, or social practice can take on quite different meanings (and values) in different contexts, and that no piece of language, no tool or technology or social practice has a meaning (or value) outside of all contexts.
Os eventos, portanto, adquirem sentido por estarem localizados nas práticas. A repetição de eventos os transforma, com o passar do tempo, em práticas. Muitos eventos do cotidiano vão se constituindo em práticas pela rotina e adquirem significado, porque estão localizados em contextos que influenciam suas formas e usos. Por essa razão, consideramos práticas de letramentos digitais aquelas que resultam da ação do professor ao trabalhar com os recursos tecnológicos e midiáticos, porque, ao fazê-lo em eventos escolares, são estabelecidas rotinas que ganham sentido na situação comunicativa em que as tecnologias precisam estar presentes para a realização da atividade. Principalmente, se observarmos que as práticas que moldam os eventos nas escolas acontecem quase que integralmente com a presença de textos, em quaisquer modalidades.
As práticas de letramentos são a cultura geral, meios de utilização da linguagem escrita em que as pessoas recorrem em suas vidas. Em sentido simples, práticas de letramentos são o que as pessoas fazem com os letramentos. Entretanto as práticas não são unidades observáveis porque elas incluem desde valores, atitudes, sentimentos e relacionamentos sociais (BARTON; HAMILTON, 1998, p. 6. Tradução nossa)10.
Conforme pudemos observar, para os autores, as práticas não são perceptíveis por envolverem algo mais que rituais, elas compõem-se de elementos intangíveis. No entanto, é possível apreendê-las por meio de sua inter-relação com os eventos e com os textos que por ali circulam e são produzidos, uma vez que serão responsáveis por intermediar a relação existente e por serem os textos o objeto de análise de um evento de letramento.
Os textos são importantes, porque por meio deles podemos inferir em quais eventos de letramentos participam e de quais práticas de letramentos são processo e produto, uma vez que os textos põem em interação os participantes de práticas sociais mais amplas. Os gêneros digitais materializados em textos eletrônicos apontam em si mesmos suas condições de produção, o meio em que circulam e os suportes que necessitam para existirem. Apreendê- los para construir-lhes sentido não é uma atividade isolada, mas põe em ação elementos das práticas em que seus envolvidos participam. Por essa razão, não podemos dissociar os textos dos eventos e das práticas de letramentos, pois esses existem por causa da presença da escrita e de seus efeitos.
As práticas de letramentos envolvem valores, atitudes, sentimentos e relações sociais (STREET, 1993), por isso não são unidades observáveis concretamente, ficando implícitas nos eventos que as realizam. A sala de aula é um locus importante para essa
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Literacy practices are the general cultural ways of utilizing written language which people draw upon in their lives. In the simplest sense literacy practices are what people do whit literacy. However practices are not observable units of behavior since they also involve values, attitudes, feelings and social relationships.
observação e análise, porque nela as regras sociais que formam as práticas de letramentos regulam o uso e distribuição de textos, nas relações entre as pessoas, no interior dos grupos e das comunidades.
Os estudos acerca dos letramentos, promovidos na sala de aula de português e mediados pelas tecnologias, podem ampliar as pesquisas sobre os gêneros porque possibilitam entender essa categoria como central e visível na sala de aula de português como forma de fazer a aproximação entre o conteúdo programático e as práticas discursivas correntes na sociedade contemporânea, agregando valores para possibilitar a inclusão dos indivíduos em determinados grupos da sociedade, ressignificando as situações e as ações nelas desempenhadas (BAZERMAN, 2007).