Fazer da aula de Língua Portuguesa um momento de apropriação de práticas de letramentos implica utilizar também os recursos tecnológicos, transpondo didaticamente os conteúdos a serem trabalhados pelo currículo escolar de forma a ampliar as práticas escolares. Isso seria um percurso natural se não estivéssemos ainda envolvidos por problemas de níveis de leitura e escrita ainda tão elementares que não contemplam os textos e/ou hipertextos presentes também no contexto digital.
O ingresso de classes sociais diferentes na escola e as pressões exercidas pelos diversos setores da sociedade, materializados em documentos e difundidas pela mídia, faz da escola o espaço em que se deva acrescentar ao ensino de língua uma perspectiva de educação linguística, ética e democrática, isto é, faz que o espaço escolar responsabilize-se por fazer uma pessoa conhecer o maior número de recursos da sua língua para saber usá-los adequadamente às situações comunicativas.
No entanto, os problemas relacionados ao uso ou não uso dos multiletramentos no cotidiano implicam diretamente sobre a ausência de uma política de formação de professores, bem como de uma base curricular que os contemple, uma vez que ainda se tem muita desinformação acerca dos problemas que são detectados para mensuração e avaliação do letramento. Um desses problemas consiste na posição ocupada pelo Brasil em testes de níveis de alfabetização/letramento. O país tem colocações pífias na avaliação do PISA11 (Programa
11
O PISA é um programa internacional de avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais, (...), [avaliando] o letramento em Leitura, Matemática e Ciências” (http://www.inep.gov.br/internacional/pisa/).
Internacional de Avaliação de Alunos) e isso está relacionado ao fato de não se compreender o paradoxo existente entre os baixos índices de alfabetização que colocam o país entre os últimos colocados e o crescente acesso às tecnologias digitais, suscitando “questões relevantes na contemporaneidade já que as novas tecnologias estão mudando a paisagem das práticas de linguagem” (BARTON, 2001, p. 96)12
.
Lankshear; Snyder e Green (2000) salientam o fato de que muito educadores precisam encontrar um modo de atender às demandas de um mundo mediado pelas novas TICs. Por isso, os professores devem integrar essas tecnologias às práticas pedagógicas significativamente, porque há ou deveria haver o compromisso com a formação de um cidadão mais participativo na sociedade em que atua.
Observar esse fato, portanto, possibilita-nos perceber até que ponto o surgimento de novas práticas sociais de leitura e escrita realizadas, na sala de aula, estão sendo discutidas e usadas no cotidiano profissional. E, também, como o trabalho com essas práticas pelos educadores necessita proceder a uma reflexão crítica a respeito das novas práticas de letramentos oportunizadas pela potencialidade de interatividade das TIC.
2.3.1 Letramento digital
A construção do conceito de letramento digital é polêmica, mas aqui adotaremos o posicionamento de que ele se constitui de práticas de instâncias sociais em que as tecnologias digitais produzem conteúdos que devem ser avaliados sob a natureza de seu ambiente e de suas condições de produção, estas situadas em determinados espaços sócio-históricos. Daí a necessária conceituação do letramento digital como letramento demandado para fazer uso das tecnologias digitais, no ambiente educacional, mais especificamente nas aulas de Língua Portuguesa ocorrida no LEI.
De acordo com Rojo (2009. p. 108-9), o conceito de letramentos múltiplos: [...] é ainda um conceito complexo e muitas vezes ambíguo, pois envolve além da questão da multissemiose ou multimodalidade das mídias digitais que lhe deu origem, pelo menos duas facetas: a multiplicidade de práticas de letramentos que circulam em diferentes esferas da sociedade e a multiculturalidade, isto é, o fato de que diferentes culturas locais vivem essas práticas de maneira diferente. (Grifos da autora)
Os letramentos digitais são reconhecidos, quando fazemos referência à abordagem de letramentos como zonas fronteiriças entre diferentes domínios/campos do saber. São
12 These questions are of contemporary relevance as new technologies are changing the landscape of language
práticas sociais que articulam sistemas semióticos diversos. Conforme Buzato (2007), as zonas fronteiriças em que esses sistemas estão envolvidos fazem dos letramentos digitais espaços de negociação e troca, e de delimitações que podem gerar conflitos e posições contestáveis, inerentes ao processo de apropriação dos letramentos exigidos pelo ambiente digital.
Ainda, para o autor, o usuário dos recursos disponibilizados pelas novas tecnologias não é qualquer leitor, mas um consumidor que faz uso da linguagem dos dispositivos, e se apropria dela para manipulá-la e transformá-la. Portanto, compreendemos os letramentos digitais não apenas como práticas sociais situadas, mas como situadas em ambientes em que as tecnologias digitais são necessárias para a execução de tarefas específicas. A natureza dos eventos dos letramentos que ocorrem nas situações exigirão práticas que acontecerão somente na presença material/virtual dos recursos tecnológicos/digitais nas quais os participantes agem em conjunto na construção da vida coletiva.
O acesso às TICs requer várias ações, tais como: atentar para os artefatos físicos; detectar qual o conteúdo relevante que será transmitido por meio dos referidos artefatos; saber quais as habilidades, os conhecimentos e as atitudes adequadas dos e para os usuários; e, ainda, saber quais tipos de comunidade requerem o apoio social proporcionados por essas ações. Ou seja, é muito mais que uma questão funcional de aprender a usar o computador e de fazer pesquisas na internet (BUCKINGHAM, 2010).
O letramento digital refere-se aos conhecimentos, às habilidades e às competências necessárias para usar e interpretar mídias que precisam das tecnologias digitais para se efetivarem e se constituírem em unidades de sentido (BUCKINGHAM, 2003). Ou seja, são práticas de leitura e escrita diferentes das formas tradicionais de letramento e alfabetização.
Ser letrado digital pressupõe ser um indivíduo que realize mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não verbais, como imagens e desenhos, isto é, proceder diferentemente das formas de leitura e escrita feitas no material impresso, até porque o suporte sobre o qual estão os textos digitais é a tela, também digital (XAVIER, 2005, p. 134). Isso não é uma simples transposição de novas técnicas de mediação, uma vez que o meio e o conteúdo se implicam mutuamente e se modificam para construir novos significados, reconhecendo nos letramentos digitais “redes complexas de letramentos (práticas sociais) que se apoiam”, que se entrelaçam, contestam e modificam mútua e continuamente por influência
das TICs e do que elas fazem em contextos culturais e situacionais diferentes (BUZATO, 2007).
Letrar digitalmente deve ir além da apropriação das ferramentas ou mesmo de trabalhar determinadas habilidades. Significa uma forma de letramento que parte dos problemas sociais no contexto dos sujeitos e serve como ferramenta para a compreensão crítica e para a mudança social, porque o foco deve estar na reflexão analítica da língua em uso, percebida em contexto concreto compreendido na situação imediata e no entorno social.
Por esse motivo, é importante compreender que o letramento digital, para sua efetivação, circunscreve-se mediante os letramentos presentes no mundo tecnológico, que não se manifestam isoladamente, mas sobrepõem-se em alguns momentos ou mesmo apenas alguns são solicitados, dependendo do propósito da tarefa. Mesmo assim, podemos afirmar que, para um indivíduo ser letrado digitalmente, deve conhecer e acionar letramentos diversos, como o impresso, o visual, o digital, o informacional, o oral e, ainda, o letramento multimodal – responsável por articular a convergência de habilidades para atribuir significados ao material presente na comunicação digital.
Inserir alguém digitalmente implica não apenas dotá-lo de capacidades de manuseio da máquina, mas principalmente fazê-lo refletir sobre o que está fazendo e por que o faz. As tecnologias digitais fazem parte das exigências sociais e do mundo do trabalho, e a escola não pode se omitir dessa função sob o risco de distanciar-se ainda mais de seu papel.
As tecnologias digitais exigem de seus usuários habilidades por meio das quais o letrado age com e sobre as linguagens multimodais da web e seus recursos para a construção de sentido. Estão entre essas habilidades:
comunicar-se efetivamente para a resolução de problemas; buscar e expor informações e dados;
usar ferramentas digitais para auxílio nas questões acadêmicas; reconhecer políticas e leis de direitos autorais; e
utilizar ferramentas digitais expostas em área pública.
Trabalhar com essas habilidades não somente capacita para o mundo contemporâneo, como faz do indivíduo alguém inserido em práticas de letramentos relevantes para seu possível sucesso.
[...] Assim, descrever, correlacionar e problematizar letramentos digitais é não apenas uma forma de mapear a inclusão digital, mas também de fortalecer sua concepção fundada na heterogeneidade, na emancipação e na agentividade, em
detrimento daquelas [práticas sociais] fundadas na padronização, conformação e subalternidade. (BUZATO, 2008. p. 328).
Por isso, estamos discutindo sobre uma proposta de inclusão digital possível de ocorrer a partir da sala de aula, isto é, o conceito de multiletramentos integrando-se aos demais conceitos teóricos aqui expressos. Ainda, como esta proposta pode ser ampliada e levada para a rotina dos professores e, talvez, como uma maneira de apresentar critérios para que essa proposta pedagógica também se inclua em documentos norteadores da educação básica de nosso país.
O letramento digital é constituído por um conjunto de práticas que se inter- relacionam às práticas dos demais letramentos presentes ao ambiente tecnológico e isso se deve ao fato de ser um conceito hiperonímico que abriga diversas possibilidades, daí o "fronteiriço", apontado acima por Buzato (2007) e, que, para se efetivar, apoia-se em muitos outros letramentos, tais como o letramento multimodal que se encontra intrinsecamente relacionado à interação com a era tecnológica (CASTELLS, 2008) na qual vivemos. Uma vez que as formas de interação entre as pessoas mudaram, então mudaram também os letramentos, como afirma Dionísio (2006, p. 131): “Na atualidade, uma pessoa letrada deve ser uma pessoa capaz de atribuir sentidos a mensagens oriundas de múltiplas fontes de linguagens”.
Outro letramento que contribuirá com o letramento digital será o visual, o qual corresponde ao nosso conhecimento intuitivo de ler as imagens e o mundo. É a nossa capacidade de organizar as informações e atribuir significações e pode ou não se associar a outros letramentos para complementar ou mesmo ser o responsável pela construção de significados. Durante muito tempo na história da humanidade, ele foi o responsável por resgatar aquilo que nossos antepassados imprimiam em pedras e outros artefatos.
O letramento científico no contexto escolar está potencialmente presente e deve estar aliado ao letramento digital, a fim de que a escola cumpra o papel de formar pessoas com senso de curiosidade científica. Estratégias podem ser desenvolvidas para que o raciocínio científico sobre os fatos ocorra, inter-relacionando-os a fatos sociais e à escrita, daí o letramento científico e sua importância para a área de investigação. Se funcional, o letramento científico pode aliar-se ao digital e a configuração pode revelar-se exitosa.
Devemos defender abordagens metodológicas contextualizadas com aspectos sociocientíficos, por meio da prática de leitura de textos científicos que possibilitem a compreensão das relações entre a ciência, a tecnologia e a sociedade e tomar decisões pessoais e coletivas para esse fim. Nesse sentido, o conceito de letramento científico amplia a
função dessa educação, incorporando a discussão de valores que venham a questionar o modelo de desenvolvimento científico e tecnológico (SANTOS, 2007).
O letramento literário também pode surpreender em sala de aula de Língua Portuguesa quando o professor lança mão de recursos tecnológicos, porque a literatura sempre se apresentou bastante flexível e aberta às linguagens diferentes, tais como música, escultura etc. Aliados a esse letramento, o midiático pode vir associado ao multimodal, em muitas situações, pois não há como isolarmos os letramentos com fronteiras tão rígidas entre si.
Em outras palavras, o que se busca não é uma alfabetização em termos de propiciar somente a leitura de informações científicas e tecnológicas, mas a interpretação do seu papel social. Isso implica mudanças não só de conteúdos programáticos, como também de processos metodológicos e de avaliação. E os gêneros próprios a esse letramento devem cooperar para também buscar uma educação científica que propicie a educação tecnológica. Muito se tem discutido no meio educacional brasileiro sobre o papel dessa educação, levando em conta argumentos sociológicos, mas pouco se tem realizado em termos de efetivar essas práticas na educação básica.
No próximo tópico, faremos uma incursão nos estudos sobre os multiletramentos como ampliação e atualização dos estudos da pedagogia dos letramentos e proporemos a aplicação desses conceitos para um novo contexto de ensino de leitura e de escrita.