Notoriamente, a falta de condições materiais é óbice para a realização dos direitos de acessibilidade e locomoção das pessoas com necessidades especiais.
A uma simples observação a olho nu, detecta-se essa ausência nos mais diversos lugares, pois nestes não existem edifícios apetrechados com os produtos da tecnologia em termos de rampas e escadas com pisos antiderrapantes e com corrimãos em ambos os lados ou paredes, elevadores com sinalização sonora, botoeiras com indicações em Braille e dimensões para entrada e saída de alguém em cadeira de rodas, acompanhado ou não de outrem, ou portas e corredores que permitam a passagem de usuários desse tipo de cadeira ou de quem tenha outra espécie de limitação. No passeio público, as calçadas são íngremes, desniveladas, sem antiderrapantes e escorregadias, mesmo não estando molhadas, e muitas se apresentam como rotas inacessíveis, atulhadas de cadeiras, barracas mantidas por vendedores ambulantes, vasos ornamentais, plantas etc. Na maioria das esquinas ou quadras ou canteiros centrais, não há rampas ou as existentes são de dimensões ou declividade inadequadas. Os semáforos não são sonorizados e em muito locais de grande movimento de veículos e pedestres não existem. Os ônibus e outros tipos de veículos destinados ao transporte coletivo não são providos de dispositivos ou mecanismos que permitam o ingresso e a saída de pessoas que tenham limitações para se movimentar, principalmente as que dependem de cadeiras de rodas, as quais já enfrentam desvantagens nas paradas e estações rodoviárias. Nos rincões onde o meio de transporte mais peculiar são as embarcações, como ocorre na Amazônia, ad
exemplum, no Estado do Pará, as mesmas não são acessíveis às referidas pessoas, o
que se estende às possuidoras de outras limitações, verificando-se isso a partir do ato de embarque e, também, no desembarque.
Esse é apenas um pequeno retrato do drama vivenciado, no dia-a-dia, pelas pessoas com necessidades especiais. Permite, ainda assim, esse relato avaliar o
quanto de negação de acesso e locomoção é impingido a essas pessoas. Nega-se-lhes o direito de ir e vir. Como conseqüência dessa negação, cercea-se-lhes a ida aos locais de atividades que aspiram exercer, dentre as quais as de ir à escola, ao trabalho, ao lazer, às reuniões sociais e a outros eventos. Denegando-lhes esses direitos, nega a sociedade a si mesma a oportunidade de poder contar com a participação dessas pessoas.
Tal realidade é a exteriorização de um desarranjo de forças que deveriam compor um paralelogramo capaz de ofertar às referidas pessoas condições materiais para que seus direitos de acessibilidade e locomoção, previstos na Constituição Federal, nos arts. 227, § 2º, e 244, nas Leis Magnas das unidades federativas, nas Leis Orgânicas Municipais e na legislação infraconstitucional, já viessem sendo concretizados, maciçamente, há muito tempo ou que venham a se realizar plenamente. Às expensas desse desarranjo, o que se vem notando, ao longo dos tempos, é que “não há muita preocupação em projetar objetos, edifícios, espaços e transportes cujo desenho seja acessível às pessoas com deficiência e idosos”, como observa Prado (1997, p. 185-186). Ao fazer surgir essas estruturas, a sociedade não tem adotado como paradigma o desenho universal, que leva em conta a existência de pessoas com necessidades diferentes119.
Ainda por força desse desarranjo, é transparente que não tem havido, durante muitas épocas, a preocupação do poder público em agregar as características de acessibilidade aos edifícios e logradouros que disponibiliza à população, no oferecimento de seus serviços a esta. Tanto isso é verdade que aquelas normas constitucionais e a legislação infraconstitucional refletem a preocupação recente com essas características, o que se confere pela mais superficial leitura dos dispositivos legais regentes da matéria.
Essa situação traz implícito um fator causal, qual seja, a indisponibilidade de recursos financeiros, o que é tautológico, até porque o despertar para as questões relacionadas à acessibilidade em favor das pessoas com necessidades especiais não vem de muitas décadas, no país. Não se tem, desse modo, o preenchimento de um dos elementos dos direitos humanos, qual seja, o condicionamento material, segundo a
concepção de Castellanos e Terruró (1999, p. 186-187) que ressaltam que o mesmo está subordinado às possibilidades e disponibilidades econômicas do Estado, o que, assim entendem, tem sido usado como pretensa justificativa de despreocupação do referido ente quanto à melhoria das condições de vida de milhões de pessoas e dos direitos humanos de todos, alegando gastos com o aparato estatal e problemas de subdesenvolvimento.
Os entes privados, por outro lado, não têm cuidado, ao longo dos anos, de impregnar de acessibilidade os prédios que destinam ao fluxo de pessoas, como é verificável naqueles onde estão sediados os empreendimentos que a estas oferecem e prestam serviços, do que são comprovações as empresas comerciais, bancos, lojas, hospitais e edifícios que abrigam consultórios e escritórios relacionados ao exercício de diversas profissões. Tem havido despreocupação no concernente ao planejamento e à construção desses imóveis quanto a se enquadrarem nos contornos do desenho universal. Tudo indica que tenha havido parcimônia ou desinteresse no emprego de recursos financeiros para amoldá-los ao conceito de acessibilidade. O mesmo se pode dizer, v.g., em relação às calçadas, pois as mandam construir sem adequação a esse conceito.
As empresas que exploram os serviços de transporte coletivo, em suas várias modalidades, também têm-se mostrado, no correr dos tempos, indiferentes aos reclamos da oferta de veículos moldados pelo desenho universal e pela acessibilidade. Aprioristicamente, não disponibilizam suporte financeiro para isso.
Em meio a esses aspectos da realidade que demonstram o quão têm sido relegados os direitos de acessibilidade, importante é refletir sobre a assertiva de Bobbio (1992, p. 45) no sentido de que a “efetivação de uma maior proteção dos direitos do homem está ligada ao desenvolvimento global da civilização humana”, bem assim sobre a afirmação sentenciosa de Sen (2000, p. 264) de que “o direito de uma pessoa a alguma coisa deve corresponder ao dever de outro agente de dar à primeira pessoa essa coisa”, em resposta à sua perquirição: “é possível ser coerente ao falar em direitos sem especificar de quem é o dever de garantir a fruição desses direitos?”.
Dessume-se, ademais, que, para haverem condições materiais à concretização dos direitos de acessibilidade e locomoção e, por via disso, a efetividade
das normas que a estes servem de albergues, é indispensável o entrelaçamento do poder público e da sociedade, para que conjuguem seus esforços financeiros e econômicos em volume suficiente a proporcionar a eliminação ou a adaptação de barreiras arquitetônicas e a implantação dos elementos de urbanização e do mobiliário urbanos adequados às singularidades das referidas pessoas.
É razoável esse entrelaçamento, pois, como preleciona Dworkin (1999, p. 356 e 345),
[o] governo tem a responsabilidade abstrata de tratar o destino de cada cidadão com a mesma importância, [acrescentando que as] pessoas têm o dever moral de promover o bem-estar da comunidade como um todo em tudo que fazem, e o correspondente direito moral de que os outros sempre ajam da mesma maneira.
Enquanto não houver entrelaçamento ou, independentemente disso, enquanto aquele ente público ou qualquer ente privado não tomar a iniciativa de fomentar concretamente, mediante liberação de recursos suficientes, a acessibilidade e a locomoção em prol das pessoas com necessidades especiais, continuando estas a enfrentar as barreiras arquitetônicas ou, diante destas, a sufocarem as próprias aspirações de melhoria da qualidade de vida e de plena participação na sociedade, não haverá a efetividade das normas reguladoras desses direitos, as quais, por sinal, somente há bem pouco tempo começaram a surgir no cenário jurídico nacional, havendo frutos não muito prolíferos de sua aplicação.
5.2 PRECARIEDADE ESPACIAL COMO REFLEXO DA FALTA DE CONDIÇÕES