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Os editais podem ser considerados elementos estruturantes de um longo processo de classificação, seleção e avaliação aos quais os livros didáticos são submetidos. Esses documentos constituem registros importantes para a identificação das concepções de livro didático, ensino e acessibilidade que norteiam os procedimentos de avaliação, assim como assumem um caráter interpelativo, nos termos definidos por Therborn (1987). Esse autor, ao apresentar uma abordagem geral dos processos de constituição ideológica dos seres humanos situados em contextos históricos específicos, elenca três modos fundamentais de interpelação ideológica, através dos quais os sujeitos são levados, por mecanismos de sujeição e qualificação, a se relacionarem com o mundo e a nele se situarem, considerando:

1) o que existe, e seu corolário, o que não existe: isto é, quem somos o que é o mundo, a natureza, a sociedade; e como são os homens e as mulheres. Desta maneira adquirimos um sentido de identidade, tornando-nos conscientes do que é real e verdadeiro; assim a visibilidade do mundo é estruturada pela distribuição de luzes, sombras e escuridão.

2) o que é bom, certo, justo, bonito, atraente, agradável e seus opostos. Desta maneira nossos desejos tornam-se estruturados e normatizados. 3) O que é possível e impossível. Nosso sentido de mutabilidade de nosso ser-no-mundo e as consequências das mudanças são modelados e se confirmam nossas esperanças, ambições e medos (THERBORN, 1987, p. 15-16, tradução nossa).

Podemos aproximar esses modos de interpelação apontados por Therborn (1987) dos editais de candidatura das obras, na medida em que esses documentos trazem uma carga ideológica que sujeita e qualifica as obras, levando-as a se adequar às concepções oficiais, que lhes dizem o que é possível e desejável, lançando luzes sobre as temáticas a serem abordadas, mas deixam de forma implícita pontos de sombra e escuridão. Ao se sujeitarem a uma ordem maior, articulada pelas estratégias discursivas69 contidas nos editais, autores e editores produzem

coleções “qualificadas” e assim prosseguem, rumo às demais etapas avaliativas, sendo então submetidas a processos de requalificação, por meio de avaliações realizadas por equipes elencadas pelo MEC.

69 Segundo Charaudeau e Maingueneau (2014), as estratégias discursivas se desenvolvem em etapas que “não

são excludentes, mas que se distinguem, entretanto, pela natureza de seus objetivos: uma etapa de legitimação que visa determinar a posição de autoridade do sujeito [...], uma etapa de credibilidade que visa determinar a posição de verdade do sujeito [...], uma etapa de captação que visa fazer o parceiro de troca comunicativa entrar no quadro de pensamento do sujeito falante” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2014, p. 219).

O processo de qualificação inicial das obras pressupõe a subordinação destas às concepções contidas nos editais de convocação. Nesse sentido, examinamos os anexos dos editais dos PNLDs 2005, 2011 e 2014, que trazem os “Princípios e critérios para a avaliação de livros didáticos” para o ensino fundamental de Geografia, a fim de identificar os pontos de ruptura, as inserções e inovações observáveis nos critérios que nortearam a fase inicial de qualificação das obras nesses períodos. Optamos por analisar os editais em blocos temáticos, para facilitar a leitura comparativa. Destacamos inicialmente o percurso semântico,70 da figura71 do livro

didático nos editais.

O discurso constitui importante objeto de investigação de fenômenos sociais, pois, como observa Gregolin (1995, p. 17), ele “é um suporte abstrato que sustenta os vários TEXTOS (concretos) que circulam em uma sociedade”. Levando isto em consideração, optamos pela Análise do Discurso Francesa (ADF) como instrumento de interpretação e exame dos editais, uma vez que “através da Análise do Discurso é possível realizarmos uma análise interna (o que este texto diz? como ele diz?) e uma análise externa (por que este texto diz o que ele diz?)” (GREGOLIN, 1995, p. 17). A AD Francesa, como método de análise de fragmentos textuais e imagens, ajuda a estruturar o tratamento dos aspectos implícitos, explícitos ou silenciados, mediante a análise do percurso semântico e de elementos contidos nos fragmentos analisados.

Iñiguez (2004, p. 304) define Análise do Discurso como “o estudo das práticas linguísticas para esclarecer as relações sociais estimuladas e mantidas pelo discurso”. Ainda sobre a Análise do Discurso, Mariani (1993) afirma que ela é um instrumento metodológico que contribui para a construção de uma memória histórica. Charaudeau e Maingueneau (2014) justificam a existência da Análise do Discurso e sua importância como elemento de valorização do que é dito e apreendido por todos em uma sociedade, tornando o discurso, assim, objeto de estudo.

Os discursos que circulam por meio dos editais conformam práticas e, muitas vezes, modos de apreensão da realidade que os livros didáticos, para serem aprovados, devem abordar. Segundo Bakhtin (2009, p. 36), a “palavra é o fenômeno ideológico por excelência [...] é o

70 Fiorin (2013) esclarece que o percurso semântico compreende as possibilidades de significação a partir dos

percursos figurativos e temáticos empregados em frases (FIORIN, 2013, p. 97).

modo mais puro e sensível de relação social”; é a partir dela que se constitui o discurso e este, por sua vez, é “uma síntese das práticas discursivas historicamente construídas” (CEREJA, 2008, p. 203). Sendo assim, os documentos que contribuem para a estruturação das obras, sejam os editais, as resenhas críticas, os guias de livros didáticos ou as demais publicações do gênero, constituem registros discursivos importantes. É a partir da análise do discurso dessas inscrições que podemos entender quais concepções orientam e parametrizam a elaboração, editoração e, finalmente, aprovação e aquisição, pelo Estado, dos livros didáticos.

Uma vez definido o instrumento de análise, trechos selecionados dos editais foram examinados com base em um roteiro didático,72 a partir do qual enumeramos os elementos

discursivos considerados na Análise do Discurso, por meio dos seguintes procedimentos: identificação e análise dos principais aspectos da análise lexical,73 identificação dos principais

temas74 e figuras, análise dos principais percursos semânticos, aspectos interdiscursivos, da

sintaxe discursiva,75 aspectos refratados e refletidos no discurso e as condições sociais de

produção do discurso.