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A análise do processo vivido pelo grupo mostrou indícios de desenvolvimento profissional, principalmente nos momentos em que as professoras discutiam as atividades. Um deles aconteceu quando realizavam a primeira atividade de construção geométrica. Todas as professoras haviam mencionado não ter estudado desenho geométrico durante sua formação (magistério e superior). Participar do grupo de estudos foi uma oportunidade de rever figuras geométricas por meio de outra abordagem. Percebemos que, assim que terminaram as tarefas prospostas, demonstraram entusiasmo ao verem formas conhecidas construídas por elas próprias. Vanda, mostrando-se supresa e satisfeita, disse: “Nossa! Eu nunca tinha feito uma construção” (notas de campo, 18/05/10).

Ao longo dos encontros, procurávamos ressaltar para o grupo a nossa preocupação em contribuir para o desenvolvimento profissional de cada professora. Assim, questionávamos as participantes sobre as atividades apresentadas, os temas discutidos e a dinâmica utilizada. Deixávamos clara a nossa intenção em desenvolver assuntos que fossem do interesse do grupo e que contribuíssem diretamente para sua prática cotidiana. Os trechos seguintes ilustram alguns momentos que evidenciaram o desenvolvimento profissional:

      

52 Foi feito um esforço genuíno das pesquisadoras no sentido de se colocarem igualmente no grupo, mas

Tudo pra mim tá sendo aprendizado. Geometria pra mim era só o básico, igual eu te falei, quadrado era quadrado e retângulo era retângulo. Eu olhava a figura, o tamanho do lado, se tinha dois lados iguais e dois lados iguais aqui, era esse conceito que eu tinha. Não sabia que quadrado era retângulo. Então pra mim tudo é novidade. Muita coisa é novidade pra mim (Marta, 11º encontro, 25/05/10).

O Projeto de geometria foi muito significativo, além de prazeroso. Tive a oportunidade de aprender geometria de forma bem elaborada, organizada e prática. A todo momento me sentia como uma aluna incentivada a aprender. [...] fiquei mais segura para ensinar meus alunos (Vanda, avaliação escrita, 29/06/10).

Com o curso pude perceber como a geometria está presente no nosso cotidiano [...] me sinto mais preparada para colocar em prática o que aprendi. Pude perceber, assim como todos os conteúdos, que a geometria é de suma importância e podemos trabalhá-la de forma prazerosa (Andréa, avaliação escrita 02/07/10).

Participar do curso de Geometria para mim foi muito gratificante. Inicialmente fiquei com pouco de receio, pois a Geometria para mim se tratava de algo muito difícil, mas assim que começamos a construir, pesquisar e interagir o que aprendi com meus alunos em sala de aula, fiquei mais interessada (Marta, avaliação escrita, 02/07/10)

Em nossa pesquisa, paralelamente à vontade de contribuir com a aprendizagem de Geometria de cada participante - a partir de atividades que desenvolvessem o pensamento geométrico - surgiu também nosso anseio em oferecer elementos para que as professoras pudessem trabalhar os conteúdos em suas salas de aula. Contudo, o grupo não caminhou nesse sentido, pois, ao longo do 1º semestre de 2010, não houve a interação grupo/sala de aula.

Após a conclusão do trabalho de campo, ainda alimentávamos a esperança de que as professoras pudessem vivenciar em suas classes o que aprenderam nos encontros. Era preciso conter nossa ansiedade, pois o tempo é um elemento crucial de mudança (BAIRD, 1997 apud FERREIRA, 2003) e o processo de mobilizar saberes e desenvolver-se profissionalmente acontece gradativamente.

Em maio deste ano, retornamos à escola. Procuramos cada professora para entregar-lhe uma cópia do capítulo do processo (trabalho de campo) - apresentado no texto da qualificação - e para conversarmos sobre os encontros vivenciados no 1º semestre de 2010. Foi uma alegria revê-las. Andréa continua no ciclo de alfabetização, lecionando para uma turma de 1º ano. Marta acompanha seus alunos, agora no 3º ano, e Vanda permanece na vice-direção da escola.

Devido aos diferentes horários de intervalo, conversamos individualmente com cada professora53. Procuramos não constrangê-las, deixando-as à vontade para nos contar o

que mudou para elas depois dos encontros que tivemos. Os trechos seguintes relatam o que ocorreu.

Ah! Eu comecei a trabalhar Geometria não mais só como eu te falei com formas, sabe? Falando com os meninos: triângulo, retângulo... Agora esse ano como eu tenho o livro didático e agora ele também tem a Geometria... Aí toda vez eu lembro de você na hora que eu tô mexendo com a Geometria. Aí eu comecei a trabalhar com os meninos a forma do jeitinho que você ensinou. Por exemplo, eu trabalhei com os meninos círculos e esferas, a diferença de círculo e esfera. Achei tão bonitinho eu perguntando pros meninos o que que é um círculo o que que é uma esfera, mostrando pra eles os objetos que rolam e os que não rolam, porque que rolam... Ainda tô trabalhando com eles ainda círculo e esfera para depois tá entrando nas outras formas. Pra mim, o curso foi benéfico. Abriu um pouco a minha cabeça porque até então eu achava que eu tinha que trabalhar só as formas geométricas de jeito assim... (pausa) fechado. Agora eu tô abrangendo um pouquinho mais, tô pesquisando um pouquinho mais. [...] Por exemplo, como eu te falei... Em artes eu trabalhava só dobradura. Por exemplo, se for trabalhar o círculo, vou trazer um dobradura baseada no círculo, por exemplo, um passarinho lá. Aí eu só falo assim pros meninos. [...] Esse círculo aqui pode transformar em quê? Que objeto? [...] Até então era só assim, só a forma em si. Mas agora não! Eu levo os meninos pra olhar no dia-a-dia, dentro de sala de aula. Não sei se eu tô indo pro caminho certo não. Mas, eu acho que a minha visão mudou (Andréa, 17/05/11).

Nossa! Mudou assim... A minha percepção de Geometria. Mudou muito. Inclusive agora vou começar com os meninos, a minha turma agora, a ensinar Geometria, sólidos geométricos pra eles. Então assim, eu já sei passar pra eles o que eu aprendi com vocês. Antes, como eu falei com você... antes eu pulava, pulava essas matérias porque eu não sabia, porque não foi passado pra mim enquanto estudante. Mas enquanto professora eu também não sabia passar. Então era uma coisa que eu tinha que pular. [...] Agora eu vou começar e é gostoso a Geometria pra mim, é diferente. [...] Eu fiz um trabalho [...] mais no final do ano. Só que com muita coisa, muito projeto pra fazer no final do ano aí eu tive que dá sem tá comunicando com você que ia começar. Fiz o trabalho, nós montamos paralelepípedo, nós fizemos aquele negócio... (esqueceu o nome planificação) desmontamos caixinhas, montamos caixinhas, fizemos com cores diferentes. Foi muito legal! Depois do curso que eu fiz com você, aí eu consegui desenvolver (Marta, 17/05/11).

Mudou praticamente tudo. Eu já tô doida pra voltar pra sala de aula e colocar tudo o que a gente aprendeu ali. Desde o início, eu já havia falado que gostava muito de Geometria e continuo adorando cada vez mais. [...] O que eu mais espero é voltar pra sala de aula e aplicar o que a gente trabalhou. Foi ótimo! [...] O crescimento foi muito grande. Eu aprendi muita coisa. Noções que eu não tinha e que aprendi. Guardo o meu material lá diretinho pra quando eu voltar aplicar em sala de aula (Vanda, 17/05/11).

      

As falas anteriores evidenciam indícios de desenvolvimento profissional e mudanças nos saberes de cada professora. Podemos dizer que a participação no grupo de estudos ‘mexeu’ com a forma de pensar e agir de cada participante, em relação à Geometria, e trouxe um novo sentido na compreensão dessa área de conhecimento em sua vida pessoal e profissional. Como Tardif (2006, p. 266), acreditamos que os saberes dos professores são “construídos e utilizados em função de uma situação de trabalho, e é em relação a essa situação particular que eles ganham sentido”.

Benzer Belgeler