Também como desdobramento do devido processo legal, tem-se o fato de que o julgamento deve ocorrer dentro de um prazo razoável, evitando-se o prolongamento desnecessário da instrução processual e a tardança injustificada na prestação jurisidicional.
Logo, a celeridade processual anda de mãos dadas com o devido processo legal.
Com relação à necessidade de que exista um julgamento dentro de um prazo razoável, inicialmente essa garantia passou a ser discutida e paulatinamente foi posta em prática por existir no bojo da Convenção Americana de Direitos Humanos (arts. 7º, 5º e 8º, 1), vigente no país com a aprovação do Decreto n. 678, de 06.11.1992.
Nesse diapasão, e evoluindo para atingir o objetivo do moderno processo penal, houve o advento da Emenda Constitucional n. 45/2004 que inseriu o inciso LXXVIII no rol das garantias fundamentais, que estabelece: “a todos no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.”
Indiscutivelmente, a celeridade processual implica buscar a efetividade do processo, homenageando o devido processo legal e os demais princípios constitucionais. Vale a pena relembrar pensamento de Rui Barbosa, contido na Oração aos moços, de que “justiça tardia é injustiça qualificada”.
Além disso, deve-se consignar que o legislador constituinte derivado, ao inserir norma constitucional versando sobre a duração razoável do processo, não chegou a definir um prazo
específico ou máximo para a duração do processo judicial, mas limitou-se a estabelecer como direito fundamental do réu vir a ser julgado em um prazo razoável, sem, contudo, dizer o que configura prazo razoável e quais as peculiaridades de cada caso concreto, à luz do conceito de prazo razoável.
Optou-se pela “doutrina do não prazo, fazendo com que exista uma indefinição de critérios e conceitos”.40
Em verdade, a jurisprudência pátria, diante da vagueza do que venha a ser a perseguida “duração razoável do processo”, estabelece três condições ou critérios aptos a auxiliarem na aferição desse princípio, quais sejam: a) a complexidade do caso submetido à apreciação judicial, seus contornos e a existência ou não de questões de elevada indagação; b) o comportamento das partes, notadamente se o atraso no andamento da liça criminal se opera por parte da defesa; c) e, por fim, o comportamento da autoridade judicial presidente do feito.
Somente com o somatório de referidos itens tem-se a aferição do respeito ou não no caso concreto à duração razoável do processo. Pode-se estar diante de um processo que perdura por um ano e a duração é razoável, em razão de grande número de réus, elevado número de testemunhas para serem oitivadas por cartas precatórias ou rogatórias, da complexidade da perícia técnica, enfim, diversos fatores podem contribuir para, não obstante ultrapassado o tempo eventualmente previsto em lei para a realização de etapas procedimentais, ainda não se verificar a violação da duração razoável do processo (insista-se: desde que em liberdade o acusado).
Situação diversa, entretanto, se avista quando o feito não apresenta pluralidade de réus, inexiste complexidade jurídico-probatória na discussão do meritum causae, além de não haver participação da defesa em eventual retardo. Nesse caso, soaria absurdo demorar mais de um ano para se apresentar a prestação jurisdicional definitiva.
Portanto, varia de caso concreto para cada caso concreto o entendimento fulcrado na razoabilidade, a respeito da celeridade processual e da necessária duração razoável do processo, insista-se, situação umbilicalmente ligada ao devido processo legal.
40 BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy; LOPES JÚNIOR, Aury. Direito ao processo penal no prazo
Diz com alqueires de acerto a doutrina que a preocupação com a duração razoável do processo deve ter elevado senso de equilíbrio, posto que “ao mesmo tempo em que se deve evitar a dilação indevida, não se pode atropelar direitos e garantias fundamentais”.41
Trilhando essa senda (da necessária observação do curso do processo dentro de um prazo razoável), insere-se argumentação atinente à Justiça Eleitoral.
De logo, cabe enfatizar que a celeridade é inerente aos feitos da Justiça Eleitoral, em especial as ações civis eleitorais que versam sobre registro de candidatura: ação de impugnação de registro de candidatura (arts. 3º e ss. da LC n. 64/90); eventual prática de ilícitos eleitorais durante o curso do processo eleitoral apurada por intermédio de ação de investigação judicial eleitoral (art. 41-A da Lei n. 9.504/97); ou ainda as representações eleitorais e as imputação de inelegibilidade, dentre outras hipóteses.
Existe no seio da Justiça Eleitoral situação que não se verifica em outros ramos do direito, no que pertine à contagem dos prazos processuais, considerando a possibilidade de início e término do prazo processual, para ajuizar demandas, apresentar defesa ou recurso, em dia não útil, ou seja, contando-se os sábados, domingos e feriados.
Melhor explicando: de acordo com o disposto no artigo 16 da Lei Complementar n. 64/90, tem-se no âmbito do direito eleitoral a figura dos prazos peremptórios e contínuos, sem a possibilidade de suspensão ou dilação.
Além disso, parte considerável das demandas eleitorais possui prazos estabelecidos em horas, como, por exemplo, o rito da representação eleitoral, contido no artigo 96, parágrafos 5º, 7º e 9º da Lei n. 9.504/97, contando-se o prazo minuto a minuto, nos termos do artigo 132, parágrafo 4º, do Código Civil.
Sobre a regra dos prazos peremptórios e contínuos e sua finalidade, explica estudioso do direito eleitoral:
41 BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy; LOPES JÚNIOR, Aury. Direito ao processo penal no prazo
A razão de ser das características desses prazos, dadas pela lei, é a necessidade que tem o Estado de manter célere o processo eleitoral. Este diz com os mandatos eletivos que, por sua vez, não podem ter seu período de duração alterado, nem para mais, nem para menos. As controvérsias eleitorais têm suas soluções subordinadas, inclusive (afora os mandamentos legais rígidos, como este) pelo calendário eleitoral, ordenamento baixado pelo Tribunal Superior Eleitoral, por resolução, para cada eleição, prevendo datas iniciais e finais para a realização dos diversos institutos da processualística eleitoral.42
Os prazos contínuos e peremptórios se iniciam no último dia para o registro de candidatura e se encerram com a proclamação do resultado do pleito eleitoral, correndo em cartório, dispensando a publicação formal, e não se suspendem aos sábados, domingos e feriados, sendo estabelecidos em resolução do Tribunal Superior Eleitoral.43
Registre-se que no processo penal eleitoral não são aplicadas as regras dos prazos contínuos e peremptórios acima mencionados, devendo incidir o artigo 798, parágrafo 1º, do Código de Processo Penal, combinado com o artigo 364 do Código Eleitoral.
E qual seria o prazo para conclusão de um processo penal eleitoral? Inexiste previsão expressa no Código Eleitoral e no próprio Código de Processo Penal, sendo que a recente reforma do Código de Processo Penal estabeleceu no artigo 400 que a audiência de instrução deverá ser realizada em sessenta dias da data de recebimento da denúncia, lapso temporal que pode e deve ser aplicado no processo penal eleitoral, configurando o mesmo, todavia, prazo impróprio, ou seja, se não for respeitado, não se vislumbra qualquer sanção a ser cominada ao responsável pelo retardo.
Deve-se, contudo, ter em mira a imperiosa necessidade de incidência do princípio da duração razoável do processo, esculpido no texto constitucional, repise-se, como sendo, desdobramento do due process of law, no âmbito do processo eleitoral com curso perante a Justiça Eleitoral, em que se apure a prática de crime eleitoral ou crime comum conexo com crime eleitoral.
42 CÂNDIDO, Joel José. Inelegibilidades no direito brasileiro. 2. ed. rev., atual. ampl. Bauru: Edipro, 2003. p.
297.
43 Para as eleições municipais de 2008, v.g., o Tribunal Superior Eleitoral editou a Resolução n. 22.579/2007 e
suas respectivas alterações, sendo que os cartórios eleitorais permaneceram abertos aos sábados, domingos e feriados, de 05.07.2008 até 13.11.2008, aplicando-se as regras do prazo peremptório e contínuo dentro de referidos interstícios.