Ao mapear as experiências relatadas pelos estudantes da escola pública e pelos da escola particular, por meio da utilização do marco de referência de Miccoli & Bambirra (BAMBIRRA, 2009), as respectivas subcategorizações, em ordem decrescente de ocorrência, são apresentadas nos gráficos 3 e 4. O intuito é de analisar quais elementos são mobilizados nos dois contextos.169
169
GRÁFICO 3: Subcategorização da natureza das experiências mais destacadas dos estudantes da escola pública
GRÁFICO 4: Subcategorização da natureza das experiências mais destacadas dos estudantes da escola particular 10% 10% 9% 7% 7% 7% 5% 5% 4% 4% 4% 4% 4% 3% 3% 3% 0% 2% 4% 6% 8% 10% 12% MOT 2 CONT 3 COG 5 SOC 4 COG 7 AFE 2 CPT 3 MOT 3 COG 1 AFE 3 AFE 5 MOT 1 CPT 4 COG 3 MOT 5 CPT 5 13% 13% 11% 8% 6% 5% 5% 5% 4% 3% 3% 3% 3% 3% 3% 3% 0% 2% 4% 6% 8% 10% 12% 14% MOT 2 COG5 CON 3 SOC 4 COG 7 MOT 3 CPT 3 COG 4 COG 1 COG 3 MOT 1 AFE 1 CPT 1 CPT 2 CPT 4 SOC 5
É possível constatar que, nos dois contextos escolares, similarmente, observa-se entrelaçamento de aspectos experienciais de várias naturezas que concorrem para experiências de êxito dos aprendizes. A fim de comparar os resultados da análise dos dados, representados nos Gráficos 3 e 4, apresento, a seguir, o Quadro 10. Os eventos apontados pelos estudantes, dos dois contextos escolares, que explicam seu sucesso na aprendizagem de inglês, são dispostos em ordem decrescente de ocorrência nas narrativas dos estudantes.
QUADRO 10 - Dados comparativos dos Fatores Propiciadores de Aprendizagem nas Escolas Pública e Particular, sob ponto de vista dos estudantes
Fatores propiciadores de aprendizagem na Escola Pública
Fatores propiciadores de aprendizagem na Escola Particular
1. Investimento em Autonomia Oportunidades de uso da língua no contexto fora de sala de aula
2. Avaliação do Ensino e/ou Aprendizagem 3. Prática do Professor
Uso de Estratégias
Interesse pela Língua e sua Aprendizagem 4. Concepções sobre Aprendizagem Pessoal
Questões Identitárias 5. Atividades de Sala de Aula Esforço e Persistência Atitudes Pessoais Aceitação de Responsabilidade Concepções de Usovalia 6. Participação e Desempenho Formalização de Intenções,
Concepções sobre Papel do Estudante
1. Investimento em Autonomia
Avaliação do Ensino e/ou Aprendizagem 2. Oportunidades de uso da língua no contexto
fora de sala de aula 3. Prática do Professor 4. Uso de Estratégias 5. Questões Identitárias
Concepções sobre Aprendizagem Pessoal Experiências de Aprendizagem
6. Atividades de Sala de Aula 7. Participação e Desempenho
Aceitação de Responsabilidade Expressão de sentimento: gosto,
apreciação relacionados a sala de aula, (i.e, dinâmicas, atividades propostas como jogos)
Concepções sobre Ensino de Inglês Concepções sobre Aprendizagem de Inglês Concepções de Usovalia
Os resultados encontrados a respeito dos elementos que promovem experiências bem- sucedidas, na visão dos estudantes, dispostos no quadro 10, são bastante similares. Estudantes da escola pública e da particular apontam predominante: seu investimento em autonomia, as oportunidades de uso da língua fora da sala de aula, avaliam sua aprendizagem em sala de aula, ou seja, destacam como e o que aprendem em sala de aula, a prática dos professores, e seu uso de estratégias para aprender. Ainda, em comum aos estudantes, são realçadas concepções de aprendizagem, concepções de usovalia, questões identitárias, atividades em sala de aula, aceitação de responsabilidade. Portanto, os estudantes apresentam concepções sobre como se aprende a língua, atribuem valor à língua estudada e à sua aprendizagem, e se identificam com pessoas falantes da língua e com a própria língua.
As experiências de interesse pela língua e sua aprendizagem, de esforço e persistência no processo de aprendizagem, de atitudes pessoais em prol da aprendizagem em sala de aula (como por exemplo, na fala de uma estudante de que tenta fazer a atividade proposta em sala de aula e quando tem dúvida recorre à professora), formalização de intenções sobre a aprendizagem da língua (como por exemplo, na afirmação de que quer falar inglês), concepções sobre papel do estudante (como por exemplo, que tenta se esforçar sempre pois veio para escola para estudar), foram valorizadas especialmente pelos estudantes da escola pública como elementos que promovem seu desenvolvimento na aprendizagem da língua. Isto poderia ser justificado, a meu ver, como eco das vozes de seus professores e pais de que os estudantes devem se comportar na sala de aula, esforçar, persistir, estudar, etc, para aprender e de pessoas significativas, falantes da língua, que são influência positiva para os estudantes.
Os seguintes excertos dos estudantes Ana Paula, Paulo, Jaqueline e Calebe trazem evidência dessas experiências destacadas na escola pública:
eu tento me esforçar sempre e é isso, porque eu vim pra escola pra estudar.(...)
Eu gosto [de inglês] e também me esforçar. Não deixo de lado o que eu tenho que fazer, e querer sempre mais.
Eu sempre faço os deveres de casa, os trabalhos eu sempre faço também. Se eu não entendo alguma coisa eu pergunto para o professor, pesquiso, (...)
[Excerto 71: Ana Paula, estudante da escola pública, professor João]
Eu presto bastante atenção nas aulas, os exercícios também ajudam muito, eu gosto muito de aprender e também eu acho que o João ensina bem, explica direito,
[Excerto 72: Paulo, estudante da escola pública, professor João]
Pro meu desenvolvimento? eu acho que uma das primeiras coisas é se comportar bem na sala, e o apoio da família também, que minha família me apoia muito, minha mãe. Nas aulas de inglês eu acho que é porque eu sou muito reservada e eu gosto muito assim de prestar atenção nas aulas, ainda mais na explicação. Meu professor de matemática sempre fala que a pessoa aprende quatro vezes: quando está explicando, quando ele passa uma atividade, quando pessoa faz uma atividade e quando a corrige. Então, eu acho o que é bom pra destacar na matéria de inglês é eu prestar bastante atenção, fazer os deveres, as atividades dentro de sala.
[Excerto 73: Jaqueline, estudante da escola pública, professora Angela]
Ah, realmente, é estudar o máximo que eu puder. (...). Ah, acho que é meu interesse mesmo. (...) Estudo e esforço...
Também porque minha tia fala inglês, ela voltou lá da Inglaterra, (...) Ela também que é minha influência no inglês, que eu sempre quis falar, e eu vejo que ela fala, eu quero aprender inglês.
[Excerto 74: Calebe, estudante da escola pública, professora Angela]
Os estudantes da escola particular, por sua vez, valorizam, no discurso sobre suas experiências bem-sucedidas, experiências sociais: dinâmicas de grupo em sala de aula; experiências cognitivas de aprendizagem em sala de aula; expressam concepções sobre ensino e
sobre aprendizagem de inglês e experiências afetivas de sentimento: gosto, apreciação. A meu ver, isto se explicaria, pelo fato de que os estudantes da escola particular, por terem mais anos de ensino formal de inglês, elaboram mais em seu discurso sobre experiências cognitivas e afetivas na sala de aula, percebem valor nas dinâmicas de grupo para aprender inglês e apresentam concepções sobre ensino e aprendizagem de inglês por terem vivenciado mais experiências.
Os excertos abaixo, de estudantes João Marcos, Rogério, Alice e da escola particular, apresentam, respectivamente, valorização ao ensino; apreciação por dinâmicas em grupo, relacionando-as ao desenvolvimento da conversação na língua, relato de aprendizagem na escola como marcante e expressão de concepções:
[a professora] ela dá exercícios diferentes, ela faz muita conversação. Ela fala assim: “Agora vocês vão conversar entre si”. Ela dá a matéria e às vezes ela fala: “Conversem entre si” (aí a gente lembra mais porque a gente tá conversando, a gente não tá só estudando, ao invés daquela coisa mais maçante que é a aula, fica um pouco mais leve, que a gente tá conversando com amigos aquilo que a gente tá estudando. Gosto muito da conversação. É muito divertido, principalmente as dinâmicas.
[Excerto 75: João Marcos, estudante da escola particular, professora Mariana]
Quando eu comecei [ a estudar] o que mais marcou foi conhecer os verbos, coisa que eu não sabia, isso ai ajudou bastante, daí pra frente que eu comecei a ter mais prática.
[Excerto 76: Rogério, estudante da escola particular, professor André]
Eu acho que na escola tem um método muito bom de aprendizagem do inglês, é um método fácil
[Excerto 77: Alice, estudante da escola particular, professor André]
Na escola, as atividades e os “para-casas”, os livros didáticos que também ajudam a formar, saber fazer as coisas, que a professora passa, além de complementar nosso aprendizado.
Partindo das constatações da análise comparativa, para efeito de visualização, apresento, a seguir, a Figura 3, com representação das experiências destacadas pelos estudantes. No espaço de interseção da figura, várias experiências comuns aos estudantes de ambos contextos são mostradas. À esquerda, experiências sinalizadas pelos estudantes da escola pública e à direita, experiências enfatizadas pelos estudantes da escola particular.170
FIGURA 3 - Elementos promotores de experiências bem-sucedidas de estudantes de escola pública e particular
170
A cor azul é usada na escrita dos elementos relacionados ao domínio da motivação, a cor roxa refere-se aos elementos do domínio contextual, a cor vermelha elementos do domínio cognitivo, a cor azul claro elementos do domínio social, a cor verde elementos do domínio conceptual, a cor rosa elementos do domínio afetivo.
Na convergência dos elementos que explicam experiências bem-sucedidas, observa-se que as subcategorias mapeadas nesta análise revelam: ações intencionais dos estudantes das escolas pública e particular – uso de estratégias para aprender, participação e desempenho em sala de aula, ligadas à motivação dos estudantes: investimento em autonomia, em questões identitárias e na aceitação da responsabilidade171. Suas ações, que promovem aprendizagem bem- sucedida, sofrem influência de suas concepções positivas sobre aprendizagem pessoal e de usovalia da língua e aprendizagem, sendo possibilitadas pelas oportunidades contextuais de uso da língua oferecidas pelo contexto escolar: prática dos professores, atividades em sala de aula e pelo contexto de fora de sala de aula – por meio dos recursos culturais.
Portanto, evidencia-se que os alunos, motivados para aprender, independente de pertencerem à escola pública ou à particular, aproveitam os propiciamentos encontrados no contexto da sala de aula e de fora de sala de aula, vivenciando, assim, experiências de sucesso na aprendizagem.
Tais dados documentam, que tanto os estudantes da escola pública quanto os da escola particular, no que tange à aprendizagem de língua, são bem-sucedidos, trazendo evidências que podem iniciar um movimento para desestabilizar o paradigma da impossibilidade de aprendizagem de inglês na escola, especialmente o da escola pública, como referido na literatura sobre insucesso neste contexto (GIMENEZ ET AL., 2003; PERIN, 2003; GASPARINI, 2005; UECHI, 2006). Mais ainda, esses dados corroboram o estudo de Miccoli (2008) que indica que
171
Elementos do domínio motivacional, segundo marco de referência de Miccoli & Bambirra (BAMBIRRA, 2009)
há mais similaridade do que diferença na comparação do ensino de língua estrangeira nas escolas públicas e particulares.
Nas especificidades dos dois contextos, observamos: nos alunos da escola pública características típicas de motivação: interesse, persistência, esforço, atitudes pessoais, formalização de intenções influenciadas pelas suas concepções sobre papel do estudante, enquanto que os alunos da escola particular, demostram participação ativa na sala de aula: expressam apreciação, gosto nas dinâmicas de sala, vivenciam experiências de aprendizagem certamente influenciados por suas concepções sobre ensino e sobre aprendizagem de inglês. Portanto, em ambos contextos, fatores que concorrem para o sucesso dos aprendizes são registrados.
A seguir, trato das percepções dos professores da escola pública e da escola particular possibilitando comparação dos dois contextos e, consequente, ampliação do entendimento das experiências de sucesso dos aprendizes.