(...) Querem impedir-nos de multiplicar-nos, perturbam a paz em que vivíamos em nossas terras: nelas nascemos livres e somos obrigados a tolerar que quatro pobres estrangeiros pretendam nos tornar escravos?31
Para aqueles anos iniciais de dominação, braço indígena foi usado na extração de pau-brasil, na coleta de drogas do sertão e de condução destes produtos para as feitorias. Em cartografia atribuída a Giacomo Gastaldi, de 1565, observamos este tipo de trabalho e sua remuneração através da prática de escambo [figura 18].
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31 Palavras de um cacique de Loreto (missões jesuíticas dos índios guaranis do Paraguai) que tentou afugentar os
jesuítas de suas terras. Ver HAUBERT, Máxime. Índios e Jesuítas no tempo das missões. São Paulo, Companhia das Letras, 1990. p. 144.
Além de trabalhos que exigiam força física, os nativos serviram de guias para os caçadores de pedras e metais preciosos, supostamente localizados nos sertões. As veredas desenvolvidas pelos autóctones foram fundamentais para o conhecimento, povoamento e posse do território.
Depois de familiarizados com os catecúmenos, os portugueses viam, portanto, uma ótima oportunidade para usar o seu poder como mecanismo de subjugação.
Frei Martinho de Nantes, quando estava em seu aldeamento missioneiro, localizado no médio rio São Francisco, escreveu a sua Primeira Relação. Informou que em 1670, certo fazendeiro português, Antônio de Oliveira, procurando pastagens para o seu gado, encontrou uma tribo de índios. Com intuito de não perder as suas manadas, nem a terra para a implantação dos currais, após ter oferecido medíocres presentes aos nativos, foi incontinente a Pernambuco, à procura de algum missionário, que quisesse estabelecer-se entre esses índios, para melhor proteção do gado que lhe pertencia.32
Para conquistar os fins almejados pela colonização, seria necessária a total aculturação dos catecúmenos através da catequese. As missões religiosas, iniciadas com a instituição do governo geral em 1549, cumpriram o jogo dialético de interesses: uso do braço indígena para o beneficio colonial e domesticação para o proveito da Santa Sé. Ou como bem disse Eduardo Hornaert que por trás do discurso doutrinário esconde-se um discurso guerreiro33, isto é, o sistema ao qual as missões religiosas estavam inseridas era
estruturalmente agressivo diante de indígenas e africanos, o discurso evangelizador não conseguiu escapar à agressividade(...). A terminologia evangelização passou a ser justificativa de opressão e escravização dos indígenas(...)34. Gentios convertidos justificavam presença e controle da união entre Coroa e Mitra, formariam um bem público sem os quais o Brasil se não poderia sustentar35. Significavam o aumento do patrimônio material das ordens
religiosas, transformados em mão-de-obra gratuita e terras para o cultivo dos padres e frades.36 Em que termos a conversão visou o benefício dos neófitos?
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32 NANTES, O.F.M. Cap. Martinho de. Relação de uma missão no Rio São Francisco: relação sucinta e sincera
da missão do padre Martinho de Nantes, pregador capuchinho, missionário apostólico no Brasil entre os índios chamados cariris. São Paulo, Editora Nacional, 1979. p. 1.
33 HORNAERT, Eduardo. História da Igreja no Brasil: ensaio e interpretação a partir do povo: primeira época,
período colonial. 5 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2008. p. 26.
34 HORNAERT, Eduardo. História da Igreja no Brasil: ensaio e interpretação...Opus cit., . p. 26. 35 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus..., Opus Cit., p. 181.
Parai de armazenar para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde ladrões arrombam e furtam. Antes, armazenai para vós tesouros no céu, onde nem a traça e a ferrugem consomem, e onde ladrões não roubam nem furtam. Pois, onde estiver o teu tesouro, ali também está o teu coração.37 [grifo nosso].
Verificando que seus hábitos e costumes culturais cambiavam, os índios reagiam aos abusos coloniais através de guerras, saques às vilas, fazendas38 e engenhos. Outra saída seria a
fuga para o interior da colônia, queriam proteger-se. Inicia uma caça intolerante. Os resultados são escravização, aprisionamentos e um território devassado, conhecido.
Com a instituição das capitanias hereditárias, a partir de 1532, e sob as ordens do rei D. João III, reforça-se a necessidade de mão-de-obra (ao exigir a efetiva posse dos seus domínios ultramarinos) e a produtividade das terras. A liberdade indígena estava ameaçada39. Até porque, segundo as ordens do Reino, os donatários tinham o poder de cativar os silvícolas para o seu serviço e dos navios, e de mandá-los vender a Lisboa até certo número cada ano livres de sisa40.
Um aspecto pouco abordado pelos pesquisadores do assunto diz respeito ao uso dos índios como contribuintes do sistema colonial. Interessante a abordagem de frei Vicente de Salvador sobre a prisão de índios por tribos rivais. Após a captura, levam o prisioneiro para vender aos brancos, os quais lhe compram por um machado ou foice cada um, tendo-os por verdadeiros cativos(...)41. Isto faz do índio vencedor, de um determinado clã, colaborador da
escravização de grupos rivais. Colaboração basilar ao sistema colonial.42
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37 Versículos tirados da Bíblia, no conhecido sermão do monte proferido por Jesus Cristo no Monte das
Oliveiras, localizado no evangelho de Mateus, capítulo 06, versículos 19 – 21.
38 O ouvidor do Piaui, Antônio Marques Cardoso, ao descrever o sertão piauiense, em 1727, para o rei D. João
V, disse que o motivo de muitas fazendas de gado estarem despovoadas se vinculou ao ataque dos índios aos gados criados nessas herdades. E muitos moradores, temerosos dos saques, mudam-se de lugar. Segundo as fontes primárias pesquisadas, a região das freguesias do Parnaguá e Jerumenha foram as mais afetadas pelas investidas dos silvicolas no interior da capitania do Piaui. Ver PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_016, Cx. 1, D. 35.
39 LOPES, Fátima Martins. Em nome da liberdade: as vilas de índios do Rio Grande do Norte sob o diretório
pombalino do século XVIII. Tese de doutorado. Recife, UFPE, 2005. p. 56.
40 MALHEIROS, Agostinho Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico e jurídico. Petrópolis, Editora
Vozes, 1973. v.2. p. 158.
41 SALVADOR, frei Vicente do. História do Brasil: 1500-1627. 7 ed. São Paulo, Edusp, 1982. p. 86.
42 Caio Prado Jr. já nos sinalizou sobre esta especificidade dos índios no processo colonizador. Os portugueses
aproveitaram-se dos indígenas não apenas para obtenção dele, pelo tráfico mercantil, de produtos nativos, ou
simplesmente como aliados, mas sim como elemento participante da colonização. Caio Prado Jr. apud Pedro
Puntoni. In A guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Nordeste do Brasil, 1650 – 1720. São Paulo, Edusp, 2002. p. 49.
Serafim Leite, em sua conhecida obra – História da Companhia de Jesus no Brasil – nos conta que, em 1592, o padre Amador Rebelo, escrevendo ao rei de Portugal, afirmou que as expedições de conhecimento e tomada do interior da Bahia seriam verdadeiras alegações para capturar os índios do sertão, ou como ele mesmo relatou: os práticos afirmam que não há minas, e que aquilo não é senão pretexto para tomar e saltear índios.43 O conhecimento do sertão, dentro dos suas especificidades geográficas, naqueles tempos primeiros da colonização e, de reboque, nos séculos seguintes de domínio português, estava relacionado com a procura aos nativos.44
A prática de trazer índios desde o sertão até a costa, tanto para fins educacionais- religiosos, nos aldeamentos missioneiros, como para uso escravo, foi conhecida como descimentos45. Ato concebido como deslocamento de povos localizados no interior para
novos aglomerados indígenas instalados no litoral, criados por particulares ou por alguma ordem religiosa. Os índios eram induzidos a uma suposta convivência pacífica com os moradores litorâneos.46 Este movimento de mão – dupla, sertão x litoral, realizado por padres, frades e sertanistas, visando o descimento dos catecúmenos, realçou o conhecimento do território, da cultura dos autóctones, fauna e flora, isto é, informações imprescindíveis para a conquista e posses futuras de terras sertanejas.47
Só no sertão de Orobó, área que pertencia à capitania da Bahia de Todos os Santos, foram transladados do hinterland, em dois anos, vinte mil almas.48 Fernão Cardim, a
propósito dos descimentos, divulgou a seu superior, que muitos dos recém batizados foram trazidos do sertão pelos padres. Aprendendo a língua dos colonizadores, os nativos serviram como intérpretes de novas entradas. Comunicando-se através do idioma português, índios e mamelucos batizados serviam de interlocutores para missionários e agentes coloniais. Situação muito corriqueira que auxiliou o cativeiro indígena.
Através de frei Vicente de Salvador sabemos que por ordem do governador do estado do Brasil49, deram as devidas licenças aos conquistadores do sertão para descer índios, usando a persuasão dos línguas (índios domesticados ou mamelucos conhecedores dos idiomas falados pelos indígenas). Em certas ocasiões, os catecúmenos eram migrados por vontade !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
43 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus..., Opus cit., p. 179.
44 PUNTONI, Pedro. A guerra dos Bárbaros: povos indígenas..., Opus cit., p. 29 – 30. 45 BELLOTO, Heloísa Liberalli. “Política indigenista no Brasil colonial..., Opus cit., p. 49. 46PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios livres e índios escravos: os princípios..., Opus cit., p. 118. 47 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus..., Opus cit., p. 173.
48 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus..., Opus cit., p. 182. 49 O autor não nos especifica qual o governador relacionado com os fatos.
própria, em outros casos, os conquistadores usavam a força da espada, isto é, de guerras para concretizar os seus intentos50. O religioso franciscano sobredito citou a entrada de Antônio
Dias Adorno. Trouxeram sete mil nativos do interior. Nessa façanha, utilizaram a ajuda de um gentio amansado, vulgarmente chamado de Porquinho.51 De Pernambuco...
(...) foram Francisco de Caldas, que servia de provedor da fazenda, e Gaspar Dias de Ataíde com muitos soldados ao rio de São Francisco e, ajudando-se do Braço de Peixe (outro índio domesticado), que era um grande principal dos tabajares, e da sua gente, que era muito esforçada e guerreira, entraram muitas léguas pelo sertão, matando os que resistiam e cativando os mais. Tornado-se depois pera o mar com sete mil cativos (...)52
Uma questão central acerca da escravização dos nativos, conflitos e descimentos de índios para aldeamentos localizados no litoral, se refere à posse de terras sertanejas para usufruto dos fazendeiros de gado. O uso da terra pelos curraleiros gerou a rivalidade dos índios, como também, de alguns missionários que detinham os poderes espirituais e temporais dos catecúmenos. O capuchinho Martinho de Nantes, escrevendo a sua Segunda relação, deixou a seguinte informação sobre o interesse dos fazendeiros:
O interesse de alguns particulares, que haviam colocado seu gado nas terras dos índios, sendo combatido por alguns missionários, que eles próprios haviam chamados para segurança de seu gado que pelo zelo da conversão dos índios, como os acontecimentos nos fizeram compreender, atiraram-se contra nós e empregaram todos os meios possíveis para nos afastar.53
Mesmas circunstâncias passaram os moradores da capitania do Rio Grande. Em carta ao rei, Dom Pedro II, no ano de 1697, o capitão mor daquela região julgava conseguir o intento de povoar os Sertõens, e precisamente o do Assú, metendo se gados em todas as partes porque desta sorte se aumentará logo em tudo esta Capitania, e subirião despois os Dízimos Reaes (...).54 Assegurou a dita autoridade a necessidade de guerra contra o índios (...) para deffensa e segurança dos gados (...).55
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50 SALVADOR, frei Vicente do. História do Brasil..., Opus cit., p. 180. 51 SALVADOR, frei Vicente do. História do Brasil..., Opus cit., p. 181. 52 SALVADOR, frei Vicente do. História do Brasil..., Opus cit., p. 182.
53 NANTES, O.F.M. Cap. Martinho de. Relação de uma missão no Rio São Francisco: relação..., Opus Cit., p.
40.
54PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_018, Cx.1, D. 42. 55PROJETO RESGATE. Ibidem.
Ao verificar as querelas provocadas pela tomada das terras dos indígenas, os monarcas lusos, com relativo apoio das autoridades coloniais, emitiram leis56, ordens e
alvarás numa tentativa de apaziguar as relações entre fazendeiros, índios e missionários. Compreender estas questões nos esclarece determinados fatos envolvendo, fundamentalmente, a liberdade dos índios, os seus direitos perante as leis coloniais e o povoamento da região.
Ação costumeira adotada pelos colonos consistiu nos chamados resgates, isto é, libertar os prisioneiros de uma tribo através de pagamentos irrisórios: ferramentas, contas de vidro e outras mediocridades.57 Gandavo, testemunha ocular deste fenômeno, disse que a troco destes produtos de pouquíssimo valor, vendião huns aos outros, e os portuguezes resgatavão muitos delles.58 Aqueles que resgatavam os índios podiam se servir deles, desde
que houvesse conversão e bons tratos. Porém, uma restrição deve ser analisada. No Regimento de 25.05.1624 só poderiam ser resgatados os indivíduos que estiverem presos à corda - índios que aguardavam sua morte, decretada pelos grupos indígenas dos quais eram prisioneiros. 59
O debate sobre a liberdade dos índios se notabilizou através da criação da Junta das Missões, em 1681, sob carta régia de seis de março do ano indicado. O objetivo da sua ereção abrigou o zelo pela prosperidade da fé católica, através da conversão dos silvícolas, nos domínios ultramarino de Portugal.60 Tal Junta seria formada por autoridades oficiais e
eclesiásticas, numa franca demonstração da união entre Trono e Mitra. Assistiram o Bispo, e em sua falta o Vigário Geral do Bispado, o Ouvidor Geral, o Provedor da Fazenda, o Governador da Capitania, encommendo-vos muito e mando que n’esta conformidade disponhaes este negócio (...)61.
A Junta das Missões, organização subordinada à Mesa de Consciência e Ordens, designava territórios para os missionários reduzirem os silvícolas, bem como as atribuições
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56 (...) que deveis uzar na repartição da legoa de terra, que se ha de dar a casa Aldeã de índios de vossa
Jurisdição, e principalmente os que se acham aldeados no districto da Capitania do Rio Grande (...) Me pareceo mandar-vos declarar por esta, que à ley de vinte e três de Novembro de mil sete centos se deve dar a execução, dando-se aos índios a terra, que n’ella se ordena para sua vivenda. VER ANNAES da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro. Volume XXVIII. Rio de Janeiro, 1906. p. 380.
57 BELLOTO, Heloísa Liberalli. “Política indigenista no Brasil colonial (1750 – 1757)..., Opus cit., p. 51. 58 GANDAVO, Pero Magalhães de. Tratado da terra do Brasil; História da província de Santa Cruz. São Paulo,
Edusp, 1980. p. 58.
59 PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação..., Opus cit., p. 128. 60 ANNAES da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro..., Opus Cit., p. 379.
que julgavam básicas para uma boa administração temporal e espiritual. Nos sertões nordestinos, devido à falta de comunicação e à precariedade das estradas, as normas e estatutos estabelecidos por essa instituição foram pouco praticadas, como mostrou a provisão do rei D. João V, em 1746, ao ouvidor geral da capitania do Ceará. Nesse documento são nomeados Juízes das Cauzas da Liberdade dos Índios (...) pella difficuldade em Juncta das Missões na execução das leis pellas grandes distancias, e longes daquelle governo(...).62
A fragilidade na execução e cumprimento das normas estabelecidas pela Junta das Missões podem ser vistos pela dimensão territorial dos bispados onde estavam localizados os aldeamentos missioneiro. O de Pernambuco, por exemplo, criado em 167663, atendia espiritualmente desde o rio São Francisco, muito abaixo da vila da Barra do Rio Grande, até o Ceará. Agrupou as capitanias subalternas de Alagoas, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte.64
Somente no reinado de D. José I apoiado, principalmente, pelo Conde de Oeiras, o futuro Marquês de Pombal, percebe-se a fragilidade operacional da Junta das Missões. Tendo a sua destituição oficial ocorrida em 175965. Entretanto, com a política pombalina ocorreu um
lento processo de separação entre a Igreja e o Estado português66. A necessidade de evitar as confusões das jurisdições espirituais e temporais, com seus conseqüentes danos, foram reforçados, primariamente, com o Alvará de 07/01/1755, que buscou a honra, emprego e dignidade dos índios67.
O período pombalino (1750 - 1777) é visto como uma tentativa à emancipação do índio brasileiro diante da dominação eclesiástica exercida pelos religiosos. O sertão nordestino não ficou à parte das tramitações impostas por D. José I. Muitos são os documentos da época colonial que corroboram este pressuposto. Por exemplo, após a expulsão dos padres da Companhia de Jesus em 1759, o governador da capitania de
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PROJETO RESGATE. AHU_ACL_N_CEARÁ, Cx. 6, D. 271.
63 Segundo Furtado de Almeida em seu título, “História da Igreja em Portugal”,o bispado de Pernambuco foi
criado pela bula Ad sacrum Beati Petri, de 16 de Novembro de 1676, e a pedido de D.Pedro II, desmembrou o papa Inocêncio XI do bispado da Bahia. Seu primeiro bispo foi D. Estevão Brioso de Figueiredo. Ver ALMEIDA, Furtado de. História da Igreja em Portugal. Vol II. Lisboa, Livraria Civilização – Editora, 1968. p. 41.
64 MELLO, Márcia Eliane apud FRANCESCONI, Agatha. O Trâmite da fé: a atuação da Junta das Missões de
Pernambuco, 1681 – 1759. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH, 2009. p. 33.
65 ASSUNÇÃO, Paulo de. Negócios Jesuíticos: o cotidiano da administração dos bens divinos. São Paulo,
Edusp, 2009. p. 42.
66 MARX, Murillo. Cidades no Brasil, terra de quem? São Paulo, Edusp, 1991. 143 p.
67 SILVA, Jacionira Coelho. Arqueologia no médio São Francisco: indígenas, vaqueiros e missionários. Tese de
Pernambuco, Luís Diogo Lobo da Silva, em carta a Sebastião José de Carvalho e Melo, indicou algumas características essenciais à liberdade dos índios:
(...) relativas aos péssimos estabelecimentos das novas Villas, e lugares, q’ a heróica constacia de Vossa Magestade Fidelíssima manda erigir das antigas Aldeyas, restituindo aos seus habitadores à liberdade e izençao de q’ tanto careciao e facilitando-lhes o passo a sahirem das trevas da ignorância em q’ erão conservados por políticos particulares dos mesmos destinados a destrui- las. (...) 68
Para saírem das trevas e alcançarem a luz fornecida pela política racional pombalina, seria útil introduzir aos silvícolas o comércio, a agricultura e diminuir as distâncias entre as povoações do sertão.69 Facilitar a civilização dos íncolas por meio do intercâmbio cultural e econômico, introduzindo vizinhos portugueses naquilo que viria a se tornar uma vila ou lugar de índios. Seria fundamental a presença de um diretor, cujas obrigações buscaram colocar o indígena na sociedade civil.70
Os ideais supracitados não modificaram as atitudes dos colonizadores ou dos agentes coloniais no modo de tratar os índios. A caça, os descimento e o indiscriminado uso dos catecúmenos persistiram no panorama social do interior do nordeste em todo o período pombalino, ultrapassando para os reinados ulteriores. A criação da redução de índios Guegué denominada pelo governador da capitania de São José do Piauí, João Pereira Caldas, de São João de Sende (hoje cidade de Regeneração – PI), foi desenvolvida devido um grande descimento envolvendo quinhentos e cinqüenta e oito índios. Sendo eles, para a dita autoridade colonial, pella qualidade do inimigo, sem duvida o mais feroz, e que mais hostilidades fazia a todos estes moradores.71
Acontecimento similar encontramos na formação do aldeamento missioneiro de Nossa Senhora das Mercês sob a administração espiritual dos mercedários, formada !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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PROJETO RESGATE. AHU_ACL_N_CEARÁ, Cx. 6, D. 464.
69 O rei D. José I escreve em carta datada de 17 de junho de 1761 ao governador da recém criada capitania de
São José do Piauí, João Pereira Caldas: (...) Hatendose a que me faria a observância das Leis se nao pode athé
agora conseguir para della instar aquelle indispensável fruto pella vastidão da mesma Capitania vivendo os seus habitantes em grandes distancias huns dos outros sem a communicação como inimigos da sociedade civil e do commercio humano padecendo assim os descômodos e os lugares muito remotos e longínquos de sorte que quando lhes chegam os despachos vem tão tarde que nao servindo para o remedeo das queixas lhes trazem
sempre a ruína (...) - PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_018, Cx.8, D.450.
70 FLEXOR, Maria Helena Ochi. “Cidades e vilas pombalinas no Brasil do século XVIII”. In Universo
urbanístico português, 1415-1822. Lisboa, Comissão Nacional para as comemorações dos Descobrimentos
portugueses, 1998. pp. 257 – 258.
basicamente por índios da nação Jaicó. Informando o secretário de estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, novamente o governador da capitania de São José do Piauí relatou:
Na ribeira do Itahim pertencente a Freguezia desta Cidade (Oeiras – PI), e na distancia de couza trinta legoas existe uma Povoação de índios da Nação chamada Jaicó (...). Para esta mesma povoação nomeei eu no fim do anno