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Örtülü Bilginin Yönetimi Açısından

3.5. REKABET HUKUKU UYGULAMASINDA ONTOLOJİLERİN GETİRECEĞİ

3.5.2. Örtülü Bilginin Yönetimi Açısından

(...) Parti daquella Capitania para o Piahuy já na idea de entreprender (sic.) desde logo a construção do Mapa Geográfico desta Capitania (...) observando miudamente os rumos das estradas, medindo suas distancias, e tomando freqüentemente as alturas para latitude, e fazendo todas as observações de longitude que me foy possível (...)77

Em nossa Viagem científica pelo sertão nordestino (realizada entre os meses de fevereiro, março e abril de 2010, além do mês de fevereiro de 2011), averiguamos a persistência do isolamento que muitos sertanejos vivenciam nestes tempos da informação globalizada. Como ilhas localizadas no árido solo da caatinga, muitas cidades não possuem, em suas prefeituras ou outros órgãos municipais competentes, dados cartográficos que contam o percurso evolutivo das estruturas urbanas: ruas, quadras, lotes, entre outras. Tal precariedade, fruto muitas vezes do desinteresse das gestões públicas, é um mote antigo, o que fez desta pesquisa uma verdadeira garimpagem em instituições espalhadas pelo Nordeste e Sudeste brasileiro.78

Compreender o isolamento, a dispersão e a tentativa de diminuir estes dois percalços equivale fazer uma análise empírica dos dados representados em velhas cartografias e iconografias adquiridos em dois anos de pesquisa acadêmica. Ter em mente a relação - interior x litoral - nos elucida fatos como povoamento do território sertanejo, o interesse da metrópole lusa em terras afastadas do litoral, a atuação da igreja como uma das pioneiras em adensar a população dispersa e como o estrangeiro via esta região de formação sui generis. A cartografia79, elemento material da cultura, “corporiza” tais relações sociais, dando-nos um

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77 Descrição dos métodos adotados pelo engenheiro militar, João Antonio Galucio, no que diz respeito à nova

capitania criada, São José do Piauí, em 1758. Ver manuscrito em PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_016, Cx.7, D. 437.

78 Agradecemos ao Instituto de Estudos Brasileiro (IEB), a Casa de Portugal e a Cátedra Jaime Cortesão,

localizados no estado de São Paulo. Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e o Arquivo Histórico do Exército Brasileiro, ambos instalados no Rio de Janeiro, conseguimos mapas e iconografias que ajudaram nossa compreensão acerca da urbanização do sertão nordestino. No Nordeste agradecemos as informações obtidas na Prefeitura das cidade de Oeiras – PI, Icó-CE e Triunfo – PE. Foram mais que úteis as velhas fotografias adquiridas na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) e no Arquivo Histórico da Diocese do Crato – CE.

79 No dicionário de Raphael Bluteau (1712), selecionamos o verbete carta para deduzirmos o que há por trás do

significado deste termo, colaborando com nossas explanações apresentadas neste subtópico. Para o autor, carta

geographica, em geral. He uma descripção, ou representação de toda a terra, ou de alguã parte della em huma, ou em muitas grandes folhas de papel. (...) Carta, em que se vê só a descripção de algum paìs, ou lugar.

panorama da urbanização encerrada no sertão nordestino e sua respectiva evolução territorial. Por trás das impressões cartográficas há realismo,80 por isso o estudo dos elementos

iconográficos é fundamental para o conhecimentos das estratégias políticas, exercidas pelas potências européias, buscando aperfeiçoar as táticas de colonização e controle do território subjugado. 81

Os primeiros mapas descritivos da Terra de Santa Cruz são específicos em identificar uma terra não descoberta, a terra non descoperta de Giacomo Gastaldi [figura 18, p. 51] referindo-se ao interior dos novos domínio. Escambo, extração do pau-brasil, mão-de-obra indígena e armazenamento dos produtos nas feitorias são índices visualmente comprovados pela carta do italiano. Um olhar mais apurado para os desenhos inscritos na figura 18 revela a localização, quase que precisa, dos principais cursos fluviais82 que serpenteiam o sertão.

Murillo Marx, em um poético artigo intitulado - Olhando por cima e de frente – opinou que o território colonial brasileiro começou a ser visto pelos cartógrafos, por cima, através dos mapas em escalas reduzidas em que abarcavam com acuidade crescente o contorno continental, e onde os primeiros estabelecimentos seriam acusados por legendas ou pontos específicos.83 A mira dos desenhistas do Reino ou estrangeiros figura, segundo as condições técnicas da época, os elementos naturais e artificiais da nova terra.

É o caso dos desenhos legados pelo cosmógrafo84 João Teixeira Albernaz, o segundo. Em seu Atlas do Brasil, elaborado em 1666, a costa é delineada a vôo de pássaro. Os principais acidentes geográficos são mostrados com a precisão técnica da época. O sertão

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BLUTEAU, Raphael apud BUENO, Beatriz P. Siqueira. Desenho e desígnio: O Brasil dos engenheiros

militares (1500 – 1822). Tese de doutorado. São Paulo, Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo

(FAU USP), 2001. p. 654.

80 LEPETIT, Bernard. Por uma nova história urbana. Seleção de textos, revisão critica e apresentação Heliana

Angotti Salgueiro; trad. Cely Arena. São Paulo, Edusp, 2001. 209.

81 BUENO, Beatriz P. Siqueira. “A iconografia dos engenheiros militares no século XVIII: instrumento de

conhecimento e controlo de território”. In Universo Urbanístico português (1415 – 1822). Lisboa, Comissão Nacional para as comemorações dos Descobrimentos portugueses, 1998. p. 91.

Para aprofundar as questões sobre a atuação da cartografia na regulação do território colonial brasileiro, mostrou-se leitura corrente a tese de doutorado da Profa. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, defendida na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo – FAU USP – e, intitulada de “Desenho e desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500 – 1822)”.

82 Estão nomeados e sinalizados os rios Real, São Francisco, Mearim, Itapicurú e Pinaré – eixos fundamentais

para o processo de povoamento e urbanização dos sertões da Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão.

83 MARX, Murillo. “Olhando por cima e de frente”. In Revista da USP. nº30. Junho / Agosto. São Paulo, 1996.

p. 170 -181.

84 A função do cosmógrafo-mor, para Beatriz Bueno, não se restringia à orientação e supervisão da preparação

das extensas cartas náuticas e geográficas, como da instrução dos jovens fidalgos no exercício da matemática e suas aplicações à geometria, astronomia, náutica, cosmografia e arquitetura. Ver BUENOS, Beatriz P.

Figura 19 – Demonstração do rio das Preguiças athe o Seara. Mapa atribuído a João Teixeira Albernaz II. Disponível em http://www.bn.br. Acesso em 02.06.2010.

nordestino, para Albernaz, não passava de um território desértico, com poucos caminhos terrestres, quase nulos, destacando-se visualmente os rios que uniam o desconhecido interior ao litoral. Ilustrando nossa assertiva, temos a carta Demostração do Rio das Preguiças athé o Seará, cujos originais encontram-se na Fundação da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [figura 19].

Como dissemos, as primeiras investidas para conquistar o sertão nordestino estavam voltadas, já no século XVI, às minas de ouro e prata escondidos no El Dorado, ou numa utópica lagoa situada no centro da colônia. Além do holandês, Joan Bleau, citado anteriormente na figura 16, João Teixeira Albernaz II se ocupou em indicar a presença do segundo local mítico em alguns de seus mapas, auxiliando a proliferação dessa flexível estória fantástica [figura 20]. Esboça-se, mesmo que de forma incipiente, o curso do rio São Francisco, como via condutora ao interior. A hierarquia da frágil rede urbana brasileira, limitada à costa, pode ser atestada pelas indicações das vilas de São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Porto Seguro e da cidade de Salvador da Bahia de Todos os Santos. Ainda na figura

Figura 20 – Província do Brasil. Cartografia elaborada por João Teixeira Albernaz II. Disponível em

http://www.bn.br. Acesso em 02.06.2010.

20, vê-se o desconhecido, o dilatado e o imprevisível como características reais do hinterland nordestino e brasileiro.

Com a instituição do governo geral, Dom João III estabeleceu uma organização mais vigorosa, sólida o bastante para concretizar os seus ideais de ordem interna85, devido à

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85 ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial, 1500-1800. 7ed. rev. São Paulo, Publifolha, 2000. p.

acirrada procura por piratas e mercadores estrangeiros dos produtos naturais brasileiros e da terra que pertencia à Ordem de Cristo. Olhando mais de perto os seus domínios americanos, os monarcas portugueses, através dos seus funcionários especializados, viam a produção cartográfica como material apropriado às especificidades bélicas. Francisco de Holanda apontou esta particular qualidade dos mapas:

Digo pois que arte da Pintura e o Desenho se bem servem a república cristã em o tempo da paz, que muito melhor a servem (onde se dela melhor sabem aproveitar que em Portugal) no tempo da guerra, e Re Militar, de que escreve Vegécio e outros. Bem sabe se é isto verdade Itália e França e outras províncias, assim de fiéis como de infiéis. Porque o desenho da guerra vai bem desenhado, é vencida. Mas se o desenho vai descomposto, dê-se por perdida. Sirva-se pois Vossa Alteza do Desenho da pintura nas coisas da geurra: e verá quanto revela, e como nenhuma cisa sem ele será perfeita.86[grifo nosso].

Locar as tribos indígenas residentes do sertão foi um partido adotado pelos cartógrafos, talvez para assegurar e proteger a colônia da subversão indígena se porventura emergisse uma faina entre colonos e nativos. Na visão do estrangeiro, a identificação das etnias ameríndias favorecia o contato entre forasteiros e autóctones, objetivando a tomada, conquista e posse das terras. Durante a era dos batavos no Nordeste, sérios historiadores87

narraram o uso que fizeram os holandeses da força indígena, com intuito de derrotar os seus oponentes lusos. Supomos que o mapa de Joan Bleau [figura 21], datado de 1640, envolva essa estratégia, por elencar diferentes grupos indígenas em seu desenho.

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86 HOLANDA, Francisco de. Apud BUENO, Beatriz P. Siqueira. In “A iconografia dos engenheiros militares no

século XVIII...”, Opus Cit., p. 93.

87 Capistrano de Abreu, José Gonsalves de Mello, Barbosa Lima Sobrinho, Raymundo Faoro, entre outros,

Figura 21 – BLEAU, Joan. Nova et Accurata Brasiliae totis Tabula. 1640. Disponivel em http://www.bn.br. Acesso em 18. 11. 2010.

Realizando um paralelo entre as figuras 16 [ver primeiro subtópico deste capítulo] e 21, criadas pelo mesmo autor, distinguimos o grau de conhecimento e evolução territorial que o interior do Nordeste tomou nestas representações cartográficas. No primeiro, o interior do continente é figurado como uma região incógnita, onde residem os mitos divulgados pelos índios e é irrigado por alguns dos principais cursos de água. A segunda carta é delimitada por uma mancha, na cor marrom (centro do país), unindo boa parte da área que encerra o sertão

do Nordeste. São listadas tribos dos nativos, principalmente os Tapuias88 e Caetés; e as rotas

fluviais apresentam um contorno aproximado do real.

Dois foram os fatores que, ao nosso ver, minimizaram as dúvidas sobre o desconhecido, no que dizia respeito ao espaço geográfico sertanejo: busca de ligação entre as capitais de São Luiz do Maranhão e Salvador, através de caminhos terrestres, e a criação de gado – economia voltada basicamente para o mercado interno colonial brasileiro.

As dificuldades de navegação na costa maranhense interferiram nas transações econômicas e culturais entre a capital da colônia, Salvador, e a capital do Estado do Maranhão. Até o litoral cearense, a presença de baixios perigosos, arrecifes e correntes contrárias à navegação fizeram do trajeto pelo mar um dos mais difíceis de realização89. O pe.

jesuíta Antônio Vieira provou dessa peculiaridade marítima quando disse: uma das mais difficultosas e trabalhosas navegações de todo o mar Oceano he a que se faz do Maranhão até o Ceará por costa, não só pelos muitos e cegos baixios, de que toda está cortada, mas muito pelas pertinácias dos ventos, e perpetua correnteza das águas.90

O fator supracitado fortaleceu as considerações das autoridades coloniais no que tange à construção de estradas que unissem as duas cidades. Vale destacar que o rei, Dom Pedro II, em 1696, agradeceu ao então governador geral do Brasil, D. João de Lencastre, sobre a criação de um caminho terrestre, passando pelos muitos sertões nordestinos91. Lencastre deu informações que hoje de pode ir e vir, daquelle Estado com muita facilidade. Como meio de facilitar o traslado por este novo caminho, foi incumbido o ouvidor geral do Estado do Maranhão, Dor. Mel. Nunes Colares, acompanhado de um jesuíta, Jacob Cloceo, que fizerão o seu Roteiro, e Mappa (...) para mayor clareza e conhecimento do Sertam. 92 A carta elaborada pelo inaciano foi usada para repartir as terras para que dadas em Sismarias !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

88 Serafim Leite esclarece que os índios classificados como Tapuias são, genericamente, aqueles que não

falavam a língua tupi-guarani. Porém, não eram de uma mesma etnia, porque tinham diversas línguas que os separavam por subgrupos. LEITE, Serafim. “João de Barros, lisboeta, apóstolo dos Quiriris e Acarases.” In

Congresso do mundo português. Vol. IX. Tomo I – Do descobrimento a ocupação da costa. Lisboa, Comissão

Executiva do Centenário, 1940. p. 474.

Entre essas tribos que se inserem no sistema étnico dos Tapuias podemos citar os Cariris, Janduís, Jaicós, Acaroas, Paiaiases, Icós, Icozinhos, Rodeleiros, Beiçudos, Precatis, Carapotangas, Pimenteiras, Guegués, Aruás, Acumes, Urius, Abetiras, Cupinharós, Macamasus, Anicuás, Alongas, entre outras. A listagem completa pode ser vista em MOTT, Luiz Roberto B. Piauí colonial: população, economia e sociedade. Teresina, Projeto Petrônio Portela, 1985. p. 112 – 113.

89 STUDART FILHO, Carlos. “Vias de comunicação do Ceará colonial”. In Revista do Instituto do Ceará. Tomo

LI. Fortaleza, 1937. p. 19.

90 VIEIRA, pe. Antônio. Apud STUDART FILHO, Carlos. Vias de comunicação do Ceará colonial”. In Revista

do Instituto do Ceará..., Opus cit., p. 19.

91 PROJETO RESGATE. AHU_ACL_N_MARANHÃO, D. 957.

Benzer Belgeler