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2.2. ONTOLOJİ NEDİR

2.2.2. Ontoloji Nasıl Oluşturulur

Outra proposta metodológica deste trabalho abarcou a análise de velhas fotografias de povoações sertanejas. Esse artefato artístico, produto da cultura material, propicia a inusitada possibilidade de autoconhecimento, criação artística, memória e historicização do tempo31. A relação tempo x espaço cristaliza-se, temos um mundo portátil e fragmentado, revelador de aspectos peculiares de um povo, de uma cultura, sociedades, cidades, de um ser, de tempos...A foto faz com o meu sertão se torne familiar aos leitores.

Novamente, localizar fotografias tomadas no início do século passado apresentou uma tarefa difícil. Quando encontrávamos algumas, os donos das mesmas relutavam em doar. Em outros casos, protelavam o envio da imagem digitalizada. Murillo Marx, primeiro orientador desta dissertação, em 2009 me disse: meu velho, o melhor a fazer é viajar, sentir os espaços,

vasculhar onde for necessário, e não esqueça: pense sempre com os olhos”. Essa última

sentença marcou o rumo metodológico aplicado ao trabalho. Reunir velhas imagens e velhas cartografias, sentir os espaços públicos dos aglomerados sertanejos, conceituar sobre o contemplado. Nasce, portanto, a partir dessas premissas nossa Viagem científica pelo sertão

nordestino, título batizado “carinhosamente” por Murillo.

A eleição das cidades a serem visitadas seguiu os seguintes critérios: núcleos que foram elevados à categoria de freguesias, vilas e cidades ao longo do período colonial; aglomerados que, nos primórdios de sua urbanização, serviram de aldeamento missioneiro; por fim, municípios que se estruturam fisicamente às margens dos velhos caminhos do gado e estradas coloniais. A análise das experiências sentidas, visualmente e in situ, serviram para fundamentar nossas considerações sobre a urbanização da hinterlândia nordestina.

Damián Bayón32, autor do livro Pensar con los ojos, esclareceu que para ser um bom viajante ou um bom historiador é necessário entrar en contacto con el mundo exterior,

asumirlo. Uno se pierde, pregunta, descubre, se integra33. Consequentemente, distingue os

pesquisadores de arte em fotógrafos e os que não o são:

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31 KOSSOY, Boris. Fotografia e história. 2 ed. São Paulo, Ateliê Editorial, 2001.

32 BAYÓN, Damián. Pensar con los ojos. 2 ed. Cidade do México, Fondo de Cultura Económica, S.A., 1993.

400 p.

(...) en el momento de disparar cada instantânea un vínculo se establece entre las cosas y nosotros. El registro mecânico demuestra a la larga ser más espiritual y duradero que gritos y exclamaciones. A las palabras se las lleva al viento; la imagen, buena o mala, queda. Y es precisamente porque queda, como yo recuerdo y considero haber vivido cien veces, mil, más que el historiador-crítico antiautomovilístico y antifotográfico por definición. (...)34 Munido de uma simples câmera fotográfica, viajei pelo semi-árido, testemunhando, comprovando e sentido os relatos dos viajantes estrangeiros, admirados com as várias faces da caatinga. Percorri seis cidades sertanejas: Exú (PE) [figura 02], Ouricuri (PE) [figura 03], Oeiras (PI) [figura 04], Icó (CE) [figura 05], Crato (CE) [figura 06] e Barbalha (CE) [figura

07], faltam muitas...Ali registrei remanescentes do traçado colonial, cristalizei momentos do

cotidiano, buscando vestígios de uma memória social passada; desenhei a forma dos aglomerados e dos principais edifícios (igrejas, casas de câmara e cadeia, casas de escravos), percebi o espaço e “pensei com os olhos” como o boi e os missionários criaram elementos que persistem no casco viejo dos municípios visitados.

Ao mesmo tempo, procurei os órgãos municipais para ver se forneciam fotos e cartografias da cidade. Devemos destacar a gentileza do Arquivo Histórico da Diocese do Crato (AHDC) que nos doou um cd com mais de 400 imagens digitalizadas do Crato, onde estão “congeladas” a paisagem urbana oitocentista, resquícios de um projeto setecentista, entre outras questões que abordaremos no sexto capítulo desta monografia. Em Recife, a FUNDARPE nos deixou digitalizar fotografias, tiradas na década de oitenta do século XX, de aglomerados pernambucanos situados às margens do rio São Francisco e alto sertão do estado.

Somando todas as fotografias (de nossa autoria e adquiridas nas repartições de pesquisa) temos um total de 1.400 fotos que abordam temas múltiplos: apropriação do espaço público, usos da cidade, hierarquia e funções urbanas, arquitetura colonial, qualidade dos espaços livres, praças, fazendas de gado, engenhos de rapadura e aguardente, igrejas, casas de câmara e cadeia, entre outros temas. Contudo, não exporemos exaustivamente muitas imagens; pelo contrário, selecionamos àquelas que são basilares ao entendimento da formação do sistema urbano sertanejo e do desenho intraurbano dos núcleos.

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Figura 02 – Exú – PE. Foto do autor, 2010. Figura 03 – Ouricuri– PE. Foto do autor, 2010.

Pierre Francastel informou, mesmo que indiretamente, a intenção encontrada nos eventos materializados na fotografia, quando nos diz: (...) o conhecimento das imagens, de

sua origem, suas leis é uma das chaves de nosso tempo. (...) É o meio também de se julgar o passado com olhos novos e pedir-lhe esclarecimentos condizentes com nossas preocupações presentes, refazendo uma vez mais a história à nossa medida, como é direito e dever de cada geração 35. E as fotos contribuem para uma outra visibilidade, sensível e abdutiva: de se pensar con los ojos:

A decir verdad, acercarse a los monumentos, estudiarlos, discutirlos me produce tanto placer - aunque de otra índole – como el de contemplar la obra de arte aislada y en todo su esplendor. Para mí, no obstante, esa obra que me deleita siempre quiere además decir algo, algo que transmite, señala hacia algo que no se agota en el simple placer de la contemplación, por apasionada que ella sea.

(...)

Si el título expresa bien lo que deseo, Pensar con los ojos será la reivindicación de dos de nuestras más admirables prerrogativas humanas: la de ver y la de meditar sobre lo contemplado36.

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FRANCASTEL, Pierre. A realidade figurativa. São Paulo, Perspectiva, 1972.

Figura 04 – Oeiras - PI. Foto do autor, 2010. Figura 05 – Icó - CE. Foto do autor, 2010.

Figura 06 – Crato - CE. Foto do autor, 2010. Figura 07 – Barbalha - CE. Foto do autor, 2010.

Figura 08 – Crato - CE. Foto cedida pelo AHDC. Figura 09 – Amarante - PI. Imagem disponível em http://www.ibge.gov.br. Acesso em 26.12.2009.

Figura 10 – Rio de Contas - BA. Imagem disponível em http://www.ibge.gov.br. Acesso em 18.09.2010.

Figura 11 – Triunfo - PE. Foto cedida pela FUNDARPE - PE.

Figura 12 – Caxias - MA. Foto disponível em

http://www.ibge.gov.br. Acesso em 11.03.2010.

Figura 13 – Regeneração - PI. Foto disponível em http://www.ibge.gov.br. Acesso em 18.09.2010.

Figura 14 – Vila de Simbres - PE. Em primeiro plano a casa de Câmara e cadeia. Foto cedida pela FUNDARPE -PE.

Figura 15 – Santa Maria da Boa Vista - PE. Foto original da FUNDARPE - PE

Benzer Belgeler