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4.3. ARAŞTIRMANIN BULGULARI

4.3.3. Çıkarımsal İstatistik Temelinde Bulgulanan Verilerin Analizi

4.3.3.5. Regresyon Analizi

As duas personagens principais, o duque de Auge e Cidrolin, estão uma no sonho da outra. Cidrolin vive na atualidade, em 1964, ano em que o romance foi escrito, e tem sonhos contínuos nos quais o duque vive aventuras ao longo de sete séculos, em saltos de exatos 175 anos. Tudo se passa como um espelho nas vidas das duas personagens: os dois têm três filhas e três genros, os dois são viúvos e assim por diante, cada personagem que aparece numa das histórias tem seu correspondente na outra. O leitor não sabe nunca qual das histórias é real e qual é apenas sonho. O romance traz, portanto, não uma intriga, mas duas intrigas que seguem paralelamente e que só se juntam no final, quando as duas personagens se encontram em 1964. No entanto, trata-se de intrigas pobres e, como veremos, não é a elas que se restringe o interesse do romance. Ainda assim, essas duas intrigas entrelaçadas compelem o leitor a circular todo o tempo num mundo duplo em que, por sua vez, personagens, lugares, assuntos, tudo também é duplo:

A presença obstinada dos contrários-complementares que avançam lado a lado em todos os níveis (mobilidade e imobilidade, sonho e realidade, passado e presente, história linear e história circular, etc.) e que acabam por se juntar e se fundir como Auge e Cidrolin, permitem reconhecer a vontade obstinada de Queneau de ultrapassar a dualidade do ser e do mundo ‘que nos exila de nosso próprio lugar’, definido como ‘uma parábola espiritual’, talvez seja, através de sua plurivocidade, fundamentada na ideia essencial do taoísmo na versão simplificada que passou no Ocidente, que tem em seu centro a ultrapassagem do dualismo e cuja figura bem conhecida do yin e do yang une, num mesmo círculo, ao mesmo tempo o branco e o negro. 44

De início perguntamo-nos porque o título Les Fleurs bleues (As Flores Azuis). Em francês, ser “fleur bleue” (flor azul) significa ser excessivamente sentimental, ingênuo, algo como “água com açúcar” em português. No entanto, como diz Corinne François, esse

44 “La présence obstinée des contraires-complémentaires qui avancent côte à côte à tous les niveaux

(mobilité et immobilité, rêve et réalité, passé et présent, histoire linéaire et histoire circulaire, etc.) et qui finissent par se rejoindre et se fondre, comme Auge et Cidrolin, permettent de reconnaître la volonté obstinée de Queneau de dépasser la dualité de l’être et du monde « qui nous exile de notre propre lieu », défini comme « une parabole spirituelle », est peut-être bien, à travers ses voies et ses voix plurielles, fondé sur l’idée essentielle du taoïsme dans la version simplifiée passée en Occident, qui a en son centre le dépassement du dualisme et dont la figure bien connue du yin et du yang unit, dans un même cercle, à la fois le blanc et le noir.” (JATON,Anne Marie. Les Fleurs Bleues – Bilan Provisoire. In : Europe – revue littéraire mensuelle – avril 2003, pp. 56-57).

“romance nega a sentimentalidade, reduzindo o amor à sexualidade” 45. Esse sentido da expressão não justifica, portanto, o título do romance a não ser que o entendamos como um título por antinomia, ou seja, que mostre exatamente o oposto, frustrando as expectativas de quem lê o romance. Assim, como Zazie dans le métro conta as aventuras da menina que não consegue entrar no metrô, Les Fleurs bleues seria um romance em que não há nenhuma personagem “flor azul”. Ao contrário, as personagens de Les Fleurs bleues não só não têm sentimento amoroso, como também não demonstram interesse por coisa alguma. Auge passa pela história sem tomar parte dela; Cidrolin, todo o tempo sem fazer absolutamente nada. De fato, agrada a Queneau a utilização de antinomias, como por exemplo, no próprio romance, no momento em que Cidrolin explica a sua namorada Aalice por que a chata em que vivem chama-se “Arca”:

- Vamos continuar até a Arca.

- Por que ela se chama a Arca? perguntou Aalice.

- Provavelmente porque não hospeda nenhum animal, respondeu Cidrolin.46

A expressão “flores azuis” é citada apenas duas vezes em todo o romance: no primeiro capítulo quando, depois de considerar a situação histórica, o duque resolve partir em viagem e diz a seu cavalo: “- Longe! Longe! Aqui nossas várzeas não têm flores. -... azuis, eu sei.” 47 e no último, quando depois do dilúvio, o duque novamente considera a situação histórica e constata que “aqui e ali, já desabrochavam pequenas flores azuis” 48. Esta é, aliás, a última frase do romance, que funciona como um recomeço, indicando uma história cíclica.

Há, no entanto, uma outra passagem em que aparece a palavra “flores”, ainda que sem o adjetivo “azuis”. E talvez seja essa ocorrência que explique melhor o título. Trata-se de uma cena do capítulo V, em que o duque conversa com o seu chefe de cozinha e, quando este observa que ele está se repetindo, responde, retomando uma metáfora usual, que “a repetição

45 “notre roman déjoue la sentimentalité, ramenant l’amour à la sexualité.” (FRANÇOIS, Corinne.

Connaissance d’une œuvre : Les Fleurs bleues. Rosny: Bréal, 1999 p. 29)

46 “- On va continuer jusqu’à l’Arche.

- Pourquoi ça s’appelle l’Arche ? demanda Lalix.

- Sans doute parce qu’il n’y loge aucun animal, répondit Cidrolin.” (QUENEAU, Raymond. Les Fleurs bleues. Paris: Gallimard, 1965. p. 183).

47 Nossa tradução para “ – Loin! Loin! Ici la boue est faite de nos fleurs. – ... bleues, je le sais.”

(QUENEAU, Raymond. Les Fleurs bleues. Paris: Gallimard, 1965, p. 15). Essa tradução, estranha aparentemante, será explicada mais adiante.

48 “ici et là, s’épanouissaient déjà de petites fleurs bleues.” (QUENEAU, Raymond. Les Fleurs bleues.

é uma das mais odoríferas flores da retórica” 49. Ora, a retórica é uma das preocupações de Queneau que em seu livro “Exercices de style” conta 99 vezes a mesma história, uma história curta e sem interesse, sendo que o importante é que em cada uma dessas 99 vezes, são apresentadas diferentes figuras de retórica. Não podemos deixar de citar o ensaio Les Fleurs

de Tarbes, de Jean Paulhan, publicado em 1941, de quem certamente Queneau, secretário- geral da editora Gallimard, era leitor, e que trata exatamente da linguagem e da literatura. Paulhan defende o uso da retórica, durante muito tempo tido como uma espécie de vício que provocava a perda da força da linguagem, submetida à beleza de palavras vazias. Assim como no Jardim Público de Tarbes era proibido entrar com flores, na literatura era proibido entrar com as flores da retórica. Ora, em Les Fleurs bleues, um romance em que o trabalho com a linguagem, os jogos de palavras, os elementos de língua falada estão presentes todo o tempo, é muito provável que as flores azuis sejam precisamente as flores da retórica. Se em nenhum momento vemos personagens sentimentais, flores azuis, podemos dizer que a retórica é tratada durante todo o romance, já que a linguagem é o seu principal objeto.

Les Fleurs bleues é um romance que oferece elementos para um aprofundamento da análise de muitos pontos de vista, (histórico, filosófico, social, psicológico), pois nele é questionada a História em contraponto com a atualidade, há mistura de sonho e realidade, existem dois personagens que são o duplo um do outro e que se veem em sonho como num espelho até seu encontro final. Apesar disso, como observa Jean-Yves Pouilloux, à primeira leitura parece que nenhum desses elementos tem importância:

O que impressiona é o humor, a piada. Como em Pantagruel, tem-se (pode-se ter) a impressão de que a história (a narrativa) serve de pretexto, um tanto vago, para pôr em cena uma série de “bons mots”, nem sempre bons aliás, como constata o próprio duque de Auge no início do texto. 50

Sendo um romance da maturidade de Queneau, o autor procura reunir nele elementos de várias áreas do conhecimento, na tentativa de compor um romance “total”, embora, ainda segundo Pouilloux, à primeira leitura nem sempre isso seja observado:

À primeira leitura, Les Fleurs bleues se caracterizam pela aparência burlesca das personagens, dos acontecimentos e do tom. (...) Continuando, poder-se-á no entanto

49 “la répétition est l’une des plus odoriférantes fleurs de la rhétorique.” (QUENEAU, Raymond. Les

Fleurs bleues. Paris: Gallimard, 1965, p. 69).

50 “Ce qui frappe d’abord, c’est le canular. Comme dans Pantagruel, on a (on peut avoir) l’impression

que l’histoire (la narrative) sert de prétexte, plutôt vague, à mettre en scène une suite de bons mots, pas toujours bons d’ailleurs, comme le constate lui-même le duc d’Auge au début du texte.” (POUILLOUX, Jean-Yves, Les fleurs bleues de Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1991, p. 15).

observar mais de um detalhe mostrando discreta ou explicitamente que a intenção cômica não é o único motor do texto. 51

2.2 ASSUNTOS SÉRIOS

De fato, Queneau aborda neste romance todos os temas que lhe interessam e que podem intrigar o leitor. O romance trata de tantos assuntos e tão variados que, como disse um crítico do jornal Le Canard enchaîné, citado por Corinne François, “é preciso parar, sob pena de proliferação de células cinzentas. Pois o autor pôs nesse livro mais coisas do que poderemos encontrar. Mas corre-se o grande risco de encontrar justamente aquelas que ele não pôs” 52.

Há referências à tecnologia, elemento sempre presente na obra de Queneau. Na viagem de Auge através dos séculos, citam-se armas inventadas na época como também os automóveis que ele vê em sonho. Se por um lado Auge atualiza-se na tecnologia segundo os séculos que atravessa, por outro lado é na atualidade de Cidrolin que encontramos as referências mais explícitas às tecnologias que modificavam a sociedade no século XX, como a televisão e o cinema. Isso é observado por Bourdette-Donon:

... Queneau experimenta, à sua maneira, o poder dominante das mídias, seu papel na formação das opiniões e das ideias. São essas ameaças de invasão tecnológica, vividas por Cidrolin que seu duplo Auge combate e perpetua o mundo da cultura face ao da comunicação, através de uma perpétua oscilação entre o real e seu simulacro. 53

A filosofia também surge sob o verniz superficial do humor e da ligeireza. Apesar de os textos filosóficos de Queneau serem raros, encontramos em sua obra reflexões que demonstram sua formação filosófica, pois a filosofia surge tanto na ficção quanto na poesia do autor. Ela surge em forma de referência direta, de referência intertextual, ou por meio de personagens-filósofos que assumem discursos pseudo-filosóficos ou encarnam atitudes filosóficas:

51 “À première lecture, Les Fleurs bleues se caractérisent par l’allure burlesque des personnages, des

événements et du ton. (...) Chemin faisant, on aura pourtant relevé plus d’un détail signalant soit discrètement soit explicitement que l’intention comique n’est pas le seul moteur du texte.” (POUILLOUX, Jean-Yves, Les fleurs bleues de Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1991. p. 84).

52 “Il faut s’arrêter, sous peine de prolifération de cellules grises. Car l’auteur a mis dans ce livre plus de

choses qu’on y trouvera jamais. Mais on risque fort d’y trouver celles, justement, qu’il n’a pas mises.” (FRANÇOIS, Corinne. Connaissance d’une œuvre : Les Fleurs bleues. Rosny: Bréal, 1999, p. 122).

53 “... Queneau expérimente, à sa façon. le pouvoir dominant des médias, leur rôle dans la formation des

opinions et des idées. Ce sont ces menaces d’invasion techologique, vécues par Cidrolin, que combat Auge, son double, qui perpétue le monde de la culture face à celui de la communication, à travers une perpétuelle oscillation entre le réel et son simulacre.” (BOURDETTE-DONON, Marcel. Queneau et les nouveaux vecteurs d’information In : Europe – revue littéraire mensuelle – avril 2003. p. 137).

Os problemas filosóficos abordados por Queneau são universais, em particular as questões de epistemologia (que posso saber?) e as de ética (que devo fazer?), sem esquecer as metafísicas (o que me é permitido esperar?): citemos o absurdo, a história, o conhecimento, a sabedoria, o tempo, a ciência, etc. 54

Com humor, o romance questiona o sonho, a psicanálise, a História, e a linguagem. A História é retratada dentro de uma visão hegeliana: a realidade histórica é vivida pelos homens como uma sucessão temporal linear incoerente e trágica. Quando o duque diz que a história humana não passa de um trocadilho, quer dizer que as pessoas pensam compreendê-la, mas que sempre perdem o essencial.

Reflexões sobre sonho e realidade surgem já no primeiro capítulo, a oscilação entre duas narrativas paralelas, dentre as quais o leitor não consegue determinar qual é a da realidade e qual é a do sonho. O sonho é, pois, um dos grandes temas abordados em Les

Fleurs bleues. Talvez o principal seja a História, mas o sonho também é fundamental e é anunciado como tal desde a página 7, na sinopse escrita pelo próprio autor:

Conhecemos o célebre apólogo chinês: Tchouang-tseu sonha que é uma borboleta, mas não seria a borboleta que sonha que é Tchouang-tseu? Acontece o mesmo neste romance, é o duque de Auge que sonha que é Cidrolin ou Cidrolin que sonha que é o duque de Auge? 55

e na página 11, há uma citação de Platão, em grego, colocada como exergo e que significa “sonho por sonho” 56, confirmando a importância desse elemento.

O duque é o primeiro que adormece, na página 16 “o duque de Auge acaba por adormecer” e essa frase serve de transição entre o episódio Auge e o episódio Cidrolin. Ela opera como um sinal para o leitor que compreende rapidamente que o sono, noite ou sesta, é um elemento de estrutura da narrativa. Uma das funções do sonho é, pois, imprimir um ritmo à narração. A mudança de estado das personagens é constante ao longo do romance e cabe ao leitor ficar atento a cada uma delas:

54 “Les problèmes philosophiques abordés par Queneau sont universels, en particulier les questions

d'épistémologie (que puis-je savoir ?) et les questions d'éthique (que dois-je faire ?), sans oublier les questions métaphysiques (que m'est-il permis d'espérer ?) : citons en vrac l'absurde, l'histoire, le savoir, la sagesse, le temps, la science, etc.” (CHABANNE, Jean-Charles. Rire et philosophie dans l’œuvre de Raymond Queneau. p.3)

55 “On connaît le célèbre apologue chinois : Tchouang-tseu rêve qu’il est un papillon, mais n’est-ce point

le papillon qui rêve qu’il est Tchouang-tseu ? De même dans ce roman, est-ce le duc d’Auge qui rêve qu’il est Cidrolin ou Cidrolin qui rêve qu’il est le duc d’Auge ?” (QUENEAU, Raymond. Les fleurs bleues. Paris: Gallimard, 1965, p. 7).

56 ” (PLATÃO, citado por QUENEAU, Raymond. Les fleurs bleues. Paris:

Contam-se trinta e quatro passagens de um estado que parece desperto a um outro que parece sonhado; na metade dos casos, essa mudança é abrupta. Cidrolin adormece e Auge parte para a aventura, um pouco como quando se adormece sem se aperceber. (...) Instala-se assim um jogo de vai-e-vem que se acelera à medida que os dois protagonistas se aproximam um do outro até o seu encontro. 57

A primeira dúvida do leitor, dúvida essa que não vai se esclarecer, é saber qual é a personagem que sonha e qual é a que faz parte do sonho. Como Cidrolin vive na época contemporânea, tem-se a impressão de que ele é mais verdadeiro do que o duque que viaja no tempo. Mas logo essa impressão de que Cidrolin é real e Auge fictício é colocada em cheque:

Mas, pouco a pouco, Auge adquire uma consistência e uma espessura que faltam evidentemente a Cidrolin. (...) E, paradoxalmente, a série ‘narrativa fantástica’ parece mais real que a série ‘realidade atual’, como se Queneau tivesse um prazer especial em nos fazer acreditar em acontecimentos inverossímeis (do tipo caçar mamute a tiros de canhão) e suspeitar da realidade daquilo que no entanto conhecemos muito bem. 58

Isso ocorre porque Auge é a personagem da ação e Cidrolin é completamente inativo. É a inação que o caracteriza. Enquanto na vida de Auge há viagens, cruzada, revolta, complô, casamento, traição, duelo, pesquisa alquimista, pinturas rupestres, emigração, Cidrolin passa o tempo bebendo, dormindo e sonhando seu sonho contínuo com o duque.

Notamos, pois, que a “inação” de Cidrolin tem uma função narrativa importante, pois, se ele dormisse menos, o duque não poderia viver tantas aventuras, já que o sonho de Cidrolin é essencial para que elas possam ocorrer:

Cidrolin teve ‘narrativamente’ o papel de ser ao mesmo tempo aquele que, sonhando, permitiu a cavalgada fantástica de Auge através dos séculos e aquele que, desaparecendo, permite a Auge prosseguir seu destino, sem ele; é uma espécie de mediador que, terminada sua função, desaparece. 59

57 “On compte trente-quatre passages d’un état qui semble éveillé à un autre qui semble rêvé ; dans la

moitié des cas, cette mutation est abrupte. Cidrolin s’endort et Auge part à l’aventure, un peu à la façon dont on s’endort sans s’en apercevoir. (...) S’installe ainsi un jeu de va-et-vient qui s’accélère au fur et à mesure que les deux protagonistes se rapprochent l’un de l’autre jusqu’à leur face-à-face.” (POUILLOUX, Jean-Yves, Les fleurs bleues de Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1991, pp. 126-128).

58 “Mais, peu à peu, Auge prend une consistence et une épaisseur dont manque très évidemment à

Cidrolin (...) Et, paradoxalement, la série « récit fantastique » semble plus réelle que la série « réalité actuelle », comme si Queneau avait pris un malin plaisir à nous faire croire à des événements invraisemblables (jusqu’à chasser le mammouth à coups de canon) et suspecter d’irréalité ce que nous connaissons pourtant très bien.” (POUILLOUX, Jean-Yves, Les fleurs bleues de Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1991, p. 75).

59 “Cidrolin a eu « narrativement » pour rôle d’être à la fois celui qui, en rêvant, a permis la chevauchée

fantastique d’Auge à travers les siècles et celui qui, en disparraissant, permet à Auge de poursuivre sa route, sans lui ; il est une sorte de médiateur qui, son rôle une fois accompli, s’efface.” (POUILLOUX, Jean-Yves, Les fleurs bleues de Raymond Queneau. Paris: Gallimard, 1991, p. 79).

Essa função narrativa percebida poderia novamente fazer pensar que Cidrolin é a personagem real e que Auge é apenas o produto de seu sonho; para Cidrolin é importante sonhar e, como diz sua namorada Aalice, o sonho é seu melhor cinema:

... para Cidrolin a sesta não é apenas uma fraqueza ou passatempo, é uma verdadeira arte de viver: para ele o sonho é essencial à vida.(...) Mas Auge também é um sonhador e o objeto de seu sonho é Cidrolin. (...) Outros indícios fazem de Auge um sonhador, na medida em que o sonho lhe traz um saber. Graças ao sonho Cidrolin aprende a história, Auge, por sua vez, aprende as novas tecnologias. 60

A dúvida sobre a realidade das personagens persiste ao longo de todo o romance e no final, em vez de ser resolvida, agrava-se ainda mais: “... é principalmente o momento do encontro final entre Auge e Cidrolin que arruína todas as hipóteses precedentes sobre o sonho” 61, pois no final, como diz Magali Espinasse:

a presença de Auge convence todo o mundo de sua existência real, até mesmo o mais cartesiano, o guarda de camping (...) A partir desse momento é a ambiguidade que domina: não há mais fronteira possível entre sonho e realidade. (...) A ambiguidade chega a seu ápice quando nota-se que Auge e Cidrolin, uma vez juntos, não conseguem mais sonhar. 62

Uma questão colocada várias vezes tanto por Cidrolin quanto por Auge é se se deve ou não contar os sonhos. Quando Cidrolin tenta contar os seus, Aalice é frontalmente contra. Felizmente para a narrativa, pois ao contrário não existiria o romance, como observa Pouilloux:

se por acaso Aalice aceitasse ouvir os sonhos de Cidrolin, surgiria de repente uma sequência linear ininterrupta contando as aventuras do duque de Auge através dos séculos, seria um outro romance e não Les Fleurs bleues, um romance histórico clássico, desprovido do que constitui sua tensão essencial. 63

60 “... chez Cidrolin la sieste n’est pas seulement une faiblesse ou un passe-temps, c’est un véritable art de

vivre : pour lui, le rêve est essentiel à la vie. (...) Mais Auge est aussi un rêveur et l’objet de son rêve est Cidrolin. (...) D’autres indices font d’Auge un rêveur, dans la mesure où le rêve lui apporte un savoir. Grâce au rêve, Cidrolin apprend l’histoire, Auge, lui, apprend les nouvelles technologies” (ESPINASSE, Magali. Étude sur Les Fleurs bleues. Paris: Ellipses, 1999 p. 46).

61 “c’est surtout le moment de la rencontre finale entre Auge et Cidrolin qui ruine toutes les hypothèses

précédentes sur le rêve.” (ESPINASSE, Magali. Étude sur Les Fleurs bleues. Paris: Ellipses, 1999, p. 46).

62 “la présence d’Auge convainc tout le monde de son existence réelle, même le plus cartésien, le gardien

de camping (...) À partir de ce moment-là c’est l’ambiguïté qui domine : il n’y a plus de frontière possible entre rêve et réalité.(...) L’ambiguïté est à son comble quand on s’aperçoit qu’Auge et Cidrolin, une fois ensemble, ne parviennent plus à rêver.” (ESPINASSE, Magali. Étude sur Les Fleurs bleues. Paris: Ellipses, 1999, p. 47).

63 “Si par hasard Lalix acceptait d’entendre les rêves de Cidrolin, on aurait tout à coup une suite linéaire

ininterrompue racontant les aventures du duc d’Auge à travers les siècles, ce serait un autre roman que Les