I. BÖLÜM
5. Rawls’un Devlet Görüşü
a teoria democrática deliberativa e as suas propostas, apesar de todas as suas potencialidades, não escaparam às críticas de vários autores. peter dahlgren, por exemplo, ainda que reconhecendo as potencialidades deste modelo, critica o carácter racional excessivo do discurso que é suposto assumir no processo de deliberação, apelando para uma visão mais multidimensional, que englobe a importância dos modos informais de conversação (“everyday talk”) nesse mesmo processo (cfr. dahlgren, 2006: 30).
na introdução do livro que os próprios coordenaram, bohman e rehg colocam diversas questões que vão ao encontro das possíveis “falhas” que as propostas da democracia deliberativa podem conter: será que este ideal da democracia deliberativa tem possibilidade de se concretizar? será que uma participação inteligente e alargada é possível? nas sociedades actuais, caracterizadas pela
diversidade cultural, será que devemos esperar que a deliberação dos cidadãos se converta em soluções racionais para problemas políticos? será que a deliberação supera ou, pelo contrário, exacerba os elementos piores da regra da maioria?
Consciente das críticas de que esta teoria seria alvo, Joshua Cohen apresenta quatro objecções, que ele considera como “naturais” à concepção de democracia deliberativa (cfr. Cohen, 1997: 80-86). uma das críticas que poderá ser dirigida à democracia deliberativa será o seu sectarismo, uma vez que depende de uma visão particular da vida boa – um ideal de cidadania activa. Cohen refuta este argumento, sublinhando que a democracia deliberativa se organiza em termos de uma justificação política (deliberação livre entre cidadãos iguais) e não em termos de uma concepção de uma conduta de vida. por outro lado, há autores que referem a incoerência desta teoria, dado que os cidadãos são governados pelas instituições, e não por eles próprios. Mas Cohen argumenta que a auto- governação popular tem como premissa a existência de instituições que fornecem uma base para a deliberação e, por isso, tal não pode ser considerado como um constrangimento exterior.
uma outra objecção à teoria da democracia deliberativa refere-se à sua
injustiça: o tratamento das liberdades fundamentais neste ideal é inaceitável,
porque torna essas liberdades dependentes dos julgamentos da maioria e restringe a liberdade individual, sacrificando, assim, a justiça em nome da democracia (cfr. gutmann et al., 2004: 40). no entanto, Cohen sublinha que o ideal da democracia deliberativa não é hostil à livre expressão, mas antes pressupõe tal liberdade. Quanto à expressão que não esteja directamente relacionada com matérias de política pública, será que a democracia deliberativa a trata como “expressão não política”, de segunda classe, passível de menos protecção? Cohen responde que não, argumentando que a democracia deliberativa protege toda a expressão, independentemente do seu conteúdo.
Por fim, diversos pensadores referem a irrelevância deste ideal, uma vez que a democracia directa é impossível nas condições modernas. Cohen argumenta que a democracia directa não é a forma de expressão necessária ao ideal de democracia, por isso a objecção não colhe. a institucionalização do procedimento deliberativo requer, sim, “a existência de arenas nas quais os
cidadãos propõem assuntos para a agenda política e participam no debate sobre esses mesmos assuntos” (ibidem: 85).
esta última crítica talvez seja a que preocupa mais os teóricos da democracia deliberativa e a que provocou mais reflexões – a questão da excessiva idealização desta concepção de democracia, incapaz, por exemplo, de explicar o que se passa em palcos onde impera uma racionalidade de tipo estratégico (cfr. Carreira da Silva, 2004: 9). Os críticos, sobretudo filósofos e cientistas sociais, argumentam que a legitimidade resultante de um consenso racional entre cidadãos livres e iguais é impossível de atingir nas sociedades de hoje, sendo por isso irrealista. Considerando o pluralismo como um obstáculo à deliberação – pelos conflitos que ocasiona – esses mesmos críticos sublinham que a deliberação apenas tem êxito dentro de grupos homogéneos, com os mesmos valores. alguns acrescentam ainda que a deliberação acaba por ser elitista, uma vez que beneficia os cidadãos com um estatuto mais elevado.
os desenvolvimentos mais recentes da teoria da democracia deliberativa esforçam-se por contrariar esse cepticismo e fazer com que as condições da deliberação possam ser aplicadas na prática, às condições sociais actuais, caracterizadas pelo pluralismo cultural e pela complexidade social.
bohman é o exemplo mais paradigmático desse esforço, propondo uma concepção de democracia deliberativa mais realista, face aos factos sociais modernos (pluralismo cultural, desigualdades sociais e complexidade social), reconhecendo o fosso existente entre os ideais da teoria e a sua efectivação, perante as condições sociais actuais. o autor pretende, assim, reconstruir o potencial de racionalidade das práticas reais deliberativas, que, apesar dos constrangimentos sociais, ainda retêm aspectos normativos. explica bohman: “todos os modelos deliberativos de legitimidade democrática são fortemente normativos, no sentido em que rejeitam a redução da política e da tomada de decisão à racionalidade estratégica e instrumental” (Bohman, 2000: 5). Essa atitude de Bohman reflecte- se, precisamente, nos conceitos de tolerância e cooperação atrás mencionados.
o autor, ainda que concorde com a maior parte das ideias de Habermas, critica-lhe, no entanto, a excessiva normatividade do seu pensamento: apesar dos critérios procedimentais que proporciona, diz muito pouco sobre a forma como a participação que a democracia deliberativa exige pode ser institucionalizada.
bohman dirige ainda outra crítica a Habermas – o seu cepticismo e pessimismo em relação às sociedades actuais, que o leva a considerar as potencialidades da democracia como muito limitadas, sobretudo no âmbito das suas primeiras obras. bohman sublinha, nessa medida, que a teoria da democracia deliberativa tem a possibilidade de reconhecer o pluralismo e a complexidade, ao mesmo tempo que defende os ideais de autonomia e de escrutínio por parte dos cidadãos (cfr. ibidem: 14).
bohman propõe, assim, uma perspectiva menos idealizada e mais pragmática da deliberação, reconhecendo a existência de standards heterogéneos de justificação nas práticas democráticas. Nessa medida, normas morais como a neutralidade ou a imparcialidade não deveriam ser a base única para definir o carácter racional da deliberação. “a tarefa principal do uso crítico da razão pública deveria ser pensada em termos mais práticos: o objectivo da deliberação política consiste em resolver problemas sociais e ultrapassar conflitos políticos. O critério para uma deliberação com êxito é, então, a reconstrução das condições da cooperação contínua em situações problemáticas (…). o sucesso da deliberação pública deveria ser medido reconstrutivamente (…), e não através de standards externos de justificação” (ibidem: 240 e 241).
nessa sequência, o pluralismo, a complexidade e as desigualdades sociais trazem novos desafios à democracia deliberativa, que só poderão ser respondidos através de novos fóruns e instituições, nos quais os cidadãos possam deliberar em conjunto. para bohman, a participação e a igualdade são propósitos possíveis de atingir no contexto das práticas actuais de deliberação. podemos enquadrar aqui o nosso objecto de estudo: o espaço das cartas dos leitores como um fórum, não propriamente novo, mas ainda com vitalidade suficiente, onde a deliberação e o diálogo poderão ser possíveis, dentro da imprensa.
amy gutmann e dennis Thompson dão conta, por outro lado, de algumas perspectivas críticas em relação à democracia deliberativa (ainda que não refiram os autores que as preconizam), que vão exactamente no sentido contrário do que temos vindo a expor até aqui: essas vozes críticas sugerem que esta concepção da democracia estimula um debate político de controvérsia e gerador de instabilidade, tendo um efeito de “polarização” das opiniões, em vez de consenso (cfr. gutmann et al., op. cit.: 53-5). os dois autores argumentam, porém, que este
último nem sempre é desejável – um consenso na aceitação da discriminação racial não é, de todo, preferível à divisão de opiniões. acrescentam ainda que é necessário reconhecer que o processo de deliberação e de discussão pública raramente é, em si mesmo, a causa primeira da controvérsia, mas sim os assuntos que são alvo de debate.
bohman não foi o único a pensar nas questões do pluralismo e das desigualdades sociais. vários autores, sobretudo provenientes do movimento feminista, questionaram a forma como, numa sociedade marcada pelas histórias de opressão e desigualdade, os cidadãos têm a possibilidade de participar de um modo “igual” (cfr. Silveirinha, 2004: 191). Nancy Fraser, Seyla Benhabib e iris Marion Young têm perspectivas próprias de espaço público e, apesar de se manterem fiéis a algumas premissas da democracia deliberativa, “são mais pessimistas na possibilidade de afastar o poder opressor do discurso e procuram novas formas de inclusão” (idem, 2005: 18).
o carácter procedimental do modelo de discurso prático desenvolvido na teoria habermasiana foi questionado por seyla benhabib, pelo que este implica de fronteiras bem definidas entre interesses públicos e necessidades privadas, entre justiça e “vida boa”. Mas a autora identifica uma ambiguidade no termo “privacidade”/”esfera privada”, que inclui diversas acepções: esfera da moral e da consciência religiosa; não interferência do estado nas relações económicas; ou a esfera íntima, da casa, da sexualidade e da reprodução (género feminino), do cuidado aos doentes, jovens e idosos (cfr. benhabib, 1992: 91). e, neste sentido, a esfera pública burguesa, tal como Habermas a idealizou, era restrita apenas às questões do âmbito da justiça/matérias públicas, deixando de fora os assuntos próprios da esfera privada.
segundo a autora, a teoria política contemporânea, à qual Habermas pertence, ignorou o problema das diferenças das experiências dos homens e das mulheres em todos os domínios da vida; por exemplo, as relações de poder na esfera privada eram tratadas como se não existissem. os movimentos feministas mostraram que as formas de distinção entre público e privado fazem parte de um discurso de dominação quelegitima a opressão das mulheres e a exploração no domínio privado. dado este cenário, os movimentos feministas têm vindo a
fazer um esforço para tematizar as relações de poder assimétricas, nas quais a divisão laboral entre sexos se baseou (cfr. benhabib, 1992: 92).
para benhabib, apesar das suas falhas, o modelo discursivo do espaço público de Habermas é, no entanto, o único que é compatível com as ambições emancipatórias dos novos movimentos sociais e é o que mais se adequa à teorização da experiência democrática das sociedades complexas, na medida em que a deliberação pretende ser uma forma de atrair as margens da sociedade.
partindo da crítica das autoras feministas e aplicando o seu conteúdo à temática deste trabalho, podemos questionar em que medida as cartas dos leitores possuem a possibilidade de abertura a uma redefinição de fronteiras estabelecidas (como é o caso da dicotomia público/privado) e, nomeadamente, se são inclusivas de temas que não se enquadram nos cânones estabelecidos daquilo que se entende por questões ou matérias públicas, podendo assim conferir um estatuto de interesse público a assuntos de foro considerado privado. será que as cartas dos leitores constituem um primeiro canal de porosidade entre os media/imprensa e as dinâmicas do “mundo da vida”? Será que estes textos podem servir como factor de sensibilização para um determinado assunto, da esfera privada, ganhado assim visibilidade, através da sua publicação?
Já iris Marion Young, apesar de considerar a deliberação fundamental para uma democracia verdadeira, rejeita a formulação demasiado abstracta, tanto de Habermas como de Cohen, dirigindo críticas às assimetrias institucionalizadas no acesso aos recursos que moldam a participação por parte dos diversos actores sociais (cfr. barnett, 2003: 61). preocupada com as questões da justiça e da opressão social, a autora defende a necessidade de dar voz aos grupos mais marginalizados da sociedade e de combater os obstáculos à inclusão. assim sendo, é mais importante reconhecer as diferenças e os desacordos, do que estabelecer como objectivo alcançar o consenso. por outro lado, o apelo à unidade, à orientação para um bem comum, torna-se na realidade um estímulo ao alinhamento pela cultura dominante.
para Young, no modelo da democracia deliberativa, os indivíduos, nomeadamente os que estão em desvantagem, são intimidados pelas regras formais das instituições. “Com efeito, o poder por vezes penetra na forma, no estilo e no conteúdo do discurso, o que significa que os grupos mais marginalizados
normalmente tendem a ser excluídos ou silenciados” (Silveirinha, 2005: 24). Nas palavras de Young, “uma crescente literatura diz demonstrar que as raparigas e as mulheres tendem a falar menos que os rapazes e os homens em situações de discurso que valorizam a afirmação e o confronto de argumentos” (Young apud Silveirinha, 2004: 214). A autora sugere, então, uma reflexão sobre as condições práticas para um alargamento dos princípios da democracia, em contextos de desigualdade estrutural e discriminação sistemática (cfr. barnett, op. cit.: 65).
reconhecendo a validade da proposta de Young, nancy fraser argumenta, por outro lado, que a questão da inclusão não deve estar limitada apenas ao reconhecimento intersubjectivo dos actores, mas também ao reconhecimento como uma questão de status social. O “não reconhecimento” significa uma subordinação social traduzida na incapacidade de participar como igual na vida social, quando as instituições estruturam a interacção social de acordo com normas culturais que impedem a paridade da participação (fraser apud silveirinha, 2005: 31 e 33).
vemos assim que, mesmo dentro das vozes mais críticas do modelo de democracia deliberativa, o ideal de paridade participativa – a que poderemos fazer equivaler o princípio de igualdade política, nas suas várias acepções, acima descritas – subsiste como aspecto fulcral no funcionamento da democracia. esse será um dos aspectos que pretendemos abordar neste livro: será que os veículos de participação do público na imprensa se constituem como elementos que fomentam ou, pelo contrário, impedem essa paridade participativa? Que leitores são incluídos e excluídos na deliberação?
[as Cartas dos leitores na imprensa portuguesa:
uma forma de comunicação e debate do público, pp.73 - 96]