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BÖLÜM 3: VERĠLERĠN TOPLANMASI VE ANALĠZĠ

3.2. Röportajların Değerlendirilmesi

Durante algumas orientações técnicas na Diretoria de Ensino eu havia contado histórias para os professores. Sentia-me motivada, pois percebia a atenção com que me ouviam e como se interessavam em saber o nome da obra e do autor para poderem trabalhar com seus alunos. Assim, quando uma das alunas me pediu para contar uma história, não me senti constrangida, mas preocupada, pois pensei na reação de Fernanda, se não pensaria que estava interferindo em sua aula. Todavia, ao contrário do que imaginava, ela se mostrou interessada, e me pediu que contasse quantas histórias quisesse. A obra escolhida foi “A Moura-Torta”, do livro Histórias de Tia Anastácia, de Monteiro Lobato.

A classe estava em polvorosa. Afinal, uma professora que ficava o tempo todo sentada ao lado deles, somente observando e escrevendo, ia contar uma história. Mostrei o livro para eles e lhes perguntei se conheciam o autor. A maioria já se referiu ao Sítio do Pica Pau Amarelo, programa televisivo baseado na obra de Monteiro Lobato. Uma aluna afirmou que já o conhecia e estava lendo Memórias da Emília. Alguns demonstraram uma certa aversão, afirmando que aquilo só podia ser história para crianças e eles não eram mais crianças; outros, contudo, pareciam curiosos. Argumentei falando que, apesar de ser adulta, gostava de histórias contadas para todas as idades, desde que fosse uma boa história, afinal, que mal havia?

A despeito das manifestações, pedi a eles que tivessem paciência e ouvissem a história. Sabia que aquele era um momento crucial. Muitos poderiam, a partir daquele momento, ser cativados pelo autor e sua obra ou, ao contrário, simplesmente criar uma aversão ou indiferença. Já tinha ouvido e contado aquela história muitas vezes, desde quando era criança, e, portanto, conhecia-a de memória. Procurei concentrar-me nas entonações, nos gestos, nos possíveis ruídos que poderia fazer, nas falas das personagens e nas descrições. Visava instigá-los e conseguir a atenção de todos. Por outro lado, tinha consciência de que o ideal para se contar uma história seria criar um clima agradável, um ambiente físico aconchegante que permitissem aos alunos sentirem-se acolhidos e envolvidos pela leitura. Era

uma tentativa de dessacralizar a leitura. Contudo, eram muitos os entraves: o tempo era limitado, se pedissem que me ajudassem a arrastar as carteiras, o barulho e a dispersão seriam grandes, e correria o risco de não mais conseguir a atenção dos alunos; também o espaço em que nós estávamos não era propício, carteiras quebradas, alguma sujeira espalhada pelo chão conferia ao local um aspecto nada agradável; além disso, não havia nenhum material e/ou recurso em sala de aula que pudesse utilizar. Percebi, naquele momento, o quanto é fácil no discurso nos apropriarmos de certas falas, cobrando os professores para que implementem atividades mais lúdicas, mas o quanto as condições adversas em sala de aula dificultam ações diferenciadas.

Conseguida a atenção da maioria, resolvi iniciar perguntando a eles se gostavam de ouvir histórias, se seus pais, avós ou algum parente tinham o costume de contar histórias e quais histórias ouviam. Foram muitos os relatos, principalmente com referência a histórias de terror, em que fantasmas e “espíritos do além” estavam presentes. Alguns pareciam indiferentes, mas prestavam atenção ao relato dos colegas. Criado o ambiente, contei a história da melhor forma que pude. As perguntas e as observações foram muitas, inclusive no decorrer da contação. Afinal, como um homem que não tinha nada no início da história transformou-se em príncipe e já está morando em um castelo? Por outro lado, como era inocente! Como se deixou enganar pela Moura-Torta? Terminada a história, percebi o envolvimento dos alunos. Alguns sugeriram a Fernanda contar eles mesmos suas histórias na próxima aula e outros vieram me perguntar novamente qual era o nome do livro e se Lobato havia escrito outros livros parecidos, para que pudessem ir à biblioteca e tomá-los emprestados. Suas atitudes confirmavam os prognósticos de Bamberger (1987, p.79): “depois que a hora das histórias houver despertado o interesse das crianças pelos livros de um autor, elas, decerto, haverão de querer outros livros do mesmo autor”.

Fernanda aceitou o desafio e marcou a próxima aula na biblioteca, caso não estivesse reservada para outra sala. Os alunos se agitaram e demonstraram satisfação. Eles gostavam de ir à biblioteca, pois era um ambiente diferente.

No dia marcado para os alunos contarem suas histórias, percebi o ritual que Fernanda tinha de seguir para utilizar a biblioteca e o quanto o fator tempo, aliado às condições adversas, interferia na sua prática. Com a reserva garantida, procurou a vice-diretora para conseguir a chave da biblioteca, pois naquele dia as responsáveis não estavam no local. Em

seguida, subiu à sala de aula e pediu aos alunos que a seguissem em direção à biblioteca que ficava no andar térreo ao lado da cantina. Caminho longo, percorrido entre risadas, conversas e pedidos para ficarem em silêncio, posto que algumas aulas já haviam iniciado. Na biblioteca, os alunos pareciam desafiar, talvez de forma inconsciente, as recomendações de silêncio dos cartazes, pois conversaram bastante e contaram suas histórias com certo entusiasmo.

Naquele dia, cinco alunos se revezaram contando suas histórias. O repertório foi variado, mas, pelas histórias escolhidas, senti a forte influência do cinema e da televisão no imaginário daquelas crianças e a atração que tinham por histórias de terror e violência: O exorcismo de Emily Rose, Os espíritos, A boneca assassina, Jogos mortais e A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen. Notei que a atenção maior ficou por conta das quatro primeiras histórias, inclusive com muitas interferências quando percebiam alguma alteração em relação ao filme a que quase todos haviam assistido. Dessa forma, considerei que a história não estava sendo contada para os colegas, mas para as duas professoras que ali estavam, Fernanda e eu. No meu imaginário, é como se os ouvisse dizer:

“ " ”. Este pensamento encontrou um sentido maior

quando assisti à tentativa, quase frustrada, da aluna Maria, ao contar a história A pequena vendedora de fósforso. Críticas abertas alegando que a história era muito chata, triste e sem graça invadiram o ambiente. A aluna, se não encontrasse apoio nos olhos, gestos e falas de Fernanda não teria conseguido terminar a história. Naquele momento, minha pesquisa adquiriu uma outra configuração. Uma outra hipótese veio agregar-se às primeiras: o professor sente dificuldades em trabalhar o texto literário de uma forma diferenciada, pois também enfrenta uma resistência dos alunos, imersos em uma sociedade em que a leitura de textos literários, assim como certos valores por eles veiculados, estão postos em xeque.

Vivemos em um mundo no qual a leitura e os livros adquiriram um outro significado. Se, por um lado, significam meios, face ao intenso desenvolvimento tecnológico e o acúmulo de informações, para que uma educação permanente seja garantida em uma sociedade em que o aprendizado contínuo é uma necessidade, por outro, com a evolução de outras formas de linguagem, configurou-se o que se convencionou chamar de “crise da leitura”, que merece um olhar atento, já que pressupõe a conjunção de diferentes dimensões, cultural, política, social e

econômica, que serão abaixo discutidas. Ademais, como Chartier14 já apontava em seus estudos sobre história educativa, comentados por Colomer (2007, p.35), “a literatura foi vista como um luxo supérfluo, algo próprio das elites sociais e abissalmente distanciado das necessidades da maioria da população, que devia aprender a linguagem escrita o mais breve possível para poder começar a ganhar a vida”.

Benzer Belgeler