2.4. Ġlgili AraĢtırmalar
2.4.2. Psikolojik Sermaye Ġle Ġlgili Yurt DıĢında Yapılan AraĢtırmalar
O alimento adquirido do trabalho na roça se mantinha como prioritário na lógica produtiva daqueles camponêses, visto que o alimento, senão consumido imediatamente pelo grupo familiar, era estocado para ser consumido ao longo do ano. Seu Pio foi uma das pessoas com quem mais conversei sobre a relação que os moradores da Linha hoje travam com o comércio, pois, quando o conheci, ele me parecia insatisfeito com a forma como hoje o roçariano – termo utilizado por ele para se referir aos agricultores – tem exercido sua atividade. Sua lógica parte do princípio de que, para aqueles cuja produção é pequena, importa menos produzir para atender ao mercado do que plantar para provimento da família. Ele conta que houve um tempo em que os comerciantes da cidade iam até o sítio comprar diretamente com o produtor e que o pagamento era feito na hora, mas que isso não acontece mais nos dias de hoje; “os ‘fortes’ tomaram o lugar de venda dos ‘fracos’”, dizia Seu Pio.
Pergunto a ele se antigamente as pessoas plantavam para vender para o mercado, ele diz:
“Não senhora... tem muitos que planta, mas muito devagar... muito
desprestigiado, muito pouco. Muito do que planta fica na roça aqui... na hora que sai na época das colheita, se chegar um homem e falar assim “se tiver uma abóbora pra vender eu compro, se tiver melancia pra vender eu compro, se tiver
milho verde eu compro, se tiver feijão eu compro...” mas hoje não tem isso não.
(...) Igual antigamente, nós plantava arroz, feijão, abóbora. Agora não, agora
eles tão mexendo assim... com outras coisas...”.
Seu Pio me explicou um pouco sobre a trajetória do plantio de algodão. Até 1970 plantava-se uma semente conhecida como crioula (nativa) que “crescia... tinha pé de algodão que ficava mais ou menos do tipo dessa laranja aí... nóis engaxava nos galhos dele assim, pegava...”, ele conta. Depois dessa, ele diz que muitos anos depois um besouro, conhecido
pelo nome de “bicudo”, assolou as plantações e acabou com as lavouras. Com a destruição das lavouras e a queda do algodão, após alguns anos, surge no mercado uma nova semente modificada, mais resistente às pragas, conhecida como “teste”. “Semente estrangeira”, modificada geneticamente em laboratório, que produzia algodão em grande quantidade e que não podia ser plantada junto a outros produtos. Seu Pio conta: “o teste era mais rentável! Só que o teste plantou, tem que ter veneno, no modo de largarta, essa tal de Rosália, bicudo... o crioulo não”, ele conta, “plantou, ele fica dois, três anos dentro de uma roça... ele vira mata assim!! Mas o teste não... mas ele é mais rentável... mas não é bom não, moça... [aqui ele quer dizer que não é bom substituir o algodão “crioulo” pelo “teste”].
Foto 15: Dona Domingas segurando o pano que ela mesma confeccionou com o algodão da sua plantação.
No norte de Minas, sobretudo na região em torno de Matias Cardoso, a cultura de algodão se estabelece como matéria prima para a fabricação artesanal de pano grosso e, depois, no século XIX, como matéria prima valorizada no mercado externo58. Quem mais fornecia esse produto na época eram os pequenos agricultores que viviam na região de caatinga onde o algodão é uma planta nativa. Assim, nota-se que a atividade agrícola naquela região para fins comerciais teve início, primeiramente, com o algodão, tendo sido uma tradição que se manteve na região até finais dos anos 1990.
58
Pecuária e algodão, os dois esteios da economia do sertão, desenvolveram-se articulados tanto com as regiões exportadoras do açúcar e do tabaco quanto com a atividade aurífera e a indústria do charque, no Piauí (Ferraz, 2006, p.40).
“Tradicionalmente cultivando para auto-abastecimento familiar, os caatingueiros
incorporaram a cultura algodoeira com seu caráter nitidamente comercial no final do século XIX até meados do século XX, sendo que esta atividade algodoeira permaneceu circunscrita em municípios do norte de Minas, associada aos sistemas produtivos diversificados dos agricultores da caatinga. Em 1925, o algodão era a
cultura mais exportada da região” (COSTA, 2005).
No entanto, a forma de plantio desses produtos “pra renda”, assim como o lugar desses produtos na lógica do grupo era diferente da forma como se dá hoje. Uma das diferenças se deve justamente ao fato de que o algodão e a mamona eram plantados avuado por entre a roça, enquanto, hoje, o agricultor destina uma parte da roça para seu plantio. Antes não havia necessidade de intensificar a produção, vendia aquilo que colhia para fazer a renda extra, hoje, para que haja lucro, o agricultor deve investir cada vez mais.
“Plantava o milho e plantava mamona “avuada”, dentro do milho (...). Às vezes
[a mamona] era espaçado de uma rua pra outra, sabe? Porque ela não atrapalha
a roça não... e tinha vez que era assim, roça de milho com mamona e tinha outra planta que nós plantava... dava! Essa dava! Era o algodão crioulo do bom! O algodão crioulo... não é teste não! Esse dava... esse plantava o próprio! Esse era bom!... Nós entrava em roça de algodão antes, nós seis, lá nós panhava seco,
tirinha assim...” [Dona Maria].
O algodão e a mamona, nos tempos dos antigos, como diz Dona Maria, eram plantados avuado por entre a plantação de alimento, pois não se tratava de um produto prioritário. Sendo o mercado muito incerto, o agricultor não deve apostar nele, temendo colocar em risco a produção alimentar, ou mesmo o gado. “Camponeses são sempre cautelosos, pois os riscos que correm são grandes” (p.127), destaca Woortmann (2009) sobre o cuidado com a lavoura e os riscos pelos quais passam os camponeses diante da inovação da produção. Quando não se tem domínio cognitivo sobre a nova variedade ou, ainda, se ela demanda a incorporação de pacotes tecnológicos, compra de insumos e aplicação de um “veneno” não conhecido, isso pode levar o agricultor a recorrer a empréstimos bancários, o que “contraria o princípio básico da internalização dos suspostos de produção” (WOORTMANN, 2009).
No seu conhecido texto Com Parente Não se Neguceia, Woortmann (1990) mostra que a ordem moral camponesa pode ser sintetizada na seguinte frase: “quem é casável não é assalariável”. Como o sítio é lugar de trabalho (labuta), moradia da família e vizinhos, é nesse território que estão estruturados os padrões de troca matrimonial e reciprocidade social – valores que definem a campesinidade. Assim, relações comerciais não são estabelecidas entre “cumpadres”, uma vez que “com parente não se neguceia” e quase todos na comunidade estão vinculados a alguma forma de parentesco.
Assim, de acordo com a lógica do roçariano, do pequeno produtor ou do camponês tradicional, todos os cultivos têm potencial de serem consumidos ou vendidos, mas a prioridade deve ser sempre o abastecimento interno da família, ou seja, o consumo para a despesa. O negócio, como dito, fazia parte das práticas sociais dos catingueiros, mas durante muitos anos representava apenas uma atividade complementar ao seu modo de vida – como disse Maria, irmã de Seu Mariano, moradora da Linha da Cruz: “O dinheiro que vai chegando vai socorrer as precisão que chega”.
Como dito, os animais de pequeno porte, as galinhas e os porcos, são utilizados na despesa, enquanto o gado é visto como renda, mas apenas para casos de emergência. Assim, observa-se que a renda do dia-a-dia “pra comprar uma roupinha, comprar coisa pra dentro
da casa...”, como dizia Seu Pio, era garantida pela venda de matérias primas para a indústria
têxtil e de óleo já demandadas na região desde o século XIX (COSTA, 2003), tendo sido incorporadas também pelos moradores do Sertão quando ali chegaram em torno de 1930.
Observa-se que houve um tempo em que a lógica da relação comercial não tornava o agricultor dependente de um mercado em potencial e tão pouco representava sua única fonte de sustento. No próximo capítulo, trato, portanto, desse processo que tenho identificado como sendo uma transição entre um modo de produção tradicional e a incorporação da lógica de mercado na região, impulsionadas, sobretudo, pelo processo macro-econômico, entendido aqui no âmbito das políticas de desenvolvimento voltadas para o crescimento econômico com ênfase na exportação de matéria-prima agroindustrial. Ao longo dos anos esse processo foi afetando diretamente os pequenos proprietários rurais da caatinga, seja pelo crescimento das fazendas em torno da região que levaram ao encurralamento da população, e a consequente redução dos seus territórios, seja pela entrada, cada vez mais intensa, desse grupo nos mercados de algodão ou, mais recentemente, no mercado de mamona.
O que tenho entendido, então, como transição, se expressa, com efeito, enquanto o processo de mudanças sociais que os moradores do Sertão Antigo vem enfrentando em decorrência de vários fatores. Dentre eles a intervenção territorial da Ruralminas na região, a redução de seus espaços sociais e dos efeitos desses no seu modo vida, ou mesmo pela entrada de novas gentes, em consequência da transformação do Sertão Antigo em Assentamento Rural, projeto que estabeleceu no lugar uma nova subjetividade, uma nova territorialidade, caracterizada, então, por uma diferente forma de se relacionar com o espaço por parte dessa população chegante, constituindo no espaço um maior entrosamento com os mercados agroindustriais e interação com as políticas sociais de desenvolvimento local.
Até aqui procurei situar a comunidade Linha da Cruz em uma perspectiva que leva em conta sua formação histórica, remontando o estabelecimento dos primeiros moradores naquele lugar e de seus sistemas tradicionais de produção, resgatando, assim, a fala das pessoas mais antigas da região. Para tanto, no último capítulo que segue, analiso o modo de vida local da Comunidade nos tempos de hoje, tendo vista que se trata de um tempo marcado por diferentes formas de inserção dos agricultores no mercado de mamona – o que, todavia, representa certo imbricamento entre diferentes modos de se relacionar com o lugar. Os tempos atuais também se definem pela entrada do Programa Nacional de Biodiesel e pela atuação das mulheres na produção de uma econômica paralela à este mercado.