2. BÖLÜM: KALKINMA AJANSLARI TARAFINDAN SAĞLANABİLECEK
2.1. MALİ DESTEKLER
2.1.1. Doğrudan Finansman Desteği
2.1.1.1. Proje Teklif Çağrısı Yöntemi
2.1.1.1.3. Proje Teklif Çağrısı Dönemi
A invocação do termo interesse público em questões tributárias é, quase, um lugar-comum, e, exatamente, por isso, dá-se mediante uma aceitação silenciosa, sem que as pessoas discutam-na. Assim, tanto se reflete pouco sobre os prejuízos que tal invocação traz à justiça tributária, como, conseqüentemente, preocupa-se pouco em justificar a pertinência da invocação.
TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR, em texto sobre o significado do termo
“interesse público”, afirma exatamente que o mesmo é lugar-comum no vocabulário jurídico e que
... a força do lugar-comum está, portanto, exatamente numa espécie de aceitação silenciosa. É aí que ele convence! Quanto mais temos de explicar o lugar-comum, menos força ele tem.164
Invocação com essa abrangência, porém, não pode ser aceita pela Ciência do Direito. Além de implicar o desmoronamento de vários conceitos construídos a muito custo pelos cientistas do Direito Tributário, traz
163
Princípios Gerais de Direito Público. Tradução de Marco Aurélio Greco. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1977, p. 50.
164 “Interesse Público” em Revista da Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, Ano I,
insegurança às relações jurídicas, porque pode levar ao próprio desprezo das normas estabelecidas.
MARIE-PAULINE DESWARTE observa que, apesar do aumento do uso do
“interesse público” na fundamentação de decisões administrativas e judiciais, sempre houve uma certa restrição ao seu uso, exatamente porque sua imprecisão pode possibilitar a violação ao Direito. Em suas palavras « les réticences à son admission ont toujours été vives tant ou sein du Pais-Royal que dans la doctrine: la notion, par son imprécision, permettrait d’échapper au respect du droit.”165
DIOGO DE FIGUEIREDO MOREIRA NETO, no mesmo sentido, observa que,
muitas vezes, a invocação do termo interesse público presta-se à realização de “um interesse próprio da pessoa estatal, externo e contraposto aos dos cidadãos.”166
Analisando o fenômeno “opinião pública” enquanto objeto de estudo da Ciência Política, PAULO BONAVIDES faz observação que, em nossa
compreensão, é também aplicável ao termo “interesse público”, no que diz respeito à sua apresentação mutável conforme a ideologia de quem o anuncia. Em suas palavras, afirma que
... na literatura política, é comum deparar-se-nos com a opinião de uma classe, ora de toda a nação (opinião de todos), ora simplesmente da maioria dominante ou ainda das classes instruídas, em contraste com as massas analfabetas.167
Para logo num primeiro momento constatar a imprestabilidade da invocação genérica do interesse público, basta considerar que, em regra, é nos
165 DESWARTE, Marie-Pauline. “L’intérêt général dans la jurisprudence du Conseil
Constitutionnel”, em Revue Française de Droit Constitutionnel et de la Science Politique em
France et a létranger, nº 13. Paris : Presses Universitaires de France – PUF, 1993. p. 23.
166 MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Mutações do Direito Administrativo. Rio de Janeiro:
Renovar, 2000. pp. 10-11.
regimes autoritaristas que tal invocação acontece de modo mais corriqueiro. É o que nos mostra a história, antiga e recente, tanto universal como brasileira.168
Ilustrativa mostra da invocação do termo “interesse público” para fins ditatoriais nos é dada por GEORGE ORWELL, em seu conhecido A revolução dos
bichos, obra na qual, em face das deturpações por que passou o comunismo soviético, ORWELL tenta, através de fábula, mostrar os absurdos do totalitarismo
stalinista, denunciando os caminhos distorcidos do poder ilimitado e da dominação exercida em nome da liberdade e da igualdade. Em referida história, há momento em que os líderes da revolução tomam apenas para si o alimento que deveria ser distribuído entre todos. Ao tentar justificar seu ato, afirmam que só ficaram com a comida porque, na condição de líderes, precisam de melhor nutrição para governar melhor. Assim, na verdade, o ato foi realizado não em causa própria, mas pelo bem-estar de todos, ou seja, em nome do interesse público.169
Ainda a propósito, relativamente a invocações genéricas do termo “interesse do povo” para realizar atos, em verdade, ilegítimos, pertinente é a afirmação de KARL R. POPPER segundo a qual
... democracia na acepção de “governo pelo povo” praticamente nunca existiu, e nos casos em que existiu foi uma ditadura arbitrária e não responsabilizada. Um governo pode e deve ser responsável perante o povo. O governo pelo povo não pode existir. Não pode ser responsabilizado.170
168 Cuidando de ocorrência que nos é mais próxima, tanto geográfica como cronologicamente,
ELIO GASPARI relata que, durante a ditadura militar implantada após o golpe de 1.º de abril de
1964, havia pendurada nos elevadores da polícia paulista uma placa com os dizeres: “Contra a Pátria não há direitos.” Essa frase demonstra que, em períodos autoritários, a Pátria (ou, mais propriamente, quem age em nome dela) arroga-se nos conhecimentos plenos do que seja melhor para o povo, razão pela qual não teria sentido questionar suas decisões, ainda que violadoras de normas expressas. (A Ditadura Escancarada. São Paulo: Companhia das Letras. 2002, p. 17)
169
A revolução dos bichos. Tradução Heitor Aquino Ferreira. 2.ed., 21 reimpressão. São Paulo: Globo. 2003. p. 33.
170
A Vida é Aprendizagem. Epistemologia evolutiva e Sociedade Aberta. Tradução de Pedro
Dessa forma, importa não apenas procurar entender seu significado, mas também exigir que os atos administrativos e decisões judiciais que nele se fundamentam – quando isso for possível, conforme adiante será visto – justifiquem a pertinência da invocação em cada caso.
1.2.2. A indeterminação do conceito de interesse público e sua invocação