• Sonuç bulunamadı

IV.3. Sosyo-Ekonomik Çevrenin Özellikleri

IV.3.4. Proje Alanı ve Yakın Çevresindeki Kentsel ve Kırsal Arazi

Um homem morreu na cozinha de casa após ser linchado na noite desta segunda-feira (2/11), em Luziânia (GO), no Entorno do Distrito Federal. Segundo informações da Polícia Militar, um grupo de pessoas invadiu a casa da vítima após ele suspostamente tentar abusar de uma criança da vizinhança. Ele foi morto a golpes de pauladas e pedradas. Os suspeitos utilizaram também uma roda de carro para praticar o crime. O caso ocorreu por volta das 20h20min, na quadra 24 do Setor Jardim Brasília Sul. Testemunhas relataram à Polícia Militar que o homem, identificado apenas como Lazir, teria mostrado as partes íntimas para uma garota que mora em frente à residência. A mãe da criança contou para vizinhos e eles se revoltaram com a situação. Depois da suposta tentativa de abuso, o grupo invadiu a casa do suspeito. De acordo com a Polícia Militar, os moradores tentaram quebrar parte da residência. Além de pauladas, pedras e roda do carro, o grupo também fez uso de pé de cabra e martelo. Todos os objetos foram recolhidos pela Polícia Civil34 (Correio Brasiliense, 03/11/2015).

Esta reportagem do Correio Brasiliense, compartilhada na mídia digital do editorial, representa um ato comum de linchamento, um exemplo característico de uma ação comunitária que ocorre nas periferias urbanas brasileiras. Nesses tipos de linchamento, é comum que a relação próxima entre vizinhos ou as redes de vizinhança se unam em busca de vingança e justiça contra um indivíduo suspeito de cometer um crime.

Segundo Sinhoretto (2009), os linchamentos são “tipos de assassinatos de pessoas consideradas criminosas praticados coletivamente em bairros onde se observa a

importância das redes de vizinhança” (SINHORETTO, 2009. p.11). Segundo a autora, a

definição para o termo é abrangente, mas podemos caracterizá-lo como uma natureza de vingança ou uma justiça punitiva à margem de julgamentos ou normas legais. É comum que os linchamentos comunitários sejam praticados por pessoas de classe média baixa e trabalhadores na ânsia de justiça para um crime considerado grave, em que normalmente o criminoso é conhecido pela comunidade.

Ainda segundo Sinhoretto, há um segundo tipo de linchamento que ocorre geralmente em cidades pequenas e é praticado por pessoas de classe média. Nesses casos, há uma contestação das normas judiciais e policiais, em que os envolvidos se orientam a partir de uma moral conservadora para exercerem a violência. Esse segundo tipo de linchamento é caracterizado como anônimo, pois os indivíduos envolvidos não

34 Para a leitura de todo conteúdo da matéria jornalística, acessar:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/11/03/interna_cidadesdf,504859/homem- e-linchado-ate-a-morte-em-luziania-por-tentar-abusar-de-crianca.shtml [descarregado no dia 27/01/2017].

foram atingidos diretamente pelo suposto delinquente e se envolvem no tumulto pela cólera coletiva na busca de reprimir o bandido (SINHORETTO, 2001).

Os linchamentos são atos litigiosos, conflitos que atravessam toda uma rede de relações sociais que podem assumir formas de conflitos de classe, étnicos, raciais, de gênero, geração ou conflitos intersubjetivos que tem como resultado um sentimento de aplicação e distribuição da justiça (ADORNO, 2010). O fenômeno ocorre em situações consideradas insuportáveis por um determinado grupo ou comunidade, que é exercido através de agressões, na maior parte das vezes ritualizado, desferido contra um indivíduo responsabilizado por tal sentimento.

O linchamento compreende modalidades de ação coletivas, com o propósito de executar sumariamente um ou mais indivíduos aos quais é imputada a responsabilidade pelo cometimento de crimes e violências de toda sorte, inclusive ameaças, que perturbam a vida e a rotina de bairros populares ou espaços urbanos de extensa e intensa circulação de pessoas (ADORNO, 2010. p.72).

De acordo com Adorno (2010), os linchamentos são experiências concretas de desordem social sem as mediações das instituições de segurança pública. O fenômeno necessariamente não evidencia ou produz situações hierárquicas, entretanto, evidencia uma relação de rupturas hierárquicas entre cidadãos e o Estado, um ato de desobediência civil (ADORNO, 2010. p.85). Esses crimes também são uma forma de contraposição ao Estado, seja pela desconfiança sobre a efetiva eficiência das instituições de segurança pública ou de justiça (SINHORETTO, 2009).

Em Luziânia, foi observado que o primeiro tipo de linchamento supracitado é o mais comum. No Jardim Brasília Sul e em outros bairros em que ocorreram casos de linchamento foi possível observar estas características. Geralmente as motivações para tal ação foram desencadeadas por um crime cometido pela vítima, como o ato de abusar de uma criança, cometer um homicídio contra uma pessoa querida da vizinhança, um estupro, contínuos assaltos, algo que extrapola a “moral suportável” da comunidade (ADORNO, 2010). Os linchamentos são ações coletivas violentas, em que a exacerbação da violência física no corpo do outro é o centro da ação (SINHORETTO, 2009. p.78), embora não possam ser caracterizados como simples atos irracionais de revolta e protestos coletivos, pois em alguns casos demonstram organização coletiva em busca de um desfecho pré-determinado, tendo como prerrogativa o “fazer justiça com as próprias mãos” (SINHORETTO, 2009).

Outros casos similares foram noticiados como, por exemplo, o de um homem

linchado pelos moradores de seu bairro após matar um vizinho35, ou do recente caso

noticiado pela página do Facebook Radar Luziânia online, onde pode-se acompanhar o vídeo do linchamento de um suspeito de homicídio de uma jovem na região do Jardim

ABC36. Segundo os interlocutores, a prática é comum na região, e normalmente as

vítimas são suspeitas de crimes considerados graves, como o estupro e o assassinato. O fenômeno pode ocorrer em vias públicas, nas residências das vítimas, estabelecimentos comerciais, prédios públicos e até mesmo em locais como os transportes públicos urbanos, como em um caso de um assaltante que foi linchado após

a tentativa frustrada de assalto a uma condução37. No entanto, há diversas tentativas que

não causaram a morte, sendo que, nessas situações a polícia dispersa a multidão e faz o resgate da vítima encaminhando-a para uma unidade hospitalar ou delegacia. Notou-se que neste processo há confrontos entre PMs e a comunidade enfurecida, e em alguns casos, os atos de linchamento continuam nos estabelecimentos públicos, sendo o linchado retirado de dentro das delegacias e agredidos nas vias públicas (SINHORETTO, 2009).

A manifestação da ação coletiva de linchar é uma construção cultural de intolerância (SINHORETTO, 2009), da qual a vítima de linchamento é normalmente um sujeito que detém pouco prestigio social, suspeito de algum crime de homicídio, latrocínio ou patrimonial. As vítimas dos sujeitos linchados são pessoas conhecidas, moradores do bairro, consideradas de “bem”, trabalhadoras e idôneas, que não são passíveis de identificação criminal.

Em um estudo sobre linchamentos na cidade de São Paulo, Sinhoretto (2009) percebeu que raramente nos casos de linchamentos os envolvidos são levados à justiça para responderem por homicídio ou lesão corporal. A autora afirma que são muito raros os casos de julgamento ou prisão de linchadores. As explicações seriam a não incriminação dos linchadores, pois o linchamento se trata de uma modalidade de justiça

35 Para mais informações, acessar: http://g1.globo.com/goias/noticia/2014/03/homem-suspeito-de-matar-

vizinho-e-linchado-por-populares-em-luziania.html [descarregado no dia 27/01/2018].

36Para mais informações, acessar:

https://www.facebook.com/1708994492682297/videos/2051188865129523/ [descarregado no dia 27/01/2018].

37 Para mais informações, acessar: https://www.opopular.com.br/editorias/cidade/passageiros-de-

%C3%B4nibus-reagem-a-roubo-e-lincham-assaltante-em-goi%C3%A2nia-1.1203207 [descarregado no dia 27/01/2018].

privada e imperativa que não permite recurso ou apelação da vítima, seja pela dificuldade de identificar os participantes, ou pela legitimidade e conveniência das autoridades com tal ação.

Geralmente, os linchados são arrastados de suas casas para as ruas e praças públicas fazendo com que a justiça privada seja aplicada no espaço público, local usado como espetáculo punitivo e exemplar (ADORNO, 2010. p.85). Para o autor, o espaço público contribui para diluir a responsabilidade penal e não permite a identificação dos participantes das ações (agressores e testemunhas), o que posteriormente inviabiliza a individualidade penal.